Estive a Ler: O Intruso


Ralph esperava, do fundo do coração, não estar a precipitar-se.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO O INTRUSO

Stephen King é um escritor norte-americano de terror, ficção sobrenatural, suspense, ficção científica e fantasia. Os seus livros já venderam mais de 400 milhões de cópias, com publicações em mais de quarenta países. É o nono autor mais traduzido no mundo. Natural do Maine, onde decorrem muitas das suas obras, King recebeu diversos prêmios, incluindo o Bram Stoker Award, o World Fantasy Award e o British Fantasy Society.

Em 2003, a National Book Foundation concedeu-lhe a Medalha por Contribuição de Destaque à Literatura dos Estados Unidos. Ele também recebeu o Mystery Writers of America em 2007 e a Medalha Nacional das Artes do National Endowment for the Arts em 2015. The Outsider foi publicado pelo autor em maio de 2018, chegando às livrarias nacionais em agosto de 2019 pelas mãos da Bertrand com o título O Intruso, num volume com 544 páginas e tradução de Ana Lourenço e Maria João Lourenço.

King não para de me surpreender. Quando julgo que ele já me mostrou tudo o que podia fazer, eis que publica mais um livro para me dar a volta à cabeça. Ler Stephen King tornou-se, para mim, um exercício de imprevisibilidade, porque ele tanto escreve livros que me parecem super maçadores e sem conteúdo, como depois aparecem algumas pérolas que se tornam dos meus livros preferidos de sempre. Comigo ele vai do 8 ou 80 e e este livro foi, seguramente, dos que mais gostei do autor do Maine.

De facto, até ao meio do livro, é isto que encontramos, um drama familiar e um bico-de-obra para a polícia local.

O livro foi recentemente transformado em minissérie pela HBO, com Ben Mendelsohn, Jason Bateman e Cynthia Erivo nos papéis principais. Considerando que o romance só foi publicado em meados de 2018, isto diz muito sobre a força dele, não diz? Tive a oportunidade de ver a série logo depois de terminar o livro e fiquei algo desanimado por terem modificado algumas coisas, nomeadamente o que aconteceu ao filho do protagonista. Há ainda a questão de Holly Gibney ser interpretada por uma atriz bem distinta da que desempenhou o mesmo papel em Mr. Mercedes, e muito diferente da personagem que o livro nos apresenta.

The Outsider é um livro incrível, entrando no lote restrito de obras de King que me mantiveram acordado por horas da noite, o que só tinha acontecido com It e The Shining, e este último nem sequer me conquistou desta maneira. A complexidade do que aqui encontramos é distendida ao longo das mais de 500 páginas numa montanha russa de emoções, que se contorce e distorce até chegar ao clímax final de nos deixar com os cabelos em pé.

CUIDADO! A PARTIR DAQUI PODES ENCONTRAR MINOR SPOILERS.

Ao pegar neste livro, dificilmente poderemos catalogá-lo como um livro de terror. Trata-se de um policial claro, um crime obsceno praticado por um psicopata que tem de ser encontrado e punido o mais depressa possível. Um policial ao melhor nível. Há um mistério a pairar no ar, mas não deixa de ser um thriller policial, muito bem desenvolvido por sinal… até determinada altura do livro, quando as peças se juntam e tudo se torna absolutamente caótico e impossível.

Desta forma, só posso rir quando li num título do jornal Observador sobre a série da HBO «“The Outsider” não é uma série de terror. Nem sobrenatural. É um policial que joga com um drama familiar e o confronto e a perda da inocência numa comunidade. Todos temos culpa.» Apreciação que leva a concluir facilmente que só viram um ou dois episódios. De facto, até ao meio do livro, é isto que encontramos, um drama familiar e um bico-de-obra para a polícia local.

A trama começa quando o menino Frank Peterson aparece morto de forma macabra no interior de uma carrinha, na fictícia Flint City, no sul do Texas. O rapaz foi encontrado com um galho de árvore projectado do ânus, vestígios de esperma atrás das suas coxas e uma parte da sua garganta parecia ter sido arrancada à dentada. O crime podia permanecer um mistério, não fossem inúmeras as testemunhas que viram Terry Maitland, o treinador da equipa infantil de baseball, homem popular na comunidade e amado por todos, nas imediações, com comportamentos suspeitos. Como se não fosse o bastante, as suas impressões digitais encontravam-se por todo o santo lugar naquela carrinha.

