Resumo Trimestral de Leituras #22


Chegamos ao final do segundo trimestre de 2020, um ano que não tem sido o melhor pelos mais diferentes motivos. A publicação tem oscilado bastante, com 10 opiniões publicadas em abril, 7 em maio e 9 em junho. A produtividade também tem sido inconstante, mas sem grandes quebras por enquanto. Alguns livros acabaram por ver as suas opiniões mais atrasadas, e dois dos livros estabelecidos para o desafio semestral não entraram nas contas para este primeiro semestre de 2020.

Jeff Lemire e Mark Millar acabaram por ser os autores mais lidos este segundo trimestre, com três bandas-desenhadas cada. Na prosa, é Stephen King o repetente, com dois livros lidos em abril (Carrie e Elevação) e um em maio (Firestarter). Neste segundo trimestre do ano nenhum livro levou a nota máxima, mas tive excelentes leituras, das quais destaco O Trono Vazio de Bernard Cornwell, O Boneco de Neve de Jo Nesbø e The Mad Ship de Robin Hobb. Fica com uma análise sucinta:

Comecei abril com O Trono Vazio, oitavo volume das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell, publicado pela Saída de Emergência. É um livro ligeiramente diferente dos antecessores, e apesar de ser bem menos tempestuoso, não é inferior em qualidade. O autor talvez tenha percebido que o esqueleto dos livros estava a tornar-se algo repetitivo e, apesar de o último volume ter sido delicioso, decidiu romper um pouco com a estrutura que vinha sendo habitual. O anterior foi melhor, tanto a nível de batalhas quanto no que diz respeito à inteligência estratégica do protagonista, mas este livro é um respirar fundo na saga. Apesar de ser um livro mais focado nas mulheres, Uthred é uma personagem cada vez mais icónica, tanto pela sua descontração, ardileza, como pela sua incoerência e resmunguice. Seguiu-se a BD O Homem que Matou Lucky Lucke, de Matthieu Bonhomme. Publicado pela editora A Seita, trata-se de um álbum cheio de surpresas, que alia um tom misterioso a grande fluidez narrativa, para além de preservar aquele tom frívolo que sempre permeou as aventuras de Lucky Luke. Este livro trata de questões como a xenofobia, o racismo e a ganância, ao mesmo tempo que melindra os fãs da personagem icónica da banda-desenhada, logo ao ler o título. Do argumento à arte, o artista francês faz jus à obra de Morris por ocasião do 70º aniversário da personagem, oferecendo uma nova roupagem ao célebre cowboy solitário sem lhe fazer perder a essência.

Uma edição Editorial Presença, Os Reinos do Norte é o primeiro volume da saga Mundos Paralelos de Philip Pullman. Já andava há uma série de anos para ler esta trilogia e só agora me decidi a pegar-lhe, tendo superado as minhas expectativas que, confesso, não eram as melhores. A história apresenta-nos o nosso universo metido numa aura Steampunk e é lá que conhecemos Lyra Belacqua, uma menina de 13 anos e cresceu no campus de uma prestigiada faculdade em Oxford, a Jordan. Foi ali deixada por um tio em bebé, Asriel, que de quando em quando a visita. São várias as referências a metafísica e física quântica que o livro contém, bem como incute ainda uma vertente anti-religiosa que é bem explorada. Pela G Floy chegou o quinto volume de Descender de Jeff Lemire e Dustin Nguyen. Ascensão das Máquinas é mais um volume extremamente emotivo, onde a interação entre as personagens, nomeadamente no modo como elas espelham o desolar daquele mundo em contraste com aquele em que também nós vivemos, se revela genial. Enquanto reencontra o seu “irmão” Andy e aliados e inimigos se cruzam nos céus por cima do Planeta Mata, nada poderia preparar TIM-21 para os segredos escondidos sob mares alienígenas. Ao longo do álbum, vemo-nos ancorados a uma empatia genuína para com os protagonistas, ao mesmo tempo que não temos mais do que a intenção de nos divertir com uma aventura intergaláctica sem grandes pretensões.

