Especial: V de Vermelha, V de Victoria


Conheçam Rainha Vermelha pelos olhos de um leitor hostil ao género.

Julgavam impossível um YA bem construído e desenvolvido? Não? Eu achava, e acabei por ser surpreendido pela positiva com Rainha Vermelha de Victoria Aveyard. O livro de estreia da autora venceu o 2015 Goodreads Choice Award for Debut Goodreads Author e foi nomeado para o 2015 Goodreads Choice Award for Young Adult Fantasy & Science Fiction. A autora foi best-seller n.º 1 do New York Times por três vezes.

Para além dos quatro livros da série (cinco em português, porque o último foi dividido), há ainda livros de contos prequelas e, para quem leu e achou que muito ficou por explicar, dizem que virá um novo livro de contos que revela o que aconteceu às personagens dali por diante. Para além disso, a Universal Pictures já detém os direitos para um filme do livro Rainha Vermelha, um projeto a que a autora tem dedicado o seu tempo. Fiquem atentos.

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Victoria | Fonte: https://nerdgeist.com/2019/08/28/yes-we-made-our-5th-list-of-geeky-girl-crushes/victoria-aveyard-holding-kings-cage-fi-1-702×390/

Quem é Victoria Aveyard?

Nascida em 1990, a autora conquistou uma legião de fãs com o romance de estreia, Rainha Vermelha, primeiro de uma série de quatro. Roteirista de profissão, frequentou a Universidade do Sul da Califórnia e tem como hobbies assistir Netflix e tentar adivinhar o futuro das Crónicas de Gelo e Fogo, série literária da qual é fã. Com formação em Escrita de Argumentos da Universidade do Sul da Califórnia, divide o seu tempo entre East Longmeadow, Massachusetts e Los Angeles.

A Rainha Vermelha

A Trama

O mundo apresentado nesta saga divide-se pelo sangue: os plebeus de sangue vermelho trabalham como escravos, a elite de sangue prateado vive rodeada de mordomias e é dotada de capacidades sobrenaturais. Mare Barrow é a protagonista, uma menina de 17 anos que faz parte do primeiro grupo, sobrevivendo como ladra numa aldeia pobre, Palafitas, onde vive com os pais e a irmã mais nova, Gisa.

Os três irmãos mais velhos, Bree, Tramy e Shade, servem na guerra entre o Reino de Lakeland e o Reino de Norta. Norta é o domínio onde Mare vive, governado pelo rei Tiberias Calore VI, um Prateado com poder de fogo. Quando ela descobre que o seu melhor amigo, Kilorn Warren, será recrutado para a guerra, pede ajuda a um traficante chamado Will Whistle, que a conduz a Farley, a capitã da Guarda Escarlate, um grupo terrorista composto por rebeldes Vermelhos que reivindicam a igualdade entre o seu povo e os Prateados.

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Mare Barrow | Fonte: https://www.artstation.com/artwork/A1A4q

Gisa vê a mão despedaçada por um oficial quando Mare a leva a cometer um pequeno furto, ocupação que preenche os seus dias. Nesse momento, conhece um rapaz chamado Cal, jovem bem-parecido que a ouve falar dos seus problemas e lhe diz trabalhar no palácio real. Posteriormente, ele encontra-lhe emprego no palácio, como auxiliar de cozinha, o que ela aceita antes de descobrir que Cal não era nada mais nada menos que o Príncipe Tiberias Calore, o futuro rei de Norta.

Rainha Vermelha apresenta uma corte repleta de personagens poderosas. Há os Samos, os Merandus, os Skonos, entre tantas outras Casas nobres repletas de potencialidades. Porque os nobres têm sangue Prateado ao invés dos comuns Vermelhos, e esse sangue dá-lhes poderes sobrehumanos. Por exemplo, a família Merandus tem a capacidade de ler e moldar mentes, enquanto os Samos são moldadores de metal, magnetrons. E por aí adiante, cada Casa tem uma especialidade única.

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Maven Calore | Fonte: https://redqueen.fandom.com/wiki/Maven_Calore

No primeiro dia de trabalho na corte, Mare assiste à prova em que o príncipe escolhe a sua prometida. Sem que nada o faça prever, Mare atinge a escolhida, Evangeline Samos, com um raio. Diante do rei, dos príncipes e nobres, descobre que tem um poder impossível, apenas acessível aos Prateados. Dispostos a ocultar as evidências de que uma rapariga Vermelha tem poderes de um Prateado, tanto o rei como a esposa, Elara Merandus, esforçam-se por a fazer passar pela filha desaparecida de dois Prateados mortos na guerra, fazendo dela noiva do seu filho mais novo, Maven.