Ao deparar-se com tamanhas evidências, o detetive Ralph Anderson, pai de Derek, um menino que tinha sido treinado por Terry, não vai de modas. Só de imaginar que podia ser o filho a ser estuprado, morto e canibalizado, mexe-lhe com as entranhas. A meio de um jogo e diante de toda a comunidade, da mulher e das filhas do suspeito, Ralph prende Terry. O homem parece incrédulo sobre o que lhe estão a fazer. A esposa, Marcy, também. O que será dela e das suas filhas, da sua vida dali por diante?

Com o apoio do procurador Bill Samuels, Ralph vai em frente com a acusação, mesmo que Howard Gold, amigo da família e também seu amigo, se revele um advogado de defesa fortíssimo. Terry alega ter estado numa convenção para receber o autógrafo do escritor Harlan Coben (na também fictícia cidade de Clint City), o que lhe daria o álibi perfeito para a data do crime. Ralph sabe à partida como esses álibis são fáceis de desmontar, e não compreende como tanto Howard como a família do suspeito o olham como se fosse ele um criminoso.

Do outro lado, Howard – chamado Howie pelos amigos – contacta Alec Pelley, um detetive na reforma, para o ajudar na resolução do caso. Apesar de estar convencido da inocência de Terry, parece inexplicável que tantas testemunhas o tenham visto no local do crime e que as suas impressões digitais e ADN estejam por lá. Ele sabe que, em tribunal, precisa de apresentar uma defesa sólida, ou o seu cliente e amigo será levado à sentença de morte, pela certa.

Para alívio do treinador, bem como da sua família e advogado, foi parar à internet um vídeo da sessão de autógrafos de Harlan Coben, e as imagens de câmara mostram nitidamente Terry entre a plateia, chegando mesmo a fazer uma pergunta ao escritor de policiais. Também as suas impressões digitais estão presentes no lugar onde se realizou a convenção, o que deixa Ralph completamente consternado e finalmente percebe que cometeu um erro ao aprisionar Terry em público, arruinando talvez para sempre a vida do treinador e da família.

Mas o mistério prossegue: como é possível que Terry estivesse em dois lugares em simultâneo? E, se não foi o treinador a matar o menino, quem foi? Paralelamente, a família do rapaz assassinado acaba por morrer a pouco e pouco, e as filhas do treinador acusado começam a ter sonhos estranhos, sensações partilhadas pela esposa de Ralph, Jeannie. Alguém os quer avisar para pararem de procurar, mas e se esse alguém não for humano?

El Cucuy é o nosso vilão. | Fonte: https://angrychairbrewing.com/beer/el-cucuy-2/

A trama é poderosa, envolvente, e se a primeira metade nos deixa colados ao livro pelo mistério policial, pelas relações afetivas entre as personagens, os sentimentos de dúvida, de revolta, de remorsos, de gratidão e de dívida pessoal, onde o espírito de comunidade e a objetividade policial se interligam de forma extremamente credível, a segunda metade oferece a solução para todos os mistérios, e essa resolução mostra-nos uma criatura que nos pode fazer muito bem lembrar Pennywise, sendo que desta vez King pegou numa figura lendária com origens portuguesas: El Cuco, o nosso Cabeça de Abóbora ou Homem do Saco.

Há referências a Agatha Christie e a Edgar Allan Poe, alfinetadas a Donald Trump e à adaptação cinematográfica de The Shining por Stanley Kubrick, para além da participação importantíssima de Holly Gibney na trama (a partir de certa altura a trilogia Bill Hodges cruza-se com esta história e para quem como eu já a leu, ficam ainda mais deliciosas todas as referências). Stephen King oferece-nos um prato cheio de emoções, conduzindo um grupo de polícias e de pessoas respeitáveis de uma pequena comunidade a enfrentarem de peito aberto o verdadeiro papão das nossas histórias de infância.

Avaliação: 10/10

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