Resumo Trimestral de Leituras #21


O primeiro trimestre de 2020 terminou e chegou a altura de fazer o habitual resumo trimestral de leituras. Este último mês não tem sido fácil para ninguém, e a mim pessoalmente não me ajudou em nada na produtividade, nem a nível de leituras, nem de escritas. Ainda assim, mantive o ritmo ao nível dos três meses, com sete opiniões escritas em janeiro, sete em fevereiro e sete em março. Brandon Sanderson, com dois livros e duas BDs, e Dan Simmons, com dois livros, foram os autores mais lidos no primeiro trimestre do ano.

Optei por ler mais autores nacionais, tendo-me estreado com Afonso Cruz e António Lobo Antunes, e continuei a minha tarefa de conhecer clássicos. Lolita de Vladimir Nabokov foi o mais recente. Já entreguei os 10 pontos a um livro, Oathbringer de Brandon Sanderson, a melhor leitura do ano até ao momento. Houve, porém, várias surpresas agradáveis, como o segundo volume da série Fundação de Isaac Asimov, o sétimo álbum da série Harrow County de Cullen Bunn e Tyler Crook ou o livro Uma Coisa Absolutamente Incrível de Hank Green.

Sem TítuloTerminei 2019 a ler A Canção de Kali de Dan Simmons, leitura que opinei nos primeiros dias de 2020. Publicada pela Saída de Emergência com tradução de João Barreiros, a edição especial de 2009 tem ainda um prefácio de João Seixas e posfácio do tradutor. O livro, publicado em 85, o ano em que nasci, revelou-se uma boa surpresa. Não digo que é superior a O Terror, mas como livro de estreia não esperava mesmo que Simmons apresentasse já uma bagagem tão grande. O livro é protagonizado por Robert “Bobby” Luczak, um jornalista e editor que, junto com a esposa de origens indianas e a filha bebé, viaja a Calcutá para recuperar um manuscrito de uma raridade incalculável, para que venha a publicar o livro e um artigo sobre o mesmo. O seu autor é um obscuro poeta indiano que morreu há quase dez anos. O manuscrito porém, é recente, e estranhos rumores alegam que o autor ressuscitou para escrever a obra. Depois de ter lido em 2019 os dois primeiros volumes de The Stormlight Archive de Brandon Sanderson, The Way of Kings e Words of Radiance, não podia perder muito tempo a devorar o terceiro, também ele publicado pela Tor Books. Fui avisado, porém, que convinha ler a short-story de Brandon Sanderson Edgedancer, antes de avançar para o calhamaço de mil e tal páginas que é Oathbringer, ou deixaria escapar um bom punhado de referências. Depois de acompanhar a jornada de Lift, voltei a encontrar Shallan, Kaladin, Dalinar, Adolin e companhia e Oathbringer é mais um livro incrível de Sanderson, do melhor que tem sido feito em literatura fantástica. Eu só me pergunto que surpresas tem ainda o autor na manga, e o que ele ainda reserva para as minhas personagens preferidas.

Sem TítuloPublicados pela editora Devir em 2019, o segundo e terceiro volumes de The Promised Neverland vieram consolidar o que eu pensava do mangá. O argumento de Kaiu Shirai e a arte de Posuka Demizu não desiludem. Ambientada no ano de 2045, conta a história de cerca de quarenta crianças que vivem num orfanato no meio da floresta gerido por Isabella, que todos trata com carinho. Quando completam 12 anos, as crianças são levadas a pais adoptivos que prosseguem na sua educação. Ou… assim pensavam eles. As crianças são levadas a demónios, que os usam para comer os seus cérebros.  A série que aparenta ser facilmente comestível ou com ingredientes mais infantis revela-se sinuosa e cheia de ses, reviravoltas e subversões, acabando mesmo por testar os limites da humanidade e da malevolência humana. Publicado pela Saída de Emergência já em 2020 e opinado no dia do lançamento, Fundação e Império é o segundo volume da trilogia Fundação de Isaac Asimov, considerada a maior obra de ficção científica de todos os tempos. Numa primeira fase deste livro vemos as estratégias militares e políticas do Império e no novo comandante Bel Riose, sendo a segunda mais apelativa, com a perseguição à localização da Segunda Fundação por parte de um vilão mutante. Este volume cumpriu e elevou as minhas expectativas para com a saga. A prosa de Asimov é escorregadia e brilhante, a narrativa é basicamente apresentada através dos diálogos e o autor foi realmente incrível na maneira como o fez, conseguindo arrastar o leitor para aquela realidade inusitada sem precisar de qualquer infodump.

