Fala-se de: Mulan (2020)


Mulan é a adaptação para live-action do clássico de 1998, que por sua vez foi uma adaptação da lenda chinesa de Hua Mulan. Estava prevista uma grande estreia mundial agendada para 9 de março de 2020, que veio a ser cancelada nos Estados Unidos diversas vezes por conta da pandemia de Covid-19. Em setembro, o filme foi lançado através da plataforma de streaming Disney+ nos países em que o serviço esteja disponível e está prevista uma estreia tradicional nos países que permitirem a reabertura gradual das suas salas de cinema.

O filme, produzido pela Walt Disney Pictures, foi dirigido por Niki Caro com argumento de Elizabeth Martin, Lauren Hynek, Rick Jaffa e Amanda Silver. O filme segue a linha de longa-metragens em live-action a que a produtora se tem dedicado nos últimos, como são caso os filmes A Bela e o Monstro, Aladdin, O Rei Leão ou Dumbo. Este não é o primeiro filme em live-action que estreou diretamente no Disney +, uma vez que A Dama e o Vagabundo também foi produzido em 2019 para esse efeito; embora este caso tenha sido uma solução de recurso.

O filme conta com Liu Yifei como a personagem título, a filha mais velha do lendário soldado Hua Zhou (Tzi Ma) que desafia a tradição milenar e a lei do seu povo ao disfarçar-se como homem no Exército Imperial, protegendo o seu pai doente contra a vontade dele. Isto porque Mulan é uma rapariga especial, com um chi de guerreiro que se destaca de entre todos os outros e o que lhe dá aptidões especiais quase do tipo Capitã Marvel.

Apesar de não existir uma evidência concreta de um interesse amoroso, uma vez que a cena de beijo entre as personagens foi cortada do filme para agradar ao governo chinês, existe uma admiração muito grande entre Mulan e Honghui (Yoson An), um recruta da sua unidade. Honghui foi criado com base na personagem Li Shang da animação, o capitão que se apaixona por Mulan antes mesmo de perceber tratar-se de uma mulher. A sugestão de bissexualidade por parte da personagem masculina foi certamente uma das razões pelo qual amaciaram esta relação.

A falta de um coroar no desenvolvimento amoroso entre as duas personagens é uma das lacunas desta produção, onde a Disney tentou mais uma vez ser politicamente correta e acabou por cair em alguns erros, uma vez que é impossível ser politicamente correto com todos. Ao respeitar as tradições chinesas, está a desrespeitar a promoção de igualdade de direitos com que se rege actualmente a sociedade ocidental e por aí adiante. Desta forma, e apesar do passo significativo ao ter uma mulher a dirigir o filme, a Disney volta a apostar numa releitura mais rígida, desta vez virando-se para a cultura chinesa e sendo mais fiel às tradições que o original.

Outro exemplo desta rigidez de comportamento é a exclusão de Mushu, o dragão brincalhão do original, dobrado por Eddie Murphy em 1998. O público chinês vê o dragão como um símbolo místico e o seu peso cultural é demasiado relevante para que ele seja revelado como uma mascote no filme. Entendimento tardio, a meu ver. Mushu faz parte da simbologia de Mulan e da própria Disney, esteja ou não neste filme. Estas perdas vieram desvirtuar aquilo que é Mulan em detrimento de factores extemporâneos, o que é uma pena.

Ainda assim, a Disney conseguiu manter a essência. O filme é ótimo do princípio ao fim, vemos Liu Yifei a arrasar em todas as cenas, contracenando com atores TOP como Jet Li, Jason Scott Lee ou Gong Li. O primeiro parece quase irreconhecível como o Imperador, enquanto os outros dois são os vilões lá do sítio, Bori Khan, o líder dos rouranos, e Xianniang, uma poderosa feiticeira que me surpreendeu muito como personagem, e quase me comoveu com as emoções criadas. Estes últimos foram personagens criadas para a adaptação, baseados nos vilões originais.

A vertente humorística não foi tão vincada como eu pensei, mas chegou que bastasse. Dos amigos recrutas de Mulan até à inesquecível Casamenteira, não há como não gostar dos pequenos apontamentos e referências à animação. As cenas de ação foram fantásticas, mas mais importante que tudo isso foi a Disney conseguir manter o espírito da Mulan original, mesmo com tantas ausências e contrariedades acumuladas.

Avaliação: 8/10

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