Estive a Ler: O Feiticeiro e a Sombra, Terramar #1


A sua vida vem contada em O Feito de Gued e em muitas canções, mas esta é a história dos tempos antes de a sua fama se espalhar, de as canções serem compostas.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “O FEITICEIRO E A SOMBRA”, PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE TERRAMAR

Nome incontornável da Ficção Especulativa, Ursula K. Le Guin está entre as mais premiadas autoras da história da literatura norte-americana, tendo ganho em vida múltiplos prémios, dentro e fora dos Estados Unidos, tanto por obras específicas, como pelo conjunto da sua obra e o impacto contínuo desta. Le Guin é apontada como referência para inúmeros autores do mercado atual, como Neil Gaiman, J. K. Rowling ou Brandon Sanderson e influenciou de forma bem visível nomes como Scott Lynch, Patrick Rothfuss e Christopher Paolini.

Com um papel predominante na sociedade, tanto no que diz respeito à representatividade racial e de género como à preservação do Meio Ambiente, Le Guin ficou conhecida essencialmente como autora de Ficção Científica, embora os seus primeiros sucessos tenham sido registados exatamente na Fantasia, com esta saga Terramar. O Feiticeiro e a Sombra (A Wizard of Earthsea) é o primeiro volume, tendo sido publicado pela Editorial Presença, numa edição com 184 páginas e tradução de Carlos Grifo Babo.

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Fonte: https://giphy.com/explore/dragon

Assim de cabeça, digo-vos que se querem começar uma saga bem desenvolvida, capaz de criar empatia com as personagens e fazer-vos duvidar de cada passo dado, esta não é a série ideal. O sucesso de O Feiticeiro e a Sombra parte sobretudo pelo período em que foi escrito (1967) e pela originalidade à época, com a introdução de “escolas de magia” e “do poder dos nomes” que foram tão usados daí por diante na Fantasia. Nos dias de hoje, quem pegar nele pode considerar o livro de fraco a banal, tendo em conta tudo o que foi escrito dali por diante.

“É uma narrativa de aparência fácil, infantil e já tantas vezes vista, mas nas mãos de Ursula K. Le Guin qualquer história se transformava rapidamente numa obra de arte.

Não ajuda também que a autora nos mantenha distantes da história. Assistimos a tudo o que acontece de camarote, quando nos habituamos – e tão bem – a viver bem de perto, por vezes na própria pele, as histórias dos nossos protagonistas. Por outro lado, essa distância também me encantou. Ao ler este livro, senti-me embalado ao colo de uma avozinha, a ouvir uma história de tempos imemoriais. E esse aconchego é sempre bom de se sentir.

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Fonte: https://www.fnac.pt/O-Feiticeiro-e-a-Sombra-Ursula-K-Le-Guin/a142503

Já tinha lido três livros da Ursula K. Le Guin, todos eles de Ficção Científica, e qualquer um deles teve uma narrativa mais interessante e complexa que este Terramar. Porém, aquilo que sentimos no decorrer da leitura por vezes diverge daquilo que constatamos ser a qualidade dela. E neste caso, eu abstraí-me muito da história. As aventuras de Gued são facilmente esquecíveis, mas a escrita de Ursula não é. É um regozijo enorme ler qualquer livro desta mulher. Cada palavra está ali com um propósito, cada frase parece conter uma mensagem, cada página oferece um acolhimento e um carisma que eu simplesmente adoro.

Ao ler esta saga Terramar, senti um pouco aquilo que sinto ao ler Robert E. Howard. Toda a gente sabe como acabam as narrativas de Conan, mas a sua beleza está na forma como são contadas. Há uma série de mensagens subliminares a entremearem a trama. Le Guin oferece várias inovações socialmente relevantes de forma discreta, como o facto de o protagonista ser negro, para não fazerem alarido na sociedade da época. Tudo nela é relevante.

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Fonte: https://giphy.com/explore/wizard

O Feiticeiro e a Sombra segue a vida de um jovem chamado Duny, apelidado de Gavião, que nasceu na ilha de Gont em Terramar. Ao descobrir que o rapaz possui um grande poder, a tia ensina-lhe alguma magia, o pouco que ela conhece. Certo dia, a vila é atacada por invasores de Karg e Duny provoca um nevoeiro que esconde tanto a povoação como os seus habitantes dos invasores, permitindo-lhes vencer o inimigo. As notícias chegam aos ouvidos do feiticeiro Óguion, que se responsabiliza pela instrução do jovem mago.

Oferece-lhe então o seu verdadeiro nome, Gued. É que neste mundo todas as pessoas são conhecidas por um nome de batismo, mas têm já vinculadas a si um nome de origem, e quem o souber tem todo o poder sobre ela. O velho mago ensina-lhe vários tipos de magia, mas também a importância de manter o equilíbrio e de não afetar a ordem natural do mundo. O ímpeto de adolescente, porém, leva-o a consultar um dos livros secretos do velho mago e, para impressionar uma rapariga, Gued acaba por convocar uma sombra muito perigosa.

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Fonte: https://www.barnesandnoble.com/blog/sci-fi-fantasy/the-books-of-earthsea-the-complete-illustrated-edition-by-ursula-k-le-guin/

Depois de expulsar a sombra, o velho acaba por enviar Gued para uma escola de magos na ilha de Roke, uma vez que percebe não ter capacidades para o continuar a ensinar. Na escola, Gued trava amizade com Vetch e inimizade com Jaspe, ganhando a contínua amizade e admiração dos seus professores. Mas quando, num confronto com o seu inimigo, tenta apelar ao espírito de uma mulher morta, cria uma sombra que o ataca. Uma sombra que o persegue para onde quer que vá.

É graças ao arquimago Nemmerle que ele sobrevive, às custas da própria vida. Gued descobre que a sombra o deseja possuir. Nesse momento, ganha o seu bastão de mago e com ele torna-se um homem poderoso que segue caminho como protector das aldeias das Noventa Ilhas contra os ataques dos dragões. Mas, para seu infortúnio, esse é apenas mais um passo no seu trajecto, porque a maldita sombra está longe de o deixar em paz. É então que recorre aos dragões para tentar fazer face a este embaraço.

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Fonte: https://yasminroohi.com/tales-from-earthsea-studio-ghibli

Ursula Le Guin apresenta-nos um protagonista que nos pode parecer, à primeira vista, estereotipado, cliché, arquetípico, o que lhe quiserem chamar, mas à medida que vamos conhecendo Gued, sempre de forma demasiado distante, na minha opinião, vamos percebendo que apresentou muitas alterações em relação ao herói comum do nosso imaginário, da cor da pele às deturpações de conduta que vai experimentando ao longo do percurso.

O livro termina de forma interessante e deixa no ar algum mistério sobre o que seguirá na vida deste protagonista. Sabemos, já de antemão, que se tornará um poderoso arquimago, mas há várias questões que não foram ainda totalmente exploradas neste primeiro volume. É uma narrativa de aparência fácil, infantil e já tantas vezes vista, mas nas mãos de Ursula K. Le Guin qualquer história se transformava rapidamente numa obra de arte.

Avaliação: 7/10

Terramar (Editorial Presença):

#1 O Feiticeiro e a Sombra

3 comentários em “Estive a Ler: O Feiticeiro e a Sombra, Terramar #1

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