Estive a Ler: Germinal


Pouco a pouco a greve alastrava-se, tornando-se geral.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO GERMINAL

Émile Zola foi um consagrado escritor francês, considerado criador e representante mais expressivo da escola literária naturalista, para além de ser uma importante figura libertária da França. Foi presumivelmente assassinado por desconhecidos em 1902, quatro anos depois de ter publicado o famoso artigo J’accuse, em que acusa os responsáveis pelo processo fraudulento de que Alfred Dreyfus foi vítima. Germinal é um romance histórico do escritor, o décimo terceiro da série Les Rougon-Macquart e o mais conhecido.

Para escrever Germinal, o autor passou dois meses a trabalhar como mineiro na extração de carvão. Viveu e alimentou-se junto com os mineiros, para se familiarizar com o meio. Sentiu na pele os seus sacrifícios e dificuldades, os reveses do calor e da humidade dentro da mina, o baixo salário e a fome. Foi também testemunha das greves dos mineiros. Li a edição de Germinal da Europa-América, com um total de 344 páginas e tradução de Eduardo de Barros Lobo.

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Filme de 1993, com Gerard Depardieu | Fonte: http//destante.blogspot.com

Este é um daqueles livros que nos é indicado de pronto na escola como referência para os problemas do proletariado e do direito à greve, nas questões que abordam o início do sindicalismo e também as divisões entre marxistas e anarquistas. Germinal é uma história enriquecedora em todos os aspectos, não só pela vivência in loco que o autor nos coloca – senti-me quase arrastado para um Tempos Modernos do Chaplin – na abordagem sócio-política que se vivia nos finais do séc. XIX, como também a escrita de Zola é bem agradável.

“As cambalhotas da Revolução Industrial tiveram um preço a pagar.

Germinal critica amiúde a animalização do homem, as condições sociais decadentes e o avanço do capitalismo em detrimento das relações humanas, que se viviam à época. O livro foi inspirado na obra A Comédia Humana, de Honoré de Balzac, revelando-se um trabalho algo jornalístico, de certa forma um panfleto sobre as condições exaustivas e desumanas vividas pelos operários de uma mina em França. É uma questão que ainda hoje se pode dizer atual. Aqui, o romantismo alia-se de forma inequívoca às reflexões sociais e ao desespero real das pessoas reais, sempre enquadradas numa estética quase poética.

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Capa | Fonte: https://www.wook.pt/livro/germinal-emile-zola/64123

Étienne Lantier é o protagonista, um jovem à procura de emprego que certo dia, na cidade de Marchienne, encontra a sua oportunidade na mina de carvão Voreux, quando uma trabalhadora chamada Fleurence morre. Ainda antes da sua admissão, percebe as dificuldades por que os mineiros passam, realizando um trabalho exaustivo em que cada centavo era ganho a muito custo. Sem lugar para ficar, é hospedado pela família de Maheu, pai de Catherine, Estelle, Zacharie, Lénore, Henri, Alzire e Jeanlin, onde também conhece a esposa de Maheu e o velho Boa Morte.

Em 1866, acompanhamos os passos de Étienne, um trabalhador exemplar mesmo perante condições degradantes de vida, que o afectam tanto como às personagens que o envolvem. Cada ofício é desempenhado com regra e sem a menor comodidade, o que leva a personagem a pensar em alternativas, ideias que fomenta quando pede ajuda a Pluchart, um homem de uma intelectualidade refinada, bem nutrido de ideais políticos e membro da Primeira Internacional, uma associação criada por Karl Marx para os trabalhadores refletirem na sua linha de ação.

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Filme de 1993, com Gerard Depardieu | Fonte: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-30245/fotos/detalhe/?cmediafile=21044908

A obra adensa-se quando a jovem Catherine, filha de Maheu, é obrigada a viver com o seu pretendente Chaval, para desgosto de Étienne, e quando um desmoronamento lesa o pequeno Jeanlin, que com as pernas quebradas fica impedido de pedir esmolas e de cometer os seus pequenos furtos. As ideias revolucionárias ganham dimensão na mente do protagonista, incitando outros na ideia de greve. Conjecturas como o sindicalismo e a caixa de previdências ganham forma e Étienne é uma das vozes que lhe dá maior expressão na mina.

A principal consequência da greve é a falta de condições básicas, causada pela falta de salários, ao mesmo tempo que o trabalho fica por se realizar. De forma trágica, o autor leva-nos por um tour turístico, através de uma descrição minuciosa dos núcleos familiares e dos seus problemas, algo que por vezes torna a leitura algo aborrecida, uma vez que o autor se dispersa em descrições, ao mesmo tempo que descreve muito bem as diferenças sociais entre os esfomeados que precisam de procurar nos restos para sobreviver e os burgueses que dão alimento como esmola, arrogando-se de fazer a sua parte da luta contra uma situação que os ultraja.

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Foto: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-30245/fotos/detalhe/?cmediafile=21044905

Zola revela-se um autor dramático e incisivo, explorando até ao tutano as ideias de revolução e as péssimas condições de vida à época, mas fica também para a posteridade como um dos autores que melhor representou as dificuldades sócio-económicas das famílias, não só no trabalho nas minas. O seu reconhecimento enquanto autor ficou talvez aquém do esperado, mas foi sem dúvida uma inspiração para que muitos outros autores se tenham aventurado a mexer nas feridas.

O nome do livro alude exatamente a esta ideia. Germinal é o primeiro mês da primavera no calendário da Revolução Francesa e há uma associação do germinar com as sementes que ainda virão a brotar, que neste caso seriam as futuras organizações de movimentos sociais, o crescimento dos movimentos grevistas e do início da organização trabalhista em torno de um objetivo, que no caso, era melhorar as condições de trabalho e o aumento de salários. As cambalhotas da Revolução Industrial tiveram um preço a pagar.

Avaliação: 7/10

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