Estive a Ler: A Peste


A própria cidade, confessemo-lo, é feia.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO A PESTE

A Peste (La Peste) é considerada a obra maior do autor franco-argelino Albert Camus, publicada em 1947, e conta a história de um grupo de trabalhadores que descobre a solidariedade no decorrer de uma peste que assola a cidade de Oran, na Argelia. Camus licenciou-se em Filosofia, participou na Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial e foi então um dos fundadores do jornal de esquerda Combat. Em 1957 foi consagrado com o Prémio Nobel da Literatura pelo conjunto de uma obra que o afirmou como um dos grandes pensadores do século XX.

Dos seus títulos ensaísticos destacam-se O Mito de Sísifo (1942) e O Homem Revoltado (1951), enquanto que na ficção, importa referir as obras O Estrangeiro (1942), A Peste (1947) e A Queda (1956). A 4 de janeiro de 1960, Camus morreu num acidente de viação perto de Sens. Na sua mala levava inacabado o manuscrito de O Primeiro Homem, texto autobiográfico que viria a ser publicado em 1994. A Peste foi publicada pela Livros do Brasil, com um total de 264 páginas e tradução de Ersílio Cardoso.

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Camus, A Peste | Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=3KZ_y_uzD0k

É numa altura em que o nosso mundo se vê a braços com uma pandemia que me decidi a ler A Peste de Albert Camus. E, ao pôr os olhos neste livro, pareceu-me estar a ler uma descrição da nossa realidade actual. Do pânico generalizado às reservas para com as medidas profiláticas, Camus tem aqui uma obra visionária que espelha com exatidão aquilo que pode acontecer – e que acontece – quando o mundo se vê a braços com uma epidemia. No caso do livro, uma epidemia causada por ratos.

“Albert Camus também nos mostra que não há mal que sempre dure.”

Importa reter que a intenção do autor não era apontar curas ou caminhos para resolver uma epidemia, mas sim aquilo que os homens fazem e deviam fazer para sobreviver durante uma tragédia deste género, focando-se sobretudo na entreajuda e na solidariedade entre os homens. Camus não fala exclusivamente de uma peste, mas usa esta peste como metáfora para os horrores que o mundo viveu aquando da Segunda Guerra Mundial.

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Capa | Fonte: https://www.livrosdobrasil.pt/produtos/ficha/a-peste/15327871

Num dia como tantos outros, na aparente feliz cidade de Oran, na Argélia, bem de frente para o mar Mediterrâneo, um rato saiu das sombras e veio morrer ensanguentado na rua. Pensou-se que era apenas uma brincadeira de jovens, até que dezenas, centenas e depois milhares de ratos se espalharam portos pela cidade, que continuou a agir para com a situação com indiferença. Só quando começaram a morrer pessoas é que as coisas mudaram.

A quantidade de ratos parecia aumentar em larga escala, de dia para dia. Os ratos começaram a ser queimados. Num único dia, oito mil ratos foram reunidos e encaminhados para cremação. A cidade entrou em pânico. As pessoas tinha febre, gânglios inflamados e as mortes multiplicavam-se. Foi decretado um “estado de praga”, foram fechadas as cidades e a quarentena foi instaurada. A expansão da doença era uma preocupação premente por parte das autoridades.

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Fonte: https://www.theamericanconservative.com/articles/how-generals-fueled-1918-flu-pandemic-to-win-their-world-war/

O protagonista é o doutor Bernard Rieux, mas há outros personagens incríveis, como Jean Tarrou, o contrabandista Cottard, o jornalista Raymond Rambert, fechado na cidade, ou o padre Paneloux, que faz jus ao clássico sacerdote que caracteriza a praga como um castigo para os ímpios e acaba por ser vitimado por ela. Rambert simboliza aquele que se vê imbuído de um pânico preambular, desejoso de reencontrar a esposa em França, até que se resigna à realidade e percebe que a única forma de o vir a fazer não é com pânico, mas com entreajuda.

Camus era anti-clerical e isso é visível na sua narrativa, mas acima de tudo ele expõe várias hipocrisias, transversais a toda a sociedade. Questiona diversos assuntos relacionados com a natureza do destino e com a humanidade, desvendando através das várias personagens do livro os efeitos que uma praga destas dimensões causa na sociedade. E, nos dias de hoje, temos a prova viva de que as suas conclusões não podiam ser mais acertadas.

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Fonte: https://saude.abril.com.br/blog/boa-pergunta/a-peste-bubonica-pode-voltar-a-ameacar-o-mundo-e-o-brasil/

O livro tencionava, porém, ser uma crítica ao nazismo. Ele revela a importância da solidariedade entre as pessoas e mostra, realmente, como uma guerra e uma epidemia podem ser tão similares em reacções e consequências. Camus toca nas feridas, ao mesmo tempo que levanta questões fracturantes para a sociedade enquanto comunidade, e no quanto estamos alicerçados na nossa individualidade, quando o grupo, a união, são as respostas de sempre.

Albert Camus também nos mostra que não há mal que sempre dure. Um dia, a epidemia acaba. Como a guerra. Não é apenas uma visão optimista, de esperança, para quem sofre. É uma realidade que é preciso reter e que o autor fez questão de sublinhar. Através de uma série de lições, onde o heroísmo e o egoísmo se distinguem com uma clareza notória, o autor traz um excelente espelho de uma realidade que nunca nos esteve tão presente.

Avaliação: 7/10

2 comentários em “Estive a Ler: A Peste

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