Estive a Ler: O Deus das Moscas Tem Fome


Pela janela esconsa do quarto entrava a luz mortiça da tempestade que se aproximava, emprestando um tom amarelado às paredes tristes. O bruxeiro não se recordava de se ter deitado.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO O DEUS DAS MOSCAS TEM FOME

Luís Corte Real fundou a Saída de Emergência em 2003. Desde então criou a Coleção Bang! (que lança em Portugal os melhores autores de fantástico da atualidade e muitos clássicos) e a Revista Bang! (uma publicação semestral e gratuita dedicada à fantasia, FC e horror). Também editou autores como a Nora Roberts e Mark Manson, mas vocês não querem saber disso.

As paredes de sua casa estão ocupadas por todo o tipo de livros, banda desenhada, manuais de Dungeons & Dragons e Call of Cthulhu, jogos de tabuleiro, action figures e mais caixas de Lego do que aquelas que consegue montar. O Deus das Moscas Tem Fome é a sua primeira obra — uma espécie de X-Files na Lisboa de Eça de Queiroz, com influências que vão de H. P. Lovecraft e Arthur Conan Doyle a Mike Mignola.

Fonte: Saída de Emergência

Do pouco que conheço do histórico de Luís Corte Real, as expectativas para este romance eram relativamente boas. O autor, que se lança neste périplo de um detective do obscuro por terras lusitanas, é editor e fundador da chancela editorial que melhores livros de fantasia se publicam em Portugal, e os seus artigos de editor sempre mostraram bons indicadores ao nível de escrita.

No entanto, quando nos acostumamos a ela, a riqueza dos detalhes é determinante para a compreensão do espírito – e intenção – do livro.

O Deus das Moscas Tem Fome alia dois mundos que me chamam bastante a atenção: de um lado o imaginário obscuro de demónios e criaturas do além, do outro a sociedade portuguesa do século XIX, com uma aura misteriosa que se adequa perfeitamente a este tipo de narrativas. O resultado só podia ser bom.

Somos convidados a conhecer Benjamim Tormenta, um figurão que deambula nos melhores círculos da sociedade, de Sintra a Alfama, do centro de Lisboa a Macau. A personagem não é fácil de agradar, tampouco o ente que o habita, preso pela magia das tatuagens: Lamashtu, um odioso e visceral demónio que funciona como uma consciência vil para a personagem.

A antipatia por Lamashtu é, no entanto, atenuada pelos horrores que Tormenta enfrenta, chegando ao ponto de desejarmos a presença do demónio nos momentos em que este se ausenta. Figuras como Fontes Pereira de Melo, os Távoras ou o rei D. Luís passeiam-se pela narrativa e Tormenta é uma personagem tão credível quanto elas.

O próprio.

Personagem que não gostei muito foi a Madame Wei, que achei estereotipada, mas por sua vez Eça de Queiroz foi muito bem desenhado pelo autor. O conto A Sombra Sobre Eça de Queiroz, em que homenageia H. P. Lovecraft, foi o meu preferido e teve influência na apreciação global.

A escrita de Corte Real não é fácil; o autor puxa dos galões para mostrar a sua erudição literária e homenagear a prosa queirosiana, o que compromete a fluidez narrativa e o entrosamento com o leitor. No entanto, quando nos acostumamos a ela, a riqueza dos detalhes é determinante para a compreensão do espírito – e intenção – do livro.

PS: Uma menção honrosa ao conto escrito por Anabela Natário. A história do mesmo não acrescentou nada ao enredo, mas o vórtice de leitura a que me obrigou entusiasmou-me.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 7/10

2 comentários em “Estive a Ler: O Deus das Moscas Tem Fome

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