Estive a Ler: Quinta Estação, Terra Fraturada #1


Vamos começar com o fim do mundo, está bem? Assim fica arrumado e podemos passar a coisas mais interessantes.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “QUINTA ESTAÇÃO”, PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE TERRA FRATURADA

A autora norte-americana N.K. Jemisin é mestre em educação pela Universidade de Maryland, tendo sido finalista em 2009 e 2010, respectivamente, do Prémio Nebula e Hugo pelo seu conto Non-Zero Probabilities. O seu romance de estréia, The Hundred Thousand Kingdoms, primeiro volume da Trilogia Inheritance, foi também nomeado para o Nebula em 2010 e foi pré-selecionado para o Prémio James Tiptree Jr, vencendo em 2011 o Prémio Locus de Melhor Romance de Estreia. The Hundred Thousand Kingdoms também adicionou à lista o Prémio Sense of Gender na categoria Tradução, em 2011.

Em 2016, o seu livro The Fifth Season ganhou o Prémio Hugo de Melhor Romance, tornando-a a primeira escritora negra a ganhar este galardão na categoria. As continuações, The Obelisk Gate e The Stone Sky, ganharam o mesmo prémio em 2017 e 2018, respectivamente. The Fifth Season será adaptado a série de televisão pela TNT e foi publicado em Portugal pela Relógio D’Água em 2018, com tradução de Alda Rodrigues e um total de 384 páginas.

Cynthia Addai-Robinson em Spartacus. Uma boa Syen, não? | Fonte: https://www.tvguide.com/celebrities/cynthia-addai-robinson/photos/229224/

Como fã de fantasia adulta, não podia deixar de ler uma das autoras mais premiadas nas áreas da fantasia e da ficção científica, que tem agregado nos últimos anos os prémios de maior prestígio dentro do género. Quinta Estação é visto por muitos como um romper de arquétipos e N. K. Jemisin uma voz de ruptura para tudo o que foi já feito até hoje em ficção especulativa. Opinião que eu não partilho a 100%.

“Com vários plot-twists interessantes, Terra Fraturada é mais uma série a seguir.

Tenho visto em várias opiniões por essa blogosfera fora comentários sobre as camadas psicológicas e sociais que a autora explora nos seus livros, tanto no que diz respeito às diferenças sociais e às desigualdades daí subjacentes, até às mazelas resultantes de violações à integridade física e psicológica das personagens principais do livro. São aspectos que realmente enriquecem a obra e são o seu fulcro, transportando o leitor para um universo tão misterioso como recheado de características interessantes.

A esse respeito, devo dizer que quem acha Nemisin pioneira nesse aspecto, tem lido muito pouco de fantasia e exactamente nada de fantasia adulta. Aquilo que a literatura fantástica mais tem apresentado na última década são histórias verosímeis sobre pessoas, relações humanas e problemas sociais, como espelhos do mundo em que todos nós vivemos. Se a fantasia se resumisse a demandas juvenis em busca de objectos mágicos, certamente que eu não seria fã do género.

Dito isto, devo sublinhar que o trabalho de Jemisin não me desapontou; pelo contrário, os seus prémios pouco me diziam sobre a sua obra e apesar de considerar que existam autores melhores nos dias que correm, a escritora mostrou neste livro excelentes indicações do que é capaz de fazer com a sua imaginação. N. K. Jemisin é uma excelente escritora, o facto de ser negra não a torna nem mais nem menos merecedora, e não acredito que tenha sido pelo tom de pele que foi levada ao colo para os prémios que arrecadou.

A sua escrita é bastante fluída e bonita de se ler, o plot é bem explicado e as suas inspirações nas civilizações africanas são extremamente bem desenvolvidas, sendo neste campo manifestamente superior a outras autoras que o vinham explorando, como Nnedi Okorafor ou Tomi Adeyemi, dentro das autoras que li. Mas a mais-valia da sua obra é mesmo a forma como ela se identifica, e nos identifica a todos.

Da violência física e moral aos reflexos da mesma no ser humano, até à normalização da homossexualidade e do poliamor, Jemisin faz um extraordinário trabalho de representatividade num mundo algo quebrado e confuso mas bem construído. É mesmo a forma como ela trata tanto as diferenças como os vários tipos de amor a maior qualidade do argumento.

O mundo apresentado em Terra Fraturada é muito interessante. O continente chamado Sossego é marcado por uma intensa atividade sísmica, que ao mesmo tempo cria invernos rigorosos que duram décadas inteiras e destrói civilizações a cada nova estação. Os registos do passado são engolidos e desaparecem, de forma que as novas civilizações mal compreendem os protocolos que devem accionar, e pouco sabem da sua História.

Dos orogenes aos comedores de pedra, as criaturas que conhecemos em Quinta Estação falam muito de estranheza, discriminação e de diferenças. Somos apresentados a uma cidade, Yumenes, e a “três” personagens, Damaya, Syenite e Essun, as três faces de uma mesma moeda, rostos de uma vida de tragédias pessoais e de falsas manifestações de amor. As aprendizagens, as desilusões e os perigos em ser uma orógene traçam o seu caminho cheio de espinhos.

Fonte: https://www.artstation.com/artwork/rR1EJJ

No mesmo dia, Essun regressa a casa para descobrir que o marido assassinou o próprio filho e sequestrou a sua filha, o sofisticado império de Sanze derroca às mãos de um arauto de vingança, quando este decide destruir a sua cidade maior e um vulcão terrível entra em movimento, sugerindo um novo inverno, uma nova catástrofe. É aqui que nos encontramos para degustar desta narração inventiva e corajosa.

Enquanto os capítulos narrados sob a perspectiva de Damaya e Syenite são escritos na terceira pessoa, o de Essun é narrado na segunda pessoa, algo invulgar em literatura e que não só faz o leitor se sentir o protagonista da história, como acaba por ser justificado mais à frente, com um plot-twist surpreendente que abre um precedente para os seguintes, mais previsíveis. Alabaster Tenring, o poderoso orogene para quem Syenite é enviada para fecundar, e Schaffa, um guardião violento que molda a personalidade de Damaya, são adições muito importantes para o desenvolvimento deste enredo.

Com um universo apetitoso, personagens enigmáticas e ricas em sentimentos e uma escrita ágil e muito agradável, N. K. Jemisin tem tudo para se tornar numa das autoras mais marcantes do século, sobretudo pelas mensagens importantíssimas que espelha na sua obra. Quinta Estação sofre ainda assim de algumas coincidências forçadas, mas mostra o porquê de a autora ter ganho tantos prémios, e ficou acima das minhas expectativas.

O amor e o colapso são duas constantes nesta obra, eles andam de mãos dadas do princípio ao fim e diz-nos muito sobre a essência da mesma. Da devastação, sobra o amor, e ele sobrevive no caos. Todas as formas de amor, mesmo aquela que a vítima nutre pelo seu abusador, uma vez que ele lhe dá tudo o que de afeto conhece. Com vários plot-twists interessantes, Terra Fraturada é mais uma série a seguir. 

Avaliação: 9/10

Terra Fraturada (Relógio D’Água):

#1 Quinta Estação

#2 O Portal dos Obeliscos

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