Estive a Ler: Guerreiros da Tempestade, As Crónicas Saxónicas #9


Tal guerra, portanto, estava a ser travada a leste de Ceaster. E nós voltámo-nos para ocidente.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “GUERREIROS DA TEMPESTADE”, NONO VOLUME DA SÉRIE “CRÓNICAS SAXÓNICAS”

Publicado em outubro de 2015 com o título Warriors of the Storm pela Harper Collins, o nono volume de The Saxon Stories continua as batalhas levadas a cabo por Uthred de Bebbanburg escritas pelo autor britânico Bernard Cornwell. Em Portugal, o livro foi publicado pela Saída de Emergência com o título Guerreiros da Tempestade, prosseguindo assim a ação narrada nos livros O Último Reino, O Cavaleiro da Morte, Os Senhores do Norte, A Canção da Espada, Terra em Chamas, A Morte dos Reis, O Lorde Pagão e O Trono Vazio.

Criado no Essex, Cornwell sempre demonstrou muita curiosidade e interesse na história de Inglaterra, que correntemente é o palco das suas histórias. As Aventuras de Richard Sharpe, A Trilogia dos Senhores da Guerra e As Crónicas de Nathaniel Starbuck são algumas das suas séries mais famosas. As Crónicas Saxónicas foram também adaptadas ao pequeno ecrã através de uma série da BBC, The Last Kingdom, que conta com Alexander Dreymon como protagonista. Guerreiros da Tempestade tem tradução de Neuza Faustino e um total de 336 páginas.

A leitura de Guerreiros da Tempestade mostrou-me Bernard Cornwell igual a si mesmo. A ardúcia estratégica, o humor másculo e uma maturidade por parte do autor que é reflectida no protagonista são os ingredientes principais de mais um volume ótimo destas Crónicas Saxónicas. Estes livros devem ser lidos de forma espaçada, mais ou menos de acordo com o tempo de publicação, para não nos cansarmos da história. Eles servem sobretudo para matar saudades do autor e das personagens, porque a nível de enredo não existem avanços significativos. Tudo é desenvolvido de forma vagarosa e consistente.

Posso dizer, porém, que o leria 100 vezes (…) porque cada livro de Bernard Cornwell é um tesouro da literatura.

A escrita do autor britânico é mesmo uma das principais qualidades desta saga. Apesar do fundo real – a construção do viria a ser a Inglaterra e as batalhas sanguinolentas entre saxões e dinamarqueses – esta saga permite muita liberdade narrativa ao autor, devido aos escassos recursos documentais que permitam fundamentar determinados eventos. Se já tinhamos volumes com muito mais do que fictício que de factual, este volume então foi praticamente todo ele criado a partir da imaginação do autor, não obstante as personagens históricas adicionadas.

Ainda assim, Cornwell torna tudo tão consistente e verosímil que nos parece que o autor esteve mesmo lá, a assistir àqueles acontecimentos. Há uma força muito própria nestes livros, que se deve essencialmente ao protagonista. Ele é jovial, irónico, generoso e terrível em simultâneo. Possui uma arrogância e crueldade dentro de si, e mesmo assim é-nos impossível desgostar dele, porque mesmo como um velho mostra sempre uma certa ingenuidade de garoto que o torna amável. É ele a alma da saga e Cornwell faz-nos adorá-lo.

A forma como Uthred lida com o deus cristão acaba por funcionar extremamente bem na narrativa, porque sem o desdenhar acaba por satirizá-lo. A sua visão do Cristianismo revela-se por momentos até pertinente para quem vive nos dias de hoje. A forma como ele olha para as mulheres também é interessante, porque por muitas que lhe passaram pelas mãos, há nele um fascínio e respeito que se distingue na misoginia que grassava à época. É muito pela sua visão à frente do seu tempo que a narrativa atrái.

