Estive a Ler: O Nome da Rosa


Naquele dia, não me contive sem o interrogar de novo sobre o caso do cavalo.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO O NOME DA ROSA

Escritor e homem de letras italiano, Umberto Eco (1932 – 2016) doutorou-se Universidade de Turim com apenas vinte e dois anos de idade, em 1954, apresentando para o efeito uma tese consagrada ao pensamento filosófico de São Tomás de Aquino “O Problema Estético em S. Tomás de Aquino”. Entre 1954 e 1959 desempenhou as funções de editor cultural na famosa cadeia de televisão estatal italiana RAI, leccionando também nessa altura nas universidades de Turim, Milão e Florença e no Instituto Politécnico de Milão.

Tinha apenas trinta e nove anos de idade quando foi nomeado professor catedrático de Semiótica pela Universidade de Bolonha, a mais conceituada em Itália. Iniciou o seu percurso como escritor no final dos anos 50, entre estudos académicos e publicações periódicas. Em 1980 publicou O Nome da Rosa, o seu primeiro romance e um dos mais famosos; chegou-me às mãos a sua edição de 2020 da Gradiva, com tradução de Jorge Vaz de Carvalho e um total de 368 páginas.

O Nome da Rosa é um dos clássicos da literatura mundial que mais vontade tinha de ler, em parte por nunca ter pegado em nada de Umberto Eco, em parte por me parecer ter todos os requisitos necessários para me agradar: a busca por um homicida, profecias apocalípticas, história, intriga política e religião. Entre as adaptações, vi o filme protagonizado por Sean Connery e Christian Slater, de 1986, mas as memórias estavam tão longínquas e difusas na minha mente que pouco ou nada me recordava da história.

Questões discutidas até hoje pela comunidade religiosa são aqui muito bem escrutinadas.

O livro foi uma boa surpresa. A escrita de Umberto Eco é muito apelativa, sabendo dosear extremamente bem os capítulos de investigação e suspense com aqueles mais morosos em que questões da Bíblia e da “política religiosa” do século XIV são discutidas em verdadeiras teses dignas de respeito. Ainda que por vezes estes capítulos se tenham tornado aborrecidos, são eles que tornam este livro extremamente rico.

O Nome da Rosa acompanha Guilherme de Baskerville, um frade franciscano e o seu discípulo, Adso de Melk, que narra o livro, em busca pela verdade numa abadia beneditina, na Itália de 1327. Guilherme é chamado para investigar a misteriosa morte de Adelmo de Otranto, cujo cadáver é encontrado aos pés da muralha que orla o complexo. O monge é, no entanto, apenas a primeira de uma série de mortes que ocorrem durante os sete dias em que a trama sucede, replicando cenas do Livro do Apocalipse.

É desconhecido o móbil destes crimes, mas à medida que o enredo se adensa, tudo parece estar conectado ao lugar mais obscuro e almejado da abadia, a Biblioteca. Apenas o bibliotecário e o seu ajudante lhe têm acesso e são os responsáveis pela conservação das inúmeras obras que ela alberga. Obras riquíssimas oriundas de todas as partes do mundo, tanto de índole católica como pagã.

Questões discutidas até hoje pela comunidade religiosa são aqui muito bem escrutinadas. Há uma facção que defende que os religiosos não se podem rir porque Jesus Cristo nunca se ria, enquanto uma outra tem uma posição menos conservadora. Uma facção que cataloga qualquer doutrina que não siga o catolicismo romano como herege e outra que as sabe distinguir por gravidade e dano dos seus conteúdos. Há ainda a atracção física entre monges e a visão da mulher como “embarcação do demónio” vigente na época.

Se as conversas de travo ideológico / teológico podem ser um sério travo amargo para quem pretende experimentar uma leitura entusiasmante e realmente quer é descobrir a identidade do assassino e os seus motivos, posso garantir que, ainda que as tenha achado exaustivas, achei muito interessantes. Sou fã dessas matérias e as discussões, mais ou menos empolgantes, acabam por trazer a lume ideias e fazer o leitor duvidar de tudo tanto quanto as próprias personagens do livro.

A personagem Guilherme de Baskerville foi inspirada em Sherlock Holmes e o nome Baskerville provém do livro O Cão dos Baskerville, um dos livros mais famosos do célebre detective. Em boa verdade, a argúcia desta personagem pode ser muito bem equiparada à da criação de Arthur Conan Doyle, o maior investigador da História da literatura britânica.

O Nome da Rosa foi, por isso, uma leitura bastante rica a meu ver, em que a vertente de thriller acabou por não me desiludir, embora possa dizer que não tenha ficado plenamente convencido. Foi o bastante para ter gostado muito deste livro e tenho pena que Eco não tenha escrito mais aventuras de Guilherme com Adso, porque a química entre as personagens foi mesmo muito boa. Fica a vontade de ler mais do autor.

Avaliação: 9/10

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