Estive a Ler: A União Sagrada + Vozes da Profecia, Acácia #5 e #6


Tudo o que via era asas membranosas em movimento, membros desajeitados e um focinho fétido que não parava de cheirar, prestes a morder, repleto de dentes amarelados. Dariel afastou-se dele, tropeçou, e depois afastou-se para longe a gatinhar.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA OS LIVROS “A UNIÃO SAGRADA” E “VOZES DA PROFECIA”, VOLUMES CINCO E SEIS DA SAGA ACÁCIA

A viver atualmente na Califórnia, David Anthony Durham nasceu em Nova Iorque em 1969 e foi premiado várias vezes com os livros Gabriel’s Story, Walk Through Darkness e Pride of Carthage. Ficou mais conhecido no panorama literário com a trilogia Acácia, que recebeu boas críticas em páginas como o Publishers Weekly, Kirkus Reviews, SciFi Site and Fantasy Magazine, New York Times e Library Journal, sendo considerado uma das grandes revelações dos últimos anos no segmento. Paralelamente, Durham dá aulas na Universidade de Fresno.

A trilogia Acácia foi dividida em seis livros no nosso país, com o primeiro a ser publicado em 2011 e o último em 2015. The Sacred Band é o título original do terceiro volume de Acácia, traduzido em português em dois volumes. A União Sagrada e Vozes da Profecia são dois livros publicados pela Coleção Bang! da Saída de Emergência, o primeiro com 384 páginas e tradução de João Pinto e o segundo com 320 páginas e tradução de Fernanda Semedo.

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Fonte: https://giphy.com/gifs/game-of-thrones-agents-shield-boy-george-JwVjBZL5ngBMY

A partir daqui, há MINOR SPOILERS da série. Já sabes!

Cheguei finalmente ao último capítulo de Acácia. A trilogia, publicada em Portugal em seis volumes, nunca me chegou a convencer,apesar de ter todos os ingredientes para isso. Os primeiros livros mostraram um worldbuilding bem interessante, com povos e raças que achei originais e agradáveis de ir conhecendo, ao mesmo tempo que fazia mistério de alguns, o que me despertou algum interesse. Em oposição, achei a escrita (ou a tradução, vá-se lá saber) algo fraca e o desenvolvimento da narrativa sofrível.

“O Mein fazia falta à história.

Perder os meus personagens preferidos foi uma machadada, que não teria sido tão má se eles tivessem sido melhor desenvolvidos. Os dois livros do miolo, o volume de transição da trilogia, foram uma confusão de acontecimentos e, francamente, os piores da saga. Durham conseguiu conduzir as personagens por caminhos estranhos, revirando tudo, apagando de um sopro plots interessantes e colocando a magia e dragões metidos a prego como notas dominantes da história.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/litfantastica-bang/fantasia-o-202346/acacia-a-uniao-sagrada/

Curiosamente, estes dois últimos livros foram os mais agradáveis de se ler. Não digo que salvem a série como um todo, ou que precisassem de a salvar. Não houve um único livro de Acácia que tenha desgostado, mas irritaram-me e muito as escolhas narrativas de David Anthony Durham. E, nestes dois livros, de certa forma ele redime-se aos meus olhos. Mesmo a escrita pareceu-me bem mais comestível. Passo a explicar-me.

As personagens Dariel e Mena, os irmãos mais “bonzinhos” da história, tiveram desenvolvimentos dignos de dó. Ele até começou a história com potencial, entre os piratas, mas nos volumes de transição a sua introdução ao Povo Livre foi morosa, desgastante e desinteressante. Nestes últimos volumes não existe uma grande melhoria nesse sentido, o seu percurso narrativo é expectável, tradicional e completamente dispensável, mas consegue cruzar-se com o de personagens mais interessantes como Melio ou os homens da Liga dos Navios, o que mitiga a sensação.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/acacia-vozes-da-profecia/

Mena é aquela personagem que me trazia vibes de Arya Stark, nas primeiras páginas da saga. Precisei de poucas mais para compreender que não tinha nada a ver. Uma personagem sem sal, sem carisma, sem sequer uma personalidade que tenha compreendido na totalidade. Andou a brincar aos caçadores de monstros lá pelo meio, foi desencantar um dragão e em nenhum dos livros mostrou realmente uma ponta por onde se lhe pegasse.

