Resumo Trimestral de Leituras #24


Chegou ao fim mais um ano e, com ele, mais um trimestre. Os últimos meses de 2020 foram favoráveis em leituras, com 7 em outubro, 10 em novembro e 8 em dezembro, ainda que nem sempre tenha escrito as opiniões logo que tenha terminado um livro. Dei primazia ao desafio semestral, mas nem ele foi cumprido tão à risca como tinha previsto. Foram meses cheios de ótimas experiências, e espero que 2021 me traga livros igualmente bons e capacidade para continuar a ler com igual vontade.

O fim do ano traz-me o balanço de 94 livros, correspondendo talvez metade deles a bandas-desenhadas. É um saldo muito positivo, ainda assim igual ao de 2016, tendo nos anos seguintes superado esse número. Neste trimestre, destaco as leituras do quarto volume de Monstress, Os Escolhidos, bem como as séries que terminei, as trilogias Mundos Paralelos de Philip Pullman e As Crónicas da Companhia Negra de Glen Cook, e as sagas gráficas Harrow County de Cullen Bunn e Tyler Crook, Druuna de Paolo Eleuteri Serpieri e Deuses Americanos, que adapta a obra icónica de Neil Gaiman, com arte de P. Craig Russell e Scott Hampton.

Comecei outubro com Os Testamentos de Margaret Atwood, publicado pela Bertrand. Nesta sequela de A História de Uma Serva, publicada trinta anos depois, encontramos Gilead com o mesmo regime autoritário e misógino que conhecemos na obra original. Desta vez, seguimos o ponto de vista de duas meninas, uma dentro do complexo e outra fora, Agnes e Daisy, que têm mais em comum do que parece à primeira vista. Conhecemos também o ponto de vista de Tia Lydia, a única personagem que transita do livro anterior, e que personagem! Lydia é uma das razões porque gostei tanto deste livro. Embora não seja um livro tão bem cotado como A História de Uma Serva, e apesar do final um pouco para o preguiçoso, senti muito mais prazer na leitura deste romance. Logo depois li Um Último Regresso, o oitavo e último volume da BD Harrow County de Cullen Bunn e Tyler Crook. Publicado pela G Floy Studio, esta BD de horror foi a minha primeira leitura no âmbito do Halloween de 2020 e adorei a forma como a conclusão foi proporcionada, dedicando tempo e clareza a cada uma das personagens que nos haviam deliciado tanto até ali. Emmy, Bernice, o Rapaz Sem Pele, Malachi e companhia irão deixar saudades.

Outra BD que terminei foi Deuses Americanos, a adaptação da obra de Neil Gaiman por P. Craig Russell e Scott Hampton. Publicado pela Saída de Emergência, O Momento da Tempestade é o terceiro e último volume. Apesar de não ter apreciado a obra original de Gaiman, esta BD consegue extrair o melhor dela em diálogos e discurso, acabando por me satisfazer mais que o romance. Contribui para isso o elaborado trabalho artístico dos artistas envolvidos e a excelente edição da novela gráfica, a que a editora nacional fez jus. Não lia Umbrella Academy, a BD de Gerard Way e Gabriel Bá desde 2016, quando tinha saído o segundo volume. A série sofreu uma paragem para o argumentista se dedicar ao seu trabalho na música, e agora que regressou, a Devir publicou o terceiro volume. Hotel Oblivion vem muito na linha dos anteriores. Divertido, original e inventivo, o comic foi adaptado para série de TV, mas não me parece ter os ingredientes suficientes para me fazer aventurar nela. Uma BD que tenho gosto em acompanhar, mas que não faz muito o meu género.