Sem TítuloTambém pela Saída de Emergência mas lançado ainda em 2019, O Armazém de Rob Hart é uma distopia imprescindível nos dias de hoje, e precisa ser incluída nesse lote restrito em que colocamos as obras de Huxley, Orwell, Bradbury e companhia. A Cloud é uma empresa gigante que domina a economia americana depois do desaparecimento do comércio “tradicional”, na sequência de uma série de assassínios em massa conhecidos como o Massacre da Sexta-feira Negra. As pessoas receiam sair de casa e a Cloud faz-lhes chegar todo o tipo de bens, acabando por destruir todos os outros negócios. A Cloud apresenta-se como um sonho tanto para consumidores como para os seus colaboradores, mas a experiência de trabalhar ali é bem diferente daquela que é veiculada pelos meios de comunicação. Paxton e Zinnia que o digam. Foi um livro que me deixou a pensar e que está muito mais próximo da nossa realidade do que podemos imaginar. Comecei fevereiro a ler Clube de Patifes de Dan Simmons, uma publicação Saída de Emergência com tradução de João Seixas. O livro é protagonizado por uma personagem fictícia, mas é Ernest Hemingway a personagem capital do livro. O agente do FBI Joe Lucas é contactado por J. Edgar Hoover a fim de manter debaixo de olho o famoso escritor. É que vive-se o auge da Segunda Grande Guerra e Hemingway pediu apoio ao governo americano para criar uma rede de espionagem a partir da sua residência em Cuba. Clube de Patifes traz ainda à tona escândalos e curiosidades, referenciando figuras da elite política da época e transformando celebridades em personagens decorrentes do livro.

Sem TítuloComa, de Robin Cook, foi publicado o ano passado em Portugal pela Bertrand, tendo, no entanto, sido publicado originalmente em 1977. Sendo um dos trabalhos percursores do chamado género thriller médico, não deixou de ser a minha primeira desilusão de 2020. Estava à espera de encontrar um thriller complexo e interessante, mas acabei por encontrar um mistério que me parece de clara resolução nos primeiros capítulos. O livro é, na maioria, passado num hospital. Nancy Greenly e Sean Berman, que ali foram internados para pequenas intervenções cirúrgicas de rotina, tornam-se inexplicavelmente vítimas da mesma surpreendente e horrível tragédia na mesa de operações. Os dois entraram em coma. Apesar dos conhecimentos médicos do autor, as relações são típicas dos romances de cordel, com poucas nuances em relação ao que nesta altura tanto foi já reproduzido nos media. Li o segundo e terceiro volumes da BD White Sand, a adaptação gráfica do romance inaugural de Brandon Sanderson, que nunca o chegou a publicar em prosa. O segundo volume tem arte de Julius Gopez, sendo substituído no terceiro álbum por Fritz Casas, com adaptação de Rik Hoskin.  A história de White Sand acompanha Kenton, líder de uma comunidade de Mestres de Areia. Apesar de ser mestiço, não só consegue tornar-se um acolent, como vencer o caminho de mastrell e tornar-se um. Não é um trabalho narrativo de grande complexidade, em comparação com The Stormlight Archive, por exemplo, mas não deixa de ser bastante interessante conhecer todos os trabalhos de Brandon Sanderson dentro do seu universo compartilhado – a Cosmere – e White Sand, como as restantes entregas do autor neste universo, é completamente “a minha praia”.

