Estive a Ler: Kafka à Beira-Mar


Parece até que ele tenta tatuar essas palavras em índigo no meu coração.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO KAFKA À BEIRA-MAR

Com o livro Kafka à Beira-Mar do autor japonês Haruki Murakami, a Casa das Letras obteve mais de 15 mil exemplares vendidos. Trata-se de um dos escritores contemporâneos mais divulgados em todo o mundo, sendo também aplaudido pela crítica, que o considera um dos “grandes romancistas vivos” (The Guardian) e a “mais peculiar e sedutora voz da moderna ficção” (Los Angeles Times). Nascido em Quioto, Murakami estudou teatro grego antes de gerir um bar de jazz em Tóquio.

Além de Kafka à Beira-Mar, Sputnik, Meu Amor, Dance, Dance, Dance e A Wild Sheep Chase, que recebeu o Prémio Noma destinado a novos escritores, Murakami é ainda autor, entre outros, de Hard-boiled Wonderland and the End of the World, distinguido com o prestigiado Prémio Tanizaki e de Blind Willow, Sleeping Woman, a sua terceira coletânea de contos, distinguida com o Frank O’Connor International Short Story Award. A edição de 2014 de Kafka à Beira-Mar, pela Casa das Letras, tem um total de 589 páginas e tradução de Maria João Lourenço.

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Fonte: https://queerbooksblog.wordpress.com/2016/09/10/kafka-on-the-shore-by-haruki-murakami/

Murakami é um daqueles autores com quem não entrei com o pé direito, à semelhança de nomes como Carlos Ruiz Zafón e que, à segunda tentativa, me vieram a deslumbrar por completo. Depois de, há uns anos atrás, me ter desapontado com O Elefante Evapora-se, comecei 2019 com a incrível trilogia 1Q84, que ressuscitou o meu interesse no escritor japonês. Kafka à Beira-Mar traz o mesmo tom e género, sabendo manietá-los com destreza.

“Uma teia de profecias, analogias e metáforas que, mais uma vez, me deixou assoberbado.

Estipulei Kafka à Beira-Mar como uma das leituras do último semestre, mais propriamente do último mês do ano, e não sendo uma surpresa, revelou-se um livro de grande qualidade. Devo confessar que não foi uma paixão constante da primeira à última página. O primeiro terço do livro é bastante esparso e demasiado enigmático para agarrar um leitor. É comum a todo o volume a abundância de cenas que parecem não adiantar em nada à trama, onde o autor parece divagar em cenas abstratas, mas é muito essa a arte de Haruki Murakami.

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Fonte: https://www.wook.pt/livro/kafka-a-beira-mar-haruki-murakami/178281

A escrita é deliciosa. Consigo atravessar capítulos em que não acontece praticamente nada para degustar das suas frases aparentemente banais tão repletas de sentimentos e de contradições, tão cheias de metáforas fortes e pertinentes. Kafka à Beira-Mar é um livro cheio de vida, ele apresenta situações e problemas do quotidiano – não tão triviais quanto isso, mas passíveis de ocorrer – e oferece-lhes todos os contornos fantásticos mais “idiotas” que me é possível imaginar.

Se 1Q84 nos apresenta uma raça chamada de povo pequenino que quer trazer o despotismo ao nosso mundo, Kafka à Beira-Mar apresenta-nos personagens saídas de marcas mundialmente conhecidas, enquanto uma pedra mágica se revela a chave para desvendar o passado dramático do protagonista. Existe toda uma aura de fantástico numa realidade japonesa cheia de vida comum, para a qual somos arrastados e não há como não a amar.

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Fonte: http://rittlerion.com/timeline.html

Qualquer uma das obras de Murakami tem como constante não só o realismo mágico, como o explorar da personalidade humana, as metáforas e as inúmeras referências a escritores e compositores. Considerei algumas citações até repetitivas, como achei algumas passagens simplesmente escusadas. O livro também revela uma grande carga erótica, em alguns momentos pesada. Polémico, Kafka à Beira-Mar leva o protagonista a ter relações sexuais com a própria mãe na realidade e mesmo a violar a irmã num sonho, revelando o seu estado traumático e as vicissitudes do seu ser.

