Estive a Ler: O Portal dos Obeliscos, Terra Fraturada #2


O Sossego tem uma relação estranha com os que se autonomeiam guardadores da sabedoria das pedras.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “O PORTAL DOS OBELISCOS”, SEGUNDO VOLUME DA SÉRIE TERRA FRATURADA

Em 2016, a autora norte-americana N. K. Jemisin ganhou o Prémio Hugo de Melhor Romance com The Fifth Season, tornando-a a primeira escritora negra a ganhar este galardão na categoria. As continuações, The Obelisk Gate e The Stone Sky, ganharam o mesmo prémio em 2017 e 2018, respectivamente. O segundo volume foi publicado pela Relógio D’Água em 2019, com tradução de Alda Rodrigues e um total de 344 páginas.

Mestre em educação pela Universidade de Maryland, Jemisin foi finalista em 2009 e 2010, respectivamente, do Prémio Nebula e Hugo pelo seu conto Non-Zero Probabilities. O seu romance de estréia, The Hundred Thousand Kingdoms, primeiro volume da Trilogia Inheritance, foi também nomeado para o Nebula em 2010 e foi pré-selecionado para o Prémio James Tiptree Jr, vencendo em 2011 o Prémio Locus de Melhor Romance de Estreia. The Hundred Thousand Kingdoms também adicionou à lista o Prémio Sense of Gender na categoria Tradução, em 2011.

Arte | Fonte: http://mirandameeks.com/portfolio/cover-art-broken-earth-n-k-jemisin/

Ao ler este segundo volume de Terra Fraturada finalmente percebo o porquê de N. K. Jemisin ser tão premiada. Se Quinta Estação já me tinha deixado bem impressionado, tanto pelos dotes de escrita como pela construção narrativa, O Portal dos Obeliscos vem confirmar essa sensação, ao explorar este mundo incrível, fazer-nos conhecer mais sobre ele, sobre as suas magias e complexidades. Porque sim, complexo é um dos adjetivos com que mais posso qualificar este livro.

Terra Fraturada continua a convencer com uma discrição credível e riquíssima do mundo.

Do mundo às personagens, tudo aqui é bem construído, todos eles são originais e repletos de pinceladas únicas, tão únicas como o universo que a autora criou. A narrativa que envolve os portais apenas vem acentuar o tom decadente e “mágico” do cenário, a importância dos orogenes no destino do mundo, mas são sobretudo os laços – de parentesco, de amor, de amizade – que dão forma e consistência à trama, o que denuncia um trabalho de casa formidável por parte da autora norte-americana.

É pela capacidade de Jemisin em cozinhar todos os elementos de forma sui generis que Terra Fraturada funciona tão bem. Há toda uma desesperança a pairar no ar que é alimentada pelo passado trágico dos protagonistas, pelo crescer da desinformação e manipulação, quando não de discriminação, que os leva a trilhar caminhos de desgraça e fatalidade. Mas acompanhado por essa desesperança vem a esperança, porque como se costuma dizer, onde há vida há esperança e não há male que sempre dure.

Desse modo fica a ideia de que estas personagens têm ainda um futuro para ser desenhado, futuro que pode ser apesar de tudo ainda mais trágico que o que ficou para trás. A trama de Jemisin é imprevisível, e é isso que nos faz ficar agarrados da primeira à última página. Sentimo-nos arrastados por uma escrita inteligentíssima, ao mesmo tempo complexa, fluída e leve, para conhecer os destinos destas protagonistas, bem como das personagens secundárias.

No primeiro livro fomos apresentados ao continente de Sossego, vítima de uma actividade sísmica frequente e violenta, causadora de rigorosos invernos que duram décadas e destrói civilizações a cada estação. Neste mundo pouco se sabe do que aconteceu na História do mundo. Os registos do passado foram engolidos e desapareceram, de forma que as novas civilizações mal compreendem o que devem fazer sequer para se defender das alterações climáticas.

Quinta Estação foi mais focado na cidade de Yumenes e em três personagens que se revelaram o cerne da trama: Damaya, Syenite e Essun. As revelações finais deixaram claro de quem se tratavam, ao mesmo tempo que as suas histórias foram desenvolvidas, os seus aprendizados completos, que as marcas as tornavam pessoas diferentes, mas ainda assim tão semelhantes na essência. A discriminação por ser orogene foi, claro está, uma constante na sua vida.

Neste segundo volume conhecemos o ponto de vista de Nessun, a filha de Essun, que se encontrava desaparecida desde que o pai, Jija, matou o seu irmão mais novo e a levou de Tirimo. Acompanhamos a sua jornada desde esse momento e percebemos as suas semelhanças e diferenças para com a mãe. Apesar de sofrer de abusos, da mesma forma que Essun sofreu na infância, ela tem uma forma de reagir diferente que denota grande maturidade. Através do seu ponto de vista compreendemos também como as perspetivas podem mudar a verdade sobre determinados acontecimentos.

Ao mesmo tempo que a filha se torna mais poderosa, Essun esquece brevemente a sua ânsia de reencontrar a filha e de levar vingança ao seu marido assassino, uma vez que a população de Castrima precisa urgentemente dos seus poderes. A pouco e pouco, Essun ganha experiência e compreende a importância que pode adquirir, uma vez que Alabaster Tenring, o aparente louco destruidor de mundos, a prepara para que o venha a substituir no papel que nesse momento desempenha.

São revelados neste livro mais pormenores sobre o início da estação e as razões que levaram à criação da fenda, mas também como a sociedade se moldou e como se prepara para as suas consequências, ao mesmo tempo que tenta não cair na loucura coletiva. Jemisin aponta baterias à irresponsabilidade do Homem no uso da ciência, ao desvendar pormenores sobre o passado do mundo, reportando às consequências dramáticas que podem resultar de experiências científicas, caso não haja respeito para com a natureza.

Mas o foco da autora é precisamente o racismo, a discriminação para com os orogenes como analogia à discriminação racial no nosso mundo, e isso é bem palpável nas jornadas de Essun e Nessun, que se tornam a pouco e pouco mais fortes e maduras nas suas posturas. De agentes de uma força maior, as duas passam neste livro a segurar as rédeas das suas vidas e a fazer as suas próprias regras para o jogo – ou pelo menos a tentar.

Da jornada de Syenite | Fonte: https://jwahlgren.com/syenite-on-the-cliffs

Destaco ainda um outro ponto de vista, um dos meus preferidos e mais interessantes de destrinchar. Schaffa, que tinha sido o Guardião responsável pela educação de Damaya, encontra agora Nessun, mas é um homem mais velho e cansado, não revelando a mesma propensão para a violência gratuita que mostrara no primeiro livro. Por outro lado, Nessun revela-se sagaz e inteligente, sem a propensão para desculpar os atos violentos com base no afeto, como Damaya amiúde o fazia.

Outras personagens brilham na periferia de Essun: Hoa, o estranho rapaz de pele branca com estranhos poderes, a maltrapilha Tonkee que Essun encontra na estrada, misteriosa e curiosa, mas sobretudo Alabaster, uma personagem fascinante que faz muito do que é de incrível a jornada de Essun. Para além disso, a capacidade da autora de escrever bons diálogos é no mínimo desconcertante. Entre comedores de pedras e orógenes, Terra Fraturada continua a convencer com uma discrição credível e riquíssima do mundo.

Avaliação: 9/10

Terra Fraturada (Relógio D’Água):

#1 Quinta Estação

#2 O Portal dos Obeliscos

3 comentários em “Estive a Ler: O Portal dos Obeliscos, Terra Fraturada #2

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