Resumo Trimestral de Leituras #19


O verão acabou e o terceiro trimestre do ano também. 80 foram as leituras que concluí em 2019 até ao momento, com 23 livros e 4 bandas-desenhadas lidas nestes três meses mais recentes. Foram 10 opiniões publicadas em julho, 7 em agosto e 11 em setembro, embora a maioria das leituras de setembro tenha sido realizada nas férias, no mês anterior. Continuei a minha meta de ler sagas de fantasia menos populares que ainda me faltavam ler em português, como são o caso de Mago de Raymond E. Feist e Acácia de David Anthony Durham, mas também continuei a Rainha Vermelha de Victoria Aveyard, das poucas séries de fantasia juvenil que não me tem desagradado.

Continuei a ler clássicos, tendo Moby-Dick, Nossa Senhora de Paris, A Laranja Mecânica, A Ilha do Doutor Moreau e Ensaio Sobre a Cegueira sido os escolhidos para estes meses. Não houve nenhuma leitura que me fizesse dar a pontuação máxima, como nos trimestres anteriores, mas a melhor deste trimestre acabou por ser O Lorde Pagão de Bernard Cornwell, com A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert de Jöel Dicker e A Torre da Andorinha de Andrzej Sapkowski a preencherem os restantes lugares do pódio. Destaco ainda, nas bandas-desenhadas, o último volume de The Walking Dead, que chegou ao seu termo de forma honrosa ao fim de trinta e dois álbuns.

Sem TítuloComecei julho com um clássico que queria ler há muito tempo. Moby-Dick de Herman Melville, pela Guerra e Paz, é um livro denso, complexo e imersivo, para além do seu volume físico. A história narra a viagem de um baleeiro chamado Pequod e dos seus tripulantes, em busca da baleia branca Moby-Dick, que em tempos arrancou a perna ao capitão Ahab. Pelos olhos de Ismael, assistimos à crueldade destes homens e à sua vivência a bordo da embarcação, ao mesmo tempo que conhecemos personagens tão diferentes como Queequeg, Starbuck ou Stubb. Apesar das referências bíblicas extenuantes, das lições sobre pesca ou construção de materiais aborrecidas e desmotivantes, não deixa de ser um bom livro, cheio de mensagens e histórias interessantes. Seca de Neal Shusterman e Jarrod Shusterman apresenta uma premissa muito interessante: o que fazer quando a água deixar de cair das torneiras. É num cenário apocalíptico que esta nova distopia publicada pela Saída de Emergência nos coloca, acompanhando a trajetória de cinco personagens. Infelizmente, não gostei do livro, essencialmente por estas personagens serem adolescentes e passarem muito mais tempo a debaterem os seus próprios problemas de juventude do que a lidar com a tragédia em mãos. É um livro muito cor-de-rosa e manifestamente fraco para aquilo que a sinopse prometia.

Sem TítuloPela G Floy chegou o primeiro volume de Criminal. Este álbum tem como autor e ilustrador dois dos melhores na área, no que à BD americana diz respeito. Ed Brubaker e Sean Phillips são autores do meu comic preferido, The Fade Out. Apresentando duas histórias distintas, este primeiro volume partilha sobretudo os ímpetos criminosos dos protagonistas, mais levados pelas circunstâncias que pelas suas vontades, em boa verdade, e a cidade onde a ação se passa, Center City. Não foi uma BD com que tivesse criado empatia de caras e não gostei tanto como outros trabalhos da dupla, mas nem pouco mais ou menos tenho grandes defeitos a apontar. É mais uma série a seguir. Li o segundo e terceiro volumes da série juvenil Rainha Vermelha de Victoria Aveyard. Espada de Vidro e A Jaula do Rei foram publicados pela Saída de Emergência. Apesar de ler ocasionalmente, sou adverso a fantasias juvenis e esta série é das poucas que realmente me tem agradado, apelando à minha nerdice como um “X-Men em Westeros”, mas sobretudo pelas reminiscências a videojogos futuristas. O ambiente é visualmente apelativo mas, apesar das curvas narrativas não fugirem muito aos desgastados padrões do YA Fantasy, a sua principal qualidade está no desenvolvimento das personagens e das suas personalidades.

