Estive a Ler: O Jogo do Anjo


Um escritor nunca esquece a primeira vez que aceita umas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto sobre a cabeça, um prato quente no fim do dia e o que mais deseja: o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que com certeza viverá mais do que ele.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO O JOGO DO ANJO

Carlos Ruiz Zafón nasceu em Barcelona em 1964. Iniciou a carreira literária em 93 com El Príncipe de la Niebla, que venceu o Prémio Edebé, a que se seguiram El Palacio de la Medianoche, Las Luces de Septiembre, reunidos no volume La Trilogía de la Niebla, e Marina. Em 2001 publicou A Sombra do Vento, que rapidamente se transformou num fenómeno literário internacional. O Jogo do Anjo foi publicado em 2008 e bateu todos os recordes de publicação em Espanha, ao superar o milhão de exemplares vendidos.

A obra de Zafón foi traduzida em mais de quarenta línguas, o que lhe granjeou prémios e milhões de leitores nos cinco continentes. O escritor espanhol reside atualmente em Los Angeles, onde trabalha nos seus romances, e colabora habitualmente com La Vanguardia e El País. A minha tradução de O Jogo do Anjo pertence à edição de 2008 da D. Quixote, com tradução de Isabel Fraga e um total de 568 páginas.

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Fonte: https://io9.gizmodo.com/what-librarians-wish-you-knew-about-how-to-use-the-libr-1712081693

Depois da boa surpresa que foi A Sombra do Vento (lê a opinião aqui), não podia perder mais tempo e alimentar esta impressão positiva do autor, depois de uma primeira experiência muito má com O Palácio da Meia-Noite. As primeiras páginas deste romance ganharam-me desde logo, ao trazer o mesmo clima denso da Barcelona do século passado e sobretudo por apresentar um jovem escritor a dar os primeiros passos no mundo da literatura. Como tal, não tinha como não me atrair de caras.

“Não sendo uma leitura extraordinária, O Jogo do Anjo teve momentos muito bons e um terço final bem frenético.”

A verdade é que após os primeiros capítulos acabei por perder algum empolgamento. A história em si é francamente inferior à de A Sombra do Vento, e um foco mais palpável em fantasia urbana também me desmotivou. Mas tanto o ambiente criado como a escrita de Zafón são grandes mais-valias e este livro acabou por mostrar que é diferente de A Sombra do Vento e ainda bem que o é.

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Fonte: https://www.fnac.pt/ia508110/Carlos-Ruiz-Zafon

A partir do meio para a frente, a leitura passa a ser muito mais estimulante, com uma série de twists e de peripécias que conduzem a um clímax bem sinistro. A narrativa é bem enigmática e não muito previsível, pelo que acabei por gostar; não tanto quanto gostei de A Sombra do Vento, apesar de serem histórias diferentes e de ser sempre ingrata a comparação.

Nesta segunda incursão do autor espanhol ao Cemitério dos Livros Esquecidos, voltamos a reencontrar personagens como Gustavo Barceló, Anastácio, Isaac ou os Sempere, ainda que o jovem Sempere deste livro seja o pai do protagonista de A Sombra do Vento. Apesar de ser passado nos anos 20, num período temporal anterior, O Jogo do Anjo é o segundo volume da série que não impõe ao leitor a obrigatoriedade de começar por qualquer livro.

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Fonte: https://vampedny.wordpress.com/tag/the-angels-game/

A narrativa acompanha David Martín, um jovem que trabalha num jornal, com pretensões a seguir carreira como escritor. De uma forma ou de outra, Martín sempre foi protegido pelo seu grande amigo Pedro Vidal, que o salvou de algumas situações menos boas. Quando é despedido do jornal e percebe que Pedro foi o responsável, para lhe permitir encontrar uma editora e alavancar a sua carreira, David decide-se também ele a ajudá-lo, mas nem tudo corre bem. É que David descobre que tem pouco tempo de vida.

Para piorar a situação, está apaixonado por Cristina, a filha do motorista de Pedro, e o seu grande amigo está também apaixonado por ela. Por conta da sua influência e de todas as suas boas ações, Cristina aceita casar com ele, bem como David nada faz para contrariar a situação. Mas a vida de David Martín estava longe de chegar ao fim e a aparição de um misterioso editor francês chamado Andreas Corelli vem dar-lhe uma visão completamente nova da vida.

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Fonte: beerinadarkplace.blogspot.com

É uma narrativa que apresenta aquela premissa tradicional do homem que vende a alma ao Diabo, mas Zafón sabe explorá-la muito bem e adaptá-la ao universo literário. O amor pelos livros é uma constante na obra do autor espanhol e ele sabe mostrá-lo com requinte. Gostei bastante de conhecer Isabella, a minha personagem preferida do romance, e fiquei surpreendido ao perceber quem era ela neste mundo do Cemitério dos Livros Esquecidos.

Não sendo uma leitura extraordinária, O Jogo do Anjo teve momentos muito bons e um terço final bem frenético. Quero ler os outros dois livros desta série para atestar a acuidade literária do escritor e perceber se a qualidade da série se mantém. De qualquer forma, penso que A Sombra do Vento deve ser sempre a porta de entrada para este mundo zafoniano, que tanto nos envenena a alma como a purifica, com toda a sua textura, perfume e profundidade.

Avaliação: 6/10

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