Estive a Ler: A Rapariga do Tambor


Talvez para se acalmar, ele acendeu um cigarro, virando as costas ao vento e entortando as mãos imensas, a fim de proteger a chama.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO A RAPARIGA DO TAMBOR

John le Carré começou a sua carreira literária em 1961, tendo-se tornado um escritor mundialmente famoso com o livro O Espião Que Saiu do Frio, o seu terceiro. A consagração de le Carré deu-se com o excelente acolhimento que teve a célebre trilogia de Smiley: Tinker Tailor Soldier Spy , The Honourable Schoolboy e A Gente de Smiley. Entre os seus êxitos contam-se ainda O Alfaiate do Panamá, O Fiel Jardineiro, Amigos até ao Fim, O Gerente da Noite, A Casa da Rússia e Um Homem Muito Procurado.

The Little Drummer Girl foi publicado em 1983, tendo sido adaptado para os cinemas um ano depois por George Roy Hill num filme com Diane Keaton. Recentemente, o livro foi adaptado também à televisão pela AMC, numa trama protagonizada por Michael Shannon, Florence Pugh e Alexander Skarsgard. A edição portuguesa da D. Quixote tem como título A Rapariga do Tambor, um total de 688 páginas e tradução de Wanda Ramos.

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Fonte: Fonte: https://seriestvinfo.com/2019/01/24/la-chica-del-tambor-un-excelente-remake-de-le-carre/

Aquilo que faz de le Carré um dos meus autores preferidos é a sua escrita envolvente e a densidade que consegue aplicar às personagens. Em The Little Drummer Girl, o autor britânico não desilude nesses campos. É admirável a sua construção de narrativa, os seus desenvolvimentos e conclusões. Há toda uma magia a flutuar no ar, espessa como algodão, que nos leva de arrasto para o mundo da espionagem sem qualquer espécie de sobreaviso.

“Charlie é uma força da natureza e a alma do livro.

A história não me empolgou tanto quanto eu esperava, como outras obras que já li do autor. Talvez porque já tinha visto a série e, em determinados momentos, consegui sentir mais força na adaptação do que propriamente no livro. Em boa verdade, isso deve-se ao carisma e à interpretação dos actores, que fizeram grande justiça ao romance. Possivelmente gostaria mais do livro se não tivesse visto a série antes. Possivelmente.

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Fonte: https://www.leyaonline.com/pt/livros/romance/a-rapariga-do-tambor/

De qualquer forma esteve longe de me desagradar. A verosimilhança e a força destas personagens é qualquer coisa de extasiante. A Rapariga do Tambor é apenas mais um exemplo, entre muitos, do que le Carré tem para nos oferecer sobre o mundo da espionagem e contra-espionagem, desta feita com o conflito israelo-árabe como pano de fundo.

Não há aqui lugar para heróis ou vilões, não há lugar para linearidades. Cada personagem tem as suas crenças e idiossincrasias, e nem mesmo todos estão seguros delas. É um mundo vil aquele que se nos apresenta, um mundo que foi cruel para todos, e quando cada um tenta aplicar a justiça apenas vem deitar mais achas para a fogueira, num ciclo vicioso sem previsões de fim.

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Fonte: Fonte: https://www.amc.com/shows/the-little-drummer-girl/talk/2018/08/amc-announces-premiere-date-the-little-drummer-girl

Martin Kurtz é um espião israelita que trabalha numa agência clandestina de combate ao terrorismo palestiniano, ele próprio vítima do conflito durante a infância. Investiga o passado de Charmian, uma talentosa atriz inglesa conhecida por Charlie, que pertence a uma trupe vulgarmente chamada de “família”. Sabendo que Charlie é uma revolucionária por natureza, embora adepta da esquerda radical, pretende usá-la como toupeira na rede terrorista. É que Kurtz pretende criar um verdadeiro teatro do real, uma representação em larga escala.

Os homens de Kurtz sequestram o palestiniano Salim, acabando por o interrogar e matar, enquanto Peter Becker, um veterano de guerra aposentado, se revela a melhor hipótese de Kurtz para enredar Charlie na sua teia. Na Grécia, Charlie e a sua trupe encontram um homem suspeito e a curiosidade para com ele conduzem-no para o seu grupo de amigos. Chamam-no de Joseph.

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Fonte: Fonte: https://www.thestar.com/entertainment/television/opinion/2018/11/16/florence-pugh-shines-in-the-little-drummer-girl.html

Mas Joseph é Peter, o enviado de Kurtz que seduz Charlie e a conduz até ao seio da organização. Kurtz põe as cartas na mesa e faz uma proposta à rapariga, que a sua natureza selvagem e petulante não consegue negar. Joseph e Charlie começam então um treino exigente, em que Joseph se faz passar por Salim, com a intenção de fazer convencer o mundo e a ela própria, do seu amor pelo palestino. O objetivo é simples: transformar Charlie numa viúva de Salim, aproximando-se do seu irmão Khalil, o grande líder terrorista, e descobrir o seu paradeiro.

A narrativa é qualquer coisa de estonteante e muito bem montada, mas a grande mais-valia do livro são mesmo as contradições internas de Charlie, as suas inseguranças, o não saber o que quer, o que sente, a credibilidade daquela personagem. É uma personalidade complexa e arrebatadora, que dificilmente deixará qualquer um indiferente.

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Fonte: https://tv.avclub.com/park-chan-wook-brings-swooning-romance-to-amc-s-spy-min-1830497901

A construção da personagem põe a nu a falibilidade do politicamente correto e a verdade da inconstância das nossas certezas, das veleidades sociais e da instabilidade que cada indivíduo tenta esconder do mundo. É uma personagem cheia de carisma, de certezas e de resoluções que se vêm despedaçadas pelos pontos de vista dos demais, ao senti-los na pele. Charlie é uma força da natureza e a alma do livro.

Mas Kurtz e Joseph-Peter são também personagens dignas de destaque, bem construídas e explanadas. Há toda uma problemática social a permear o livro, uma catástrofe com pouco de fictício e que revela, de certa forma, que os esforços para manter a paz foram desde sempre aplicados de forma errada, fomentando guerra com mais guerra. Um livro que, não sendo dos melhores do autor, não deixa de ser brilhante.

Avaliação: 8/10

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