Estive a Ler: The Book of Swords


The slain cold and still.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO THE BOOK OF SWORDS

Falecido em 2018, Gardner Dozois presenteou-nos com uma boa colecção de trabalhos antológicos, parte dela em parceria com o seu grande amigo George R. R. Martin; são exemplo os livros publicados em Portugal Rogues e Dangerous Women, publicados pela Coleção BANG! da Saída de Emergência de forma dividida como Histórias de Aventureiros e Patifes, Histórias de Vigaristas e Canalhas, Mulheres Perigosas e Nada Enfurece Mais Uma Mulher e Outros Contos de Mulheres Perigosas.

The Book of Swords foi um dos seus últimos trabalhos, publicado em outubro de 2017 pela Bantam Books, não tendo sido publicado em Portugal. Apesar de ter mais uma noveleta de Sangue e Fogo de George R. R. Martin nas suas páginas, o autor de A Guerra dos Tronos não fez parte da organização desta antologia, ao contrário das já referidas. Com um total de 522 páginas, esta antologia convidou autores de renome a escrever novos contos do género espada & feitiçaria, bem como outros menos conhecidos.

O Trono de Ferro, por Marc Simonetti | Fonte: https://www.pinterest.com/pin/94997873365789656/

O que mais me levou a pegar neste The Book of Swords foi a necessidade de revisitar alguns dos meus autores preferidos que, por ironia do destino, participaram deles neste trabalho antológico. Falo de autores como Scott Lynch, George R. R. Martin e Robin Hobb, mas também de Daniel Abraham, autor que me tem agradado do pouco que li. Como tal, não podia perder muito mais tempo sem ler este livro – as expectativas estavam a mil.

Que venham mais e melhores antologias deste género, de preferência publicadas por cá.

Ao contrário do que vinha verificando em outras antologias, achei estes contos todos eles muito homogéneos. Julguei que isso fosse algo manifestamente bom, mas preciso confessar que o facto de a temática da antologia ser também um género (a espada & feitiçaria) fez com que, de certo modo, todos eles tivessem parecenças, o que me aborreceu um pouco, a dado momento. Mesmo assim, devo destacar a qualidade dos contos que, como seria de esperar, houve aqueles que me agradaram mais, outros menos.

The Book of Swords começou com The Best Man Wins de K.J. Parker. Acabou por ser uma boa porta de entrada para a antologia, apesar do início maçador que explica a forja de uma espada e da conclusão algo previsível a partir de determinado momento. Somos logo convidados, ao segundo conto, a encontrar a deliciosa Robin Hobb. Her Father’s Sword é uma história ambientada durante a Guerra dos Navios Vermelhos e aqui o jovem FitzCavalaria Visionário tem uma curta participação. Apesar de ter gostado, esperava melhor da minha rainha da fantasia.

The Hidden Girl de Ken Liu foi uma grande e boa surpresa. Piscando o olho à cultura tradicional chinesa, senti-me arrastado para o interior de um O Tigre e o Dragão com uma escrita lindíssima. Uma história sobre a filha de um general treinada como assassina que sente alguma dificuldade em cumprir o seu propósito. The Sword of Destiny de Matthew Hughes foi seguramente o pior conto da antologia. A corrida desenfreada de um ajudante de mago que não corre muito bem revelou-se chata e desinteressante.

FitzCavalaria e Olhos de Noite (o lobo não aparece na antologia) | Fonte: https://www.artstation.com/artwork/1n5BNG

“I Am a Handsome Man”, Said Apollo Crow de Kate Elliott foi um divertido conto passado no Império Romano sobre um caçador de recompensas que é enviado pelo Imperador para roubar o caderno de desenhos de uma opositora rebelde. Mas, nem tudo é o que parece. Da autoria de Walter John Williams, The Triumph of Virtue foi outro dos contos menos bem conseguidos da antologia, com a participação de um dos personagens centrais da sua obra, Quillifer.