O autor consegue, porém, levar-nos a compreender os significados simbólicos, a dimensão das suas metáforas e a importância das recordações, mesmo através do choque e do esvaziamento de conceitos. Há uma complexidade latente em cada uma das personagens, mesmo que numa primeira análise, para o leitor ou mesmo para elas, pareçam vazias.

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Fonte: https://www.deviantart.com/vasya-masha/favourites/67218080/Murakami

Somos apresentados a Kafka Tamura, o protagonista do livro. Apesar do nome do título parecer indicar o escritor Franz Kafka, e sim, ele é referenciado na história mas de forma superficial, Kafka à Beira-Mar é o nome de uma música de sucesso que irá desnortear toda a vida deste rapaz. Ora, este Kafka é um rapaz de 15 anos apaixonado por livros que decide, por uma qualquer razão, sair de casa, deixando o pai sozinho. Ele vai encontrar as suas origens e procurar descobrir as razões que levaram a mãe a abandoná-lo em criança, levado consigo uma irmã que havia sido adoptada.

De tal forma é traumatizado pela perda destas duas figuras femininas que, qualquer que seja a mulher ou rapariga que vê na rua, pensa se aquela poderá ser a sua mãe ou a sua irmã. Essa condição leva-o a perder-se em pensamentos impróprios, quando por exemplo alguma rapariga o está a namoriscar. Quando se vê perante uma profecia, o mito de Édipo acaba por fazer parte de cada um dos seus passos.

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Fonte: http://rittlerion.com/timeline.html

No reverso da medalha está Nakata, um homem simplório. Ele revela características estranhas, mas que em nada melindram a sua sensibilidade e simplicidade. É genuíno, terno, age com o coração e não tem medo de admitir os seus problemas cognitivos e de parca cultura. É que um acidente quando criança fez com que Nakata fale com gatos e perceba o que eles dizem, ao mesmo tempo que perde quaisquer recordações do passado.

A realidade cai como um tampão em cima de Nakata quando, certo dia, para salvar a vida a uns gatinhos e impedir um estripador de gatos de cometer uma loucura, ele o mata. Esse homem diz chamar-se Johnnie Walker, como a figura da conhecida marca de whisky, com quem é estranhamente similar. Este acontecimento torna Nakata num fugitivo da polícia, ao mesmo tempo que a sua vida e a de Kafka se ligam pelas mais estranhas razões. É que os dois são oriundos do mesmo bairro, estão aparentemente ligados porum homicídio e, cada um com o seu caminho, vão parar em Takamatsu.

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Fonte: https://curiator.com/art/sam-bosma/kafka-on-the-shore

As personagens são muito bem construídas, intrigantes e enigmáticas até ao fim. Adorei a senhora Saeki e a jovem Sakura, o bibliotecário Oshima e o jovem camionista Hoshino, ou mesmo o falso Colonel Sanders da cadeia de fast-food KFC. São personagens cativantes e misteriosas, que nos fazem acompanhar a leitura de Kafka à Beira-Mar até ao seu termo com uma boa disposição constante, mesmo que a seriedade e a melancolia sejam constantes.

Este livro é um emaranhado de tramas cruzadas que não sabemos ao certo até que ponto se cruzam, de ligações subtis e de outras mais explícitas, mas é sobretudo mais um trabalho incrível do autor japonês. Por muitas que sejam as respostas que ficam por dar, a obra de Murakami deixa qualquer leitor mais rico, arrebatado com a capacidade de influenciar, bem como de interligar tantos pormenores inquietantes. Uma teia de profecias, analogias e metáforas que, mais uma vez, me deixou assoberbado.

Avaliação: 9/10

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