Resumo Trimestral de Leituras #23


Mais um verão que chegou ao fim e com ele o trimestre. Os meses de julho, agosto e setembro foram bem distintos em ritmo de leituras e também de publicações, tendo redigido a opinião logo que terminasse um livro, o que não se vinha a verificar tão rigorosamente nos meses anteriores. No que diz respeito a volume, li 10 livros em julho, 7 em agosto e 5 em setembro, uma vez que este ano as minhas férias decorreram neste mês.

O trimestre fica em parte marcado pelas trilogias / sagas que terminei, nomeadamente a Trilogia Millennium de Stieg Larsson, The Liveship Traders de Robin Hobb, Fundação de Isaac Asimov e a BD Descender de Jeff Lemire e Dustin Nguyen. Destaco O Tango da Velha Guarda de Arturo Pérez-Reverte, que levou a minha nota máxima, mas Quinta Estação de N. K. Jemisin e as sagas que terminei também merecem os meus mais sinceros louvores.

Entrei no mês de julho com a trilogia Millennium de Stieg Larsson, publicada em Portugal pela D. Quixote e pelas Edições ASA. Apesar do hype que sempre envolveu esta trilogia, demorei bastante tempo a pegar nela e acabei por me decidir a lê-la na altura certa. O policial sueco é um género ao qual ainda não estou muito familiarizado mas as últimas leituras despertaram-me o apetite por conhecer a obra deste autor. Ao longo dos livros conhecemos o diretor de uma revista prestigiada de investigação política (a Millennium), Mikael Blomkvist, e uma jovem pirata informática de múltiplos recursos com uma história de vida trágica, Lisbeth Salander. Os livros Os Homens que Odeiam as Mulheres, A Rapariga Que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo e A Rainha no Palácio das Correntes de Ar formam uma trilogia policial bem construída e um dedo apontado à violência sexual de forma bem pertinente. A leitura que mais me fascinou em julho foi, no entanto, e também pelas Edições ASA, O Tango da Velha Guarda de Arturo Pérez-Reverte. Revelou-se, ao contrário do que esperava, uma história de amor, mais do que um thriller de espionagem, apesar de também conter bons apontamentos deste género. Há todo um glamour a perpassar a obra, ao longo de festas deliciosas, de Nice a Sorrento, ao ritmo do tango. Mas foi a maturidade na escrita e na mentalidade do autor o que mais me apaixonou neste livro. Ao longo de três períodos distintos, conhecemos melhor a personalidade riquíssima de Max Costa e de Mecha Inzunza, os protagonistas.

Li os volumes 8 a 10 do mangá One-Punch Man, de One e Yusuke Murata, publicados em Portugal pela Devir. Estes álbuns trouxeram uma nova avalanche de personagens bem interessantes e agradáveis de conhecer, monstros e humanos, aliados e inimigos para o todo-o-poderoso Saitama. King e Nevasca foram as personagens que mais se destacaram nestes álbuns, ainda que não tenha sentido, como em álbuns anteriores, um desenvolvimento merecido para eles. Assim como o protagonista, o desenvolvimento parece estagnar pelo aparecimento repentino de novas personagens. O bom humor do mangá, assim como a arte incrível de Yusuke Murata, continuam a ser os principais motivos para seguir esta série. Uma banda-desenhada que me pareceu melhor foi Kick-Ass: A Miúda Nova, de Mark Millar e John Romita Jr. Publicado pela G Floy Studio, este novo álbum apresenta-nos uma nova protagonista, Patience Lee, a vestir o uniforme verde. Se no álbum já publicado da série – que teve alguns problemas de aceitação no nosso país – o protagonista era um rapaz adolescente que sonhava em ser super-herói, encontramos agora uma heroína militar, cheia de recursos e que tem de ser mãe e dona de casa ao mesmo tempo. A riqueza de diálogos e de arte continuam ao mesmo nível do primeiro volume.