Continuando na onda de leituras de terror, aventurei-me pelo Estranho Caso do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson. O livro da Relógio D’Água é pequenino e inclui um prefácio do autor Vladimir Nabokov. Quem nunca ouviu falar de Jekyll & Hyde? O clássico da literatura de horror carrega o brilho próprio da atmosfera vitoriana, com Londres como palco principal de uma história que é simultâneo de ação e de reflexão. Uma investigação policial inusitada, grotesca, o livro possui uma escrita muito fluída e um ritmo alucinante, que me agradou bastante. Li também O Exorcista de William Peter Blatty, publicado pelas Edições Gailivro. Nunca consegui ver o filme, porque filmes de terror espírita incomodam-me bastante, mas tenho outra predisposição para a leitura e este romance foi uma boa surpresa. Através da perspectiva de várias personagens, o autor dá a conhecer pormenores sobre a temática do exorcismo e do lado negro da religião, mas também muito da medicina e da forma como foi vista e tratada ao longo dos tempos. O Exorcista é um livro brilhante e bem desenvolvido, com cenas extremamente desconfortáveis e ao mesmo tempo agradáveis de ver descritas.

E terminei o mês de outubro com o livro O Intruso de Stephen King. Publicado pela Bertrand, este livro surpreendeu-me e muito. Começa como uma investigação policial densa e desconfortável, ou não nos víssemos na pele de um polícia que encontra o cadáver mutilado e violentado de uma criança, e quando todas as evidências, provas e testemunhas apontam para o mesmo suspeito, a sua decisão de o prender em praça pública é imediata. Mas ele não podia prever que aquele mesmo suspeito tivesse um álibi insuperável, com provas tão ou mais fortes a seu favor. O que começa como um thriller policial transforma-se a uma caça a um terror sobrenatural muito antigo, o que me assoberbou e deixou viciado até ao último capítulo. Novembro começou com a leitura de A Rosa Branca, o terceiro volume da série As Crónicas da Companhia Negra de Glen Cook. Publicado pela Saída de Emergência, o livro oferece uma experiência de leitura multidimensional, porque numa fase inicial tudo parece algo avulso e desligado. Esta trilogia é toda ela um puzzle completo e as peças vão-se encaixando de forma avassaladora até nos fazer explodir a cabeça. Não gostei muito do livro numa fase inicial, mas do meio para a frente, e mesmo antes de compreender tudo, já estava rendido. Uma leitura maravilhosa que nos desvenda o final desta trilogia de fantasia militar, onde o Físico, a Senhora, a Amorosa, o Duende e o Zarolho nos reservam grandes surpresas.

Terminei também a trilogia Mundos Paralelos, esta publicada pela Editorial Presença. Nos dois últimos volumes, A Torre dos Anjos e O Telescópio de Âmbar, Philip Pullman aprofunda-nos no seu imaginário complexo, do género steampunk, onde ursos gigantes, génios que mudam de forma, caçadores de recompensas e exércitos de bruxas ocupam papéis preponderantes. Lyra Belacqua continua dividida entre os interesses dúbios dos pais biológicos, que a colocam numa cruzada inigualável pela verdade. Pelo caminho, conhece um rapaz com quem tem vários pontos em comum, Will Parry, e descobre mais sobre a faca capaz de abrir portas entre mundos e sobre o misterioso pó em que recaem as pesquisas dos eruditos. A leitura que mais me arrebatou realmente este mês foi o quarto volume da BD Monstress, publicado pela Saída de Emergência. Os Escolhidos, de Marjorie Liu e Sana Takeda, é mais um álbum incrível. Maika Meiolobo continua em busca da verdade sobre a mãe e sobre os segredos da Imperatriz-Xamã, mas a cada resposta que obtém, mais são as perguntas que se multiplicam. Uma figura familiar vem colocar o seu coração em dúvida, traições parecem surgir de todos os lados e Maika precisa de confiar nos seus instintos, mesmo que dentro de si viva um monstro oriundo de tempos imemoriais.

Pela Devir foi publicado o quinto volume de The Promised Neverland, Evasão. Com argumento de Kaiu Shirai e Posuka Demizu, este álbum revelou-se mais interessante que o anterior. O mangá trata de um orfanato onde crianças são criadas como gado para virem a servir de alimento a monstros comedores de cérebros, mas alguns daqueles meninos descobriram o segredo e planeiam fugir. Este livro põe finalmente em prática a estratégia das crianças mais inteligentes, mas alguns reveses atravessam-lhes o caminho. Descobrimos também mais pormenores sobre Isabella, a cuidadora do orfanato. Pela G Floy Studio, Faithless de Brian Azzarello e Maria Llovet é uma BD erótica com arte algo infantil, o que podia ser catastrófico mas até resultou bem. A auto-descoberta é um dos pontos mais explorados neste volume inaugural. Conhecemos uma rapariga comum que, apesar de não perceber nada de magia, finge que percebe. Um dia, o sobrenatural bate-lhe mesmo à porta e a sua jornada torna-se uma roda viva de emoções.

