Estive a Ler: O Instituto


Elevou-se no ar um gemido coletivo e Tim viu várias pessoas pegarem nos telemóveis para o caso de haver problema.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO O INSTITUTO

Stephen King nasceu em 1947, em Portland, no Maine. Filho de um marinheiro mercante, que abandonou a família em 1950, foi criado pela mãe, em Durham, juntamente com o seu irmão David. A mãe viu-se forçada a trabalhar precariamente para poder sustentar os seus filhos. O autor viria a enveredar por uma carreira como romancista de terror, sendo muitas vezes apelidado como o mestre do género. Na sua obra contam-se livros como Carrie, The Shining, It – A Coisa, Salem’s Lot, Samitério de Animais ou a saga A Torre Negra.

O autor norte-americano viveu vários momentos de grande impasse na sua vida, desde os vícios da juventude até ao acidente que quase o vitimou, em 1999. Passou a maior parte da sua carreira como romancista em Bangor, no estado do Maine. Em Portugal, a sua obra tem sido publicada pela Bertrand. O Instituto é o mais recente livro do autor, publicado este mês com um total de 576 páginas.

Longe de ser um dos melhores livros do autor – bem longe disso – O Instituto é mais um livro de mistério e terror de Stephen King a envolver crianças e poderes sobrenaturais e isso é o que basta para bater uma saudade de outras obras icónicas do autor e ser impossível não desgostar completamente deste romance. A prosa de King é como sempre intimista, despretensiosa e com tanto de empatia como de bom humor, receita que traduz boa parte do seu sucesso. O autor volta a dar tudo, e isso nota-se na complexidade da obra.

É uma história muitas vezes inquietante e desagradável, mesmo que diretamente não o possamos qualificar como um livro de terror.

Por isso, é bem provável que este O Instituto venha a ser, daqui por uns 20 anos, mais um clássico deste autor (se não for esquecido entre as mais de seis dezenas de romances que King já publicou). Há aqui um grande trabalho de pesquisa científica, há relações de amizade profundas e emocionantes e isto seria o suficiente para fazer destas quase seis centenas de páginas algo memorável e de grande qualidade. Li recentemente O Intruso e fiquei completamente deliciado com a mestria de King.

Mas, neste momento, não consigo olhar para este livro da mesma forma. Por muito que a nostalgia me abraçasse, por muito que eu goste da escrita de Stephen King, das suas inúmeras referências e estilo “bacana”, a primeira metade do livro foi sofrível. As primeiras 100 páginas chatearam-me por mostrar o quotidiano de um polícia que não dava em nada e não havia sequer qualquer referência ao Instituto, e quando realmente começaram a aparecer as crianças sobredotadas e o Instituto que dá título ao livro, desejei voltar à história do senhor.

É que a introdução ao Instituto podia ter sido tão melhor, e ainda que tenha gostado da organização em si como ela se revelou mais para a frente, as crianças que se tornam amigas do protagonista fizeram-me quase puxar os cabelos de desespero, de tão irritantes que eram. Mas houve um volte-face quando o protagonista conseguiu “fintar” o Instituto, o ritmo aumentou e do meio para a frente posso dizer que o livro melhorou bastante. Aí sim, encontrei King em boa forma e gostei muito mais do romance.

O Instituto apresenta-nos Tim Jamieson, um ex-polícia condecorado que abandona o seu emprego na Flórida e viaja para Nova York com perspetivas de futuro. Por coincidência do destino, no caminho, ele desiste do lugar no avião e se vê na pequena cidade fictícia de DuPray, na Carolina do Sul. Indivíduo obstinado e sonhador, Jamieson consegue um emprego a trabalhar para John, o xerife local.

No subúrbio de Minneapolis, somos apresentados a um menino talentoso, com uma inteligência acima da média. Luke Ellis perspetiva um futuro grandioso, pretendendo ingressar, na sua idade precoce de 12 anos, em duas universidades em simultâneo. Um dia, porém, intrusos assassinam os pais de Luke com a máxima discrição e o sequestram. Ele acorda num quarto quase idêntico ao seu, mas encontra-se no Instituto, uma instalação localizada nas profundezas da floresta do Maine.

No Instituto estão várias outras crianças sequestradas, cada uma com talentos especiais – telecinesia e telepatia – que moram nos seus próprios quartos. Kalisha, Nick, George, Iris e mais tarde Avery Dixon e Helen Simms, com dez anos de idade, estão na área conhecida como Metade da Frente, enquanto outros são levado para a Metade de Trás do Instituto, onde são alvo de experiências científicas e outras torturas.

Julia Sigsby, a diretora do Instituto, e a sua equipa dedicam-se a extrair os talentos especiais das crianças, conhecidos como TP (telepatas) e TK (telecinéticos). Para fazer isso, experiências semelhantes às realizadas por Josef Mengele na Alemanha nazi são realizados nas crianças para tentar desenvolver e aumentar os seus talentos. As equipas científicas esperam que alguns TK obtenham habilidades de TP aumentadas e vice-versa.

Stephen King apresenta aqui mais uma obra de grande dimensão e impacto, onde tudo começa por correr muito mal e, a partir de determinado momento, tudo começa a pender para os protagonistas. Para mim, o livro melhorou muito desde que as histórias de Tim e Luke se cruzaram, embora tenha sentido sempre um gosto salgado nos capítulos protagonizados pelas crianças do Instituto: para além de Luke, nenhuma me conquistou como por exemplo as crianças de It. Talvez o tempo me venha a criar melhores memórias sobre elas.

Este não deixa de ser um livro polémico. O Instituto fala sobre tortura sobre crianças e levanta várias questões, não só científicas como sociais. A premissa de que os fins justificam os meios é aqui levantada, embora a ideia que as chefias do Instituto apresentem como justificativa para os seus crimes seja desconstruída no capítulo final do livro. É uma história muitas vezes inquietante e desagradável, mesmo que diretamente não o possamos qualificar como um livro de terror.

Avaliação: 5/10

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