Guerreiros da Tempestade começa logo em clima de batalha, com Æthelflaed e Uthred a defenderem Brunanburh, a fortaleza que defende a entrada da Mércia, de um novo dinamarquês determinado em conquistar para si as terras herdadas de Alfredo. Logo descobrem que se trata de Ragnall Ivarson, nem mais nem menos que o irmão de Sigtryggr, que anteriormente haveria desposado Stiorra, a filha de Uthred, fugindo a um casamento arranjado pelo pai. Uthred teme por ter no genro um novo inimigo, mas rapidamente descobre que os irmãos estão também em guerra um com o outro.

Ragnall, porém, parece muito mais poderoso e afigura-se como um sério candidato a roubar a Mércia a Æthelflaed, que ainda se vê de certa forma em despique com Eduardo, o seu irmão, que herdara a coroa de Alfredo. Ragnall conta com o precioso apoio dos irlandeses, onde está também Conall, o irmão de Finan. Assim se vê que, ao longo deste livro se poderão assistir a vários desaguisados entre irmãos, o que ainda assim não se torna o cerne do mesmo.

Apesar de pouco vermos de Ragnall e das suas maquinações, é fácil odiá-lo por aquilo que se vai sabendo sobre o seu carácter, mas não é o único vilão na história. Há ainda Brida, a primeira amante de Uthred, que aparece agora com o peso dos anos e da amargura em cima, e que se revela também como um formidável obstáculo para o velho herói. À medida que Ragnall vai conquistando baluartes e aliados, Uthred revela-se a mente estratega por detrás de Æthelflaed, que encontra no bispo Leofstan um improvável aliado.

A relação de Uthred com os padres continua a mesma de sempre, intragável, mas o bispo revela-se muito mais humano e inteligente do que a maioria dos que o circundam, e revela-se uma voz da razão junto de Æthelflaed. Há várias questões em Ceaster com os milagres de Gomer, a esposa do bispo, o regresso de Oswald, o filho primogénito de Uthred, em circunstâncias adversas e as querelas entre os guerreiros por causa de uma misteriosa prostituta, Mus. Apesar de alguns mistérios serem por demais óbvios, Uthred não fica para os resolver, e parte na tentativa de salvar a filha.

Se o livro anterior, O Trono Vazio, revelou-se diferente do que Cornwell tinha escrito até então, neste o autor volta a repetir a fórmula mais comum nestes livros, com várias estratégias bélicas a entrar em prática e uma grande batalha contra um senhor dinamarquês a terminar basicamente da mesma maneira que as anteriores. A forma como Uthred se embrenhou na guerra entre os irmãos também se revelou algo preguiçosa, deixando a trama a envolver o bispo Leofstan e a prostituta Mus em paralelo. O que aconteceu em Ceaster acabou por não ser narrado, mas apenas contado ao protagonista no final.

Apesar de, neste momento, se notar pouca originalidade no autor, estou propenso a acreditar que ele me possa surpreender nos próximos livros porque, de uma maneira ou de outra, sempre acaba por me surpreender. Guerreiros da Tempestade é mais um livro da colecção que adorei ler, mas que acabou por não me acrescentar nada enquanto leitor da saga. Posso dizer, porém, que o leria 100 vezes se nada mais da saga me restasse, porque cada livro de Bernard Cornwell é um tesouro da literatura.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

As Crónicas Saxónicas (Saída de Emergência):

#1 O Último Reino

#2 O Cavaleiro da Morte

#3 Os Senhores do Norte

#4 A Canção da Espada

#5 Terra em Chamas

#6 A Morte dos Reis

#7 O Lorde Pagão

#8 O Trono Vazio

#9 Guerreiros da Tempestade

#10 O Portador da Chama

5 comentários em “Estive a Ler: Guerreiros da Tempestade, As Crónicas Saxónicas #9

  1. Viva,

    Já nem me lembrava bem do enredo mas sem duvida que um livro desta serie é sempre uma agradável leitura e não tarda a continuação está ai à porta…O irmão de Finan rica peça 😀

    Abraço

    1. Não vejo a hora de o ler. 😊😊😊

      Abraço.

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