Estive a Ler: Vox


Tornei-me uma mulher de poucas palavras.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO VOX.

Um livro profundamente reflexivo e com uma poderosa componente distópica, Vox é o romance mais badalado de Christina Dalcher, autora norte-americana doutorada em Linguística Teórica pela Universidade de Georgetown. Dalcher deu aulas em universidades dos Estados Unidos, Inglaterra e Emirados Árabes Unidos e publicou vários contos e pequenas narrativas em centenas de revistas literárias pelo mundo fora, tendo chegado ao prestígio com a publicação deste romance em agosto de 2018.

Sendo para muitos uma completa desconhecida até à publicação do romance e ao extraordinário feedback que recebeu, a autora venceu alguns prémios e foi nomeada para muitos mais, nomeadamente o Pushcart Prize e o Bath Flash Award. Depois de vários anos a viver fora do seu país natal, a autora divide o tempo entre o sul dos Estados Unidos e a cidade de Nápoles, em Itália. Vox foi publicado em Portugal no início de 2019 pela TopSeller, com um total de 304 páginas e tradução de Renato Carreira.

E se cada mulher só tivesse direito a 100 palavras por dia? É a partir desta premissa que somos convidados a entrar em Vox. Neste livro distópico, a misoginia na religião e na sociedade levou a que a civilização regredisse no que diz respeito à igualdade de género. Assim, as mulheres viram-se privadas de muitos dos seus direitos mais fundamentais. Para além de lhes roubarem a oportunidade de exercer cargos públicos ou de desempenharem sequer empregos que não fossem domésticos, colocaram-lhes contadores nos pulsos.

Não me tendo apaixonado como romance, é um livro de mensagens poderosas e que não nos podemos abster de ler – e de recomendar.

Pois é. Se uma mulher disser mais de 100 palavras por dia, o contador começa a desferir-lhe choques elétricos. Violento, não? Que o diga a protagonista, Jean McClellan, uma cientista que nunca acreditou que as intenções do Movimento Puro chegassem àquele patamar. Depressa viu-se relegada a dona de casa, tendo o marido, Patrick, que trabalhar 12 horas por dia para poder sustentar a família. Em simultâneo, observa os resultados de todo aquele processo no crescimento dos próprios filhos.

O filho mais velho, Steven, é esculpido na escola à imagem do fanatismo religioso de Carl Corbin – reverendo que viu as suas ideias misóginas ganharem força com a eleição de Sam Myers como presidente dos EUA – e torna-se uma sombra daquilo que ela mais odeia. Os gémeos parecem passar ao lado da crise, mas Sonia, a filha mais nova, vive o mesmo pesadelo que a mãe e é sobretudo por ela e pelo seu futuro que Jean sofre.

Antes, a nossa protagonista nunca dera muita atenção àquelas ideias ridículas e machistas, nunca achou que o feminismo exacerbado que a sua amiga Jackie pregava fosse necessário, mas à medida que o apoio a Corbin foi crescendo, foram muitos os homens que se juntaram à causa e mostraram comungar das suas ideias, havendo mesmo mulheres a concordar com valores tão castradores. A cura da homossexualidade é outra das pretensões deste movimento, capaz de utilizar os métodos mais cruéis para se fazer valer.

À medida que Jean deixa até de reconhecer o próprio esposo, vê-se arrastada para uma espiral de acontecimentos que culmina quando lhe é dada uma hipótese: retiram-lhe o contador se aceitar trabalhar para o governo naquilo que ela sabe fazer de melhor, ser cientista. Acontece que o irmão do presidente sofre um acidente que lhe provoca uma lesão neurológica, impossibilitando-o de compreender outras pessoas: a afasia de Wernicke, precisamente o problema para o qual Jean estava a trabalhar quando se deu a ruptura cultural.

É então que é praticamente exigido que ela conclua o soro anti-afasia que estava a desenvolver, permitindo que os pacientes se tornassem capazes de compreender palavras ou de reconhecer símbolos auditivos, visuais ou táteis, o que lhes é impossibilitado pela lesão neurológica. Assim, ela vê-se obrigada a regressar ao local de trabalho e a reencontrar a neurocientista Lin Kwan, bem como o seu ex-colega e amante, o italiano Lorenzo Rossi.

Um The Handmaid’s Tale dos tempos modernos, Vox é mais uma distopia importantíssima para ser lida nos dias de hoje, em que são necessários movimentos como o #MeToo. O livro mostra que o feminismo não é tão despropositado como por vezes julgamos e que a sociedade é feita de ciclos – existem muito boas pessoas apostadas em fazer-nos voltar à Idade da Pedra, ou pior. Vox mostra uma sociedade em que as mulheres são obrigadas a regredir aos seus papéis de dona do lar e a calar a sua voz perante o mundo.

Inquietante, revoltante e sobretudo uma chamada de atenção extremamente pertinente, Vox é um trabalho extremamente sólido de Christina Dalcher, consistente e credível da primeira à última página. Mais do que nos mostrar para onde a sociedade parece estar a caminhar em certos sentidos, ele mostra as sensações e os pesadelos que essa direção trará a quem a experimentar. Como romance, achei demasiado cliché o romance da protagonista e demasiado romanceado o papel desempenhado pelo seu interesse amoroso, mas compreendo a opção.

Vox é um livro extremamente importante dado os alertas que carrega consigo. Por vezes dei comigo a pensar que esta realidade não está tão distante da nossa, se pensarmos nas bolhas que se tocam e se multiplicam na sociedade sempre que um “louco fanático” como Carl Corbin se aproxima do poder. Não me tendo apaixonado como romance, é um livro de mensagens poderosas e que não nos podemos abster de ler – e de recomendar.

Avaliação: 7/10

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