Estive a Ler: O Tango da Velha Guarda


Noutros tempos, cada um dos seus iguais tinha uma sombra. E ele fora o melhor de todos.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO O TANGO DA VELHA GUARDA

Licenciado em Ciências Políticas e Jornalismo, o autor espanhol Arturo Pérez-Reverte trabalhou durante doze anos no jornal Pueblo e nove nos serviços informativos da Televisão Espanhola (TVE), sendo especialista em temas de terrorismo, tráficos ilegais e conflitos armados, para além de ser correspondente de guerra. Os seus livros foram publicados em mais de quarenta idiomas e tornou-se membro da Real Academia Espanhola.

Foram muitos os prémios que Pérez-Reverte granjeou na área da reportagem, nomeadamente o Prémio Astúrias de Jornalismo pela cobertura para a TVE da guerra da ex-Jugoslávia, mas há já alguns anos, Pérez-Reverte dedica-se exclusivamente à literatura. Publicou O Tango da Velha Guarda em 2012, um livro publicado em Portugal pelas Edições ASA com um total de 464 páginas e tradução do espanhol para português de Cristina Rodriguez e Artur Guerra.

Sem Título
Tango | Fonte: https://portugalinews.eu/tag/dance-tango/

Dizem que O Tango da Velha Guarda não está entre os melhores livros de Arturo Pérez-Reverte. Se não está, então só posso imaginar quão bons serão os seus livros, porque eu fiquei absolutamente fascinado por este. Peguei no romance sem saber muito bem ao que ia, se para um thriller de espionagem, se para uma história de vida, até porque não tinha lido nada sobre ele antes. E a verdade é que este é um daqueles livros que se levam para a vida, de tão marcantes que são.

“O Tango da Velha Guarda fez-me revisitar locais e experiências de vida e compreender até certos detalhes da minha que talvez não tivesse conseguido antes.”

Isso acontece sobretudo pela forma como o autor cozinhou uma série de elementos. O grande coração da obra, o seu núcleo duro, é a vida de duas pessoas e a forma como elas são vividas através dos tempos. Quem não gosta de histórias de amor, este definitivamente não é o livro ideal. Mas eu, que também não sou muito propenso a romances, fiquei assoberbado por este por ser tão cruel, realista e factual. As personagens emanam de uma sabedoria que me faz querer que sejam verdadeiras, e conhecê-las.

Sem Título
Capa Edições ASA | Fonte: https://www.fnac.pt/O-Tango-da-Velha-Guarda-Arturo-Perez-Reverte/a725725

A história atravessa três momentos distintos. Em 1928, um transatlântico que partiu do porto de Lisboa em direção a Buenos Aires alberga Armando de Troeye, um célebre compositor, muito elogiado. O mesmo autor que viria a compor um tango, depois de apostar com o seu colega Maurice Ravel, que se propunha a criar um bolero, de que faria algo melhor, longe das composições populares de Carlos Gardel. Um tango dançado antes de ser escrito.

Nesse barco está também Mecha Inzunza, a sua esposa, uma mulher linda, inteligente e melancólica, uma personagem feminina fortíssima, cujas oscilações de comportamento encantam ao longo da obra. E há ainda um outro tripulante, um homem elegante e bom dançarino, que é na verdade um ex- militar aventureiro e o protagonista da história, de seu nome Max Costa. Nas ruas de Buenos Aires nasce uma relação intensa e carnal entre Mecha e Max, que viriam a cruzar-se mais duas vezes ao longo da vida.

Sem Título
Arturo Pérez-Reverte | Fonte: https://www.abc.es/cultura/abci-arturo-perez-reverte-demas-podeis-iros-hacer-punetas-hilarante-opinion-perez-reverte-acerca-compartir-platos-201910211223_noticia.html

Em 1937, numa intriga de espionagem na Riviera Francesa, um dos destinos preferidos da alta sociedade europeia, onde Max se entretém a enriquecer depois de ir roubando joias às senhoras da elite que seduz. E onde acaba por se ver arrastado para uma intriga de espionagem, relacionada com a Guerra Civil Espanhola, e é levado a roubar documentos secretos. Ali, como antes, o seu encontro com Mecha volta a terminar de forma abrupta, para não mais se encontrarem.

Pelo menos, até ao presente da história. É em 1966 que revisitamos estes momentos passados, em Sorrento, na Itália, durante uma inquietante partida de xadrez. Max e Mecha reencontram-se, aparentemente de forma casual, uma vez que Max estabilizou e se acomodou à vida por ali, onde todos se habituaram a ele como um simples homem de negócios. É o filho de Mecha, o chileno Jorge Keller, e uma nova intriga de espionagem relacionada com o jogo de xadrez, que voltará a unir estes dois amantes.

Sem Título
Tango | Fonte: https://www.buenosaires.travel/pt/conocer-de-tango/

As nuances de espionagem estão bem no ponto, para aquilo que me agrada no género. E há todo um glamour a perpassar a obra, ao longo de festas deliciosas, de Nice (França) a Sorrento (Itália). A música é outro dos maiores ingredientes do livro, e o ritmo do tango quase consegue ser sentido ao longo da narrativa, quer através dos diálogos quer através da descrição vívida de Pérez-Reverte dos tempos em que o protagonista se enfeitiçou pelo tango em Buenos Aires.

Mas acho que, para além de tudo, é a experiência e a sabedoria do autor, a par com uma escrita intensa e fluída, o que mais me apaixonou neste livro. Apesar de não ser um romance histórico, tem todo um enquadramento histórico muito credível e há uma série de vivências nas entrelinhas que torna o percurso dos protagonistas, de certa forma previsível, surpreendente. O Tango da Velha Guarda fez-me revisitar locais e experiências de vida e compreender até certos detalhes da minha que talvez não tivesse conseguido antes.

Avaliação: 10/10

Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close