Fala-se de: Joker


Precisei de um mês para conseguir escrever uma opinião a este filme. Um pouco falta de tempo, mas principalmente porque as primeiras ilações formaram um nó na minha cabeça. O filme foi dirigido por Todd Phillips (Assim Nasce Uma Estrela, A Ressaca), que também escreveu o argumento a quatro mãos com Scott Silver. Joker conta a história do famoso personagem criado pela DC Comics, que já contou com várias interpretações, sendo as mais sonantes protagonizadas por Jack Nicholson, Heath Leadger e a mais recente por Jared Leto. Nesta versão de 2019, quem veste a pele do palhaço psicopata é o galardoado Joaquin Phoenix.

As cerca de duas horas de filme deixaram-me completamente confuso sobre o que dizer dele, e não é para menos. O que podemos dizer de uma película que não parece ter falhas, ser absolutamente bem feita e que ainda assim nos deixa com um amargo de boca? Pois é, talvez o tom do filme e a sua definição de anarquismo mexa com a capacidade do ser humano em viver em sociedade, mas é imprescindível a sua visualização mesmo se – como eu percebi ao longo deste tempo – não sejamos o público alvo do mesmo.

Sem Título
Fonte: https://www.americatv.com.pe/cinescape/cine/joker-vuelve-polemica-incluir-musica-abusador-menores-noticia-110061

As minhas memórias mais fortes de Joker remetem-me, por incrível que pareça, às primeiras. E foram elas as suas aparições nos desenhos animados do Batman. De resto, apesar de ter sido desde cedo fã de banda-desenhada, nunca fui um grande adepto da DC Comics, mesmo considerando ter um universo bastante rico em potencial. Os filmes de Batman com George Clooney e Michael Keaton estiveram nos primeiros que fui ver ao cinema e nessa altura talvez aquelas histórias tivessem tido algum impacto sobre o rapazinho que eu era.

“Gostemos ou não deste género de filmes, todos nós precisamos vê-los. Todos nós precisamos ver e compreender Joker.”

Quando cresci, fui sempre muito mais virado para a Marvel que para a DC, coleccionei vários números, mas houve um largo período que filmes inspirados em bandas-desenhadas não me interessavam de todo. Talvez depois da desilusão que a franquia X-Men causou em mim após os primeiros filmes. A trilogia Batman de Christopher Nolan veio reverter um bocado aquilo que eu sentia nesse aspeto. Nolan conseguiu transformar aquelas histórias, com performances convincentes e diálogos riquíssimos. Heath Ledger interpretou o melhor Joker de sempre até então, mas acho que nem aí me entusiasmei completamente com a DC.

Sem Título
Fonte: https://wallpapersite.com/movies/joaquin-phoenix-joker-2019-18851.html

Devolveu-me, no entanto, a vontade de querer ver mais filmes de super-heróis e acabei por ver os filmes solo de Iron Man e o primeiro dos Avengers já tardiamente. O universo estendido da Marvel apaixonou-me e hoje sou grande fã da franquia. E foi como consumidor desse fast-food que é o Universo Cinematográfico Marvel que torci o nariz às leguminosas que o Joker de Todd Phillips se me apresentava nos trailers. Mas por ser consumidor de fast-food não significa que não goste de legumes, e com base nos meus gostos não descartei o filme.

Quando a película estreou no Festival Internacional de Cinema de Veneza a 31 de agosto, sendo aplaudida de pé e, mais importante, vencendo o Leão de Ouro, prémio máximo do festival, o meu interesse aumentou. Quando estreou em Portugal, não podia deixar de o ver. Sabia de antemão que não seria um filme comercial, mas sim um trabalho aprimorado em argumento e muito humano, sem recurso a artifícios gráficos nem ao CGI que alguns professam exagerado das produções mais mainstream. Por vezes com razão.

Sem Título
Fonte: https://www.goodfon.com/wallpaper/kraska-dzhoker-kostium-joaquin-phoenix-khoakin-feniks-joker.html

Como já referi, Joker não é mesmo muito a minha praia. Não vou entrar no campo de “um filme de super-heróis serve para entreter, não para falar da natureza humana”, muito pelo contrário. Todas as franquias de super-heróis falam sobre a natureza humana, das suas capacidades e sobretudo das suas falhas, e este Joker eleva essa premissa a um outro patamar, a um patamar mais profundo e extremamente bem executado. Quando digo que o filme não é a minha praia é porque realmente não me entusiasmam filmes que se foquem num só personagem e que vivam da interpretação de um só ator. Ainda que ela seja fenomenal. Joaquin Phoenix foi fenomenal.

Quando avalio um filme ou um livro, acabo por tentar equilibrar a minha pontuação entre a qualidade do produto e aquilo que ele deixou em mim, e por vezes vejo-me mesmo a esforçar por gostar de algo que é ótimo, mas que não me diz grande coisa. Acabo por equilibrar os pratos da balança. Senti isso com Joker. O filme é incrível. A realização está extremamente bem feita, adorei a banda-sonora, o tom é dark, ele rói-nos a alma até ao tutano, faz-nos compreender o comportamento de Arthur Fleck e, apesar dos seus distúrbios, faz-nos ter pena dele, torcer por ele. O mundo foi realmente injusto para com ele. O mundo é injusto e ponto final.

Sem Título
Fonte: https://hiphopwired.com/playlist/joaquin-phoenix-joker-trailer-revealed-twitter-debates-if-its-great-or-the-jig/

É nesta reflexão que cabe verdadeiramente o poder de Joker. O que um acto desesperado pode causar, o perigo em que reside a nossa sociedade, o flagelo das doenças mentais. O filme é ambientado no início dos anos 80 e a forma como ele é apresentado é palpável. Acompanhamos de perto a doença de Arthur, os seus medos, as suas preocupações, a crueldade das pessoas para com os que são diferentes, mesmo que no fundo sejam tão iguais. Joker é um produto da nossa sociedade. Nunca fui fã da personagem, mas este filme sabe explorá-la muito bem.

Este tipo de representações, apesar de extremamente bem feitas, acabam por ser verdades de la Palice daquilo que vivemos no dia-a-dia, e eu quero sentar-me para ver num filme, o que me faz escapar a esse quotidiano. Acho que quem vê o trailer vê o que é o filme, ele não é muito mais do que aquilo, mas apesar de não ser propriamente fã destes meros espelhos da realidade, que não adiantam muito mais ao que ela infelizmente é, volto a sublinhar a importância de Joker. Ele faz-nos refletir e, queiramos ou não, todos nós precisamos refletir sobre os caminhos que a nossa sociedade está a tomar. Gostemos ou não deste género de filmes, todos nós precisamos vê-los. Todos nós precisamos ver e compreender este Joker.

Avaliação: 7/10

Um comentário em “Fala-se de: Joker

Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close