Estive a Ler: O Armazém


Já foi há algum tempo que a gente conversou, hã?

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “O ARMAZÉM”

Uma das novas distopias sensação do momento, The Warehouse vem dar uma nova roupagem a ideias tão pertinentes e inquietantes trazidas a lume por clássicos como 1984, Admirável Mundo Novo ou Fahrenheit 451, obras referenciadas ao longo desta trama envolvente. O autor é Rob Hart, um dos novos grandes nomes da ficção distópica, que vê o seu trabalho reconhecido com uma futura adaptação para o grande ecrã pelo renomeado Ron Howard.

Um dos últimos lançamentos da Coleção Bang! de 2019, O Armazém é a tradução nacional de The Warehouse de Rob Hart. Hart trabalhou como editor, jornalista na área política e diretor de comunicação e o seu romance já foi traduzido em mais de vinte países. Atualmente vive em Nova Iorque com a mulher e a filha. A edição da Saída de Emergência tem um total de 384 páginas e tradução de Jorge Candeias.

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WTF! | Fonte: https://giphy.com/explore/wtf

Estava presente no Festival Bang! de 2018 quando foi anunciada a publicação de The Warehouse pela Saída de Emergência durante o ano de 2019. Nem à época, nem no decorrer das mais variadas chamadas ao livro no último trimestre do ano, O Armazém foi uma obra que me chamasse muito a atenção. O problema não foi, de facto, a publicidade. Só o anúncio de um thriller emocionante que funde o conceito de Big Brother ao do Big Business é um convite mais do que apetecível para qualquer leitor. A promoção foi fortíssima.

“O Armazém é a distopia dos dias de hoje e ela alerta-nos para os perigos que corremos num futuro muito, muito recente.

A questão é que eu não sou grande fã de distopias. Fahrenheit 451 de Ray Bradbury foi a melhor que já li, reconheço a grande qualidade de Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, 1984 de George Orwell, O Homem do Castelo Alto de Philip K. Dick, A História de Uma Serva de Margaret Atwood ou a bem mais recente O Poder de Naomi Alderman. São livros incríveis, necessários, obrigatórios, mas que não fazem mesmo o meu tipo de leitor, pelo mesmo motivo que acho o filme Joker de 2019 incrível e não consegui gostar muito dele. Porquê?

Sem Título
Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/o-armazem/

Porque todas estas obras se focam muito exclusivamente no pior que há na Humanidade. Causam desconforto, e é esse mesmo o objetivo. É por isso que eu digo que eles são imprescindíveis para estar alerta e é por isso que eu continuo a ler e a ver este tipo de trabalhos. Só que dificilmente eles entrarão no meu quadro de preferidos. Esse desconforto impede-me de gostar, impede-me de dizer “brutal!”, e acabo por analisar estes trabalhos e ver que eles se focaram nesse desconforto, descurando tudo o resto, worldbuilding, desenvolvimento de personagens, conteúdo. A questão é que esse não é o objetivo desses livros, e ainda bem que existe variedade para todos os gostos.

Estou a divagar, não é? Quero falar-vos de O Armazém. Este livro de Rob Hart não irá apaixonar quem como eu não se consegue apaixonar por distopias. Não tem uma prosa que possamos dizer maravilhosa. Não tem um elenco de personagens fascinante. Mas, ao terminar o livro, fico com a ideia que O Armazém precisa ser incluído nesse lote restrito em que colocamos as obras de Huxley, Orwell, Bradbury e companhia. O Armazém é a distopia dos dias de hoje e ela alerta-nos para os perigos que corremos num futuro muito, muito recente.

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Fonte: https://giphy.com/explore/breaking-bad

A Cloud é uma empresa gigante que domina a economia americana depois do desaparecimento do comércio “tradicional”, na sequência de uma série de assassínios em massa, conhecidos como o Massacre da Sexta-feira Negra. As pessoas receiam sair de casa e a Cloud faz-lhes chegar todo o tipo de bens, acabando por destruir todos os outros negócios. Digo-vos que os hambúrgueres da CloudBurguer são o máximo (ou não! quando lerem o livro vão perceber).

