Estive a Ler: Equador


As ilhas são lugares de solidão e nunca isso é tão nítido como quando partem os que apenas vieram de passagem e ficam no cais, a despedir-se, os que vão permanecer.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO EQUADOR

Jornalista português, Miguel Sousa Tavares nasceu no Porto, sendo filho da poetisa Sophia de Mello Breyner e do advogado e jornalista Francisco de Sousa Tavares. Depois de se ter licenciado em Direito, exerceu advocacia durante doze anos, mas abdicou definitivamente desta profissão para se dedicar em exclusivo ao jornalismo. Foi um dos fundadores da revista Grande Reportagem em 1989, publicação da qual se tornou diretor logo no ano seguinte.

Miguel Sousa Tavares estreou-se no romance com a obra Equador, que, editado pela primeira vez em 2003, vendeu mais de 250 mil exemplares, tendo sido reeditado no mesmo ano, pela Oficina do Livro. O sucesso desta obra foi tão grande que, posteriormente, acabaria por ser lançada em vários países. Equador foi adaptado para a televisão pelas mãos do argumentista Rui Vilhena, numa série da TVI com Filipe Duarte, Maria João Bastos, Marco D’Almeida e Alexandra Lencastre como protagonistas.

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Série de TV | Fonte: https://tviplayer.iol.pt/programa/equador/5bbca4140cf2be35e247baf1

Nunca tinha lido antes Miguel Sousa Tavares e, pessoalmente, não sou fã da sua pessoa enquanto comentador e crítico. Equador, porém, arrisco-me a dizer que é uma obra que transcende o seu escritor e depois de ter assistido à série de televisão, tive a certeza que ler o livro seria só e apenas uma questão de tempo. Assim o foi e, se já tinha ficado assoberbado pela adaptação, posso dizer que o romance veio ao encontro das minhas melhores expectativas.

Equador é um livro para apaixonar todos os que têm curiosidade sobre o nosso passado comum, mas também para todos os que gostam de ler sobre relações humanas.”

A linguagem de Sousa Tavares é elaborada sem ser abstracta, a sua maneira de descrever cenários bastante clara sem cair em descrições exageradas. O foco da sua escrita está nos diálogos, na explicação dos sentimentos que os protagonistas vivem e no seu desenvolvimento, nas relações humanas e nas emoções que perpassam a vida desterrada de personagens cosmopolitas, numa ilha isolada no fim do mundo. É também o contexto sócio-político e a forma como ele é transmitido ao leitor uma das mais-valias da obra.

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Capa Oficina do Livro | Fonte: https://www.goodreads.com/es/book/show/2373424.Equador

Esperava realmente algo mais complexo e enfadonho. Equador acabou por ser uma surpresa positiva nesse aspecto, porque embora as conversas de teor político em alguns momentos se revelem exaustivas, são também bastante claras no que diz respeito aos contornos sociais que se viviam à época e que, num espectro largo, são o verdadeiro cerne do livro. Acima de tudo, a obra é credível e essa é uma das suas características mais encantadoras.

Se a vertente sócio-política é um dos pilares da obra, o romance é outra das grandes vertentes da mesma. O amor obsessivo, a paixão assolapada, o romance ocasional e a rotina de bon-vivant do protagonista são os momentos mais marcantes deste livro, que está repleto de cenas de sexo bem descritas de forma elegante, que revestem o romance Equador de um exotismo selvagem.

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Os protagonistas na série | Fonte: https://www.tvtime.com/pt_PT/show/157401

Luís Bernardo Valença é um jovem empresário lisboeta, do início do século XX. Dotado de visão estratégica, facilmente se apercebe que as potências estrangeiras tentam, sob a capa de um “humanismo hipócrita”, eliminar a concorrência dos produtores portugueses de cacau, alegando o uso ilegal do trabalho escravo e incentivando o boicote à compra do cacau de São Tomé. Em dezembro de 1905, depois de escrever um artigo a denunciar a situação, é convidado pelo próprio rei D. Carlos a visitá-lo em Vila Viçosa.

Não imaginava, porém, o que o futuro lhe reservaria. Não sabia que teria de trocar a sua vida despreocupada na sociedade cosmopolita de Lisboa por uma missão tão patriótica quanto arriscada: ser governador das ilhas de S. Tomé e Príncipe durante três anos, sendo-lhe atribuída a missão de averiguar se havia ou não trabalho escravo na referida colónia e convencer o cônsul inglês de que o trabalho escravo em Portugal já fazia parte do passado.

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João Forjaz, o melhor amigo de Luís Bernardo | Fonte: https://www.tvtime.com/en/show/157401

Não esperava também que o cargo de governador e a defesa da dignidade dos trabalhadores das roças o lançassem numa rede de conflitos de interesses com a metrópole, nem que a descoberta do amor lhe viesse a mudar a vida. O protagonista estabelece uma relação de respeito e amizade para com o cônsul inglês, David Jameson, que havia sido enviado das Índias para São Tomé por ter acabado de destruir uma carreira politica promissora devido ao seu vicio pelo jogo.

Como “despromoção” foi-lhe oferecido o cargo pois, apesar de tudo era um homem correcto e respeitado. Luís Bernardo encantou-se pelo inglês, sem esperar que se viria a apaixonar pela mulher do mesmo, a bela Ann, que o envolve numa rede de erotismo e de traição. O governador vê-se então confrontado com os interesses sub-reptícios e tão pouco transparentes dos que querem camuflar o trabalho escravo nas roças, bem como dos que apenas se preocupam com a concorrência que os produtos das colónias lhes traziam.

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Maria João Bastos como Ann Jameson | Fonte: https://espalhafactos.com/2020/04/17/filipe-duarte-equador/

A chamada “hipocrisia humanística” do governo é uma das vertentes mais exploradas por Sousa Tavares neste romance de culto, inspirado e inspirador, onde personagens incríveis nos subjugam com os seus traços e peculiaridades. Do velho nativo Sebastião, sempre na sombra de Luís Miguel, ao calor familiar da roceira Maria Augusta da Trindade, até à aura esclavagista do coronel Mário Maltez, da roça Rio do Ouro, a riqueza de todos eles trazem uma mais-valia à obra.

Mas são os protagonistas, Luís Bernardo Valença, David e Ann Jameson que trazem uma profundidade ao livro incapaz de ser traduzida em meras palavras. O sentido de justiça, de fraternidade e, numa última instância, de desejo sôfrego e de traição “natural” são nuances que conferem magia a este livro. Equador é um livro para apaixonar todos os que têm curiosidade sobre o nosso passado comum, mas também para todos os que gostam de ler sobre relações humanas.

Avaliação: 9/10

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