Estive a Ler: Ensaio Sobre a Cegueira


O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito elétrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

José Saramago é um nome que dispensa apresentações por terras lusas. O único português a ter ganho um Nobel da Literatura nasceu no concelho da Golegã, faleceu na sua querida Lanzarote e foi um dos nomes maiores da literatura nacional. Entre prémios e lançamentos uns após outros, algumas das suas obras ficam na memória coletiva dos portugueses. Memorial do Convento, O Homem Duplicado e Ensaio Sobre a Cegueira são alguns dos seus livros mais famosos.

Adaptado para o cinema por Fernando Meirelles em 2008, num filme protagonizado por Julianne Moore, Mark Ruffalo, Dany Glover e Gael Garcia Bernal, Ensaio Sobre a Cegueira foi publicado em Portugal por várias vezes, tendo-me chegado às mãos a edição de 2018 da Porto Editora, com um total de 344 páginas e caligrafia de capa de Chico Buarque.

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Fonte: https://f5.folha.uol.com.br/voceviu/2017/10/ha-dez-anos-sao-paulo-virava-cenario-do-filme-ensaio-sobre-a-cegueira-relembre.shtml

Apesar de José Saramago ser um autor que goste sempre de ler, nem sou um veterano nas leituras do escritor nem estava nos meus favoritos, embora esteja nos meus favoritos nacionais. E este Ensaio Sobre a Cegueira, que já o queria ler há anos, acabou por cimentar o seu nome como um dos melhores que já li, e não só de entre autores lusófonos.

“Através de um declínio civilizacional, Saramago faz-nos pensar no que é, afinal, a condição humana.

A verdade é que já não lia nada dele há uns quatro anos, e penso que a minha percepção literária está hoje em dia mais afinada, tanto o que tenho lido nestes anos recentes. Por um lado, a escrita de Saramago é um misto de sensações. A sua prosa é cansativa, sem pausas, quase sem parágrafos e sem quaisquer travessões. A escrita é corrida, os diálogos são permeados na prosa, como se houvesse ali uma ânsia em dar-nos a conhecer tudo aquilo e fazer-nos desesperar com ele.

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Fonte: https://www.wook.pt/livro/ensaio-sobre-a-cegueira-jose-saramago/15825486

Assim que nos habituamos à escrita e mesmo à história do livro, torna-se um prazer continuar, partilhando da mesma ânsia do autor e deliciando-nos com as suas ideias, mensagens sub-reptícias e pequenos apartes para lá de bons. A mensagem é forte, fortíssima, as personagens também, mas é toda a alma de Saramago que vemos reflectida na escrita. Ele – bem como os seus ideais – está por toda a página, e acabamos o livro com a sensação de que nenhum outro podia ter escrito aquilo.

José Saramago é um autor que escreveu vários géneros e este Ensaio Sobre a Cegueira acaba por ser uma distopia que podia passar-se em qualquer tempo, no passado, no presente ou no futuro. Não há datas nem nomenclaturas, muito é dado ao leitor para desenvolver a partir da sua imaginação. Não sou tão adepto das suas ideologias como da escrita, já o refiro há anos, mas este Ensaio Sobre a Cegueira acabou por ser para mim uma releitura da obra de Saramago, na sua versão Ficção Especulativa, na senda de nomes como Aldous Huxley ou George Orwell.

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Fonte: https://simbolossabeus.com/2018/11/23/ensaio-sobre-a-cegueira-24o-cancer/

Neste livro as personagens não têm nome. Tudo começa quando um senhor que vai a conduzir fica cego, de uma cegueira diferente, porém. É uma cegueira branca, que não é perceptível por quem por acaso o encara. Para piorar, é uma cegueira que se propaga como uma epidemia. O senhor, que passa a ser chamado de primeiro cego, é escoltado a casa por um homem que se oferece para entrar com ele. O primeiro cego recusa, lembrando-se que o homem se podia aproveitar da sua enfermidade. E tem razões para isso, porque o mesmo ficou com a sua chave do carro e o roubou.

Mais tarde, também o ladrão fica cego. A mulher do primeiro leva o marido ao oftalmologista e, em menos de nada, tanto ela, como o médico, como os pacientes que esperavam pela consulta, ficam com essa cegueira branca. A situação fica tão fora do controlo que o Governo declara a situação emergente e constrange todos os cegos a um manicómio, sob quarentena apertada e soldados a guardar a entrada.

A grande protagonista do livro não está cega. É a mulher do médico. Para ficar junto do marido, porém, finge ter sido atingida pelo surto, até porque tem a certeza que, mais dia, menos dia, será isso que lhe vai acontecer. A pouco e pouco, mesmo sem revelar que consegue ver, ela adquire um papel de liderança no manicómio, graças à sua boa vontade, assertividade e espírito vivo, ganhando a admiração dos cegos que com ela dividem o dormitório.

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Fonte: https://www.minhavidaliteraria.com.br/2015/05/20/livros-na-telona-ensaio-sobre-a-cegueira-jose-saramago/

Os dias passam-se e as situações vão-se agravando. Todos precisam de ajuda para ir à casa de banho, e por vezes quando voltam a sua cama já está ocupada por outro. Na camarata onde está o médico e a mulher, encontra-se também uma rapariga de óculos, um homem com uma venda preta e um menino que chama pela mãe, entre outros. Graças à mulher do médico, o grupo acaba por conseguir unir-se na adversidade.

Tropeçar em excrementos e lidar com a falta de higiene só por si seria horrível. Mas tampouco é o princípio. Nem todos os grupos lá dentro comungam da mesma boa-fé da mulher do médico e um grupo de cegos malvados reclama para si os suprimentos que os guardas injetam nas instalações, para a sua sobrevivência. Assim, para os cegos sobreviverem, são obrigados a humilhar-se e a fazer tudo o que eles exigem. Até um dia.

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Fonte: http://spcine.com.br/ensaio/

Ensaio Sobre a Cegueira é uma visão ao mesmo tempo moralista e realista do que é a natureza humana e daquilo que o Homem é capaz de fazer para sobreviver nas circunstâncias mais adversas. A mulher do médico representa toda a resiliência do ser humano, mas também revela que quem detém uma posição de vantagem pode utilizá-la tanto para proveito próprio como para o bem comum.

É um mundo brutal e sem complacências pelas personagens ou pelo leitor que José Saramago nos apresenta e posso dizer que é exatamente este tipo de leituras que mais me apraz. Todas as mensagens que ele passa são fortíssimas sem deixarem de ser leves na maneira como são contadas. Não me provocou inquietação nem surpresa, mas foi uma história bem contada e, não obstante a carga visual do mesmo, divertida na sua abordagem. Através de um declínio civilizacional, Saramago faz-nos pensar no que é, afinal, a condição humana.

Avaliação: 7/10

2 comentários em “Estive a Ler: Ensaio Sobre a Cegueira

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