Com uma arte de tirar o fôlego e diálogos riquíssimos e poderosos em emoções, Berserker: Exilado de Jeff Lemire e Mike Deodato Jr., não foi exatamente o que eu esperava, mas agradou-me imenso. A BD publicada pela G Floy Studio tem como premissa um bárbaro de um mundo de fantasia tipo Conan, que ao escapar de um feiticeiro poderoso adentra num portal e vem cair no nosso mundo real. Aqui dá de caras com um sem-abrigo, que tem muito mais em comum com ele do que podia pensar. Acaba por revelar-se mais uma sobreposição de papéis, uma comparação entre os mundos e entre os homens, e muito menos uma jornada de descoberta do nosso mundo por um ser saído da Idade das Trevas. Depois li The Book of Swords. O livro não está publicado em Portugal, mas precisava muito ler uma antologia e revisitar alguns dos meus autores preferidos da fantasia. Neste trabalho antológico organizado por Gardner Dozois com o tema da espada & feitiçaria, encontrei “queridinhos” como Scott Lynch, George R. R. Martin ou Robin Hobb, mas foram os contos de Ken Liu (The Hidden Girl), de Lavie Tidhar (Waterfalling) e de Daniel Abraham (The Mocking Tower) os meus preferidos.

Foi publicado em novembro pela Bertrand Editora o livro O Instituto de Stephen King. Depois de ter adorado O Intruso e ter ficado arrebatado, a minha vontade de voltar a pegar em King o quanto antes coincidiu com a publicação de um dos seus livros mais recentes. O Instituto apresenta-nos uma instituição que sequestra crianças com dons inusitados para os usar a fim de alcançar os seus objetivos particulares. Infelizmente, as minhas expectativas foram defraudadas em pouco tempo com esta leitura. A primeira metade do livro é terrível, da monotonia de um homem de que não entendemos o papel na trama, até conhecer finalmente o instituto e detestar as personagens. Felizmente King voltou a ser King a partir do momento em que um dos meninos chega a DuPray, as histórias se cruzam e a partir daí sim, o livro tornou-se muito melhor. Terminei o mês de novembro com Vox de Christina Dalcher, um livro muito pertinente e interessante. Nesta distopia da TopSeller, o mundo regrediu para uma sociedade misógina onde a cada mulher apenas são permitidas 100 palavras por dia. Existe uma pulseira para as controlar e para lhes aplicar choques elétricos se superarem esse número. Para além disso, foram relegadas para as funções de donas de casa, cabendo aos homens todos os papéis de destaque na sociedade. Apenas os conhecimentos de Jean McClellan sobre uma doença específica podem mudar o rumo dos acontecimentos.

Comecei o mês de dezembro com o livro A Metamorfose de Franz Kafka, edição da Editorial Presença. Tendo em conta que até ao momento não tinha ficado deslumbrado com o trabalho do autor, sentindo alguma dificuldade em compreender O Processo, este livro foi uma boa surpresa. Gregor Samsa é um caixeiro-viajante que deixou de ter vida própria para sustentar a família, que se acomodou a viver às suas custas. Certo dia, porém, Gregor acorda transformado num inseto monstruoso. Trata-se de um livro com mais de 100 anos, e ainda assim sempre atual. Simples, curto e cheio de significados. No terceiro volume da banda-desenhada Gideon Falls, Via Sacra, Jeff Lemire e Andrea Sorrentino continuam a conduzir-nos por uma trama labiríntica entre passado e presente, onde os acontecimentos relativos ao enigmático celeiro negro começam a fazer mais sentido (ou talvez não). É embrenhados numa roda viva de emoções e de ansiedade que terminamos este volume de uma assentada. O livro lê-se muito rapidamente e não tem muitas páginas, mas é uma verdadeira montanha russa e deixou-me completamente a precisar de outro destes, e de respostas para as perguntas que este álbum me deixou na cabeça. Uma publicação incrível da G Floy Studio.

