Estive a Ler: Os Testamentos


Só aos mortos são permitidas estátuas, mas deram-me uma a mim em vida. Estou já petrificada.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO OS TESTAMENTOS

Natural de Otava, Margaret Atwood é a mais prestigiada autora canadiana e conta com mais de quarenta livros de ficção, poesia e ensaio no currículo. Recebeu diversos prémios literários ao longo da sua carreira, onde se podem contar o Arthur C. Clarke, o Booker Prize, o Governor General’s Award e o Giller Prize, bem como o Prémio para Excelência Literária do Sunday Times (Reino Unido), a Medalha de Honra para Literatura do National Arts Clube (EUA), o título de Chevalier de l’ Ordre des Arts e des Lettres (França) tendo sido também a primeira vencedora do Prémio Literário de Londres. A sua obra está traduzida em trinta e cinco línguas.

The Testaments venceu em 2019 o The Booker Prize, o mais prestigiado prémio literário de língua inglesa, em conjunto com o romance Girl, Woman, Other de Bernardine Evaristo. Trata-se de uma sequela da célebre obra distópica A História de Uma Serva, que a autora decidiu continuar depois de trinta e quatro anos de forma a responder a muitas perguntas que os fãs foram colingindo ao longo das décadas e que se tornaram mais enfáticas com o lançamento da série de TV The Handmaid’s Tale. O livro foi publicado pela Bertrand com um total de 456 páginas e tradução de Sofia Ribeiro.

É ponto assente que The Handmaid’s Tale é uma obra de arte e não só toda a mensagem que ele carrega como a forma como ele foi tecido revela a maravilha de escritora que é Margaret Atwood. Apreciei a mensagem, um aviso muito sério para onde não se pode deixar a sociedade pender, apreciei a escrita da autora, mas mesmo assim, não consegui apreciar o livro. Não me senti na pele da(s) personagem(ns), não me maravilhei com as sensações. E parti para esta sequela, Os Testamentos, com a expectativa de encontrar mais do mesmo.

Os Testamentos pode não trazer grandes novidades aos fãs de A História de Uma Serva, mas maravilhou pelo menos um leitor que ainda não estava convencido pela obra da autora.

Trinta e quatro anos depois, Atwood não perdeu a mão para nos apresentar uma Gileade terrível, de nos fazer puxar os cabelos pelas suas crueldades. O livro perde para a obra original em vários aspectos: aquele constrangimento asfixiante de A História de Uma Serva não me pareceu aqui tão castrador, senti uma maior liberdade por parte das personagens e poucos obstáculos quando se decidiam rebelar.

A trama ocorre quinze anos após os eventos do livro original, e talvez Atwood tenha tido mesmo a intenção de nos mostrar um império em declínio, mas ainda assim horrível. Não vou entrar em SPOILERS, mas a ponta final de Os Testamentos fez-me revirar os olhos pela preguiça da autora. Tudo bem, o livro já ia com mais de quatrocentas páginas e para fazer aquilo como deve ser e ainda terminar da melhor forma seria preciso mais umas tantas páginas.

Depois de listar aquilo que menos me agradou neste livro, preciso de vos ser sincero: adorei Os Testamentos. Tirando os pontos que citei acima, achei este livro bem melhor que A História de Uma Serva. A maturidade na escrita de Atwood coloca-a no meu TOP3 de senhoras escritoras que adoro ler, ao lado de Robin Hobb e Ursula K. Le Guin; e as personagens que ela nos apresenta nesta obra são absolutamente deliciosas.

No livro de 1985, o relato é-nos apresentado na forma de gravações transcritas, que haviam sido encontradas num futuro distante e nos apresentaram Defred, a Serva. Aqui, somos apresentados a um diário e a duas transcrições de depoimentos que correspondem às três protagonistas de Os Testamentos. A principal é a única personagem que conhecemos de A História de Uma Serva, Tia Lydia. E que personagem. Lydia é a personagem mais poderosa de Gileade e é impossível não nos apaixonarmos por ela.

Se não conheces Gileade, ela é o cenário deste mundo distópico apresentado pela autora canadiana. Supostamente, onde ficava os Estados Unidos, depois de um governo totalitário chegar ao poder. As taxas de fertilidade caíram a pique, graças à poluição e às doenças sexualmente transmissíveis, o que levou a sociedade a ser engolida por extremistas religiosos de direita que derrubaram o governo e impuseram um novo regime, no qual as mulheres eram subjugadas por lei e brutalizadas, sem qualquer autorização para trabalhar, ter pertences, dinheiro ou mesmo pegar num livro.

O largo aumento dos índices de infertilidade fez com que as mulheres férteis fossem recrutadas para Gileade, sendo chamadas de Servas. Elas viviam em casas onde se submetiam a violações por parte dos Comandantes, homens de poder, de modo a que estes possam assegurar a sua descendência. Quando se tornam “Servas”, estas mulheres perdem o nome e ganham um novo, que faz referência a quem é o seu patrono.

Há ainda as Tias, que ocupam o lugar de “religiosas” e “professoras”, as Martas, que se encarregam dos afazeres domésticos, e as Esposas, que controlam tudo o que se passa em casa e mostram dedicação aos comandantes, mantendo tudo em ordem. São as quatro posições na pirâmide que as mulheres podem ocupar em Gileade, e que neste livro conhecemos muito bem a partir do ponto de vista de Agnes, uma menina que vê em Tabitha, a esposa do Comandante Kyle, a sua mãe, e só depois da morte desta descobre que não era ela a verdadeira. A chegada de uma nova Esposa para Kyle, Paula, e a morte de uma serva, irão levá-la a mudar de vida.

Conhecemos ainda Daisy, uma menina criada no Canadá que tem o ponto de vista menos interessante da obra mas que ainda assim oferece ao leitor a forma como o mundo exterior observa Gileade e se tenta posicionar de forma a resistir ao totalitarismo ali presente. Vemos também como o pequeno movimento de resistência chamado Mayday (em homenagem ao 1º de Maio) se tenta impor e fazer face àquele governo extremista. Mas é Lydia a personagem mais fulgurante e apaixonante deste livro.

A forma como ela ludibria as outras Tias Fundadoras, o próprio Comandante Judd e pratica o bem através dos atos mais repressivos e repreensíveis mostra bem o que esta personagem é. Uma mulher de um poder enorme dentro do patriarcado. Uma figura de uma inteligência acima da média. E provavelmente a razão por que eu gostei tanto deste livro. Os Testamentos pode não trazer grandes novidades aos fãs de A História de Uma Serva, mas maravilhou pelo menos um leitor que ainda não estava convencido pela obra da autora. Eu!

Avaliação: 9/10

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