Sem TítuloPublicado entre nós pela Alfaguara, A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert é a edição nacional do best-seller adaptado à televisão com Patrick Dempsey como a personagem-título. Não acompanhei com atenção a série e a verdade é que o livro do suiço Jöel Dicker me surpreendeu e muito pela positiva. Trata-se de um policial viciante, onde nada é o que parece, que consegue adicionar ainda uma visão bem intimista sobre o mundo editorial norte-americano. Marcus Goldman é um escritor com um bloqueio criativo que, quando tenta procurar ajuda no seu professor de juventude, o encontra a braços com um problema em mãos: o cadáver de uma rapariga de quinze anos enterrado no seu quintal. Um thriller complexo que se tornou uma das minhas melhores leituras deste verão. Há anos que tinha vontade de pegar na saga Acácia de David Anthony Durham, publicada pela Saída de Emergência. Acabei por procrastinar na sua leitura sempre que outras séries mais populares apareciam, mas este ano finalmente “matei” a curiosidade e peguei nos dois primeiros volumes, que correspondem ao volume inaugural no original. Ventos do Norte e Presságios de Inverno apresentam um mundo visualmente muito bem construído, adorei os povos, as etnias, a geografia e até mesmo as facções políticas e guildas. A história, porém, foi contada muito depressa e com poucos momentos de grande interesse. Os capítulos de Hanish e Corinn foram, no entanto, deliciosos, a fazerem justiça a uma história que gostei mas que deveria ter sido francamente melhor.

Sem TítuloE, surpreendendo todo o mundo, a BD The Walking Dead da Image Comics chegou ao fim. Com argumento de Robert Kirkman e trabalho de ilustração de Charlie Adlard, Dave Stewart, Stefano Gaudiano e Cliff Rathburn, a prestigiada série gráfica volta a marcar pela diferença. Rest In Peace é o volume 32 e o último, numa fase em que Rick e Michonne se encontram na Commonwealth e a população começa a questionar o governo de Pamela Milton, incentivados primeiro por Dwight e depois por Mercer. Um final mais do que digno para a série, na hora certa, onde se dá um salto de aproximadamente vinte anos e conhecemos os destinos de personagens como Carl, Sophia, Maggie, Eugene, Jesus ou Negan. Li finalmente o romance distópico de José Saramago Ensaio Sobre a Cegueira, e tão bom que foi. Sem travessões ou parágrafos para assinalar os diálogos, com frases extensas e frenéticas, personagens sem nome, somos conduzidos a um tempo em que uma epidemia se alastra. As pessoas ficam cegas, de uma cegueira branca, e essa cegueira pega-se. Numa fase inicial, os infectados são colocados sob quarentena num manicómio, mas há ali uma pessoa que não está cega. É a mulher do oftalmologista, também ele apanhado pelo surto, que finge ter deixado de ver para estar próxima do marido. Ser-lhe permitido ver coloca-a numa posição privilegiada no mundo, o que lhe trará benesses num cenário verdadeiramente dantesco. Um pouco cansativo, mas repleto de mensagens deliciosas, é um livro de qualidade que nos obriga a pensar.

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Nossa Senhora de Paris foi a minha primeira leitura de agosto. Publicado pela Mel Editores, o clássico de Victor Hugo ficou mais conhecido como O Corcunda de Notre-Dame pelas suas diversas adaptacões ao grande ecrã. A história da famosa catedral, que este ano se viu parcialmente destruída por um incêndio, centra-se na cigana Esmeralda e nos seus muitos pretendentes, do arcediago Claudio Frollo ao garboso e mulherengo capitão Febo, passando pelo disforme sineiro da catedral, Quasimodo. Uma história trágica e emocionante, algo diferente das adaptações e que me agradou muito por isso. O Marciano de Andy Weir foi traduzido em português pela TopSeller. A historia adaptada para o grande ecrã num famoso filme de Ridley Scott com Matt Damon, Perdido em Marte, conta o drama de Mark Watney, um astronauta que, dado como morto, é deixado para trás após um acidente no planeta vermelho. Mas este sobrevive e revela-se uma personagem bastante sagaz e inventiva, para além de ser um génio da botânica. Um livro de grande qualidade científica mas que não me agradou simplesmente por não ver qualquer interesse em saber como plantar batatas em Marte.

