Estive a Ler: A Quinta


Jane gostaria de dormir. Tenta, procurando fechar os olhos. Mas eles vão-se abrindo.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO A QUINTA

Joanne Ramos nasceu nas Filipinas mas mudou-se para o Wisconsin quando tinha seis anos. Formou-se na Universidade de Princeton. Depois de trabalhar na área de investimento bancário durante vários anos, colaborou com a revista The Economist. Atualmente faz parte da direção de The Moth, uma organização sem fins lucrativos dedicada à arte do storytelling. Vive em Nova Iorque com o marido e os três filhos.

The Farm foi a sua obra de estreia, em 2019. O livro foi nomeado como melhor trabalho de estreia para os prémios da associação NAACP, que distingue personalidades de várias etnias, bem como foi indicado para a lista dos melhores livros de estreia do Center for Fiction’s First Novel Prize. A sua obra é frequentemente comparada a A História de Uma Serva de Margaret Atwood. Traduzido em Portugal como A Quinta pela Saída de Emergência, o livro tem um total de 320 páginas e tradução de Luís Santos.

A autora, Joanne Ramos | Fonte: Saída de Emergência

Joanne Ramos é um dos novos nomes da literatura de género, que a Saída de Emergência não perdeu tempo em traduzir face ao zunzum que a sua obra de estreia, The Farm, despertou lá fora. O livro parece assentar mesmo como uma luva aos fãs de obras como The Handmaid’s Tale, Fahrenheit 451 ou Brave New World, apresentando uma visão mais atual e iminente de vários tipos de repressão e de manipulação, neste caso no que diz respeito à natalidade e à vigilância das mulheres no período de gravidez. No entanto, pareceu-me uma obra bastante “possível” para a enquadrar como distópica.

Não deixa de ser uma leitura muito agradável, o que deixa bons indicadores para que esta autora, no futuro, se possa tornar relevante neste género literário, assim se permita a crescer.

Ramos não deixa de mostrar várias lacunas próprias de um estreante, com uma escrita fluída, competente mas algo básica, sem grande maturidade mas com vários conhecimentos sobre maternidade. A intenção de controlar e manipular, tanto pelo poder como pelo dinheiro, mostra como a evolução das mentes e o avançar da inteligência humana vem criar mais corrupção, vendo os agentes passivos da sociedade, os comuns ou, neste caso, as mulheres precárias, como “gado”, apenas um instrumento apelativo para fazer dinheiro.

Através das perspetivas de várias mulheres, o que nos permite ter uma perspetiva larga sobre a história e os seus recessos, conhecemos uma organização misteriosa e as mulheres que a servem. A protagonista é Jane Reyes, uma empregada doméstica de origem filipina que sofre com as vicissitudes de quem é mãe solteira. Jane vive num dormitório em Nova Iorque, com a sua filha bebé, Amalia. Quando perde um emprego como baby-sitter, a sua prima idosa Evelyn Arroyo, a quem ela chama de Ate, convence-a a admitir-se na Golden Oaks.

Trata-se de um retiro luxuoso onde as mulheres encontram todo o tipo de serviços: refeições orgânicas, professores de fitness, massagens diárias, tudo a custo zero. De facto, quem aqui reside ainda recebe uma elevada quantia de dinheiro. A contrapartida? Durante nove meses não pode deixar o espaço, os seus movimentos são monitorizados e têm de cortar os laços com a sua vida anterior enquanto se dedicam a uma única tarefa: produzir o bebé perfeito para os clientes, todos eles podres de ricos. Todavia, cortar ligações a essa organização ou voltar para a sua vida anterior são privilégios que lhes estão enfaticamente vedados.

Jane torna-se assim uma Hospedeira, mudando-se para aquela residência de luxo, deixando Amalia ao cuidado de Evelyn. Em Golden Oaks, a rapariga depressa faz amizade com outras hospedeiras, como Reagan McCarthy, uma universitária que ali se encontra na esperança de encontrar um sentido à sua vida, ou Lisa Raines, uma jovem que parece cada vez mais desapontada com a vida por ali e que lhe irá causar problemas. O passar do tempo vem causar grandes incómodos a Jane, porque a sua prima deixa de atender as suas chamadas, e Mae Yu, a “chefe” dentro da organização, começa a revelar-se pouco confiável. Segue-se uma série de descobertas e de traições que levam Jane a querer evadir-se daquele lugar.

O romance trata sobretudo de natalidade, mas aborda também questões raciais, de género e de estrato social. As personagens acabam por mostrar as duas faces do chamado trabalho de barriga de aluguer, tanto o lado da exploração da mulher como o facto de se tratar de um ato de generosidade para com aqueles que não podem ter filhos. A autora quis sobretudo questionar até que ponto tudo pode ser colocado à venda, mas também aborda os dois lados do feminismo: se temos aqui mulheres que são exploradas, temos também aquelas que exploram. A discriminação racial e de classe é tão ou mais incisiva do que a discriminação de género.

Este romance consegue apresentar uma premissa bem interessante e construir um cenário algo misterioso e agradável de ver explorado. Golden Oaks – a Quinta que dá título ao livro – é de facto uma boa ideia e bem concretizada, para além de que Joanne Ramos consegue deixar com o coração das mãos qualquer pessoa que preze os seus familiares mais diretos. É impossível ficar indiferente à dor de uma mãe que quer contactar a sua filha e tal não lhe é permitido e, nesse aspeto, A Quinta é um bom trabalho de imersão.

O processo rigoroso de admissão na Golden Oaks também é uma porta de entrada que suscita curiosidade ao leitor, fazendo-nos embrenhar naquela teia de segredos com alguma apreensão. O desenrolar da trama foi denso o suficiente para deixar me preso na leitura, mas o início pareceu-me pouco misterioso e demorou a engrenar. Não deixa de ser uma leitura muito agradável, o que deixa bons indicadores para que esta autora, no futuro, se possa tornar relevante neste género literário, assim se permita a crescer.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 7/10

2 comentários em “Estive a Ler: A Quinta

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