Estive a Ler: O Círculo de Júpiter


Se os cavalheiros nos derem licença…

O texto seguinte aborda o livro O Círculo de Júpiter (Formato BD)

A prequela de O Legado de Júpiter chegou finalmente à G Floy Studio Portugal, com todos os seus 12 números (dois álbuns no original, num único livro). O autor é o célebre Mark Millar, escritor de muitas séries de comics aclamadas, muitas das quais já foram adaptadas ao grande ecrã, estando muitas outras em adaptação para o cinema e, depois da recente aquisição da Millarworld pela Netflix, para a televisão. A G Floy tem vindo a editar uma parte importante da sua obra de BD independente, com inúmeros títulos já publicados, como O Legado de Júpiter, Kick-Ass, Huck, Kingsman, Némesis, entre outros.

A arte de O Círculo de Júpiter está a cargo de uma mão-cheia de desenhadores que procuraram recriar um estilo limpo e direto que evocasse a Silver Age dos comics, com os seus toques de pop-art. Wilfredo Torres é um dos principais desenhadores do livro, com uma carreira já longa por várias editoras americanas. Tal como ele, os outros desenhadores da série colaboraram pela primeira vez com Millar neste livro. David Gianfelice é um artista italiano com carreira nos fumetti, mas com trabalhos assinados também na Marvel e na Vertigo (Northlanders). E Chris Sprouse é bem conhecido dos fãs de comics pelo seu trabalho em inúmeros títulos e séries, mas sobretudo em Tom Strong, com Alan Moore, uma personagem que evoca de certa maneira o mundo aparentemente inocente e brilhante de O Círculo de Júpiter.

Fonte: G Floy Studio

A verdade é que terminei os dois volumes de O Legado de Júpiter com um gosto agridoce nos lábios. A premissa é muito interessante, ou não subvertesse ela a imagem dos super-heróis despojados de defeitos e nos apresentasse uma boa remessa deles, já a chegar à terceira idade e com a difícil tarefa de lidar com as taras e manias dos filhos, que cresceram toldados pela imagem de celebridades, com todos os vícios associados à fama. Mas a execução deixou algo a desejar, pelo menos na minha ótica, que “não adorei” aquela série. Talvez por isso tenha partido para O Círculo de Júpiter com algumas reservas.

Este álbum apresenta os nossos heróis caídos nas vicissitudes de uma vida supérflua.

Trata-se de uma prequela de O Legado de Júpiter. Ela apresenta-nos esses mesmos super-heróis que conhecemos aposentados, mas não pensem que vamos conhecer típicos super-heróis da DC ou Marvel. Eles são mundanos e cheios de problemas do quotidiano, mas são os seus comportamentos e quezílias familiares que dão força e substância a esta BD, que se revelou uma surpresa bem mais positiva do que eu estava à espera. Millar apresenta aqui uma frivolidade que nos remete para os tempos idos da nona arte, e que me soube extremamente bem revisitar, nesta leitura coerente e imersiva do autor escocês.

Fonte: G Floy Studio

O Círculo de Júpiter apresenta-nos a primeira geração de seres humanos com super-poderes, e explica a origem dos conflitos, ressentimentos e rivalidades entre eles, que pudemos observar em O Legado de Júpiter. Mais mais do que mostrar uma era ideal, Millar confronta os leitores com o facto de que a era dourada não foi essa pátina cor-de-rosa, que preconceitos de raça, de género e de ideais políticos moldaram e desfiguraram as ações das suas personagens, pelo meio de cenas de sexo, bebedeiras e drogas, enganos e traições.

Este álbum apresenta os nossos heróis caídos nas vicissitudes de uma vida supérflua. As mentiras, as falsidades e o álcool são os melhores instrumentos para lidar com os embustes e com a solidão. Estamos nos anos 50, nos EUA, onde os maiores super-heróis vencem com facilidade os inimigos mais poderosos, mas revelam dificuldades em superar os seus traumas e problemas do dia-a-dia. Com uma abordagem política muito interessante, temas fracturantes e cenas polémicas, este livro é um espelho da sociedade e dos seus esforços para camuflar potenciais alvos de censura pública.

Fonte: G Floy Studio

Sheldon, Walter, Grace e companhia são personagens que Mark Millar descreve com tenacidade e contexto, mostrando-nos um mundo de intermitência e desconfiança, onde os custos pessoais revelam-se como preços demasiado altos a pagar. A arte, levada a cabo desta feita por vários artistas mas com especial incidência por Wilfredo Torres, Davide Gianfelice, Chris Sprouse, Ty Templeton e Rick Burchett, acompanha com destreza e o cunho ideal esta narrativa tortuosa que Millar começa e finaliza com grande eficácia.

O volume apresenta ainda algum material extra, com cada issue dividido através da capa original da autoria de Frank Quitely na primeira série e Bill Sienkiewicz na segunda, para nos regalar no final do álbum com as dezasseis minibiografias de argumentista, desenhadores, arte-finalistas, coloristas, designer, ilustradores de capas e editores originais, mas também duas capas alternativas. A obra de Millar é propriedade da Netflix, que planeia a adaptação de O Legado de Júpiter a série televisiva, ainda sem data prevista de estreia.

Avaliação: 9/10

2 comentários em “Estive a Ler: O Círculo de Júpiter

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