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A Casa de Grace Field é o primeiro volume do mangá The Promised Neverland, publicado no nosso país pela Devir. Escrito por Kaiu Shirai e ilustrado por Posuka Demizu, esta série japonesa aparentemente infantil mostra a vida num orfanato de aspecto inofensivo, onde as crianças são felizes e ali vivem até aos doze anos, quando supostamente são levadas para a adopção. Só que dois dos mais inteligentes órfãos da quinta descobrem uma terrível verdade. Não há qualquer processo de adopção. As crianças são ali preparadas para servir de alimento a terríveis monstros comedores de cérebros. Visualmente arrebatador, este mangá promete surpreender e não vou deixar de o seguir. A Torre da Andorinha é o sexto volume da série The Witcher de Andrzej Sapkowski. Publicado pela Saída de Emergência, este livro mostra mais uma vez que a saga vem a melhorar cada vez mais até ao seu termo. Neste volume, vemos Geralt e Yennefer a mover esforços para procurar a jovem Ciri e salvá-la das garras do Império. Mas será que Ciri precisa mesmo de ajuda? Que outros contratempos os esperam? Um livro surpreendente e que encaminha todos os núcleos para um final que se espera muito bom. Uma série cada vez mais empolgante, com um humor refrescante e vários ingredientes que subvertem a fantasia mais tradicional.

Sem TítuloTambém pela Saída de Emergência, O Lorde Pagão é o sétimo volume da saga As Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell. Estive quase a dar 10/10 a este volume porque é, de facto, o melhor volume da saga até ao momento. Uthred revela-se um estratega ímpar, fazendo com que todos pensem e ajam à sua vontade. Já com os filhos adultos, chega finalmente a Bebbanburg, mas a sua história está longe de chegar ao fim e as dificuldades multiplicam-se. Um livro em que Cornwell consegue reinventar-se e fugir ao miasma para que a narrativa se parecia encaminhar. A Ilha do Doutor Moreau de H. G. Wells foi mais uma leitura proveitosa, publicada pela Relógio D’Água. Na linha de Lovecraft mas numa vertente mais científica, acompanhamos um homem naufragado que é salvo por uma embarcação repleta de animais. Cai nas boas graças de Montgomery, que o conduz a uma ilha onde o seu sócio Moreau, um cientista proscrito pela comunidade científica, pratica uma série de experiências polémicas. Mas que experiências serão essas? E quem será o verdadeiro horror: o criador ou as criações? Não sendo uma leitura maravilhosa, é um livro interessante que nos faz refletir sobre a pertinência da mão humana na Natureza e até onde ela a pode corromper.

Sem TítuloComecei setembro com A Rapariga do Tambor de John le Carré, publicado pela D. Quixote. A trama apresenta Martin Kurtz, um espião israelita que trabalha numa agência clandestina de combate ao terrorismo palestiniano, ele próprio vítima do conflito durante a infância. Sabendo que a jovem Charlie, uma atriz britânica, é revolucionária por natureza, embora adepta da esquerda radical, tenciona usá-la como toupeira na rede terrorista. É que Kurtz pretende criar um verdadeiro teatro do real, uma representação em larga escala. Não esperava, porém, que o homem que envia para a seduzir se apaixonasse realmente por ela. É um livro denso, sem heróis nem vilões declarados, que fala sobre os dramas da guerra e, não sendo dos meus livros preferidos do autor, soube agarrar-me. Também pela D. Quixote chegou O Jogo do Anjo de Carlos Ruiz Zafón. Depois de ter gostado muito de A Sombra do Vento, decidi ler o segundo livro publicado no mundo do Cemitério dos Livros Esquecidos, cronologicamente anterior. A narrativa acompanha David Martín, um jovem que trabalha num jornal, com pretensões a seguir carreira como escritor. A sua paixão pela mulher prometida ao seu melhor amigo e protector, porém, irá conduzi-lo numa luta pela verdade e pela justiça, numa clássica trama de um homem que vende a alma ao Diabo. Não sendo tão bom como A Sombra do Vento e em alguns momentos me ter aborrecido, ele mantém a chama e o mundo vívido e perfumado em que o autor espanhol tão bem nos sabe enredar.