Sem TítuloPublicado pela G Floy Studio em 2019, a BD Huck tem argumento de Mark Millar e ilustrações de Rafael Albuquerque. Huck é um rapaz de 34 anos que trabalha numa bomba de gasolina e ajuda os seus vizinhos apenas por bondade, sem usar falsas identidades, fatos ou máscaras. As suas origens remetem-se ao dia em que foi abandonado à porta de um orfanato, dizendo para que os seus cuidadores o amem. Assim sendo, foi criado para fazer uma boa ação por dia. Apesar de ser uma premissa pouco inventiva, sem grandes guinadas do guião que nos deixem de boca aberta, é um volume auto-conclusivo bastante interessante e agradável de ler e de seguir. A arte de Albuquerque é a grande mais-valia do álbum. Publicado pela Alfaguara em 2012, Jesus Cristo Bebia Cerveja de Afonso Cruz conta a história de Rosa, uma rapariga inculta do campo, que chupa pedras para relembrar dores do passado. Foi criada no Alentejo, que a avó compara frequentemente a um cemitério. A avó, Antónia, está a definhar, e quer ir a Jerusalém antes de morrer. E a rapariga vê-se no epicentro de um escândalo sexual, entre a sua colega Matilde e o patrão, Santos & Santos. Tudo isto fica mais confuso com a chegada do professor Borja, obcecado pelas ciências, que se torna também ele obcecado pela rapariga. Com traços de humor negro, crítica social, religiosa e aos “bons velhos costumes”, Jesus Cristo Bebia Cerveja oferece uma narrativa que seria frugal, frágil e vulgar, não fosse a riqueza de detalhes, as metáforas e a escrita requintada que o autor oferece. Da prosa à narrativa, tudo neste livro foi para mim sui-generis, o que, não sendo de maneira nenhuma uma crítica, também não me arrebatou como por momentos julguei que fosse acontecer.

Sem TítuloPela TopSeller, Uma Coisa Absolutamente Incrível de Hank Green foi uma leitura estranha. Eu tinha as expectativas bem a zero em relação ao livro, e com uma certeza quase absoluta de que o iria odiar, pelas reminiscências que ainda trago do hype que este livro gerou e que se repercutiu em certas comunidades aquando do seu lançamento. Mas a verdade é que eu não só gostei como fiquei agradavelmente surpreendido com este livro de Hank Green, irmão do famoso escritor John Green. Protagonizado pela youtuber bissexual April May, ele fala sobre o lado negro da fama, sobre os amores platónicos dos fãs, sobre fake news, política, violência, Internet, a cultura dos likes e a importância das redes sociais, os ódios inflamados que elas despertam, e fala também sobre amizade, espírito de grupo, sobre as pessoas e as atitudes que realmente importam. Um livro que prende da primeira à última página. Comecei o mês de março com uma novidade da Saída de Emergência. As Sombras Eternas é o segundo volume da saga As Crónicas da Companhia Negra de Glen Cook, um livro escrito nos anos 80 e que é, sem dúvida, uma obra-prima da fantasia militar e do grimdark. O livro é passado vários anos após o final do primeiro volume. Especula-se que o Corvo e Amorosa tenham desertado da Companhia Negra para se juntar aos rebeldes devotos à Rosa Branca, mas Físico, o narrador da história, não o vê há anos e mantém viva a curiosidade para com o seu destino. Na cidade de Zimbro conhecemos Marron Cabana, um taberneiro, dono do Lírio de Ferro, e o mistério do Castelo Negro. As Sombras Eternas é uma prova física da capacidade incrível de Glen Cook para explorar cenários fictícios e desenvolver interações entre personagens com uma destreza e credibilidade relevantes.

Sem TítuloUma das novidades da G Floy Studio é o sétimo volume de Harrow County, As Trevas Aproximam-se, de Cullen Bunn e Tyler Crook. Para quem não se recorda, Harrow County é uma pequena vila isolada no Sul dos E.U.A., assombrada por um passado ligado ao sobrenatural. A jovem Emmy Crawford descobre da pior forma ter surgido no mesmo local onde uma mulher acusada de bruxaria morreu, quando estava prestes a completar dezoito anos. Após resolver uma série de questões e afastar as aparições macabras que assombravam o local, Emmy vê-se com mais problemas em mãos. Harrow County demorou a convencer-me, mas é seguramente das melhores histórias de horror que já vi escritas – e principalmente desenhadas – na minha vida. Assombroso! Pela Ala dos Livros chegou a nova obra-prima de um autor espanhol muito acarinhado no nosso país, Miguelanxo Prado, que estará em Portugal no Festival de BD de Beja e na ComicCon Portugal em 2020. O Pacto da Letargia é o primeiro volume da Trilogia do Tríscelo, uma visão inusitada por parte do autor galego sobre a natureza humana e a sua correlação com o meio ambiente, numa evidente crítica ambiental. Somos arrastados numa viagem por um mundo de faz de conta, onde a magia nos envolve num ambiente de secretismo sobre o impacto do Homem no planeta e no que é preciso para encontrar nele o equilíbrio. Prado sensibiliza-nos para o perigo em que a Humanidade se traduz para o meio ambiente, através de uma série de metáforas e de “brincadeiras” bem conseguidas. Com muita influência da cultura celta, o autor oferece uma história memorável e uma arte sem igual.

