Estive a Ler: Neuromancer


Lá nas sombras, alguém fez sons molhados e morreu.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO NEUROMANCER

Obra maior de William Gibson, o percursor do cyberpunk, Neuromancer foi publicado em 1984 e tornou-se uma obra de referência do género. Conceitos como o ciberespaço e a matrix foram criados com este romance, que serviu de inspiração vívida para obras como a trilogia cinematográfica Matrix e o mangá Ghost in the Shell. Neuromancer venceu os prémios Hugo, Phillip K. Dick e Nebula.

Das obras de Gibson fazem parte contos, romances e artigos em várias publicações, tendo também colaborado com vários artistas, músicos e realizadores de cinema. Neuromancer foi publicado em Portugal em 1988 pela Gradiva como Neuromante, numa tradução de Fernando Correia Marques, edição que infelizmente se encontra esgotada, mas o autor continua a ser publicado por cá pela Saída de Emergência, que publicou dele o seu romance de 2014 O Periférico.

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O senhor de que se fala! | Fonte: https://blog.estantevirtual.com.br/2017/03/17/william-gibson-o-profeta-noir-ciberespaco/

Neuromancer é um livro que deixou marca para incontáveis gerações, para tudo o que veio e virá depois dele. Posso dizer sucintamente que é ele que nos apresenta o autor e não o contrário. Ele mostra-nos William Gibson como o profeta vivo da ficção científica, engendrando no início dos anos 80 tecnologias que ainda hoje estamos longe de reproduzir ou entender, bem como outras, que hoje nos parecem atuais que absolutamente não eram à época em que o livro foi escrito.

“William Gibson oferece-nos um mundo futurista ao mesmo tempo lunático e verosímil, nem sempre facilmente compreensível mas a todos os níveis enriquecedor.”

A narrativa não é propriamente fácil, há toda uma complexidade de nomenclaturas e de produtos que só consegui compreender através de alguma pesquisa e de consulta de textos sobre o livro e sobre o tema, mas as personagens são incrivelmente bem desenhadas e há todo um trabalho de reprodução visionária que só por si me encantou. Talvez seja demasiado vago em alguns momentos, mas isso faz parte do charme.

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Um dos melhores wallpapers do livro | Fonte: https://www.deviantart.com/dmitri-molotov/art/Neuromancer-Wallpaper-146383426

As personagens tampouco são críveis. O trabalho em volta delas e as várias cambalhotas no enredo roçam a deriva de um autor que vai “vendo no que dá” mas neste caso Gibson conseguiu enganar o leitor, ao mostrar que as flutuações de enredo que pareciam tão aleatórias se estreitam num destino comum que, podendo não ter sido previamente planeado, resultaram num final enigmático e, ainda assim, convincente, capaz de se reproduzir nos livros que lhe deram sequência.

Há pouca clareza na apresentação do plot. Somos despejados no meio de um mundo dominado pelo corporativismo, numa idade dos neons e de zumbidos metálicos, sem saber em que ano efetivamente nos encontramos. Sentimo-nos arrastados para uma ação confusa e complexa, mas é significativo dizer que em nenhum momento ela nos larga da mão, em nenhum momento ela nos faz largar o livro.

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Citação | Fonte: https://giphy.com/gifs/scifi-william-gibson-neuromancer-MSrGeFbW93fhK

A atmosfera típica do cyberpunk está lá, aquele ambiente Blade Runner que tão bem vemos representado na sétima arte. Confesso que em alguns momentos me senti nu e sem a sensação de segurança naquilo que estava a ler, e aí acabei por me agarrar à trilogia Matrix dos Irmãos (agora irmãs) Wachowski, que copiou não só ideias, como mesmo partes de histórias pessoais, características de personagens e até a Zion ao livro de William Gibson.

Acabei por me sentir no mesmo universo de O Periférico, outro livro do autor que foi publicado muito depois mas que li antes. Não consegui gostar tanto de Neuromancer, mas de algum modo este livro marcou-me mais. Há toda uma elegância no seu ar retro, um charme próprio de certa forma noir, uma cambiância envolvente entre o fumo dos cigarros num bar de beira de estrada e o mundo codificado da computação. E há a escrita de William Gibson, absolutamente retorcida, suja e fluída.

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Case, ma men! | Fonte: https://tavernablog.com/2018/08/13/neuromancer-de-william-gibson-resenha/

Num mundo sem governos, controlado pelas grandes corporações industriais com as suas próprias gangues, que são vistas quase como religiões pelos seus adeptos, conhecemos o cowboy Case, o protagonista da história. Cowboy significa um hacker na gíria daquele mundo, mas esta personagem sofreu um grave revés. Ele meio que foi “castrado” da sua atividade, depois de ter tentado roubar a sua entidade patronal.

Foi-lhe então administrada uma espécie de toxina, que danificou o seu sistema neural e o impossibilitou de se conectar à matrix, um universo de Internet ao qual é possível ligar-se mentalmente. É quando regressa a uma vida fracassada entre bares, onde grassa o comércio de drogas e de implantes robóticos, resignado com a sua vida “real”, que é contactado por Molly, uma rapariga que lhe apresenta uma solução para o seu problema.

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Dizem que Armitage inspirou Morpheus de Matrix. | Fonte: https://giphy.com/explore/matrix-morpheus

Ela leva-o a Armitage, que o liberta então da toxina e lhe permite regressar ao ciberespaço, em troca de certos servicinhos. São-lhe aplicados sacos que servem para receber de novo a toxina caso não cumpra as suas funções. E é aqui que Case mergulha numa espiral de acontecimentos completamente loucos, que o levam a duvidar da sua própria sanidade. O objetivo: um mega roubo, nunca antes levado a cabo.

Case e Molly unem-se na tentativa de compreender quem afinal é Armitage, uma mente poderosa ou um joguete nas mãos de outros mais poderosos, ao mesmo tempo que travam conhecimento com duas entidades misteriosas: primeiro Wintermute e depois Neuromancer. No fim, tudo se resume à dependência de Case para com as toxinas, para com o ciberespaço, para com o seu amor por Linda Lee.

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William Gibson oferece-nos um mundo futurista ao mesmo tempo lunático e verosímil, nem sempre facilmente compreensível mas a todos os níveis enriquecedor. Ele oferece todo um mundo visionário que um dia conheceremos de perto, ao mesmo tempo que entrega uma grande história sobre pessoas sem nada a perder, sem credos nem resoluções, manietados pelas grandes corporações e as suas inteligências artificiais.

Ele é também uma história sobre ladrões, sobre um grande roubo e sobre um grande jogo de xadrez, em que as personagens principais do livro não são mais que peões. Há desapego, há obscuridade, há um não querer saber, há toda uma panóplia de personagens e nenhum deles é bonzinho, e isto é tudo o que eu precisava de ler nesta altura do campeonato. 

Avaliação: 7/10

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