Estive a Ler: Outras Terras + O Povo das Crianças Divinas, Acácia #3 e #4


No ar, pairava a fragrância do incenso forte de que Wren gostava.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA OS LIVROS “OUTRAS TERRAS” E “O POVO DAS CRIANÇAS DIVINAS, VOLUMES 3 E 4 DA SAGA ACÁCIA

David Anthony Durham nasceu em Nova Iorque em 1969 e foi premiado várias vezes com os livros Gabriel’s Story, Walk Through Darkness e Pride of Carthage. A sua ascensão dá-se, porém, com a publicação da fantasia Acácia, que recebeu boas críticas em páginas respeitáveis como as do Publishers Weekly, Kirkus Reviews, SciFi Site and Fantasy Magazine, New York Times e Library Journal, sendo considerado uma das grandes revelações dos últimos anos na fantasia.

Actualmente, Durham vive com a família na Califórnia e dá aulas na Universidade de Fresno. A trilogia Acácia foi dividida em seis livros no nosso país, com o primeiro a ser publicado em 2011 e estando já concluída. The Other Lands é o título original do segundo volume de Acácia, traduzido em português em dois volumes. Outras Terras e O Povo das Crianças Divinas são dois livros publicados pela Coleção Bang! da Saída de Emergência, ambos com 336 páginas e tradução de Maria Correia.

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Fonte: http://www.mtv.com/news/2181249/game-of-thrones-reaction-gifs/

Há livros que nos custam a opinar mais que outros, e este terceiro e quarto volumes de Acácia, que no original são o segundo da trilogia, foram daqueles que me deixaram mais confuso, não tanto por não saber o que achar, mas por não saber como o exprimir. As sensações que estes livros me deixaram acabam por beliscar o leitor que há em mim, se digo que gosto não estou a ser sincero, se digo que não gosto idem. Daí que deva explicar e ser sucinto na explicação.

“Resta-me o worldbuilding e a personagem Corinn para admirar.

Antes de mais, devo dizer que não há como não apreciar estas edições da Saída de Emergência. Os títulos são bem aliciantes, as capas cativantes, o cuidado na elaboração dos livros compensa e muito a divisão dos mesmos. Nota-se que foi um trabalho esmerado feito por fãs do género. Mas o mérito do livro, bem como o demérito, é todo do autor, o novaiorquino David Anthony Durham.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/acacia-outras-terras/

Se os dois primeiros volumes primaram pelo desenvolvimento do mundo e da sua História, com saltos temporais pouco credíveis e uma evolução algo estranha das personagens, este terceiro e quarto livros acabam por fazê-los crescer de forma mais consistente, pelo menos em parte, mas também oferece muito mais ação, ritmo e acontecimentos. Houve várias narrativas, porém, que não acrescentaram precisamente nada à história.

A escrita de Durham é boa e não compromete. Tive algum problema com o uso e repetição de termos como “rapazito” e outras expressões mais coloquiais na narração em terceira pessoa, mas dou o benefício da dúvida a que tenha sido um problema da tradutora. A grande questão desta saga é mesmo ter um trabalho de worldbuilding formidável de um lado e uma condução de narrativa desastrosa do outro. Mas, já lá vamos.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/acacia-o-povo-das-criancas-divinas/

Antes, preciso de vos contar a história e, claro está, terás alguns pequenos spoilers aqui e ali.

Os três irmãos do falecido Aliver Akaran prosseguem a sua vida no Mundo Conhecido. No eixo central do Império Acaciano está Corinn, que conquistou o trono para si depois de mandar matar o usurpador Hanish Mein, com quem se envolvera. Os Mein haviam sido os responsáveis pela morte do pai dos irmãos Akaran, o rei Leodan, vingando-se dos crimes dos seus antepassados. Através da estratégia política e das alianças com a Liga dos Navios e os bestiais numrek, Corinn reclama para si o poder, mas as esperanças de um mundo melhor profetizadas pelo irmão mais velho esbatem-se quando a gestão do império lhe cai nas mãos.

O reino foi forjado com base no tráfico de crianças para a Quota, bem como na disseminação de uma droga que deixa o povo sonolento e focado nas suas rotinas, sem pensar demasiado nas questões do governo e no comércio de crianças: a Bruma. Corinn tenta trabalhar na erradicação desses males, mas percebe que precisa deles para que o seu reino prospere como sempre prosperou, em nome da sua família e do futuro do seu filho Aaden, o filho que teve com Hanish Mein.

