Estive a Ler: Millennium #1 – #3


Como sempre lhe acontecia ao ouvir a alcunha, Blomkvist fez um esforço para não rolar os olhos nas órbitas.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA OS LIVROS “OS HOMENS QUE ODEIAM AS MULHERES”, “A RAPARIGA QUE SONHAVA COM UMA LATA DE GASOLINA E UM FÓSFORO” E “A RAINHA NO PALÁCIO DAS CORRENTES DE AR”, OS TRÊS VOLUMES DA TRILOGIA MILLENNIUM

Stieg Larsson foi jornalista e editor sueco responsável da revista Expo. Foi um dos maiores peritos mundiais no estudo de movimentos antidemocráticos, de extrema-direita e nazis. Faleceu subitamente, em 2004, pouco tempo depois de entregar à sua editora sueca os três volumes da trilogia Millennium. Tragicamente, não viveu para assistir ao fenómeno mundial em que a sua obra se transformou.

A saga Millennium viria a conhecer continuação, após a sua morte, pelo escritor David Lagercrantz, ainda que os livros mais famosos sejam a trilogia original, composta pelos livros Os Homens Que Odeiam as Mulheres, A Rapariga Que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo e A Rainha no Palácio das Correntes de Ar. Em Portugal, a trilogia foi publicada pela D. Quixote e Edições ASA, o primeiro livro tem 576 páginas, o segundo 610 e o terceiro 736, com tradução de Mário Dias Correia.

Apesar do hype que sempre envolveu esta trilogia, demorei bastante tempo a pegar nela e acabei por me decidir a lê-la na altura certa. O policial sueco é um género ao qual ainda não estou bastante familiarizado mas que as últimas leituras me despertaram o apetite por conhecer a obra de Stieg Larsson. Não podia ficar mais satisfeito. Por uma questão de timing, decidi-me a ler os três livros de uma assentada e essa decisão foi a mais correta para não perder o fio a nenhuma das histórias paralelas que Larsson nos conta.

Com uma escrita fluída e um ambiente que oscila entre a tensão e a descontração, Larsson apresenta-nos personagens confiáveis e tramas credíveis.

O primeiro, Os Homens Que Odeiam as Mulheres, foi o meu preferido. Em parte por ser mais misterioso, conter cenários mais rurais e inóspitos, e nos trazer uma atmosfera densa, para além de um enigma policial bem profundo para desvendar. Os dois livros seguintes, A Rapariga Que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo e A Rainha no Palácio das Correntes de Ar, vêm desenvolver a história da protagonista feminina, que no primeiro livro não era o foco central da história, fazer-nos conhecer mais sobre o seu passado, mas são muito mais livros sobre intriga política, económica e jornalística do que um policial, como o primeiro volume.

De facto, a série é muito mais focada no mundo do jornalismo e da pirataria informática do que propriamente na vertente policial a que estamos habituados. Algo que gostei também muito nesta trilogia foi a denúncia “ficcional” de vários crimes que são muitas vezes cometidos no nosso mundo, por parte de quem tem o poder e se deixa corromper por ele. Larsson aponta o dedo veementemente a quem pratica crimes contra as mulheres, desde os abusos de violência física à psicológica, do estupro ao comércio sexual. Desta forma, associo muito a imagem de Stieg Larsson à de Dag Svensson, uma das personagens do livro que “se sacrificou” para denunciar esse tipo de crimes.

O autor colocou a violência sexual contra as mulheres como tema recorrente nos seus livros depois de, com apenas 15 anos, ter testemunhado uma cena de estupro colectivo. Martirizou-se sempre por não ter conseguido ajudar a rapariga e, mais tarde, deu o nome da menina à protagonista da saga Millennium, dedicando-lhe os livros. A violência no nosso mundo também é retratada através de toda a agitação na Millennium, a revista que se dedica a denunciar os mais diversos crimes e que dá nome à saga.

Apesar de ter sido o primeiro o livro que mais apreciei, o segundo e o terceiro foram também muito bem desenvolvidos, combinando um ritmo acelerado e cenas dignas dos mais “faraónicos” filmes de Hollywood com as tradicionais histórias de amor, embora neste caso não exista propriamente um casal romântico mas sim muitos interesses, casuais ou amorosos, pelo protagonista masculino da história. Mas é a forma como Larsson conta essas vivências e nos convida a conhecer os meandros das organizações os grandes valores do livro.