The Promised Neverland é um mangá publicado em Portugal pela Devir. No quarto volume, Quero Viver, uma vez mais escrito por Kaiu Shirai e ilustrado por Posuka Demizu, as memórias de infância de Ray vêm trazer informações adicionais ao grupo de jovens sobredotados, mas os planos de se magoarem para deixarem de ser perfeitos pode não bastar para ludibriar a sempre “extremosa” mãe. Este quarto volume de The Promised Neverland vem na linha dos anteriores, com uma ou outra revelações, mas sem grandes avanços narrativos. De certa forma, até o achei um volume mais estagnado, apesar de conhecermos melhor os meandros da Casa de Grace Field e das conspirações que envolvem o misterioso orfanato. Escalada é o quarto volume de The Wicked + The Divine de Kieron Gillen e Jamie McKelvie, publicado em Portugal pela G Floy Studio.  A narrativa é fantasia urbana pura e dura, cheia de referências e de upgrades em relação à actualidade do que se entende por cultura de massas, fama e tendências. A arte, embora de diagramação digital, é mesmo o ponto forte da série. Os desenhos são lindíssimos, expressivos e impactantes, as cores são fortes, em muitos tons de rosas, azuis e liláses. Mesmo que a história, que é boa, não me dissesse muito, a arte conquistava-me só por si.

Também pela G Floy e novamente por Jeff Lemire, desta vez também na arte, chegou Roughneck: Um Tipo Duro. Cheio de brancos que aludem não só à neve como à simplicidade gráfica do álbum, Roughneck é uma história realista e credível, mas também desesperante e inspiradora, sobre problemas, marcas do passado, fracassos, esperança e remissão. O traço de Jeff Lemire, a grande novidade deste livro, é uma boa surpresa. O protagonista é um antigo jogador de hóquei, Derek Ouelette, cuja carreira terminou envolta em tragédia há mais de dez anos, após um grave acidente no gelo. Vive desde então na pequena vila, entregue ao vício do álcool e a envolver-se frequentemente em brigas nos estabelecimentos em que passa os dias, mas o regresso da sua irmã vem mudar tudo. Não sendo qualquer coisa de arrebatadora, tem na sua simplicidade uma força incrível que consegue espelhar na perfeição as emoções das personagens. Pela Bertrand, Elevação de Stephen King é um pequeno livro repleto de mensagens morais, um abre-olhos para o mundo preconceituoso em que ainda vivemos. Acompanhamos a história de Scott Carey, um homem com mais de cem quilos acabado de se divorciar, bem sobrelotado de problemas, que se dá conta de algo: começou a perder peso diariamente de forma inexplicável, sem que aparentemente esteja mais magro. Trata-se de uma história necessária nos dias de hoje, demonstrando uma sociedade doente onde as diferenças de uns e de outros muitas vezes determinam o destino de pessoas normais.

Publicado originalmente em 1974, Carrie foi o primeiro livro de Stephen King. Dividido em três partes, o livro aposta numa narração em forma de factos, ou não fosse na maioria narrado através de recortes de jornais, artigos de revistas, cartas, diários e trechos de livros para contar como a menina Carrie White, vítima de bullying, destruiu a cidade fictícia de Chamberlain, no Maine, enquanto se vingava dos seus colegas sádicos e da sua própria mãe Margaret, uma fanática religiosa. É uma obra de horror puro, mas que horroriza sobretudo pelo comportamento humano, pelas obsessões religiosas e pela crueldade intrínseca à sociedade. Publicado pela D. Quixote, O Boneco de Neve de Jo Nesbø é um thriller envolvente, cheio de riqueza descritiva e técnica, que mantém o ritmo bem elevado do primeiro ao último capítulo. Quando o inspetor Harry Hole recebe uma carta do assassino que se auto-promove como O Boneco de Neve, nem imagina o que esse título significa. Somente após descobrir alarmantes traços em comum entre vários desaparecimentos na Noruega, se dá conta que está envolvido numa trama muito maior. Para deter o primeiro assassino em série da Noruega, terá ainda que lidar com a sua nova parceira, Katrine Bratt, e com o preconceito de toda a classe. É um policial à minha medida, cheio de reviravoltas e de contradições bem explicadas.

Pela Saída de Emergência, Windhaven é um livro a quatro mãos escrito por George R. R. Martin e Lisa Tuttle, cuja leitura tinha vindo a procrastinar há cerca de sete anos, quando foi publicado em Portugal. Ele acompanha Maris de Amberly, uma apanhadora de ameijoas que sonha em tornar-se voadora, deixando para trás uma curta vida ligada à terra. Os voadores são quem faz a ponte entre as ilhas que fazem parte de Windhaven, e é através deles que os habitantes das ilhas, conhecidos como “presos à terra” por não terem asas, conhecem notícias, canções e histórias. Se ao início é difícil simpatizar com Maris, posso dizer que acabei por ignorar um pouco quem é a protagonista e tentar gostar dela, acabando por se tornar irrelevante. O livro em si não é enriquecedor, mas a história traz uma intenção positiva e fundamental, não só à época em que foi escrita, mas também nos dias de hoje. E depois, mais uma vez G Floy, mais uma vez Jeff Lemire. Com arte de Andrea Sorrentino, Pecados Originais é mais um álbum riquíssimo do autor canadiano, tratando-se do segundo volume da série de horror Gideon Falls. As vidas dos dois protagonistas, um jovem obcecado por catar no lixo “artefatos” de uma conspiração que parece existir apenas na sua cabeça, e um fracassado padre católico numa pequena cidade cheia de segredos obscuros, entrelaçam-se perigosamente em torno da misteriosa lenda do Celeiro Negro, uma estrutura sobrenatural que aparece e reaparece ao longo da história, na cidade grande e na cidade pequena, trazendo a morte e a loucura na sua esteira.

