Estive a Ler: A Canção de Kali


Apenas uma mão pálida, branca como uma lesma à luz das estrelas, emergia do sudário de seda.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO A CANÇÃO DE KALI

Vencedor do World Fantasy Award de 1986, Song of Kali foi o primeiro livro publicado por Dan Simmons, notabilizado também pelas obras Hyperion (com quem venceu o Hugo Award), O Terror, O Mistério de Charles Dickens ou Clube de Patifes. Publicado em 1985, Song of Kali é uma mescla de thriller de terror, fantasia urbana e um fortíssima crítica socio-política.

Dan Simmons nasceu em Illinois, nos EUA. Depois de se licenciar em Educação na Universidade de St. Louis, foi professor durante 18 anos. A sua primeira história publicada saiu no mesmo dia em que a filha nasceu, coincidência que sempre viu como “uma ajuda para manter a perspectiva sobre a importância relativa da escrita e da vida”. O meu exemplar de A Canção de Kali é a edição especial de 2009 da Saída de Emergência, com tradução de João Barreiros e um total de 246 páginas.

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Sim, esta é a Kali 😀 | Fonte: https://gfycat.com/elaboratedefinitefreshwatereel

Por que razão li este livro, e por que o fiz neste momento? Duas perguntas para as quais não tenho resposta automática. De Dan Simmons só tinha lido O Terror e fiquei com uma vontade enorme de conhecer mais deste autor, que entrou directamente para a minha lista de referências literárias. Quis ter Simmons nas minhas primeiras leituras de 2020 e A Canção de Kali foi um pouco escolhido aleatoriamente, de entre as traduções feitas ao escritor no nosso país.

“É (…) um livro de leitura obrigatória.”

Só quando o livro me chegou às mãos é que percebi dois factos que elevaram em muito as minhas expectativas. A tradução era de João Barreiros, um dos meus preferidos a nível de autores nacionais, e o livro foi não só o primeiro publicado por Dan Simmons, como foi publicado exatamente em 85, o ano em que eu nasci. O prefácio de João Seixas e o posfácio de João Barreiros são muito bons, e sem spoilers acabam por falar muito do que é efetivamente este livro.

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Capa da Ed. Especial | Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/a-cancao-de-kali-edicao-especial/

A Canção de Kali foi uma boa surpresa. Não digo que é superior a O Terror, mas como livro de estreia não esperava mesmo que Simmons apresentasse já uma bagagem tão grande. É um livro inquietante a todos os níveis. Um livro desconcertante. Deixa-nos com um nó no estômago e com um azedo na boca. Deixa-nos desconfortáveis e é mesmo essa a intenção dele: fazer-nos refletir sobre muitos aspetos da nossa civilização. De certa forma, é um livro visionário.

As descrições da Calcutá de 1977 são fenomenais. A escrita de Simmons é fenomenal. Todo o ambiente é confrangedor, denso, poluente. As habitações são decrépitas. A higiene é escassa. Os seus habitantes aliam ao mau aspecto intenções dúbias. E é para esse mundo que o nosso protagonista é arrastado. Juntemos-lhe um culto a uma deusa de quatro braços que pratica sacrifícios humanos e um poeta indiano que parece ter regressado à vida depois de morto. Eram ingredientes suficientes para nos apaixonar como livro, não eram?

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Aí está ela | Fonte: https://gfycat.com/enormouspopularaustraliankelpie

Não é, porém, nenhum deles que nos confere a sensação de incómodo. É a própria sociedade indiana, senão mesmo a civilização moderna. A forma como as pessoas são discriminadas por casta, de um jeito tão costumeiro e leviano, a forma com que o contrabando não se importa minimamente com as vidas humanas ou com um mínimo valor, o desprendimento das pessoas, a passividade das autoridades, a importância que a imagem tem para os de estrato elevado. Uma bestialidade que me deu mais vómitos que as descrições mais nojentas de um leproso.

Dan Simmons alertou-nos em 1985 para os caminhos perigosos que a nossa sociedade estava a levar e, se em alguns pontos quero acreditar que nos melhoramos enquanto civilização, também muito me leva a crer que em outros continuamos e continuaremos a ser monstros para com os nossos iguais. Depois de ler este livro pergunto-me até que ponto o próprio Simmons não foi corrompido pelos ares poluentes desta “Canção de Kali”, com as posições que ultimamente tem defendido.

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Na cidade há coisinhas destas. | Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/viagem/noticia/2016/09/calcuta-a-dura-cidade-indiana-adotada-pela-santa-madre-teresa-7437240.html

O livro é protagonizado por Robert “Bobby” Luczak, um jornalista e editor que colabora nas revistas Harper’s Magazine e Other Voices. Junto com a sua mulher de origens indianas, Amrita, que lhe servirá como tradutora, e a filha bebé, Victoria, Luczak viaja a Calcutá para recuperar um manuscrito de uma raridade incalculável, para que venha a publicar o livro e um artigo sobre o mesmo. O seu autor é M. Das, um obscuro poeta indiano que morreu há quase dez anos. O manuscrito porém, é recente, e estranhos rumores alegam que o autor ressuscitou para escrever a obra.

Apesar de ser aconselhado por Abe Bronstein, o seu velho amigo editor, a não aceitar a missão, Luczak persiste na ideia de encontrar Das, certo de que este se manteve escondido em parte incerta durante aqueles anos. Quando chega à cidade, descobre que Calcutá é um lugar inusitado, mais hostil e poluído do que podia sequer imaginar. No aeroporto trava contacto com Krishna, com quem não enceta a melhor das relações, mas que lhe dá a conhecer pormenores sobre os terríveis cultos que grassam na cidade.

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Fujam!! | Fonte: https://gifs.alphacoders.com/by_sub_category/243130

Entre o hotel e os membros do Sindicato dos Escritores, em que Chatterjee se revela o expoente máximo da imbecilidade, Luczak tenta despachar o mais rapidamente possível os assuntos que o prendem ao lugar. O seu desespero para sair da cidade e levar consigo mulher e filha torna-se cada vez mais premente, mas algo o força a ficar. À medida que descobre mais sobre os cultos que visam invocar a Deusa da Morte Kali e libertá-la na Terra, percebe que A Canção de Kali começou a ser cantada, amarrando-o à cidade, e antes que a consiga travar, certamente enlouquecerá.

É, portanto, um livro de leitura obrigatória. Um livro que mexe com os temores mais básicos do ser humano. O medo de perder entes-queridos. O medo de enlouquecer. O medo de ficar de braços e pés atados. A atmosfera retratada por Simmons sobre a cidade de Calcutá é incrível, considerando que o autor tinha apenas estado ali dois dias quando escreveu o livro. Também na nossa realidade podemos ouvir essa canção, e devemos muito bem cogitar se não a auscultamos quando testemunhamos diariamente o horror retratado nos nossos telejornais.

Avaliação: 9/10

4 comentários em “Estive a Ler: A Canção de Kali

  1. Viva,

    Faço minhas as tuas palavras, adorei e foi recomentação do tio Barreiros, foi por ler este livro que depois li tudo do escritor, bem que podiam continuar a publicar mais livros dele 😀

    Abraço

    Fiacha

    1. Boas.
      Estou a ler o Clube de Patifes, já leste? 😊

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