Sem TítuloDurante as férias li os quatro volumes da saga Mago de Raymond E. Feist, publicada em Portugal pela Saída de Emergência. Opinados em dois posts separados, Aprendiz e Mestre, bem como Espinho de Prata e As Trevas de Sethanon acontecem no mundo de Midkemia. Apresentam-nos Crydee e as suas personagens, onde se destacam os jovens Pug e Tomas, dois garotos que se preparam para passar à idade adulta. No Dia da Escolha, os jovens são alvo de uma seleção por parte de vários mestres, para lhes ser determinado o seu ofício futuro. É em torno destas personagens e do que elas se tornam que a narrativa trata, com batalhas, questões de coroação e males tremendos que em muito fazem lembrar o universo de O Senhor dos Anéis, e é essa a minha principal crítica à saga. A pouco e pouco, porém, ela diferencia-se e vai melhorando, principalmente nas descrições de batalhas. Estive a ler os volumes 3 e 4 de Acácia de David Anthony Durham, também estes publicados pela Saída de Emergência. Os três irmãos de Aliver Akaran prosseguem a sua vida no Mundo Conhecido. Através da estratégia política e das alianças com a Liga dos Navios e os bestiais numrek, Corinn reclama para si o poder, mas as esperanças de um mundo melhor profetizadas pelo irmão mais velho esbatem-se quando a gestão do império lhe cai nas mãos. Adoro o worldbuilding desta saga e algumas personagens, principalmente as do núcleo de Corinn, mas infelizmente o desenvolvimento delas e a condução da narrativa foram uma desilusão constante. Resta-me a curiosidade, para saber como tudo termina.

Sem TítuloA Saída de Emergência publicou este mês de setembro o segundo volume do comic que adapta o livro Deuses Americanos de Neil Gaiman. Com ilustrações de P. Craig Russell e Scott Hampton, confirma a impressão que já havia tido do primeiro volume. O livro foi uma leitura mediana que, ao contrário de muitos, não me agarrou nem consegui sentir a humanidade que era exigida aos seres divinos que Gaiman nos apresentava. No comic não é muito diferente, mas a versão gráfica tem planos muito bem conseguidos e é uma mão-cheia de exotismo, apresentando ainda certos toques de noir e de banalidade que me encantou de um jeito que o romance não conseguiu. Enquanto se preparam para guerra iminente entre deuses, Shadow e Wednesday deixam a Casa na Rocha e continuam a sua viagem pela negra e austera América, reunindo aliados e conhecendo novos deuses. Numa edição da Alfaguara Portugal, A Laranja Mecânica de Anthony Burgess é um dos clássicos distópicos mais famosos dos nossos tempos. A trama pretende espelhar a visão do autor de um futuro para o mundo em que vivia, um futuro comandado pela violência e pelas leis das gangues, tendo também sido inspirado no estupro da sua esposa, em 1944, por quatro soldados americanos. O protagonista, Alex, assume o papel de narrador, numa espécie de revisita aos crimes que praticou, um alerta para os jovens do amanhã que, acaba por concluir com satisfação, é provável que venham a cair nos mesmos vícios e a fazê-lo com cada vez mais brutalidade. Não me tendo impressionado minimamente, o livro vale pelas mensagens sobre violência e livre-arbítrio que encerra, mas perde pela linguagem inventada pelo autor, que o torna confuso e massacrante.

Sem TítuloPublicado pela Porto Editora, O Último Cabalista de Lisboa de Richard Zimler foi a minha última leitura de setembro. A ação é narrada na Lisboa quinhentista, do ponto de vista de Berequias Zarco, sobrinho de Abraão Zarco, um dos judeus mais influentes da época. Assim como o restante da família residente em Alfama, foi obrigado a converter-se ao Cristianismo. Ainda assim, os judeus forçados a converter-se continuaram a praticar os ritos e costumes do judaísmo, a estudar a Tora e a Cabala, seguindo os ensinamentos dos seus profetas. O desaparecimento de um valioso manuscrito e a morte de duas personagens lançam Berequias numa luta contra o tempo. É um livro que tentei gostar mas que em momento nenhum me empolgou, estando longe de ser aquilo que eu esperava. Neste momento, estou a ler O Feiticeiro e a Sombra de Ursula K. Le Guin, que será uma das primeiras opiniões publicadas neste novo mês. Sendo outubro o mês do Halloween, irei também ler Stephen King, Joe Hill e Mary Shelley, assim como pretendo dar mais algum destaque às bandas-desenhadas da G Floy que saíram ultimamente. Continuem por aí!

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