Como monopólio, a Cloud tornou-se também a principal (senão única) empregadora. E os seus trabalhadores também não precisam de se mover muito. É que eles vivem nas próprias instalações da Cloud (as imensas MotherClouds, verdadeiras cidades que parecem shoppings) e as suas avaliações são feitas por créditos. Água quente, cama e roupa lavada são providenciadas pela entidade empregadora, assim como os cuidados de saúde necessários. Só que há prós e contras e a vigilância aos seus trabalhadores é bem apertada, de modo que eles até têm horas para ir à casa-de-banho.

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A Cloud apresenta-se como um sonho tanto para consumidores como para os seus colaboradores, mas a experiência de trabalhar ali é bem diferente daquela que é veiculada pelos meios de comunicação. O livro é contado do ponto de vista de três personagens que estão diretamente relacionadas com a Cloud. Um deles é Gibson Wells, o CEO da Cloud. Trata-se de um visionário, um homem de mente arguta e um trabalhador dedicado, que como todo o patrão inteligente se mostra ao público como um benfeitor para com os seus colaboradores e um exemplo para as gerações seguintes.

A braços com uma doença terminal, Wells deixa o mundo em suspenso enquanto se aguarda o anúncio de quem o irá suceder na liderança da Cloud. Será Molly, a sua extremosa e dedicada esposa? A filha, Claire? Ou o seu vice-presidente, Ray Carson, que o ajudou a fundar a empresa? Preocupado com o seu legado e obstinado em visitar todas as instalações da Cloud e em cumprimentar todos os seus funcionários, Gibson Wells relata num blogue o dia-a-dia e os seus últimos dias de vida.

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Fonte: https://gfycat.com/tastyfatgrouper-the-mandalorian-carl-weathers-pedro-pascal

Zinnia é uma mulher de personalidade forte. Com um objetivo muito específico, ela infiltra-se como funcionária na MotherCloud e percebe a pouco e pouco as condições terríveis a que os funcionários estão submetidos. Horas para tudo, descontos salariais pelas mais pequenas “infracções” e até mesmo o assédio de alguns administradores, como o odiável Rick, que projeta algum medo por entre as mulheres que ali trabalham. Quando conhece Paxton, os planos de Zinnia saem do controlo.

Paxton é um antigo guarda prisional que decidiu fundar a sua própria empresa, mas com o crescimento em massa da Cloud e a desertificação de muitas cidades e terras pequenas, todos os negócios minguaram até desaparecerem e o seu não chegou sequer a saber o que era. Acaba por ser obrigado a ir trabalhar para a Cloud, onde face ao seu historial é colocado na secção de segurança, sob a alçada de Dobbs. Ali acaba por forjar uma relação fácil com o seu superior e também com Dakota, e uma menos fácil com Vikram. Mas tudo lhe foge do controlo quando se apaixona por Zinnia.

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Fonte: https://robwhart.com/2019/08/20/the-warehouse-is-here/

O Armazém é, para além de uma distopia, também uma história de amor. De um lado está Paxton, um homem justo e leal, fervoroso nos seus valores, mas também comodista, de certo modo frágil, facilmente manipulável. De certo modo, um falhado. Do outro está Zinnia, uma mulher bonita e insinuante, emocionalmente fortíssima, com objetivos muito bem traçados. É difícil para ela envolver-se ou gostar de alguém. É uma predadora, do tipo que precisa de ter as rédeas de qualquer situação a qualquer custo. Os dois apaixonam-se. A Cloud une-os e separa-os. Une-os e separa-os.

Assim como todas as distopias que já li, é um livro que termino com um amargo de boca. Foi um livro que me deixou a pensar. E que está muito mais próximo da realidade do que podemos por vezes imaginar. É o caminho para onde a nossa sociedade evolui, e esse é o seu real perigo. E esse é o real motivo pelo qual precisamos ler este livro. O mundo é credível, as personagens são credíveis, e O Armazém é um livro imprescindível para as gerações de hoje. Obrigado à Saída de Emergência por o publicarem.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 7/10

Imagem de capa: https://thewrangler.org/2019/11/19/the-warehouse-rob-hart-interview/ (Reprodução)

5 comentários em “Estive a Ler: O Armazém

  1. Viva,

    À muito que não venho cá (eu é que perco) e gostei de ler o teu comentário, mas tal como tu não sou adepto de Distopias por isso não devo ler mas pronto para já vou seguir uma recomendação tua e a ver se leio e divulgo já agora Assimov 😀

    Abraço

    Fiacha

    1. Muito bem. Grande abraço.
      Obrigado pelo comentário

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