Ainda pela G Floy li os volumes dois e três da série Criminal, de Ed Brubaker e Sean Phillips. Sem apresentar uma sequência obrigatória de leitura, as histórias de Criminal são avulsas e vários núcleos que se cruzam, ou não fossem todas elas passadas em Center City, tendo os protagonistas índoles e motivos também eles idênticos. Se o primeiro volume foi um festival de tiroteios, desacatos e promiscuidade, estes segundo e terceiro álbuns seguem-lhe o exemplo. Não estando entre os meus trabalhos preferidos da dupla, Criminal confirma a sua incrível capacidade de contar histórias de uma forma realista, sem descurar a tradicional reflexão à natureza humana que Brubaker e Philips tão bem espelham nos seus trabalhos. Seguiu-se Firestarter de Stephen King. Charlie McGee é uma menina incendiária, devido ao talento de pirocinésia. O seu talento deriva de uma droga tomada pelos seus progenitores. Andy e Vicky eram apenas jovens universitários a precisar de dinheiro quando aceitaram servir de cobaia a experiências científicas de uma organização governamental clandestina conhecida como The Shop. As consequências foram o surgimento de estranhos poderes psíquicos, que se tornaram ainda mais perigosos quando os dois se apaixonaram e tiveram uma filha. Não me tendo desiludido em nenhum ponto e até tendo alguma convicção de que se o tivesse lido há alguns anos, me teria deliciado com ele, acabei por não achar o livro nada de especial. Apesar da premissa interessante, o desenvolvimento é cliché e achei o final sem sal.

Terminei maio com dois clássicos. As Vinhas da Ira de John Steinbeck foi publicado pela Livros do Brasil. Um testemunho credível das consequências da Grande Depressão nos EUA, o livro conta o que acontece quando os Joad perdem a quinta de que eram rendeiros no Oklahoma, juntando-se a milhares de outros que ao longo das estradas se dirigem para o Oeste, no sonho de conseguirem uma terra que possam considerar sua. Noite após noite, eles e os seus companheiros de desgraça inovam na construção de toda uma sociedade. Não tendo sido uma leitura que me assoberbou, As Vinhas da Ira de John Steinbeck é um livro essencial para compreender as dificuldades de um povo face a crises económicas, uma aprendizagem e reflexão sobre os tempos complicados que se viveram um pouco por todo o mundo. Publicado pela D. Quixote foi A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera. A história passa-se na Praga do século XX, na altura das invasões russas à Checoslováquia, pelo que é bastante marcada pelos celeumas que aí nasceram. Como pano de fundo conhecemos a Primavera de Praga, um período de liberalização política durante a época do domínio pela União Soviética após a Segunda Guerra Mundial e a influência do regime comunista sobre a Europa de Leste/Central. É neste contexto que vamos conhecendo os amores, tensões e dúvidas existenciais dos quatro protagonistas. O livro explora muito os meandros das relações de amor, o porquê da traição e a definição de liberdade, mas o separar de águas entre a relação carnal e a sentimental nem sempre é conseguida de uma forma cabal, caindo em determinados momentos em definições generalizadas que iriam sempre depender da natureza individual de cada personagem. Sendo uma obra interessante de ler e interpretar, acabou por não me satisfazer como um todo.

Comecei junho com mais uma grande leitura com o selo Robin Hobb. The Mad Ship é o segundo volume da trilogia The Liveship Traders, publicado originalmente pela Voyager em 1999. A saga foca-se na existência de navios vivos, embarcações construídas com uma madeira especial que, quando três gerações de marinheiros morrem, despertam com a consciência de tudo o que os três homens da família neles viveram. A história dos navios vivos é muito bem desenvolvida, com o pirata Kennit e os membros da família Vestrit como narradores muito credíveis. Hobb voltou a mostrar neste volume porque é a primeira-dama da fantasia, uma autora com uma delicadeza, uma maturidade e uma experiência de vida que transpiram imenso na sua obra. Pela G Floy Studio chegou O Círculo de Júpiter, uma banda desenhada da autoria de Mark Millar e com a arte de Wilfredo Torres, David Gianfelice e Chris Sprouse, entre outros. Sendo uma prequela de O Legado de Júpiter, este álbum acaba por reunir os dois volumes originais, bem como uma série de material extra. Aqui conhecemos a primeira geração de seres humanos com super-poderes, e explica a origem dos conflitos, ressentimentos e rivalidades entre eles. Mais do que mostrar uma era ideal, Millar confronta os leitores com o facto de que a era dourada não foi essa pátina cor-de-rosa, que preconceitos de raça, de género e de ideais políticos moldaram e desfiguraram as ações das suas personagens, pelo meio de cenas de sexo, bebedeiras e traições.