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Mas o povo, sem a bruma, começa a contestar a sua governação, bem diferente daquela que o seu irmão Aliver prometera. Com uma série de motins a florescer no seio do Império Acaciano (império este que a maior parte das vezes é tratado como reino), Corinn resiste às investidas dos pretendentes e percebe que necessita uma vez mais recorrer ao sobrenatural para manter a sua imagem de poder. É então que ela começa a cantar feitiços através do misterioso livro A Canção de Elenet. Corinn reina com mão de ferro, para desgosto dos seus irmãos.

São eles Dariel e Mena; o primeiro notabilizou-se como pirata durante os tempos do exílio, enquanto a rapariga, a deusa Maeben em carne e osso, tornou-se bem vulnerável para com o seu sentido de família. Nem um nem outro concorda com as atitudes da irmã, mas acabam por encontrar justificativas para a desculparem, com base no que viveram nos anos em que estiveram separados e naquilo que acreditam que ela pode dar ao mundo.

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Fonte: https://gifer.com/en/E3Ql

Corinn percebe a sombra que os irmãos têm sobre ela, apesar do amor que lhes tem. É por isso que os usa para resolver assuntos prementes. Envia Dariel para os mares tempestuosos das Encostas Cinzentas com a Liga dos Navios, para averiguar os rumores que derivam das misteriosas Outras Terras, ao mesmo tempo que manda Mena para enfrentar monstros e outras aberrações.

Se nos primeiros dois livros gostei sobretudo dos capítulos de Hanish e Corinn, com a morte do primeiro restou-me a nova rainha para saborear. Os seus capítulos de ponto de vista são bons, mas certas mudanças drásticas de personalidade e o recurso narrativo da Canção de Elenet em vez do uso da inteligência estratégica deixou-me aqui e ali desapontado. Corinn não deixa, pois, de ser a melhor personagem e de ter os melhores capítulos destes volumes.

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Fonte: https://www.vanityfair.com/hollywood/2014/05/game-of-thrones-season-five-characters-leaked-diversity

Também gostei bastante da personagem Delivegu e dos seus capítulos de ponto de vista, mas a partir de certo momento tornaram-se previsíveis e os seus apetites sexuais começaram a tornar-se repetitivos e a roçar o desnecessário. Mas de facto as personagens do núcleo de Corinn são as melhores, exemplo disso a mulher do Mein, Rhrenna, mas também aqueles mais periféricos como o sensual Grae, o conspirador Barad o Pequeno ou o senhor da Liga dos Navios, Sire Dagon.

Achei porém, os homens da Liga dos Navios demasiado frágeis para o que vinham dando a entender. Preferia que tivessem mais poder do que revelaram, não percebi o desenvolvimento dado a Sire Neen para ser descartado de pronto, e os lothan aklun, que tanto enigma trouxeram aos livros anteriores, foram tratados de uma forma bem gratuita e leviana por parte do autor. Poucas foram as opções narrativas que compreendi ou aceitei.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/editorial/noticias/acacia-a-uniao-sagrada-critica-em-uma-biblioteca-em-construcao/

Se Dariel é uma personagem cliché com quem não consegui criar empatia, Mena é para mim a personagem mais dispensável da trama. Desde o princípio da saga que a via como uma espécie de Arya Stark mas, que nada, é mais mole que manteiga deixada ao calor. Uma personagem vazia, que aceita tudo o que lhe dizem, que luta por amor e nada mais faz do que isso. Se não é das personagens principais com pior desenvolvimento, não sei qual será. A inclusão do dragão foi só para ficar bonito numa fantasia épica? Metido a prego e forçado? Foi pior que Eragon.

As personagens das Outras Terras mostraram algum potencial futuro, bem como Leeka Alain e Rialus Neptos, que pouco mais mostraram nestes livros do que tinham feito nos dois primeiros. Terminarei a saga por curiosidade, mas lamento imenso que uma saga com personagens tão promissores e um mundo tão interessante tenha um desenvolvimento tão medíocre e ideias tão infantis. Resta-me o worldbuilding e a personagem Corinn para admirar.

Estes livros foram cedidos em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 5/10

Acácia (Saída de Emergência):

#1 Ventos do Norte

#2 Presságios de Inverno

#3 Outras Terras

#4 O Povo das Crianças Divinas

#5 A União Sagrada

#6 Vozes da Profecia

Imagem de capa: https://www.gimpusers.com/news/00510-gimp-magazine-7 (Reprodução)

8 comentários em “Estive a Ler: Outras Terras + O Povo das Crianças Divinas, Acácia #3 e #4

  1. Viva,

    Gostei muito mais de Feist do que desta saga e há ai tanta coisa para publicarem, enfim.

    Abraço

    Fiacha

    1. Concordo. Ainda assim o mundo criado tinha muito potencial. Quero ver como termina.
      Grande abraço 😛

      1. Fazes bem posso ajudar um pouco, não muito claro, termina com a palavra FIM, se bem me recordo 😀

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