Nestes últimos dois, não por haver um maior enriquecimento da personagem, mas pelo lugar onde o autor a coloca, Mena acaba por ter os melhores capítulos de Acácia. O clima de preparação de batalha no norte ártico e, posteriormente, a batalha em si, fez-me lembrar as grandes batalhas de A Guerra dos Tronos, e algumas passagens no planeamento da mesma pareceram-me muito bem escritas. Para além disso, Durham trouxe-nos Haleeven Mein, o pai de Hanish, Maeander e Thasren, e essa decisão fez-me tocar os sinos e soar um Amen. O Mein fazia falta à história.

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A nossa Corinn | Fonte: https://acacia.fandom.com/wiki/Corinn_Akaran

No sentido inverso, Corinn Akaran. Ao lado de Hanish, Corinn foi a minha personagem preferida nos volumes preambulares. Aquela rapariga que passou de prisioneira a rainha graças à sua perspicácia e inteligência conquistou-me rapidamente, de uma forma que até lhe perdoei matar aquele que nós sabemos. Nos volumes de transição, Corinn continuou a ser a minha preferida, com todos os seus esquemas e ardilezas. Foi um desenvolvimento consistente, como se em A Guerra dos Tronos víssemos Sansa Stark a transformar-se lentamente em Cersei Lannister.

Corinn perdeu muito enquanto personagem a partir do momento em que começou a usar deliberadamente a Canção de Elenet, o misterioso livro que liberta encantamentos e magia à sua mercê. E, no final do quarto volume, ela toma uma decisão que me desiludiu enquanto leitor. Ressuscitar personagens que tinham sido aceites como mortos não me convenceu minimamente. Talvez seja um preconceito, mas decididamente não gostei. Corinn passa aqui de Cersei Lannister para uma verdadeira bruxa Malévola.

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As capas originais | Fonte: https://virily.com/entertainment/fantasy-books-the-acacia-trilogy-by-david-anthony-durham/

Ver a nossa personagem preferida a transformar-se numa encarnação do mal, mesmo que tenha sido feito de forma mais ou menos credível, causa sempre impacto em nós. Corinn não é daquelas vilãs por quem nutrimos simpatia. Vemo-la a infligir sofrimento a outros de quem gostamos, vemo-la a achar que está a fazer o melhor para assegurar um futuro ao filho e à nação. Acho que, ao longo de A União Sagrada, é difícil não a odiar. Mas, até aí, tudo bem. Vamos esperar que David Anthony Durham lhe reserve um final repleto de sofrimento.

E ele vem. O sofrimento chega a Corinn, sim, mas talvez demasiado cedo. Com tempo suficiente para a ver redimir-se, ou procurar fazê-lo. Adorei a cena em que ela pede perdão a Wren por a ter tentado matar e à sua criança, a forma como ela parte para a guerra na reta final de Vozes da Profecia, mas… mais uma vez é a magia que rege os acontecimentos, é ela que a faz redimir-se, e essa remissão é feita de uma forma demasiado rápida. Depois de uma moldagem tão gradual, o autor desconstrói-a rapidamente.

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Sempre achei que Acácia tinha um pouquinho de Dorne | Fonte: https://gfycat.com/warylikableargusfish

Por isso, detestei ver Corinn tornar-se a vilã maior da saga, mas detestei ainda mais vê-la a tornar-se boazinha novamente de um momento para o outro. David Anthony Durham orquestrou vários volte-faces na trama interessantes, como o mudar de um plano para o outro, a dúvida sobre quem seriam afinal os verdadeiros maus-da-fita, o papel da Liga dos Navios, os lothan aklun e os auldek, mas se um ou outro plot foi desenvolvido de forma consistente, foram muitos os que andaram a esmo, ao sabor do vento, sem que nem o autor parecesse saber o que fazer deles.

A saga acaba por falar sobre laços, sobre propósitos, sobre o peso que os pecados dos nossos pais e avós têm nos nossos ombros, sobre o preço a pagar por uma gestão e o quão diferente é o mundo que idealizamos daquele que conseguimos realmente pôr em prática. Levo personagens como Sire Dagon, Delivegu Lemardine, Rhrenna, os Mein e mesmo Corinn como o melhor de uma saga cheia de potencial que tinha tudo para ter sido mais bem escrita e desenvolvida. Obrigado à Saída de Emergência, contudo, por continuar a apostar nestas sagas e ao trabalho de capa fenomenal em todos os seis volumes publicados.

Estes livros foram cedidos em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 6/10

Acácia (Saída de Emergência):

#1 Ventos do Norte

#2 Presságios de Inverno

#3 Outras Terras

#4 O Povo das Crianças Divinas

#5 A União Sagrada

#6 Vozes da Profecia

Imagem de capa: https://www.deviantart.com/kerembeyit/art/Into-the-Unknown-106877859 (Reprodução)

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