Também pela G Floy e também de Mark Millar, mas desta vez com a arte do canadiano Steve McNiven, Nemesis apresenta uma espécie de Batman vilão. Herdeiro de uma família privilegiada e dos milhares de milhões que os seus falecidos pais lhe deixaram, dono de uma frota de carros espectaculares, de um hangar cheio de aviões e de gadgets tecnológicos sempre às suas ordens, Matthew Anderson decidiu vestir uma capa e máscara, e tornou-se num homem de branco numa luta implacável por uma causa em que acredita. Sendo um volume bastante frenético e interessante do ponto de vista artístico, acaba por não trazer nada de novo à vasta coleção de Millar. Publicado pela Oficina do Livro e escrito por Miguel Sousa Tavares, Equador é um livro cheio de boas surpresas, que vale muito pela escrita do autor, bem como pelo contexto sócio-político do início do séc. XX, descrito na obra. Um jovem empresário lisboeta é incumbido pelo Rei D. Carlos a tornar-se governador das ilhas de S. Tomé e Príncipe durante três anos, sendo-lhe atribuída a missão de averiguar se havia ou não trabalho escravo na referida colónia e convencer o cônsul inglês de que o trabalho escravo em Portugal já fazia parte do passado. Tinha apreciado a série da TVI, mas o romance não me defraudou as expectativas.

Li os Tomos 3 e 4 da BD erótica Druuna de Paolo Eleuteri Serpieri, publicados pela Arte de Autor. Um cocktail delicioso de sexo e ficção científica, estes álbuns continuam a mostrar a jornada onírica de Druuna, a protagonista arquetípica que passa a história a copular com monstros e andróides para seguir o seu caminho. Apesar de ser algo sexista e não ter uma narrativa realmente estimulante, acaba por cumprir o seu propósito, com uma arte inigualável, das expressões faciais de Druuna até aos detalhes de monstros, autómatos e cenários. Publicado pela Alfaguara, O Livro dos Baltimore de Joël Dicker é o segundo livro protagonizado pelo escritor Marcus Goldman. Gostei imenso de A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert, pelo que seria difícil que este segundo livro me apaixonasse de igual forma. Apesar de ser manifestamente inferior, O Livro dos Baltimore é mais um thriller brilhante do autor suiço, apresentando agora as diversas facções da família Goldman, o seu passado e as suas paixões. Dividido em vários espaços temporais, vamos descobrindo a pouco e pouco que evento misterioso foi aquele a que apelidaram de Drama.

A Peste de Albert Camus foi outra leitura muito boa. Pela Livros do Brasil, o livro publicado em 1947 não podia ser mais actual. Apesar de o propósito do mesmo ter sido uma crítica ao nazismo e à guerra, Camus espelhou muito bem o comportamento de uma sociedade e de uma população face a uma epidemia. Do pânico generalizado às reservas para com as medidas profiláticas, Camus tem aqui uma obra visionária que espelha com exatidão aquilo que acontece neste cenário. Através de uma série de lições, onde o heroísmo e o egoísmo se distinguem com uma clareza notória, o autor traz um excelente espelho de uma realidade que nunca nos esteve tão presente. Terminei o mês de junho com A Ordem Mágica (The Magic Order), uma BD de Mark Millar com arte de Olivier Coipel que chegou recentemente pelas mãos da G Floy Studio. O álbum apresenta uma mistura de Harry Potter e Sopranos, com um tom bem dark e feiticeiros que se apresentam de gabardinas, chapéus de coco e… varinhas mágicas. Apesar de ter muita magia, traz um bom punhado de cenas macabras e sangrentas que me agradaram bastante.

Neste momento estou a ler a trilogia Millennium de Stieg Larsson, mas os nomes de Andrzej Sapkowski, Isaac Asimov, Robin Hobb, Jeff Lemire e Mark Millar continuarão bem presentes nos próximos meses por estas bandas.

2 comentários em “Resumo Trimestral de Leituras #22

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