Estive a Ler: A Casa da Rússia


Com os seus rotundos pilares castanhos e os espelhos dourados, mais parecia um salão de um navio prestes a naufragar e não propriamente o local ideal para lançar uma grande iniciativa.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO A CASA DA RÚSSIA

John le Carré estudou em Berna e Oxford, foi professor em Eton e esteve durante cinco anos ligado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, sendo primeiro secretário da Embaixada Britânica em Bona e, posteriormente, cônsul político em Hamburgo. Começou a sua carreira literária em 1961, tendo-se tornado um escritor mundialmente reconhecido com o livro O Espião Que Saiu do Frio, o seu terceiro.

A consagração de le Carré deu-se com o excelente acolhimento que teve a célebre trilogia de Smiley: Tinker Tailor Soldier Spy, The Honourable Schoolboy e A Gente de Smiley. Entre os seus romances, todos eles assinaláveis êxitos de vendas e de crítica, contam-se O Alfaiate do Panamá, Single & Single, O Fiel Jardineiro, Amigos até ao Fim, O Canto da Missão e Um Homem Muito Procurado. A Casa da Rússia teve uma edição comemorativa dos seus 30 anos pelas edições D. Quixote, edição de 2019 com 464 páginas e tradução de José Vieira de Lima.

O meu fascínio por John le Carré não é novo. O autor, que nos deixou em 2020, foi sempre uma das minhas grandes influências, ou não fosse eu amante do charme britânico que envolve os grandes clássicos de espionagem. Muitos dos seus romances foram adaptados ao ecrã, mas o meu interesse pelo autor só se tornou real quando li A Toupeira (Tinker Tailor Soldier Spy) e fiquei absolutamente rendido à sua escrita.

“Uma das muitas obras de arte deste escritor.

Seguiram-se outros livros, como O Espião que Saiu do Frio, O Fiel Jardineiro, A Rapariga do Tambor ou O Gerente da Noite, mas antes de voltar à saga de Smiley decidi experimentar este A Casa da Rússia. Vi o filme de 1990 com Sean Connery e Michelle Pfeiffer há tanto tempo que não me lembrava minimamente da história, mas o resultado foi muito positivo. Se a trama em si não traz nada de novo em relação ao que vi em outras histórias de espionagem do autor, as relações, desenvolvimentos e principalmente a escrita de le Carré são geniais.

O romance apresenta os meandros da espionagem e da contraespionagem entre o Ocidente e a antiga União Soviética. Em Moscovo, um manuscrito que contém segredos militares muda de mãos. Se conseguir chegar ao seu destino, e se o seu significado for entendido, as consequências poderão ser devastadoras. Ao longo do caminho, interfere grandemente na vida de três pessoas: um físico soviético sobrecarregado de segredos, uma bela jovem russa a quem os papéis são confiados, e um editor inglês em declínio, que se vê pressionado pelos Serviços Secretos britânicos a expor a fonte do documento.

Barley Blair é o responsável por uma editora em Londres que publica ficção russa. Num evento social, na Rússia, impressiona um sujeito conhecido como Goethe, importante cientista russo, que pretende ver um seu livro publicado. O problema é que no dito livro são não só denunciados problemas do sistema de defesa russo, como também revelados segredos militares que podem ser vitais para a defesa do Ocidente. É uma amiga do cientista, Katya Orlova de seu nome, que tenta desesperadamente fazer Blair publicar o livro.

Para mal dos seus pecados, o livro vai parar às mãos dos Serviços Secretos britânicos, a uma secção conhecida como A Casa da Rússia, que, tomando conhecimento do material, incute Blair a contactar com Orlova e averiguar a veracidade dos manuscritos. Mas nem tudo o que parece é e a contraespionagem pode estar em movimento ao mesmo tempo que o editor se apaixona pela jovem russa e os espiões britânicos ficam cada vez mais confusos.

Em Moscovo, Leninegrado, Londres e Lisboa, numa ilha da costa do Maine que pertence à CIA, e no coração do próprio Barley Blair, John le Carré oferece-nos uma história de grandes emoções, de desconfiança e de inteligência. A Casa da Rússia é mais um livro imperdível do autor britânico, que conheceu como ninguém os meandros da espionagem internacional através da sua experiência nos Serviços Secretos. Uma das muitas obras de arte deste escritor.

Avaliação: 8/10


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