Publicado pela Quetzal Editores, História Universal da Infâmia foi a minha estreia com o autor argentino Jorge Luís Borges. Trata-se de uma coletânea de contos a que o autor chamou de exercícios de prosa narrativa, buscando contar em poucas páginas a vida de vários “vilões” da História, como Billy The Kid, a terrível viúva Ching ou o impostor Tom Castro, de forma simples e direta, até de forma enciclopédica. Não me deixou fã do autor, apesar de ter achado a leitura interessante e de não me fazer fechar a porta a novos livros da sua autoria. E terminei julho com A Chave de Loki, segundo volume da saga A Guerra da Rainha Vermelha de Mark Lawrence, publicado em Portugal pela TopSeller. Na linha do primeiro volume, é um livro bem divertido e despretensioso, com vários crossovers com a Trilogia dos Espinhos do mesmo autor. Este livro vem confirmar esta trilogia como superior à primeira, sem a confusão de linhas temporais e comportamentos estranhos de personagens como Jorg de Ancrath. Do norte gelado, junto dos vikings, o príncipe Jalan Kendeth regressa a Marcha Vermelha com a chave de Loki, tentando fugir às maquinações do Rei Morto e tropeçando na guerra terrível entre a Rainha Vermelha e a Dama Azul.

Entrei em agosto com a primeira parte de A Vingança Serve-se Fria de Joe Abercrombie, cedido pela Saída de Emergência. Benna e Monzcarro “Monza” Murcatto são dois mercenários de exceção, que ganharam fama por mérito próprio e ajudaram o duque Orso a vencer umas tantas batalhas. Mas o seu prestígio está tão “em altas” que o duque teme que o possam usurpar, e então decide matá-los. Benna, o rapaz, é degolado antes de ser atirado pela varanda; a sua irmã Monza é arremessada logo em seguida, mas sobrevive, e então elabora um esquema bem complexo para se vingar. Uma espécie de Conde de Monte Cristo no mundo de A Primeira Lei, outra trilogia famosa do autor. Não chegou para colocar Abercrombie no meu TOP de escritores preferidos, mas deixou-me desejoso de ler a continuação. Também em parceria com a Saída de Emergência li A Quinta de Joanne Ramos. O livro foi muito falado lá fora, acima de tudo por aquilo que ele deixa, uma mensagem poderosíssima sobre o papel da mulher na sociedade, sobretudo sobre desigualdades sociais e xenofobia. A autora é filipina como a sua protagonista, Jane, mas apesar de não ter passado por semelhantes privações, sabe que outras não tiveram igual sorte. Uma quinta onde mulheres de menos posses aceitam ser barrigas de aluguer a troco de vários luxos, um cenário não tão distante da nossa realidade.

Animal Farm é, junto de 1984, a magnus opus de George Orwell. Li durante o mês de agosto a edição recente da Antígona com o título A Quinta dos Animais. Absolutamente delicioso, este romance é uma fábula com porcos, cães e galinhas, em que o autor se propõe a criticar e a satirizar a Revolução Bolchevique e o triunfo do capitalismo, o Triunfo dos Porcos como foi batizado o livro em edições anteriores. Acaba por ser escrito de uma forma tão “ingénua” que o livro também pode ser contado como uma história infantil, numa leitura mais despretensiosa. Em maré de clássicos seguiu-se Germinal de Émile Zola, das Edições Europa-América. Depois de passar dois meses a trabalhar como mineiro na extração de carvão, Zola escreveu este livro que viria a ser uma bandeira para os sindicalistas e proletários em todo o mundo. Mostrando com evidência os problemas e a exploração de recursos humanos nas minas decorrentes da Revolução Industrial, este livro possui uma carga dramática fortíssima, agradável pela escrita do autor e pela forma como ele nos retrata aquela vida, mas também um pouco saturante pela descrição massiva e por explorar ad nauseam as ideias de revolução.

