Estive a Ler: A Rosa Branca, As Crónicas da Companhia Negra #3


O trovão e o relâmpago continuaram. O som e o clarão atravessaram as paredes como se fossem de papel. Dormi inquieto, com os nervos mais alvoroçados do que deveriam estar.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A ROSA BRANCA”, TERCEIRO VOLUME DA SÉRIE AS CRÓNICAS DA COMPANHIA NEGRA

As Crónicas da Companhia Negra são uma série do autor americano Glen Cook, considerado o pai do grimdark ou da dark fantasy, e um dos nomes mais citados no cada vez mais amplo catálogo de autores que se afastam do maniqueísmo tradicional do género fantástico. A primeira trilogia encerra neste volume, naquilo que são normalmente chamados de Livros do Norte, sendo também a mais célebre do escritor que, para além de The Black Company, aventurou-se por outras sagas de fantasia épica.

Glen Cook nasceu em 1944 e cresceu na Califórnia. Serviu na Marinha e licenciou-se em Psicologia na Universidade do Missouri. Desde 1971 que publicou vários romances de fantasia e de ficção científica. Depois de trabalhar durante muitos anos na General Motors, tornou-se escritor a tempo inteiro assim que se reformou. Vive com a sua mulher Carol em St. Louis, Missouri. A Rosa Branca é a tradução portuguesa de The White Rose de 1985 pela Saída de Emergência, com um total de 400 páginas e tradução de Renato Carreira.

Não sendo das minhas séries preferidas, é tão bom ler The Black Company. É engraçado perceber que os três volumes desta primeira trilogia, apesar de manterem o grosso das personagens em todos eles, são extremamente heterogéneos. Por um lado, não parecem ser sequências óbvias um do outro, os ambientes que são descritos são diversos e mesmo a estrutura dos acontecimentos diverge bastante. Por outro, eles complementam-se como peças de um puzzle que nem sempre fazem lógica nas nossas cabeças até que o autor se decida a explicar-nos.

Só posso agradecer à Saída de Emergência por continuar a publicar obras desta riqueza e alcance.

É um pouco como a Saga do Império Malazano, que é inspirada abertamente nas Crónicas da Companhia Negra, mas Cook apresenta-nos uma dimensão mais reduzida e um menor número de personagens a explorar. Este terceiro livro começou para mim de uma forma algo confusa, sem me entusiasmar por aí além, mas foi fazendo mais sentido a pouco e pouco e do meio para a frente fiquei viciado na leitura.

Devo confessar que, em alguns momentos, adorei o que estava a ler mesmo sem compreender exatamente o que acontecia. Quando há confusão e revelações, nem sempre conseguimos reter no imediato aquilo que estamos a ler, devido à intensidade e rapidez de acontecimentos, mas o autor permite-nos sorver depois com momentos mais reflexivos por parte das personagens. A Rosa Branca pode tanto ser visto como um quebra-cabeças, como a peça de um puzzle mais amplo, que abrange os dois primeiros volumes da trilogia.

Há uma profundidade nas personagens muito bonita de ver explorada, essencialmente no que diz respeito ao protagonista, que narra a história. É também muito agradável de ver como protagonista de uma saga a personagem com menos poderes, o médico de serviço do regimento, mas que no entanto se revela importantíssimo, merecedor de respeito por todos, até pelos maiores vilões. E, em boa verdade, o que há mais nesta trilogia são vilões (e há uma vilã que o respeita especialmente).

Na minha cabeça, o Físico é o médico da série The Terror 😀 | Fonte: https://seat42f.com/the-terror-season-1-episode-8-photos-the-c-the-c-the-open-c.html

Falo de Físico, o médico e historiador da Companhia Negra, que começa este livro a lançar-se em debates unilaterais com menires (sim, menires!). As pedras falam, mas só falam o que lhes apetece e quando lhes apetece. A Companhia está instalada na Planície do Medo às ordens de Amorosa, que tudo leva a crer seja a Rosa Branca reencarnada. Ela protege o lugar com o seu nulo, porque qualquer feiticeiro que entre no seu domínio, perde de imediato os poderes.

A Companhia ainda recupera das perdas sofridas em Zimbro, seis anos antes, quando fugiram de forma desesperada da terrível dark lady Senhora. Agora, os exércitos de Amorosa são as forças rebeldes à Senhora, e é depositada nela grande esperança, porque no passado a Rosa Branca das lendas venceu-a. A batalha adivinha-se, mas não há grandes sinais da terrível Senhora, o que só por si desperta desconfianças, e nada mais se soube de Corvo, o antigo protector e interesse romântico de Amorosa.

A Companhia Negra não mostra grandes diferenças para o que foi no passado, mas a velhice parece instalar-se nos seus ossos. Para além de Físico, destacam-se os feiticeiros Zarolho e Duende, sempre em desacordo, Silencioso, dono de uma vigilância zelosa a Amorosa, e os leais Elmo e Tenente, a quem se junta um enigmático combatente chamado Batedor e o seu inusitado cão, o Cão Mata Sapos, com quem Físico trava uma relação algo fria.

Junto ao Velho Pai Árvore na Planície do Medo, a Companhia Negra planeia as suas estratégias de defesa, com o apoio do forasteiro Batedor, dos menires falantes e das baleias voadoras chamadas baleias-do-vento, que reforçam o exército. É num dia aparentemente banal que Físico começa a receber cartas. Inicialmente pensa tratar-se de mensagens da Senhora, mas depressa percebe tratar-se da narração de uma lenda conhecida sobre Bomanz, o feiticeiro que em tempos a libertou.

A primeira metade do livro é muito dividida entre os acontecimentos com Físico, a narração das cartas sob o ponto de vista de Bomanz e os acontecimentos com Corbie, uma personagem misteriosa que mais à frente nos oferece uma bela revelação. É quando tudo conflui e se torna mais claro que começam as explosões e os reencontros e um festival de maravilhas para quem gosta de fantasia épica e de fantasia negra.

Este terceiro volume é muito diferente tanto do primeiro como do segundo, mas achei melhor; não fosse aquele início pouco empolgante e diria sem dúvidas muito melhor. A escrita de Cook é bem fluída e madura, e custa-me imaginar que um livro tão bem construído e irreverente tenha sido escrito há tanto tempo, no ano em que nasci. Só posso agradecer à Saída de Emergência por continuar a publicar obras desta riqueza e alcance.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

As Crónicas da Companhia Negra (Saída de Emergência):

#1 A Companhia Negra

#2 As Sombras Eternas

#3 A Rosa Branca

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