Sem TítuloPela G Floy, mas ainda um dos últimos lançamentos de 2019, chegou Dois Irmãos, a adaptação para novela gráfica do romance homónimo do autor brasileiro Milton Hatoum, pelas mãos dos também brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá, os gémeos mais famosos da nona arte. Dois Irmãos narra a história da relação conturbada entre dois irmãos de uma família de ascendência libanesa que vive em Manaus. A trama apresenta vários apontamentos em que os membros da família lidam com situações de ciúme, rancor e raiva que os anos teimam em não mitigar. Filhos de Halim e Zana, Yaqub e Omar vivem uma rivalidade desmedida, movida pela inveja e pelo desejo. É uma história familiar repleta de segredos obscuros e de cenas bem calientes, onde a sensualidade e o mistério caminham de mãos dadas. Com uma simplicidade incrível, Moon e Bá conseguem transmitir tudo isto a preto e branco, com uma certa dose caricatural. Uma publicação Relógio D’Água, Lolita de Vladimir Nabokov é um clássico da literatura, que foi adaptado para o cinema num filme de culto por Stanley Kubrick. Humbert Humbert é o pseudónimo do protagonista narrador deste livro, que conhecemos através dos seus relatos escritos numa espécie de diário que pretende publicar, e que é de certa forma romanceado para tornar menos chocante o seu apetite por meninas de doze anos. A mãos com o relato de uma relação doentia, Nabokov tem mérito em conseguir descrever bem a sociedade da época, mas o discurso repetitivo do protagonista, o seu fascínio absurdo por crianças e as fantasias que o autor se esforçou para que parecessem ao mesmo tempo poéticas e viscerais, são componentes que não deixam de ser perturbadoras e nojentas.

Sem TítuloO Arquipélago da Insónia de António Lobo Antunes foi publicado pela D. Quixote em 2008. Lobo Antunes apresenta-nos um protagonista sui generis, o neto de uma qualquer família abastada que, no regresso às suas origens alentejanas, revisita os rostos nas molduras de família e recorda, ou imagina, acontecimentos que marcaram a vida trágica dos mesmos durante o tempo em que aquela mansão foi habitada. É um livro que revela por camadas os eventos fulcrais de uma família e todos os preceitos que a vida rural obriga. Amores, ódios, assassinatos e traições permeiam grande parte da obra. Um relato que não deixa de ser entusiasmante mas que obriga o leitor a ser obstinado e perseverante, até chegar ao último terço do livro e finalmente compreender alguma coisa da história. A escrita é complexa e fenomenal, mas aquilo que ao fim se ganha não compensa a dificuldade de leitura. Mesmo assim, quero ler mais do autor. Também pela D. Quixote, O Gerente da Noite de John le Carré foi a minha última leitura do trimestre. Jonathan Pine é um ex-militar, veterano das campanhas no Iraque, que preferiu a vida discreta de um gerente no turno da noite de um hotel em Zurique e que foge a compromissos emocionais. Quando recebe um novo hóspede, porém, depressa se recorda de Sophie, a mulher que um dia lhe pediu ajuda e que morreu por isso. Após os serviços secretos britânicos tomarem contacto com esse incidente, colocam Pine como agente infiltrado de um departamento de investigação britânica encabeçado por Leonard Burr. Se nunca leram John le Carré, penso que este não seja o melhor livro para o fazer, mesmo se viram e adoraram a série de TV. É um livro típico do autor, um dos meus autores preferidos, e como tal gostei imenso também deste, mas não é nem de perto dos melhores.

Neste momento estou a ler O Trono Vazio de Bernard Cornwell, e em abril virão também opiniões de Stephen King, Philip Pullman e de Jo Nesbø. Fiquem por aí.

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