Vamos Falar Sobre 2020?


Bem, se calhar é melhor não. Muito se tem falado sobre este ano e, regra geral, não é coisa boa. 2020 foi difícil para todos, sobretudo pela pandemia que condicionou as nossas vidas, a uns mais do que a outros, e de formas diferentes. Um ano de derrotas, de cancelamentos, de adiamentos, de receios, de distúrbios nervosos, de pressão no trabalho, de sustos, de inseguranças, de desilusões. Mas chegar inteiro ao fim deste ano, com as pessoas mais importantes ao meu lado é uma benção, e embora o travo amargo não me saia dos lábios nem a apreensão da mente, há a necessidade de lembrar o que de mais positivo 2020 me trouxe.

E o que de melhor este ano me trouxe foi sobretudo ter sobrevivido a ele, sem perder o que tenho de mais valioso. Família, amigos, emprego, estabilidade emocional, estabilidade esta que por vezes se viu próxima de algumas linhas perigosas em algumas fases do ano. A saúde, a minha maior preocupação, foi controlada tendo em conta as susceptibilidades que a situação acarreta, e espero não ter surpresas no próximo ano. Paralelamente aos dias que vivemos, a escrita e a leitura acabaram por ter um papel reduzido no meu quotidiano.

Como seria de prever, as publicações foram muito escassas. Escrevi dois artigos para o The Portuguese Portal of Fantasy and Science Fiction, um sobre a diferença entre publicar numa vanity-press e numa editora convencional, com o título Vanity vs Publishers, e outro sobre a construção do meu mundo de fantasia Zallar, com o título Zallar as Worldbuilding. Tinha dois livros para ser publicados este ano, mas o cancelamento de eventos presenciais congelou o plano de lançamentos da Editorial Divergência, pelo que ficou tudo estagnado e à espera de dias melhores.

No entanto, não fiquei parado. Participei no It’s Alive 2020, organizado pela Imaginauta em versão online, onde escrevi o conto “O Melro”. O primeiro semestre do ano foi muito complicado em termos de produtividade na escrita, mas consegui recuperar bastante terreno no verão. Tenho muitas reticências sobre quando os meus trabalhos serão publicados, mas o trabalho de casa está feito e tudo o mais depende muito pouco de mim. Pelo meio, tive uma notícia muito boa nesta maré menos positiva: o meu conto “Mais que Fazer”, que publiquei no Almanaque Steampunk 2019, foi nomeado para os Prémios Adamastor 2020 na categoria Conto.

O próprio Almanaque Steampunk 2019 foi nomeado na categoria Grande Prémio Adamastor, bem como o livro Lisboa Oculta, que inclui uma entrada da minha autoria com a Estação de Santa Apolónia como cenário. Este ano não houve Festival Contacto, nem Festival de BD de Beja, nem Fórum Fantástico. A Feira do Livro do Porto e a de Lisboa realizaram-se em simultâneo, e visitei apenas a de Lisboa, onde encontrei à venda alguns dos meus livros, para minha grande alegria.

No verão, aproveitei o período de menor incidência epidémica para revisitar alguns dos meus lugares preferidos nas proximidades. Visitei Tomar, Dornes, Leiria, Abrantes, Santarém, Caldas da Rainha, Foz do Arelho, a Praia Fluvial de Cardigos, as Praias de Santa Cruz e, para terminar em beleza, passei umas mini-férias deliciosas na cidade de Coimbra, já no final de setembro. Estes foram, seguramente, os melhores momentos do meu ano.

O blogue completou 8 anos em agosto. A nível de leituras e de publicações acabei por manter o ritmo de anos anteriores, com uma tendência de descida mas sem grandes perdas. Mais de 40 mil visitantes passaram por aqui, um número similar ao de 2019, que me permitiu chegar às 160 mil visualizações em 2020. Brasil, Portugal e Estados Unidos da América foram os países que mais visitaram o Notícias de Zallar durante este ano complexo.

Os visitantes chegam-me através de partilhas no Facebook, de publicações no Instagram mas maioritariamente através do Google. É sempre um exercício engraçado ao final de cada ano procurar quais os termos de pesquisa que fazem o público chegar até mim e os de 2020 foram os seguintes:

“jardins da lua porque tem esse nome spoiler”

“mistborn spook”

“a sombra do vento”

“prezas faceis para tal situação”

“cronicas do regicida”

“aceitação vandermeer”

“stormlight taln way of the kings”

“o messias duna”

Nas leituras, 2020 foi um ano de descobertas. Fiquei bem impressionado com novos autores que conheci, como Rob Hart, Hank Green, N. K. Jemisin, Christina Dalcher ou o falecido Stieg Larsson. Arturo Pérez-Reverte foi mais uma grande descoberta para mim. Li O Tango da Velha Guarda e adorei, assim como adorei O Boneco de Neve de Jo Nesbø. Glen Cook voltou a cativar-me bastante com a trilogia As Crónicas da Companhia Negra e Robin Hobb cimentou o seu lugar nas minhas preferências com The Liveship Traders. O que dizer da maravilhosa Margaret Atwood em Os Testamentos? Incrível.

2020 foi mais um ano em que li muito Stephen King: achei O Instituto e Firestarter fraquinhos, Carrie e Elevação medianos e O Intruso maravilhoso. Destaco ainda Brandon Sanderson, na fantasia. Oathbringer, o terceiro volume de The Stormlight Archive, foi a minha melhor leitura do ano. Nas BDs, Jeff Lemire e Mark Millar continuam a ser os meus queridinhos, o que se reflete na quantidade de trabalhos deles que continuo a ler, mas é Monstress de Marjorie Liu e Sana Takeda, a obra gráfica que mais me entusiasma e que me preenche a todos os níveis.

