Estive a Ler: A Metamorfose


Estarei agora menos sensível?

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO A METAMORFOSE

Natural de Praga, o escritor Franz Kafka nasceu numa família da média burguesia judia de expressão alemã. Tendo concluído os estudos jurídicos com o título de Doutor em Direito no ano de 1906, começou dois anos depois a revelar os seus primeiros textos em revistas literárias. A Metamorfose, novela que viria a afirmar-se como uma das suas obras de referência, foi publicada em 1915. Publicou em vida apenas sete pequenos livros, três deles antologias de textos e contos.

Viria a falecer de tuberculose em 1924, deixando três romances fragmentários que seriam publicados postumamente pelo seu amigo e testamenteiro Max Brod. Esses livros foram O Processo (1925), O Castelo (1926) e América (1927). A sua obra, centrada no homem solitário moderno, refém de uma vida absurda, tornar-se-ia uma das mais influentes do mundo literário do século XX. Li a edição de A Metamorfose de maio de 2017, pela Editorial Presença, que conta com um total de 80 páginas.

A Metamorfose de Franz Kafka é uma excelente leitura de domingo à tarde: curta, reflexiva e metafórica. Veio a ser o texto mais conhecido, estudado e citado da obra de Kafka. Apesar de ter sido publicada em 1915, foi escrita em novembro de 1912 e concluída em vinte dias. Depois de ter sentido algumas dificuldades em entender e em assimilar o livro O Processo de Kafka, que li em 2014, esperava algo mais complexo e desafiante para este A Metamorfose, que se revelou uma leitura mais empática e simples de compreender.

A Metamorfose é um livro com mais de 100 anos, e ainda assim sempre atual.

A escrita do autor é redondinha e agradável, o que eu já tinha constatado da obra com que me estreei com Kafka; facto que me tinha deixado com vontade de ler mais do escritor checo. A história em si também é interessante, deixando-nos sempre no impasse do que iria acontecer em seguida e deixando-nos guiar mais pelo decorrer dos acontecimentos do que nos fazendo perguntar o porquê das coisas. E o livro é uma novela, apenas 80 páginas que se lêem muito bem.

Gregor Samsa é um caixeiro-viajante que deixou de ter vida própria para sustentar a família, que se acomodou a viver às suas custas. Através do seu trabalho, Gregor pagou a dívida que a família tinha para com o homem que se tornou seu patrão. A vida dos Samsa ficou mais leve e desafogada, permitindo aos pais e à irmã que deixassem os seus trabalhos e até mesmo a que contratassem uma empregada para cuidar das refeições e limpezas.

Um dia, porém, Gregor acorda transformado num inseto monstruoso, e embora todos lhe batam à porta para saber o que se passa consigo, ele apenas procrastina na sua saída do quarto. Até mesmo quando um superior lhe vem bater à porta ameaçando-o com o despedimento, ele procura desculpas para se justificar, mas em pouco tempo é obrigado a revelar à família a sua nova condição. Ao longo da história, Kafka mostra como a família sente medo, acaba por o aceitar e depois por o descartar.

Kafka é exímio nas metáforas que aqui apresenta. Gregor está transformado num inseto horrível, mas as suas principais preocupações são em não perder o emprego, para o qual está atrasado. E a família, que se revela ela sim parasita, aproveitando-se do trabalho de Gregor e vivendo às suas custas, enxotando-o quando ele já não lhes serve. A abordagem de Kafka é deliciosa e mostra várias facetas do ser humano e da falta de carácter.

A metamorfose de Gregor Samsa é exatamente o que acontece com muitas pessoas na nossa sociedade. Um dia adoecem, um dia ficam incapazes, um dia ficam demasiado velhas para desempenhar qualquer papel, e aqueles que sempre se habituaram a viver à sua sombra mostram incómodo, culpabilizam-nos por deixar de os “amparar” e depois enxotam-nos porque, para além de não contribuírem, são um peso aos seus ombros. A Metamorfose é um livro com mais de 100 anos, e ainda assim sempre atual.

Avaliação: 8/10

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