Estive a Ler: Nossa Senhora de Paris


A orquestra começou a tocar no interior do teatro; a tapeçaria levantou-se; quatro personagens saíram de dentro, pintalgados, pintados, subiram a escada íngreme do teatro e, chegados que foram à plataforma superior, colocaram-se em linha diante do público, cumprimentando-o reverentemente; então cessou a música. Era o mistério que começava.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO NOSSA SENHORA DE PARIS

Publicado em 1831, Nossa Senhora de Paris é um clássico incontornável da literatura moderna e uma das obras mais famosas do autor francês Victor Hugo, um dos romancistas mais proeminentes do século XIX. Apenas aquando da tradução inglesa, em 1833, o livro ficou conhecido como O Corcunda de Notre-Dame, fazendo justiça a uma das personagens centrais da obra.

Não obstante o título original, Notre-Dame de Paris, que foi adaptado à letra nas várias edições feitas em Portugal, seria como O Corcunda de Notre-Dame que o livro ficaria conhecido mais vulgarmente, a que muito contribuiu a adaptação feita pela Disney em 1996, levando este clássico da literatura para um público mais vasto. A edição que li é a publicação de 2007 da Mel Editores, com um total de 549 páginas.

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Fonte: https://giphy.com/explore/the-hunchback-of-notre-dame

Tinha 11 anos quando O Corcunda de Notre-Dame saiu nos cinemas e portanto devem imaginar o peso que esta adaptação da Disney teve na minha infância. Conheço a história de trás para a frente e finalmente tomei coragem para pegar no livro que lhe deu origem, o clássico de Victor Hugo traduzido em português como Nossa Senhora de Paris; afinal, é sobre aquela imensa catedral de que o livro fala.

“Victor Hugo era um autor extremamente criativo e soube muito bem expor a sociedade do séc. XV, quando Luís XI era o rei de França.

Visitei a Catedral de Notre-Dame em 2004, com os meus 18 anos, e é verdade que não cumpriu as minhas expectativas, como também é verdade que com aquela idade não tinha grande senso de avaliação para com qualquer tipo de obra de arte. 2019 trouxe-nos uma tragédia com o incêndio que devastou a catedral, e talvez tenha sido isso que me abriu os olhos para uma obra que já devia ter lido há mais tempo.

 

Fonte: http://meleditores.pt/produto/nossa-senhora-de-paris/

Também porque não é a minha estreia com Victor Hugo e Os Miseráveis, a outra obra do autor que já havia lido, foi um dos melhores livros que já li na vida. Há tanto tempo, na verdade, que acho que um dia destes merecerá uma releitura (ou não). Seja como for, Nossa Senhora de Paris não me defraudou as expectativas. É um livro histórico, um livro pesado, um livro complexo, mas um livro muito bom.

A linguagem de Victor Hugo não me é estranha, é um tipo de leitura em que o autor se assume como o narrador e tem uma conversa tu-cá, tu-lá com o leitor. Pessoalmente não me agrada este tipo de narrativas, mas era um hábito corrente na literatura daquela época e aceitando isso toda a leitura é de fácil digestão. A escrita é bastante minuciosa, uma escrita que para os padrões de hoje não seria bem aceite mas que contribui para o florear, para toda a construção épica que faz do livro aquilo que ele é.

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Fonte: https://tenor.com/view/hunchback-notre-dame-socialjustice-justice-protest-gif-6065405

O autor não mostra qualquer relutância em assumir a catedral como a protagonista do livro, afinal, o primeiro capítulo é todo dedicado a ela, antes de começar a apresentar algumas personagens mais secundárias até chegar àquelas que nos são mais familiares da animação. Ainda assim, são as personagens que a envolvem o fulcro da narrativa. Victor Hugo era um autor extremamente criativo e soube muito bem expor a sociedade do séc. XV, quando Luís XI era o rei de França.

