Estive a Ler: Windhaven


A tempestade bramira durante a maior parte da noite.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO WINDHAVEN

Windhaven é um livro de Ficção Especulativa escrito a quatro mãos por George R. R. Martin, o famoso autor de A Guerra dos Tronos, com Lisa Tuttle. O romance colige três noveletas escritas em separado, as duas primeiras publicadas numa revista de ficção científica, tendo sido então compiladas e publicadas em 1981 pela Timescape Books. O livro foi nomeado para o Locus Award como Melhor Romance de Ficção Científica em 1982, apesar de não ter vencido o prémio.

Martin e Tuttle foram assim uma das duplas bem mais sucedidas da literatura fantástica. Para além de premiada, a autora tem também ela um currículo notável e chegou a ser namorada do tio George. O livro chegou em 2013 a Portugal pelas mãos da Saída de Emergência, que publica regularmente o trabalho de George R. R. Martin no nosso país, mantendo o título original, embora o romance tenha chegado recentemente ao Brasil com o nome Santuário dos Ventos. A versão nacional tem um total de 336 páginas e tradução de Jorge Candeias.

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Os protagonistas | Fonte: https://www.artstation.com/artwork/1E2qG

George R. R. Martin é um dos meus autores preferidos e, como tal, parto para qualquer obra dele com alguma expectativa. Este Windhaven, no entanto, muito por ter sido escrito a quatro mãos com Lisa Tuttle, é um livro cuja leitura venho a procrastinar há cerca de sete anos, quando foi publicado em Portugal. A razão, ter desfolheado os primeiros capítulos e não ter achado nada apelativa a história. Este ano decidi enfrentar o monstro e ao chegar à última página vi confirmadas as minhas expectativas de há sete anos atrás.

“Dos tempos mortos às narrativas pouco interessantes, posso sublinhar, uma e outra vez, que o valor desta história reside apenas e só na sua mensagem.”

O melhor do livro é mesmo a escrita, tão à imagem de Martin que nem sempre é fácil distinguir onde termina o trabalho do autor daquele da escritora. Ainda assim, tenho algumas ideias, porque certas passagens e diálogos têm um tom muito bonitinho e até mais juvenil para terem sido escritas por ele (mesmo no início dos anos 80). Apesar de não me parecer completamente equilibrado a nível de escrita, a tradução deve também ter contribuído para uniformizá-la, o que resultou num trabalho bem conseguido.

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Capa Saída de Emergência | Fonte: https://www.wook.pt/livro/windhaven-lisa-tuttle/14930581

Mas se não apreciei o livro, tal se deve à história. Por bem construída que seja a protagonista, vemos o seu trajecto de vida ao longo das três partes, do prólogo e do epílogo, mas no percurso tudo o que ela pareceu fazer foi contestar as leis e as doutrinas vigentes. Mesmo sendo legítimas as suas razões e inspiradores os seus comportamentos, achei algo irreal que ela tenha passado a vida toda a fazer o mesmo. Tornou-se repetitivo e senti falta de mais. Mais ação, mais desenvolvimento de outras personagens, mais acontecimentos.

É uma protagonista cheia de si e com pouco espaço para criar empatia com o leitor. Dentro dela, querer poder fazer algo é o que baste para se decidir a mudar qualquer tradição, e no mundo real sabemos que isso não é assim tão simples. Por um lado, temos aqui um perfume a feminismo, de luta contra o preconceito seja ele qual for e essa mensagem é de facto significativa e importante. Por outro, porém, os autores não conseguem dignificar essa mensagem sem deixar de tornar a personagem narcisista, caprichosa e conflituosa. Não há um trabalho de fundo, um sentido de tato, uma pesquisa ou um aconselhamento por parte dela.

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Maris | Fonte: https://www.pinterest.pt/pin/804033339698883034/

A narrativa diz-nos que, há muitos anos, a tripulação de uma nave espacial sofreu um acidente e ficou presa num planeta bizarro polvilhado de ilhas ventosas, cujos mares se vêm prenhes de monstros carnívoros. Os sobreviventes do desastre baptizaram o planeta de Windhaven e adaptaram-se à vida local através de uma invenção digna de DaVinci: asas construídas a partir dos destroços da nave, capazes de fazer planar pessoas com o vento que abunda no planeta. A esses homens chamaram-se “voadores”, uma casta que logo se tornou de privilegiados, usufruindo de várias liberdades vedadas ao pessoal comum.

A nossa protagonista é Maris de Amberly, uma apanhadora de ameijoas que sonha em tornar-se voadora, deixando para trás uma curta vida ligada à terra. Os voadores são quem faz a ponte entre as ilhas que fazem parte de Windhaven, e é através deles que os habitantes das ilhas, conhecidos como “presos à terra” por não terem asas, conhecem notícias, canções e histórias. Tornam-se assim invejados por poderem atravessar oceanos, mas também heróis por enfrentarem as tempestades e a morte a cada golpe traiçoeiro do vento.

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Maris | Fonte: https://dinanorlund.wixsite.com/dinanorlund/mediatonic

O direito às asas é garantido por sucessão familiar, devendo ao filho primogénito de um voador herdar as asas do pai ao atingir a maioridade. Obstinada nos seus sonhos, a jovem Maris é adoptada por Russ, um voador que, na iminência de não deixar descendência, a escolhe para envergar as suas asas, treinando-a e transformando-a numa das mais respeitadas voadoras. No entanto, Russ acaba por ter um filho, o que fará com que Maris seja obrigada a ceder as suas asas. Uma contingência que a leva a enfrentar os estigmas e tradições dos voadores, os seus paradigmas e hierarquias, onde os destinos de cada um são determinados desde a origem.

Outro foco da trama reside em Coll, o irmão de Maris, o filho de Russ. Curiosamente, a ele que estão destinadas as asas do pai, não lhe interessa voar. Coll sonha tornar-se um cantor. Também de certa forma uma crítica à forma como a arte e os artistas são vistos muitas vezes pela sociedade em geral e pelos seus progenitores em particular, a história de Coll complementa muitas vezes a narrativa que envolve Maris e torneia-a com uma dose de humanidade, ou não fossemos compreendendo cada vez melhor a maneira de ser de Maris e do seu irmão.

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Os protagonistas | Fonte: https://www.pinterest.pt/pin/478155685410944873/

Personagens como Val, S’Rella, Garth, Evan, Dorrell ou Corm permeiam a narrativa de Maris, com as suas peculiaridades e interesses individuais que, em muitos momentos, colidem com os da protagonista, em outros fecundam as suas ideias de igualdade e de luta pelos direitos. Windhaven é sobretudo isto, um livro sobre luta pela igualdade, luta contra a discriminação, luta pelos sonhos. Cada pessoa deve seguir os seus sonhos sem ter as pernas cortadas só porque pertence a um determinado género, classe social, etnia ou orientação sexual.

Dos tempos mortos às narrativas pouco interessantes, posso sublinhar, uma e outra vez, que o valor desta história reside apenas e só na sua mensagem. Se ao início é difícil simpatizar com Maris, posso dizer que acabei por ignorar um pouco quem é a protagonista e tentar gostar dela, acabando por se tornar irrelevante. O livro em si não é enriquecedor, mas a história traz uma intenção positiva e fundamental, não só à época em que foi escrita, mas também nos dias de hoje.

Avaliação: 5/10

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