Estive a Ler: O Último Cabalista de Lisboa


O dia no nosso seder da Páscoa ergueu-se fusco e seco, como todas as manhãs ultimamente.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO O ÚLTIMO CABALISTA DE LISBOA

O Último Cabalista de Lisboa é um livro de Richard Zimler, autor norte-americano que se naturalizou português. Nasceu em 1956 em Roslyn Heights, um subúrbio de Nova Iorque. Fez bacharelato em Religião Comparada na Duke University e um mestrado em Jornalismo na Stanford University. Trabalhou como jornalista durante oito anos, principalmente na região de São Francisco. Foi em 1990 que veio viver para o Porto, onde leccionou Jornalismo, na Escola Superior de Jornalismo e posteriormente na Universidade do Porto.

O autor tem onze romances publicados desde 1996, para além de uma coletânea de contos e de cinco livros infantis e é presença assídua em eventos literários como a Feira do Livro de Lisboa. O Último Cabalista de Lisboa é considerada a obra que o catapultou para o estrelato, tendo sido inclusive best-seller do The Wall Street Journal. A edição de 2018 da Porto Editora, que li, tem um total de 352 páginas e foi traduzida de inglês para português por José Lima.

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Fonte: http://www.blogclubedeleitores.com/2015/02/o-ultimo-cabalista-de-lisboa.html

Um livro sobre a Cabala de um autor residente em Portugal que se tornou um best-seller traduzido em várias línguas? Recomendado por John le Carré? Com uma opinião geralmente positiva e também etiquetado de thriller? Não podia deixar de ler. Foi muito por estar numa vibe de romances históricos e thrillers que este livro furou a fila, uma vez que estava previsto para dezembro. Infelizmente, o livro não correspondeu minimamente às minhas expectativas.

“No fim, penso que apenas me faltou empolgamento durante a leitura para realmente gostar dele.

A escrita é banal e em alguns momentos aborrecida, a narrativa é interessante mas não me prendeu por aí além e a brutalidade de que estava à espera não me pareceu nem pouco mais ou menos digna de destaque. Longe de mim advogar que o livro está mal escrito ou que podia ter sido feito de outra forma; provavelmente o que me levou a não gostar do livro foi estar à espera de outra coisa. É uma narrativa esquecível e sem a intensidade que aguardava.

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Fonte: https://www.wook.pt/livro/o-ultimo-cabalista-de-lisboa-richard-zimler/15037796

Gostaria de poder dizer maravilhas dele e é verdade que, se de alguns livros não gostamos de caras, este foi um que me esforcei, até ao fim, por gostar. E cheguei ao fim com a sensação que teria sido preferível não o fazer. Terminei-o convicto de que o livro não é mau, apenas não consegui gostar dele, e isso diz mais de mim do que do livro em si. Por isso, ao olharem para a avaliação, tenham em conta que ela não reflete a qualidade do mesmo mas a minha experiência de leitura.

O Último Cabalista de Lisboa traz, porém, alguns pormenores que me agradaram. O clima de tensão vivido na época, os riscos e as falsidades assumidas nas conversões, as traições, massacres e tumultos sociais que se viveram no séc. XVI. A abordagem à Cabala e ao judaísmo não assumiram os contornos que eu preferira, mas é uma temática que sempre me despertou interesse. E, mais do que tudo isso, gostei de percorrer a minha Lisboa e lugares que me são tão familiares, como cenário de acontecimentos tão marcantes à época.

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Fonte: https://www.vortexmag.net/historia-esquecida-de-portugal-o-massacre-de-lisboa-em-1506/

A ação é narrada na Lisboa quinhentista onde reina D. Manuel, O Venturoso, do ponto de vista de Berequias Zarco, sobrinho de Abraão Zarco, um dos judeus mais influentes da época. Assim como o restante da família, residente em Alfama, foi obrigado a converter-se ao Cristianismo. Não obstante, os judeus forçados a converter-se continuaram a praticar os ritos e costumes do judaísmo, a estudar a Tora e a Cabala, seguindo os ensinamentos dos seus profetas.

Tudo acontece em 1506, atravessando um curto período de tempo, onde são abordados temas como a fome, a peste e é testemunhado um terrível massacre de judeus, vistos como os causadores de todo o infortúnio. A narrativa gira em torno deste clima tenso e sufocante, que nos apresenta uma Lisboa para nós algo desconhecida, virgem dos desvirtuamentos que o terramoto viria a constrangê-la. Há também o desaparecimento de um valioso manuscrito e a morte de duas personagens.

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Fonte: https://www.buzzfeed.com/israelexperience/14-reasons-why-being-jewish-is-awesome-haku

Destacam-se personagens como mestre Abraão, o misterioso tio do protagonista, iluminador de ofício, o expoente mais espiritual e sensato da narrativa, que se transforma também no seu eixo central, o próprio Berequias, mais que protagonista e personagem-título, uma bandeira do judaísmo e da resistência às hipocrisias da época, ou o muçulmano Farid, que o segue como um cão leal, de forma generosa e despretensiosa.

Entre fanatismos e hipocrisias, entre lutas pela verdade e pela justiça, O Último Cabalista de Lisboa é uma narrativa algo triste e pessimista, que revela um excelente trabalho de pesquisa e de aplicação por parte do autor, mas que me desiludiu imenso por oferecer um protagonista banal, por não me trazer nada de verdadeiramente novo e pela escrita frugal. No fim, penso que apenas me faltou empolgamento durante a leitura para realmente gostar dele.

Avaliação: 3/10

3 comentários em “Estive a Ler: O Último Cabalista de Lisboa

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