O desafio semestral de leituras, tanto no primeiro como no segundo semestre de 2020, não foi cumprido à risca, por vezes por opção pessoal, outras por os livros não chegarem quando eu previa. Ainda assim foi mais um ano em que não falhei com os objetivos estipulados de maneira geral e pretendo voltar a desafiar-me a mim mesmo em 2021, ainda que a intensidade de leitura pareça ir diminuindo. Aqui fica o desafio do segundo semestre completo:

JULHO

  • Trilogia Millennium, Stieg Larsson (aqui)
  • O Tango da Velha Guarda, Arturo Pérez-Reverte (aqui)
  • História Universal da Infâmia, Jorge Luís Borges (aqui)

AGOSTO

  • Ship of Destiny, Robin Hobb (aqui)
  • Segunda Fundação, Isaac Asimov (aqui)
  • Germinal, Émile Zola (aqui)
  • Animal Farm, George Orwell (aqui)

SETEMBRO

  • Quinta Estação, N. K. Jemisin (aqui)
  • A Chave de Loki, Mark Lawrence (aqui)
  • A Senhora do Lago Parte 1, Andrzej Sapkowski (aqui)
  • Cemitério de Pianos, José Luís Peixoto (aqui)

OUTUBRO

  • A Rosa Branca, Glen Cook (aqui)
  • O Exorcista, William Peter Blatty (aqui)
  • O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, Robert Louis Stevenson (aqui)

NOVEMBRO

  • Os Testamentos, Margaret Atwood (aqui)
  • O Instituto, Stephen King (aqui)
  • A Torre dos Anjos, Philip Pullman (aqui)
  • O Telescópio de Âmbar, Philip Pullman (aqui)

DEZEMBRO

  • A Metamorfose, Franz Kafka (aqui)
  • O Intruso, Stephen King (aqui)
  • O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald (aqui)

No próximo ano quero continuar a desbravar mais livros de Stephen King e voltar a ler Brandon Sanderson e Robin Hobb, mas acima de tudo conhecer novos e maravilhosos autores. 2020 mostrou-me que não valia a pena fazer grandes planos e vi as minhas intenções muitas vezes defraudadas, e muito por isso decidi, para 2021, mudar ligeiramente o meu desafio semestral. Estes são os livros que tenciono ler no primeiro semestre do novo ano, embora não vá estipular meses e dificilmente serão lidos por esta ordem:

  • Kingsbridge: O Amanhecer de Uma Nova Era, Ken Follett
  • A Vingança Serve-se Fria Parte 2, Joe Abercrombie
  • A Senhora do Lago Parte 2, Andrzej Sapkowski
  • Circe, Madeline Miller
  • O Desaparecimento de Stephanie Mailer, Jöel Dicker
  • Dois Tronos Negros, Kendare Blake
  • O Senhor Brecht e o Sucesso, Gonçalo M. Tavares
  • O Cabo da Víbora, Agatha Christie
  • Dança, Dança, Dança, Haruki Murakami
  • Os Olhos do Dragão, Stephen King
  • Levaram Annie Thorne, C. J. Tudor
  • Tempo de Tempestade, Andrzej Sapkowski
  • The Flame Bearer, Bernard Cornwell
  • Rythm of War, Brandon Sanderson
  • O Nome da Rosa, Umberto Eco
  • Mataram a Cotovia, Harper Lee
  • Amesterdão, Ian McEwan
  • As Armas Secretas, Júlio Cortazar
  • O Homem dos Sussurros, Alex North

São 19 livros bastante heterogéneos e que perpassam vários géneros literários, do romance histórico à fantasia, passando pelo thriller e pelo policial. A estes deverão juntar-se lançamentos de editoras parceiras que não estejam aqui previstos, para além de bandas-desenhadas. De seguida, fica com a lista dos artigos mais lidos em 2020 no NDZ:

Em 2020, os clássicos de popularidade continuaram a ser os especiais sobre Robin Hobb, Patrick Rothfuss e Crónicas de Gelo e Fogo, a que se juntou Brandon Sanderson como um dos mais procurados. As opiniões a The Witcher, especialmente ao primeiro volume, foram muito pesquisadas devido ao sucesso da série de TV. Também as opiniões a O Último Cabalista de Lisboa e Os Irmãos Karamázov foram bastante vistas para meu desgosto, uma vez que foram livros que detestei. O segundo volume da trilogia Império das Tormentas foi especialmente procurado pelo público brasileiro, que espera há já algum tempo pela publicação daquele lado do Atlântico.

Este ano foi bastante afetado também nos cinemas, mas em compensação as plataformas de streaming mostraram efetivamente que vieram para ficar e o futuro passa muito por elas. Em 2020, fora do circuito aberto de TV, vi os filmes A Dama e o Vagabundo e Mulan da Disney e as séries The Witcher, The Mandalorian e The Outsider, que opinei na secção “Fala-se de” do blogue. The Mandalorian acabou mesmo por ser a melhor surpresa do ano, especialmente a segunda temporada.

E 2020 aproxima-se do fim. Está quase na hora de fazer soar os apitos e dar as boas vindas a mais um ano, que seja sobretudo melhor do que este e que a saúde não nos falte. Desejo a todos os que me seguem com boas vibrações um 2021 cheio de novidades boas, aos haters que façam boa viagem e sejam felizes longe de mim, porque se estiverem bem seguramente não terão necessidade de me boicotar, e que o novo ano traga um carregamento de perspetivas animadoras para todos. Um obrigado de coração a todos os profissionais que continuam a lutar contra o Covid-19 e as melhores esperanças para quem sofre com falta de saúde ou de trabalho.

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