Estive a Ler: Amesterdão


Há coisas mais importantes que as sinfonias. São chamadas de pessoas.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO AMESTERDÃO

Ian McEwan nasceu a 21 de Junho de 1948, em Aldershot, Inglaterra. É autor de dois livros de contos e onze romances, sendo os mais conhecidos Amesterdão, com o qual venceu o Booker Prize em 1998, Expiação, que lhe valeu os prémios US National Book Critics Circle em 2002 e WH Smith em 2002 para Melhor Livro de Ficção, Sábado, com o qual venceu Prémio James Tait Black Memorial e Na Praia de Chesil, nomeado para o Galaxy Book of the Year 2008 nos British Book Awards onde o autor foi também nomeado para Reader’s Digest Author of the Year.

Publicou em 2009 um libreto para uma ópera de Michael Berkeley intitulado Por Ti e vários dos seus romances foram adaptados para o cinema. Todas as suas obras são publicadas em Portugal pela Gradiva. Assinou também vários argumentos para cinema, entre os quais, The Imitation Game, The Ploughman’s Lunch, Sour Sweet e The Good Son. A edição de Amesterdão de 2006 tem um total de 179 páginas e tradução de Ana Falcão Bastos.

Amesterdão é um romance sobre dilemas morais e sobre pessoas, as suas idiossincrasias e hipocrisias. O título deve-se sobretudo à possibilidade de se ter um suicídio assistido na Holanda. A bela e provocante Molly Lane, depois de uma paralisia que começou como um mero “formigueiro” num braço, tornou-se quase vegetal, e o seu marido levou-a à Holanda para pôr fim à vida.

Amesterdão é um livro pequeno, mas repleto de questões super actuais e muito bem escrito.

Tudo começa numa fria manhã de inverno, quando dois velhos amigos, figuras destacadas da sociedade, reencontram-se num crematório londrino para prestar a última homenagem à antiga amante comum, Molly. Um deles é Clive Linley, músico e compositor erudito, o outro Vernon Halliday, jornalista e editor. Nos dias que se seguem ao funeral, os homens estabelecem um pacto cujas consequências nenhum deles poderá prever. As decisões morais que então tomam fazem a sua amizade ser testada até ao limite e colocam em risco as carreiras de ambos.

Recheada de humor, a trama fala muito sobre a falecida; afinal ela tinha sido amante ou esposa de quatro dos principais personagens masculinos do livro. O marido de Molly era George Lane, rico e poderoso dono de grande editora e um dos sócios do jornal diário Judge, onde Vernon é editor. O livro joga muito com as diferenças de valores entre Clive e Vernon, mas também com as suas semelhanças. Nenhum deles perdoa George por ter ajudado Molly a morrer, por exemplo.

Mas há outras situações em que ambos concordam, discordam e concordam em discordar. Achei extremamente curiosa a forma como o autor explora o psicológico masculino e as suas extremas fragilidades. A competitividade, a inveja, o declínio, os problemas existenciais e mesmo o que significa a amizade para cada um deles. Vernon tem de lidar com dilemas morais, dividido entre princípios pessoais e a sobrevivência do seu tablóide.

O autor, Ian McEwan, actualmente vive em Londres | Fonte: https://veja.abril.com.br/cultura/a-barata-de-ian-mcewan-a-comedia-do-brexit/

Questões como a responsabilidade moral são muito exploradas. Vernon tem imagens constrangedoras de um político intragável, Julian Garmony (antigo amante de Molly e candidato a primeiro-ministro) estando disposto a publicá-las para o destruir. Há aqui uma questão que reflete a subversão de valores em que vivemos hoje, apesar de o livro ter sido escrito nos anos 90. O verdadeiro problema de Garmony são as suas ideologias, a sua misoginia e racismo, mas o que realmente lhe pode manchar a imagem são as fotografias onde se apresenta vestido de mulher.

Também Clive tem uma sombra de culpa no seu percurso, porque quem não ajuda uma vítima de violência acaba por ser cúmplice do agressor e Ian McEwan reflete perfeitamente a “moral” que estas personagens debitam para com os outros, mesmo quando as suas próprias trajectórias estão repletas de falta de civismo. Amesterdão é um livro pequeno, mas repleto de questões super actuais e muito bem escrito.

Avaliação: 9/10

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