À medida que Mare vai mergulhando no mundo inacessível dos Prateados, arrisca tudo e usa a sua nova posição para auxiliar a Guarda Escarlate, mesmo que o seu coração dite um rumo diferente. A pouco e pouco, a jovem descobre que não pode confiar em ninguém e que, nos meandros da corte, entre sombrios, dominadores da água e do fogo, cantores e telepatas, nada é o que parece.

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Tiberias Calore | Fonte: https://www.deviantart.com/justbullsheet/art/Tiberias-Calore-805525403
A Teoria da Rainha Vermelha

Leigh Van Valen elaborou em 1973 uma teoria da evolução que visa não só explicar a mais-valia da reprodução sexual dentro das espécies, como mostrar que a competição entre elas é essencial para marcar território e para o desenvolvimento / evolução das mesmas, como os casos em que as presas desenvolvem certas características para escapar a um predador. Essa teoria chama-se Rainha Vermelha devido à personagem homónima do autor Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas).

É muito desta competição que Victoria Aveyard nos fala na saga (curiosamente?) com o mesmo nome. À medida que vemos as personagens a falhar, a lutar e a falhar novamente, vemo-las a crescer. Quão egoísta seria Mare Barrow se não tivesse estado aprisionada n’A Jaula do Rei? Quão arrogante seria Cal se tivesse chegado à Coroa por meios hereditários? Mesmo as Casas nobres têm as suas evoluções ao longo dos quatro livros, consoante as suas vitórias e quedas.

Apreciação

Apesar de unir várias nuances já usadas ad nauseam por outros autores, como superpoderes ou intriga medieval, Victoria Aveyard tem muito mérito em conseguir misturar tudo com verosimilhança. O cenário não desilude, piscando o olho a videojogos bem como a filmes de ação militar futuristas.

Esta série Rainha Vermelha é o que se convencionou chamar de distopia, pois supostamente passa-se numa realidade alternativa ao nosso mundo futuro. Apresenta-nos uma guerra entre reinos francamente medievais, no qual armas de fogo, câmaras de vigilância, motas, aviões, jactos, bases militares e armamentos evoluídos fazem parte do dia-a-dia. A vibe é também muito “X-Men em Westeros”.

Os ingredientes desta intriga são o pão nosso de cada dia na literatura YA. Um dos irmãos revela-se vilão, o outro herói, a protagonista junta-se a uma trupe de sindicalistas rebelião e há uma série de batalhas em nome da justiça e da igualdade, fazendo da série uma verdadeira ode à representatividade. Só que Victoria Aveyard subverteu todos esses elementos, e foi exatamente isso que me fez gostar desta saga como é difícil apreciar qualquer livro infanto-juvenil.

A intriga política de Rainha Vermelha tem a acuidade de um A Guerra dos Tronos, os posicionamentos estratégicos são bem estruturados e não vemos um lado bom e um lado mau completamente definido, como é tão comum encontrar neste género de literatura para jovens. Todas as personagens, mesmo aquelas que olhamos com mais desconfiança, têm a sua humanidade e motivações, e mesmo os protagonistas revelam defeitos determinantes. O vilão maior é um caso de estudo. Mesmo sabendo da sua conduta os protagonistas nunca deixam realmente de amá-lo.

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Fonte: https://redqueen.fandom.com/wiki/Tiberias_Calore_VI

O desenvolvimento dado a Mare é outra das mais-valias do volume, não só conferindo-lhe alguma humildade no decorrer dos livros, como fazendo-a compreender as atitudes dos outros sem que tudo lhe seja dito ou colocado à frente dos olhos. Se posso dizer que nem sempre a história me agradou, posso também referir que importa-me mais o foco no comportamento humano e no crescimento interior das personagens do que a construção do plot.

Victoria Aveyard convenceu-me pela construção e desconstrução das personagens, mas também gostei da sua escrita. Ela é fluída e agradável, pode vir a ser mais polida para não deixar o leitor tão dependente dos diálogos para compreender o que se passa, mas é uma prosa extremamente elegante, conseguindo estabelecer uma relação de pronto com o leitor. Se continuar a escrever assim, Victoria Aveyard pode muito bem entrar num patamar restrito dentro da literatura fantástica.

Podes adquirir estes livros aqui:

Saga Rainha Vermelha (Saída de Emergência)

Um comentário em “Especial: V de Vermelha, V de Victoria

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