Estive a Ler: A Quinta dos Animais


O Sr. Reis, proprietário da Quinta do Infantado, trancara os galinheiros por aquela noite, mas estava tão bêbedo que se esqueceu de fechar as portinholas.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO A QUINTA DOS ANIMAIS

Nascido Eric Arthur Blair, George Orwell, foi um notável escritor inglês. Apesar de ter nascido na Índia, a sua família mudou-se para Inglaterra em 1907. Orwell dedicou-se a várias atividades ao longo da vida e o seu primeiro romance, Dias Birmaneses, foi escrito em 1934. Lutou pelos republicanos na Guerra Civil Espanhola, onde foi ferido. As suas obras mais notáveis foram A Quinta dos Animais e 1984, publicadas em 1945 e em 1949, respectivamente.

Orwell morreu em 1950, em Londres, vítima de tuberculose. Em 2008, o The Times classificou-o em segundo lugar numa lista de “Os 50 maiores escritores britânicos desde 1945”, só atrás de Philip Larkin, e a sua influência foi tão grande que originou até neologismos como a expressão orwelliano, relativa aos regimes totalitários espelhados nas obras supracitadas. Li a edição portuguesa da Antígona datada de 2018, com um total de 156 páginas, tradução de Paulo Faria e prefácios de João Bernardo e Peter Davison.

Animal Farm no original, este livro já contou com várias traduções em Portugal, sendo mais conhecido inclusive com o título O Triunfo dos Porcos. A Antígona decidiu, em 2018, traduzir o título original à letra. Se já tinha ficado bastante satisfeito com a escrita e a mensagem do autor em 1984, George Orwell voltou a agradar-me com este A Quinta dos Animais. É uma descrição metafórica brilhante, retratando através de “animais falantes” numa quinta a implementação do comunismo na União Soviética e criticando contundentemente as várias camadas em que se fundou e desenvolveu a revolução bolchevique.

Afinal, todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.

É um livro sempre atual, ou as tentativas de voltar a implementar este tipo de modelo político não continuassem a existir. Orwell revela uma capacidade única para compreender os sistemas políticos e denunciá-los em toda a sua extensão. Para além de se tratar de uma alegoria brilhante no que diz respeito ao regime soviético, o autor também critica duramente a Inglaterra e o modo como o país serviu de antepara política à Rússia ao longo dos anos, nomeadamente no que diz respeito à imprensa escrita, situação que ele teria mesmo de lidar durante a tentativa de publicação do manuscrito.

Esta “fábula” começa por apresentar-nos o Sr. Reis, o dono de uma quinta que se embebeda com frequência e não parece especialmente amigável para com os animais a seu cuidado. É então que um velho porco chamado Major decide que chegou a hora de pôr fim a esse regime e prepara todos os animais da quinta para uma revolução. Incute-lhes a ideia que podem ser governados por si mesmos, sem a exploração do homem, e ensina-lhes uma canção que exalta a igualdade entre as espécies e os faz acreditar que tempos prósperos estão por vir.

Esse porco morre poucos dias depois, deixando outros mais novos à frente da revolução. A situação torna-se urgente quando o Sr. Reis, certo dia, negligencia a alimentação dos animais, e estes acabam por expulsar os humanos da propriedade, iniciando um novo regime, onde sete mandamentos regulam o seu modo de vida. Os mandamentos, porém, não eram entendidos por todos da mesma forma, e havia até aqueles que nem ler sabiam. Seguiu-se uma sequência de conflitos entre os humanos que pretendiam retomar à quinta e os animais, que conseguiram manter inviolável o seu domínio.

A dado momento, os animais decidem construir um moinho de vento, de forma a gerar energia, e ao mesmo tempo que prosseguem nessa demanda, os líderes mudam-se para a casa do Sr. Reis e vão-se acostumando aos luxos que esta lhe proporcionava. Assim sendo, e para o seu próprio interesse, vão alterando os mandamentos escritos anteriormente na parede, para o seu próprio proveito, sem que quase nenhum dos animais de trabalho dê conta. Afinal, todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros.

O hino da revolução acaba por ser banido, uma vez que Napoleão, o porco que se tornara líder incontestável após uma série de traições, julga que a sociedade obtida é a ideal, muito embora poucos sejam os animais que sintam realmente encontrar-se numa situação melhor do que a vivida nos tempos do Sr. Reis. Muitos sequer não se recordam de como era a vida nesses tempos. Vários são os animais que morrem ao longo do tempo, sacrificando-se para o bem estar da quinta sem que tenham conseguido algo realmente proveitoso para os seus iguais.

A obra narra uma história de corrupção e traição e recorre a figuras de animais para retratar as figuras marcantes e os momentos que o autor considerou vergonhosos do que se viveu na União Soviética durante os tempos de Estaline. Assim como os apologistas do regime comunista, os animais deste livro tentaram criar uma sociedade utópica, porém a sedução do poder fez os novos líderes, antes proletários, estabelecer uma ditadura tão corrupta quanto a anterior.

Orwell era assumidamente um social-democrata, sendo mesmo membro do Partido Trabalhista Independente por algum tempo, e viu nesta obra uma oportunidade de criticar abertamente o regime estalinista. Se, por um lado, o livro mostra a visão de Orwell em como Estaline (como o Napoleão do livro) traiu os princípios de 1917, a Revolução Russa, também pode ser lido como um livro infantil, apesar de um ou outro apontamento mais violento. É uma obra brilhante com várias leituras, sempre agradáveis.

Avaliação: 8/10

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