Situada no meio do rio Sena, em plena Île de la Cité, a Catedral por onde deambulam os nossos protagonistas é margeada por grande monumentos como o Palácio da Justiça, e eram naquelas ruas que se cruzavam fidalgos, membros do clero, pedintes e ciganos. A Catedral albergava pessoas de todos os estratos sociais, local de culto pessoal do rei e funcionando ainda como asilo para órfãos e para pessoas que ali pediam a proteção da lei.

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Fonte: https://weheartit.com/7771998777/collections/10103307-cartoon-d

Nossa Senhora de Paris fala de várias personagens, sendo destaque Pedro Gringoire, o desgraçado poeta que tenta convencer o povo com os mistérios do seu teatro e acaba “acolhido” por um peculiar grupo de vigaristas, Quasimodo, um homem corcunda e desfigurado, todo ele mal feito, que fora adotado pelo arcediago Claudio Frollo e que trabalha como sineiro da Catedral de Notre-Dame, ou o irmão do próprio Claudio, o boémio Jehan Frollo, que tenta viver às custas do irmão.

Estas personagens vêm os seus destinos alterados com a aparição de uma jovem cigana chamada Esmeralda, que dança na praça da Catedral e transtorna Claudio Frollo pela sua beleza. Afrontado por ela, ordena a Quasimodo que rapte a rapariga. Mas Esmeralda é salva por um grupo de soldados, comandados pelo capitão da guarda, Febo, por quem ela se apaixona perdidamente.

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Fonte: https://giphy.com/gifs/disney-the-hunchback-of-notre-dame-sed2d3AQTapmE

O capitão, porém, não é o mesmo homem galante e romântico que a animação produziu. Febo é um mulherengo inveterado, noivo de Flor de Lis, que apenas vê em Esmeralda uma distração. Esmeralda, cega pelo seu desejo e inocência, vê nele o seu príncipe encantado e pondera entregar-se a ele, mesmo que isso tolde os poderes ao medalhão mágico que traz ao peito. É que a cigana não conhece os pais e a sua crença diz que o amuleto a conduziria a eles, desde que ela não perdesse a virgindade. Enquanto o amor de Esmeralda é frustrado, Frollo e Quasimodo vivem duas formas de amor platónico pela rapariga.

Frollo, um acérrimo estudante da alquimia, faz tudo o que pode, sem olhar a quem, para possuir a rapariga, imbuído que está por um desejo que o afronta a si mesmo. O disforme e surdo Quasimodo, que em abono da verdade apenas deixa de ser uma personagem muito secundária na ponta final do livro, ama-a por aquilo que é, com um carinho genuíno e tímido, certo que está das suas próprias limitações, oferecendo-lhe o seu coração como tributo, mas que ela aceita apenas com uma amizade relutante. É este pobre corcunda, porém, que luta para a salvar até às últimas consequências.

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Fonte: https://www.hdwallpaper.nu/notre-dame-de-paris-wallpapers/

Nossa Senhora de Paris é um livro intenso e trágico em toda a sua largura. Ele fala muito sobre a catedral e sobre a política vigente na época, os medos e os receios da sociedade, as suas fracturas e crenças, mas pessoalmente vejo-o muito como um tratado sobre o amor ou, se for mais específico, sobre as várias formas de amor que podem existir. No eixo de tudo, está Esmeralda, uma cigana lindíssima e talentosa, mas que se revela como uma rapariga tonta que se guia pelas aparências.

As personagens que me pareceram melhor desenvolvidas, para além de Esmeralda, foram Pedro Gringoire e Cláudio Frollo, mas também, na parte final, o próprio Quasimodo. E o que dizer de Djali? A cabrinha foi uma das minhas personagens preferidas. Nossa Senhora de Paris é uma leitura que irei levar no coração, com o mesmo carinho com que, aos 11 anos de idade, encarei Quasimodo a conversar com Victor, Hugo e Laverne, as gárgulas falantes da película da Disney.

Avaliação: 9/10

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