No primeiro livro, Os Homens Que Odeiam as Mulheres, conhecemos o jornalista de economia Mikael Blomkvist. Acabado de ser julgado por difamação ao financeiro Hans-Erik Wennerstrom e condenado a três meses de prisão, decide afastar-se temporariamente das suas funções na revista Millennium. É aí que é contactado por alguém… improvável. Henrik Vanger, em tempos um dos mais importantes industriais da Suécia, encarrega-o de uma missão invulgar. Vanger pede a Mikael Blomkvist que escreva a história da família Vanger, embora a sua intenção seja outra, e bem mais sombria.

A alegada biografia da família é apenas uma desculpa para a verdadeira missão de Blomkvist: descobrir o que aconteceu à sobrinha-neta de Vanger, Harriet, que desapareceu sem deixar rasto há quase quarenta anos. Em troca, Vanger ajudará Blomkvist a encontrar provas contra Wennerstrom e limpar a sua imagem. O jornalista aceita a missão com algumas dúvidas e, depois de descobrir que a empresa Milton Security, liderada pelo soturno Dragan Armanskij, descobriu tudo sobre ele graças à perspicácia e discrição de uma investigadora freelancer, Lisbeth Salander, recorre à sua ajuda. Salander é uma rapariga difícil e anti-social, mas também uma hacker com provas dadas, que se revela de grande ajuda na investigação.

No segundo volume, A Rapariga Que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo, Lisbeth Salander é assumidamente a personagem central da história ao tornar-se a principal suspeita de um triplo homicídio. A narrativa desenvolve-se em duas vias paralelas e só a solução do primeiro mistério pode ajudar a resvolver o segundo. É necessário encontrar os responsáveis pelo tráfico de mulheres para exploração sexual para se descobrir por que razão Lisbeth Salander é perseguida não só pela polícia, mas por um gigante loiro de quem pouco se sabe. Quem será Zala? E o que liga Salander aos homicídios? Desta vez, é Mikael Blomkvist quem precisa de a ajudar.

No terceiro e último volume da trilogia Millennium, A Rainha no Palácio das Correntes de Ar, encontramos Lisbeth Salander acamada, depois de sobreviver aos ferimentos de que foi vítima. Para além de um estado de saúde frágil, que não lhe permite mover-se, Salander tem o seu pior inimigo acamado num quarto ao lado, e médicos com dúbios interesses obstinados em provar que ela é uma sociopata, um perigo para a sociedade. Blomkvist e a sua amante Erika Berger vêm-se envolvidos por escutas, perseguições e conspirações, onde uma facção da SAPO se revela cada vez mais visível e desesperada por limpar do mapa pessoas indesejáveis.

Com uma escrita fluída e um ambiente que oscila entre a tensão e a descontração, Larsson apresenta-nos personagens confiáveis e tramas credíveis. As relações amorosas e familiares são perscrutadas à lupa, assim como a denúncia para com os abusos de poder e para com a corrupção. Uma janela aberta para a atualidade, a saga Millennium é uma série de ficção que podia muito bem ser real, com personagens fascinantes como Mikael Blombkvist, Lisbeth Salander, Erika Berger, Dragan Armanskij ou as muitas personagens secundárias, como Anita Giannini, Rosa Figuerola, Cecilia Vanger e os polícias Sonja Modig e Jan Bublanski, que permeiam esta história.

A saga contou já com várias adaptações cinematográficas, a primeira com a atriz Noomi Rapace no papel de Lisbeth Salander, e Michael Nyqvist no papel de Mikael Blomkvist. Foi adaptada também por Hollywood numa versão dirigida por David Fincher com o título The Girl with the Dragon Tattoo, onde Rooney Mara era Lisbeth e Daniel Craig o jornalista Blomkvist, tendo adaptado apenas o primeiro livro da série, passando de imediato para os volumes de Lagercrantz com The Girl in the Spider’s Web. Na sequela, Claire Foy assumiu o papel de Lisbeth, e Sverrir Gudnason o de Blomkvist. A rede sueca SVT adaptou também a história para uma minissérie de 6 episódios, em 2010.

Avaliação: 9/10

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