Estive a Ler: O Gerente da Noite


O posto de observação de Jonathan era um pequeno recanto entre as duas elegantes vitrinas do átrio, ambas expondo modas de senhora.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO O GERENTE DA NOITE

John le Carré nasceu em 1931. Estudou em Berna e Oxford, foi professor em Eton e esteve durante cinco anos ligado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, sendo primeiro secretário da Embaixada Britânica em Bona e, posteriormente, cônsul político em Hamburgo. Começou a sua carreira literária em 1961, tendo-se tornado um escritor mundialmente reconhecido com o livro O Espião Que Saiu do Frio, o seu terceiro. A consagração de le Carré deu-se com o excelente acolhimento que teve a célebre trilogia de Smiley.

The Night Manager de 1993 não obteve o mesmo sucesso que O Alfaiate do Panamá, O Fiel Jardineiro ou A Casa da Rússia, outros livros do autor, mas transformou-se também recentemente numa minissérie de TV aplaudida pela crítica, com Tom Hiddleston (Thor, Avengers) e Hugh Laurie (House M.D.) como protagonistas. O Gerente da Noite é também conhecido como o primeiro romance do autor pós-Guerra Fria. Em Portugal, chegou-me a edição de 2016 da D. Quixote, com um total de 608 páginas.

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Fonte: https://www.planocritico.com/critica-the-night-manager-minisserie/

Se nunca leram John le Carré, penso que este não seja o melhor livro para o fazer, mesmo se viram e adoraram a série de TV. É um livro típico do autor, um dos meus autores preferidos, e como tal gostei imenso também deste, mas não é nem de perto dos melhores. E emerge o leitor tanto na temática da luta contra o tráfico de armas que, quem fica entusiasmado com o plot novelesco que envolve o protagonista e o seu interesse amoroso acabará facilmente por se decepcionar.

“O livro denuncia a podridão do mundo, e aquilo por que têm de passar as almas que o tentam, de uma forma ou de outra, sarar.

Vi a série pelo menos um ano antes de ler o livro e a sensação com que fiquei foi que a primeira metade do livro é muito superior à série e a segunda metade francamente inferior. Estava na expectativa de ver algumas cenas que foram tão magistralmente interpretadas por Tom Hiddleston, Hugh Laurie, Olivia Colman e Tom Hollander e simplesmente não aconteceu nada daquilo. Não digo que foi por a série não ter sido completamente fiel ao livro, mas digo ainda bem que não foi.

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Fonte: https://www.fnac.pt/O-Gerente-da-Noite-John-le-Carre/a954183

A primeira metade de O Gerente da Noite é mais fiel, mas também de um jeito peculiar. John le Carré escreve como poucos e a sua prosa é um bálsamo do princípio ao fim. Quase que dou a nota máxima a qualquer livro dele muito pela prosa. Mas há n factores de interesse. As celeumas mundiais, as intrigas de espionagem, os perigos públicos da guerra e dos interesses corporativos. O autor faz isso como ninguém e neste livro volta a fazê-lo com maestria.

Apenas senti falta de mais tensão entre os protagonistas, senti falta de mais Jed, senti que a narrativa do meio para o fim se ateu muito às questões sócio-políticas e se afastou do fulcro narrativo, o triângulo amoroso e a confiança do traficante para com o infiltrado. De qualquer forma, é deliciosa a forma como le Carré apresenta as personagens, como as desenvolveu, todo aquele sumo de desconfiança, de empatia entre as personagens. A claustrofia da trama é excelente.

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Fonte: https://www.amc.com/shows/the-night-manager/talk/2016/02/tom-hiddleston-talks-playing-pine-john-le-carre-on-adapting-manager

Jonathan Pine é um ex-militar, veterano das campanhas no Iraque, que preferiu a vida discreta de um gerente no turno da noite de um hotel em Zurique e que foge a compromissos emocionais. Quando recebe um novo hóspede, porém, depressa se recorda de Sophie, a mulher que um dia lhe pediu ajuda e que morreu por isso. Era a amante do filho de uma família rica da cidade com ligações ao submundo do crime, que lhe passou para a mão uma pasta com documentos secretos.

Documentação essa que denunciava as actividades do multimilionário britânico Richard Roper, que traficava armas por detrás da fachada de empresário legítimo. Jonathan Pine contactara o governo britânico, mas fora traído e a informadora brutalmente assassinada no hotel. Após os serviços secretos britânicos tomarem contacto com esse incidente, colocam Jonathan Pine como agente infiltrado de um departamento de investigação britânica encabeçado por Leonard Burr.

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Fonte: http://www.fetchland.com/the-night-manager-part-two/

É fortíssimo o duelo de gigantes entre Jonathan Pine e Richard Roper, uma narrativa de emoção e redenção de um homem solitário e pouco dado a revelar-se, atido a valores, que acaba por encontrar-se a si mesmo no embate contra um criminoso internacional. O outro é visto pelo mundo como um empresário charmoso, um filantropo com berço de ouro e boa educação, com os tiques da alta-sociedade britânica, mas que na realidade ficou multimilionário a vender armas que espalham a carnificina um pouco por todo o mundo.

Tudo fica mais complicado quando Jonathan se sente perigosamente atraído por Jed, a jovem mulher de Roper, e percebe que nem todos acreditam nele com facilidade. Nem mesmo o magnata. No fundo, o que move Jonathan é ver um seu conterrâneo a espalhar o mal pelo mundo. O pior homem do mundo. Mas também o amor por duas mulheres: Sophie e Jed.

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Fonte: https://www.1843magazine.com/culture/the-daily/the-night-manager-i-spy-a-tv-hit

O Gerente da Noite é mais um livro incrível de le Carré, luxuoso, dono de um charme típido do autor britânico e exuberante pela atmosfera de mistério e pela complexidade nas relações humanas e interesses, tanto pessoais como colectivos. O livro denuncia a podridão do mundo, e aquilo por que têm de passar as almas que o tentam, de uma forma ou de outra, sarar.

A adaptação televisiva não lhe ficou aquém, tendo vencido mais prémios que o livro, o que é compreensível ao olhar para as duas plataformas. Ainda assim, a linguagem de le Carré, a sua prosa envolvente e a riqueza dos detalhes fazem-me dar mais valor ao romance, mesmo consciente de que se a série o seguisse à letra não seria tão boa como efectivamente foi.

Avaliação: 8/10

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