The Mocking Tower é a história de Daniel Abraham. Não gostei propriamente da forma rápida e fácil com que um ladrão e um herdeiro ao trono conseguiram chegar tão facilmente à maldita torre, mas tanto a escrita do autor como o plot-twist final foram deliciosos. Hrunting de C.J. Cherryh oferece uma nova e interessante perspetiva à lenda de Beowulf e A Long, Cold Trail é mais uma boa entrada de Garth Nix protagonizada por Sir Hereward e Mr. Fitz.

Em “The Mocking Tower”, há uma torre que muda de forma | Fonte: https://www.artstation.com/artwork/v1zOyD

When I Was a Highwayman de Ellen Kushner é uma história mais juvenil e pouco entusiasmante passada em Riverside, o cenário da sua série de fantasia. Scott Lynch presenteou-me com The Smoke of Gold Is Glory. Ele apresenta-nos a Tarkaster Crale, um famoso ladrão que, junto ao Rei das Ondas e aos seus compinchas ajja, tenta roubar o tesouro de um dragão. Achei as armadilhas e o caminho até ao dragão cansativo e cliché, mas tudo aquilo que Lynch escreve é delicioso e este conto também o foi.

The Colgrid Conundrum é mais uma caça ao tesouro escrita por Rich Larson, que apesar dos bons diálogos se revelou mais do mesmo e pouco interessante. Tinha curiosidade em ler Elizabeth Bear, a esposa de Scott Lynch. The King’s Evil apresenta-nos personagens muito interessantes e um mundo que gostaria de explorar, mas a história em si e a relação entre a dama doutora Lzi e dois inusitados caçadores de tesouros numa ilha amaldiçoada não me entusiasmou por aí além.

Os protagonistas de Scott Lynch são sempre ladrões com uma boa dose de sorte | Fonte: https://www.deviantart.com/sir-heartsalot/art/Locke-Lamora-165306569

Waterfalling de Lavie Tidhar foi outra das excelentes surpresas da antologia. Nunca tinha ouvido falar deste escritor, mas apesar da franca inspiração no Pistoleiro de Stephen King, o seu Gorel de Goliris vive num mundo ainda mais complexo. Neste conto frenético, ele é escravizado pelo beijo de um deus nu e acorrentado, caindo na armadilha de um mago que o pretende capturar, embora partilhe consigo sentimentos ambíguos.

Os últimos dois contos do livro foram The Sword Tyraste de Cecelia Holland e The Sons of the Dragon de George R. R. Martin. O primeiro é uma aventura algo corriqueira, sobre um aventureiro em busca de vingança que acaba por conquistar mais do que esperava devido a uma espada, aventura esta passada na época dos viquingues, e a segunda mais uma noveleta do Mundo de Gelo e Fogo, que já conhecia dos livros Sangue e Fogo do autor. A história narra o período temporal entre a morte de Aegon I e Maegor I.

Algures nesta antologia nos lembraremos de Smaug | Fonte: https://movie-villains.fandom.com/wiki/Smaug

No cômputo geral, The Book of Swords foi mais um bom trabalho de Gardner Dozois, que soube apostar nos autores certos, uns mais conhecidos do que outros, para compor uma antologia de qualidade. São dezasseis contos que retratam bem o espírito e o conceito da espada & feitiçaria, embora tenha sentido falta de mais cenas à Robert E. Howard, até porque o tema me remete sempre para o eterno Conan. A esse respeito, gostava de ter lido histórias mais parecidas às do mítico bárbaro.

É sempre bom encontrar autores que me dizem tanto, e embora tenha que admitir que não foram os melhores textos de George R. R. Martin, Scott Lynch ou Robin Hobb, adorei revisitar os meus queridinhos. Nesta antologia, porém, preciso destacar os contos “The Hidden Girl” de Ken Liu, “Waterfalling” de Lavie Tidhar e “The Mocking Tower” de Daniel Abraham, por esta ordem, como os meus preferidos. Que venham mais e melhores antologias deste género, de preferência publicadas por cá.

Avaliação: 7/10

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