Estive a Ler: Frankenstein


Pleno de promessas, inspira os meus sonhos, que se tornam mais ardentes e mais vivos.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO FRANKENSTEIN

Frankenstein é um clássico do horror, publicado por Mary Shelley em 1818 no Reino Unido. Considerado por muitos como a primeira obra de ficção fientífica da História, o livro é também chamado em algumas edições de Frankenstein ou O Prometeu Moderno. Li a edição de 2015 das Edições ASA, com tradução de João Costa e um total de 240 páginas.

A criação de Frankenstein está ela própria envolta numa conjugação curiosa; Lord Byron, o famoso poeta inglês de horror gótico, visitou um grupo de amigos durante as férias na Indonésia, grupo esse formado por Mary, o futuro marido e o escritor John Polidori. Foi um verão atípico, onde uma chuva de poeira deixou os quatro dentro de casa. Ali, Byron lançou um desafio aos amigos: escrever um conto de fantasmas. Se a fama de Byron dispensa apresentações, pode-se dizer que Polidori escreveu ali a primeira história de vampiros ocidental, que viria a inspirar Bram Stoker no seu Drácula. Mary Shelley começou a escrever Frankenstein.

Resultado de imagem para frankenstein gif
Fonte: https://giphy.com/explore/bride-of-frankenstein

Apesar de ter gostado do livro, o Frankenstein de Mary Shelley está muito longe do que imaginei – culpa do cinema e das suas várias adaptações, a mais marcante protagonizada por Boris Karloff em 1931, mas sobretudo da minha ignorância a respeito. O monstro que nos habituamos a ver nas várias medias é verde, enorme e lento, muito lento de movimentos. A criatura original é amarela, ágil e rapidíssima, e nem sequer em momento algum é chamada de Frankenstein. Victor Frankenstein é o seu criador, e sempre se refere ao “filho” como demónio.

“É um livro cheio de mensagens interessantes, com um pouco de horror, um pouco de thriller e, ok, um pouco de ciência e que merece, pela oportunidade, pela criatividade, o êxito que teve.”

Também não há nenhum vestígio de honra na sua natureza, aparte as situações de amor filial e inocência genuína em que o encontramos diante do seu criador ou na última cena do livro, com o narrador. Foi criado a partir dos conhecimentos evoluídos de Victor Frankenstein, essa sim a personagem principal do livro. Pela discriminação e falta de afeto, a criatura transforma-se num verdadeiro monstro. Há uma série de crimes e de incidentes que me agradaram mais do que a própria essência do livro.

Sem Título
Fonte: https://www.wook.pt/livro/frankenstein-mary-shelley/16409988

Apesar de vários nomes de figuras grandes da ciência permearem o romance, não há nenhuma evidência sobre as aplicações de Frankenstein na sua criação, apesar de tal ser justificado pelo carácter ficcional da obra. Frankenstein não é, na minha ótica, ficção científica pura, mas um livro sobre a natureza humana e sobre até onde as ciências podem conduzir o homem. Como diz na capa, as melhores ideias podem ser perigosas.

A escrita de Mary Shelley lembra bastante a de outros escritores do séc. XIX e inícios do séc. XX, como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft ou H. G. Wells. Frankenstein é, ao mesmo tempo, um thriller gótico, um romance sobre amor e uma mensagem de advertência sobre os perigos da ciência. Ele questiona a Humanidade, as responsabilidades que temos enquanto seres humanos, a problemática do tráfico de órgãos e da bioengenharia, bem como os perigos decorrentes da manipulação da Natureza. Uma obra visionária, na verdade.

Resultado de imagem para frankenstein gif
Fonte: https://giphy.com/explore/frankenstein

O livro começa por ser narrado por Robert Walton, o capitão de um navio bloqueado pelo gelo, através das cartas para a sua irmã. Walton trava conhecimento com um homem, que lhe conta a sua história. Devido à peculiaridade da mesma, começa a reunir as informações nas suas notas, de forma a preservar o relato. Esse homem inusitado chama-se Victor Frankenstein e diz estar a ser perseguido pelo produto das suas experiências.

Victor Frankenstein era o fruto de uma família ambulante; nasceu em Nápoles mas viria a passar parte da sua vida em Genebra. Como estudante de ciências, inspirado pelos nomes grandes de antanho mas também compreendendo as suas falhas, começa a trabalhar na origem da vida, aspirando a descobrir uma fórmula para a vida eterna. Rapidamente fica obcecado pelas suas criações, ao compreender que consegue animar matéria inerte.

Resultado de imagem para victor frankenstein gif
Fonte: https://gfycat.com/gifs/search/victor+frankenstein+trailer

Frankenstein começa então a coligir partes de corpos humanos e dá à vida um novo ser. Logo então se arrepende, porque não só a criatura é horripilante, como a pouco e pouco, acossada pela solidão, se lança numa senda de vingança contra o seu criador, alegando ser mau por ser infeliz. E então a família e os amigos de Victor Frankenstein começam a morrer um a um, e ele sabe perfeitamente quem é o responsável por isso: o filho a quem chama de demónio.

O livro fala muito sobre o limiar da natureza humana, onde o bom se torna mau, onde a inocência se revela apenas como uma indistinção do que é bom e do que é mau, sobre até onde podemos ir com os nossos conhecimentos. Os limites do conhecimento humano, das aspirações do Homem, da forma de tratamento para com os outros são postos a nu numa história densa e trágica que Mary Shelley soube retratar muito bem.

Sem Título
Fonte: http://getwallpapers.com/collection/frankenstein-desktop-wallpaper

É um livro cheio de mensagens interessantes, com um pouco de horror, um pouco de thriller e, ok, um pouco de ciência e que merece, pela oportunidade, pela criatividade, o êxito que teve. Gostei muito da senda de assassinatos da criatura, do seu âmago simples e ingénuo, da relação criador / criação que em alguns momentos me fez lembrar a história de Pinóquio, e a narrativa em forma de correspondência também não me desagrada; sou efetivamente fã da literatura inglesa.

Mas acabo este livro sem o ter “adorado” tanto quanto gostaria. É uma boa leitura de Halloween, sem ser de facto assustadora pela criatura em si, mais pelas questões levantadas sobre o futuro do ser humano enquanto ser criador e arrogante nas suas pretensões. Ao mesmo tempo, por diversas vezes me senti aborrecido ao ler o livro, o que não é muito abonatório quando falamos de um volume de pouco mais de duzentas páginas.

Avaliação: 6/10

Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close