Pela G Floy Studio, chegou às bancas a BD Sete Para a Eternidade, com argumento de Rick Remender e arte de Jerome Opeña. Apesar de travestido de fantasia, com uma fauna original e cenários a condizer, a BD tem muito o espírito de western, com as dicotomias interiores de um homem solitário e a despromoção de si mesmo. Dividido entre ceder à tentação do Deus dos Sussurros, que lhe oferece um acordo apelativo, ou juntar-se à trupe de mercenários que o pretende aniquilar, Adam Osidis precisa resolver os seus fantasmas interiores. Apesar de não ter ficado fã do estilo artístico, a arte casou muito bem com a proposta. Uma boa porta de entrada para o trabalho de Rick Remender, que desconhecia. Ship of Destiny é o terceiro e último volume da trilogia The Liveship Traders de Robin Hobb. Publicado pela Voyager, este livro finaliza as aventuras de Wintrow, Althea, Malta e Brashen, que virão a entrar posteriormente na história de FitzCavalaria Visionário. Apesar de uma ou outra conclusão não me terem enchido as medidas, foi mais um final em grande proporcionado pela Vovó Hobb, uma das melhores escritoras que tenho o privilégio de ler. The Liveship Traders foi mais uma saga excecional da autora californiana.

E terminei agosto com outra conclusão de trilogia. Fundação de Isaac Asimov chegou ao fim. Existem outras trilogias dentro do mesmo universo escritas pelo autor, mas ainda não é seguro que venham a ser traduzidas num futuro próximo. Publicado pela Saída de Emergência, Segunda Fundação é dividida em duas partes, como o livro anterior, centrando-se a primeira na continuação do combate da Fundação ao Mula, e a segunda parte na busca de vários investigadores à localização da tão procurada Segunda Fundação. Uma trilogia que me fica na retina pelas melhores razões. Setembro começou com a leitura de A Senhora do Lago. Dividido em duas partes, o sétimo volume de The Witcher de Andrzej Sapkowski foi publicado pela Saída de Emergência. Neste livro, visitamos amiúde as deambulações de Ciri desde que esta atravessou a Torre da Andorinha e reconhecemos também várias personagens da mitologia arturiana. Geralt e Yennefer têm participações fugazes neste volume, apesar de serem dignas de nota e importantes para o desenvolvimento da história. Conhecemos também uma nova faceta do imperador de Nilfgaard.

Também pela Saída de Emergência chegou-me Guerreiros da Tempestade, o nono volume das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell. Neste livro, o autor voltou à fórmula com que nos habituou ao longo desta saga, depois de no livro anterior termos conhecido umas nuances mais aventurescas e centrado nas mulheres que interferiam direta ou indiretamente na vida do herói Uthred. Este nono livro faz-nos regressar às grandes batalhas, ao encontro dos grandes vilões nórdicos e Uthred continua a manter a sua mente bem afiada. Ainda assim, não me pareceu tão inventivo como nos livros anteriores. A Guerra das Máquinas é o sexto e último volume de Descender, uma BD publicada pela G Floy Studio da autoria de Jeff Lemire e Dustin Nguyen. Neste álbum final da série que conhecerá uma sequela passada num mundo de fantasia (Ascender), autor e ilustrador mostraram todo o seu talento. Reencontros, batalhas, dilemas e um grande clima de tragédia perpassam o volume final que é, em boa verdade, um espelho de si mesmo. Dos planos lindíssimos ao dramatismo incutido nas personagens, Descender é a minha space opera preferida em BD.

Quinta Estação é o primeiro volume da trilogia Terra Fraturada de N. K. Jemisin, vencedora de vários prémios. Publicada pela Relógio D’Água, esta fantasia apocalíptica é a minha estreia com a autora e posso dizer que superou as minhas expectativas. Somos apresentados a uma cidade, Yumenes, e a três figuras, Damaya, Syenite e Essun, as três faces de uma mesma moeda, rostos de uma vida de tragédias pessoais e de falsas manifestações de amor. Do mundo ao conceito, passando pelas mensagens subliminares, esta é uma obra importantíssima nos dias que correm. Publicado pela Quetzal Editores, Cemitério de Pianos de José Luís Peixoto foi outra estreia para mim, mas esta não correu tão bem. Apesar da história bonita, uma homenagem tocante ao atleta português Francisco Lázaro, que faleceu durante os Jogos Olímpicos de Estocolmo, foi um livro muito diferente do que eu esperava. A escrita de Peixoto também me desiludiu imenso, muito porque parti com a ideia de que iria gostar e me pareceu bem insossa.

Neste momento estou a ler Os Testamentos de Margaret Atwood, mas os nomes de Robert Louis Stevenson, William Peter Blatty e Glen Cook estarão presentes naquele que será um mês dedicado a leituras de Halloweeen. Fiquem atentos!

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