Li o segundo volume da saga Terra Fraturada, O Portal dos Obeliscos, de N. K. Jemisin, publicado pela Relógio D’Água. Se Quinta Estação já me tinha deixado bem impressionado, tanto pelos dotes de escrita como pela construção narrativa, O Portal dos Obeliscos vem confirmar essa sensação, ao explorar este mundo incrível, fazer-nos conhecer mais sobre ele, sobre as suas magias e complexidades. Porque sim, complexo é um dos adjetivos com que mais posso qualificar esta saga. Neste segundo volume conhecemos também o ponto de vista de Nessun, a filha de Essun, que se encontrava desaparecida desde que o pai matara o irmão mais novo e a levara de Tirimo. Acompanhamos a sua jornada desde esse momento e percebemos as suas semelhanças e diferenças para com a mãe. Pela Editorial Presença, li O Grande Gatsby de F. Scott Fizgerald. É um livro que retrata muito bem os loucos anos 20, das festas ao clima sócio-político vivido à época. A narrativa começou algo confusa, mas desde que fomos apresentados aos personagens centrais, tudo fluiu muito bem. Gatsby é um bilionário conhecido pelas festas animadas que organiza na sua mansão em Long Island, mas a origem da sua fortuna permanece envolta em mistério, o que causa uma sequência de rumores não muito abonatórios à sua pessoa. E tudo fica pior quando Tom Buchanan descobre que este Gatsby e a mulher têm um caso.

Em outubro, chegou a Portugal o tomo final da coleção gráfica Druuna de Paolo Eleuteri Serpieri, com o título “Aquela Que Vem do Vento”, uma vez mais pela Arte de Autor. Neste último volume, Druuna pousa misteriosamente num mundo que lembra as grandes planícies do nosso passado. Deixada por conta própria, vagueia por uma imensa extensão coberta de cadáveres até encontrar um chefe índio que a chama de “aquela que vem do vento”. Serpieri não me convenceu com a narrativa, mas maravilhou-me com a ilustração. Li em inglês os volumes 5 e 6 de A Roda do Tempo de Robert Jordan, ainda não publicados em português. Continuamos a seguir as aventuras de Rand, Mat, Perrin, Nynaeve, Egwene e companhia, com muitos perigos à espreita, criaturas das sombras muito inteligentes e estratégia militar. Apesar de em momento algum esta saga me prender por aí além, não deixa de vir evoluindo favoravelmente, não faltando acontecimentos de tirar o fôlego e tramas dentro de tramas, com várias conspirações para depor Rand ou roubar-lhe poder, enquanto que as jornadas vêm enriquecendo bastante o desenvolvimento das personagens.

Terminei o ano com um livro de terror, Às Cegas de Josh Malerman, publicado pela TopSeller. Com uma escrita ágil e uma boa dose de suspense, Malerman apresenta uma obra de estreia promissora, que tanto na escrita como na ambientação se revela fria, insípida e inquietante. Cinco anos depois de um terrível apocalipse ter começado, com a aparição de “coisas” que deixam quem as vê completamente louco, os poucos sobreviventes ainda se escondem em abrigos, protegidos atrás de portas trancadas e janelas tapadas. A história apresenta-nos uma dessas sobreviventes, Malorie, que decide fugir, tendo em vista uma vida em segurança para si e para as suas duas crianças. Mas durante a viagem, o perigo está à espreita: basta uma decisão errada e eles morrerão. Apesar do set me parecer bem montado e credível, de as sensações serem bem passadas para o papel, nunca me senti realmente incomodado ou desconcertado com o “mal” do livro, nem sequer com grande desejo de chegar ao fim para perceber o que acontece. Chegamos então ao fim de mais um ano de leituras aqui no blogue. Até 2021. 

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