Estive a Ler: A Insustentável Leveza do Ser


Se cada segundo da nossa vida tiver de se repetir um número infinito de vezes, ficamos pregados à eternidade como Jesus Cristo à cruz.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

O checo Milan Kundera, que adquiriu a nacionalidade francesa após fixar residência em Paris em 1891 é autor de uma vasta obra que compreende poesia, ensaio e romance. Considerado um dos mais importantes escritores do século XX, tem em A Insustentável Leveza do Ser a sua obra mais aclamada tanto por leitores como na crítica. Kundera venceu em 1973 o Prémio Médicis, em 78 o Prémio Mondello, em 81 o Prémio Common Wealth, o Prémio Jerusalém em 1985 e o Prémio Independent de Literatura Estrangeira em 1991.

A Insustentável Leveza do Ser foi publicado pela primeira vez em 1984, tendo-se tornado um dos clássicos da literatura moderna e sendo adaptado para o cinema em 1988, num filme dirigido por Philip Kaufman e Daniel Day-Lewis e Juliette Binoche nos papéis principais. Li a edição de 2017 da D. Quixote, com tradução de Joana Varela e um total de 400 páginas.

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Sabina no filme de 88 | Fonte: https://litreactor.com/columns/advice-from-a-literary-character-sabina-from-the-unbearable-lightness-of-being

É um livro diferente do que esperava. A Insustentável Leveza do Ser é um mix de metáforas e de experiências bem conseguidas, um verdadeiro retrato de uma sociedade específica, uma obra de arte, goste-se ou não. E, pessoalmente, não gostei. As reflexões do autor são muito interessantes e bem exploradas, mas não me acho o público alvo do livro. Esbarrei em reflexões mais do que feitas e em verdades de la Palice.

“Cabe a cada um tirar as suas reflexões no final desta leitura.

A escrita não prima pela subtileza. Aqui e ali bem elegante, também oscila entre o requinte com uma cerca criancice, mistura pouco consistente mas que mesmo assim, bem misturada, se revela charmosa. Em alguns momentos teria preferido tirar certas ilações por mim mesmo, e Kundera escrutina bastante as suas interpretações sobre a natureza humana.

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Capa | Fonte: https://www.leyaonline.com/pt/livros/romance/a-insustentavel-leveza-do-ser-2/

A Insustentável Leveza do Ser explora muito os meandros das relações de amor, o porquê da traição e a definição de liberdade, mas o separar de águas entre a relação carnal e a sentimental nem sempre é bem conseguida de uma forma cabal, caindo em determinados momentos em definições generalizadas que iriam sempre depender da natureza individual de cada personagem. Kundera insistiu bastante nesse ponto, o que desgastou a narrativa.

O livro também transporta uma forte carga filosófica e política, muitas vezes de forma paradoxal ao longo da narrativa. No início do livro, o autor levanta uma questão que toma de assalto a narrativa, se torna de certa forma preponderante e para a qual procura responder ao longo do livro, com o peso e a leveza nos dois pratos da balança. Contrapondo a teoria do eterno retorno de Nietzsche, ele questiona se, ao termos apenas uma vida, uma única oportunidade de fazer algo nela, o ser se constitui então de leveza.

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Filme de 88 | Fonte: https://www.imdb.com/title/tt0096332/mediaviewer/rm4096544256

A narrativa permeia quatro personagens e momentos distintos. Tomas, Tereza, Sabina e Franz são os protagonistas, que vamos conhecendo cada vez melhor ao longo das sete partes do livro. Há ainda a cadela Karenine que é chamada de cão, que para mim se revelou a única personagem digna de respeito no final das quatrocentas páginas do romance. Mas isso são outros quinhentos.

A história passa-se na Praga do século XX, na altura das invasões russas à Checoslováquia, pelo que é bastante marcada pelos celeumas que aí nasceram. Como pano de fundo conhecemos a Primavera de Praga, um período de liberalização política durante a época do domínio pela União Soviética após a Segunda Guerra Mundial, a influência do regime comunista sobre a Europa de Leste/Central. É neste contexto que vamos conhecendo os amores, tensões e dúvidas existenciais dos quatro protagonistas.

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Filme de 88 | Fonte: https://www.imdb.com/title/tt0096332/

As personagens estão todas ligadas de certa forma, uma vez que Tomas é marido de Tereza, mas tem como amante Sabina, que também amante de Franz. Ao longo da obra vamos vendo como os enredos se vão cruzando e entrelaçando tendo a opressão, as perseguições políticas, a demanda por um amanhã melhor e a fuga à prisão do exílio, da fidelidade e das ânsias de cada um como variáveis numa constante de grande inquietação.

Não apreciei o livro como devia ter apreciado, talvez, mas acabei por entender e reverenciar certas mensagens. Como um todo, não chegou para me agradar. Destaco a ironia vívida do autor, o recurso a ditados alemães e as várias referências a Nietzsche, Beethoven e um vagão cheio de perspectivas. Cabe a cada um tirar as suas reflexões no final desta leitura.

Avaliação: 4/10

3 comentários em “Estive a Ler: A Insustentável Leveza do Ser

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