Estive a Ler: Luta de Poderes, O Legado de Júpiter #1

Ah, sabes como é o meu tio. Ainda não me perdoou por ter saído com aquela mulher que salvei de um incêndio o ano passado.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “LUTA DE PODERES”, PRIMEIRO VOLUME DA SÉRIE O LEGADO DE JÚPITER (FORMATO BD)

O Legado de Júpiter é a nova publicação da G Floy Studio Portugal. Após o sucesso de Kick-Ass e Kingsman, tanto nos cinemas como nas bandas-desenhadas, Mark Millar tornou-se uma figura de referência e Millarworld uma chancela de qualidade reconhecida pelos leitores. Publicado entre abril de 2013 e janeiro de 2015, o primeiro volume de O Legado de Júpiter é um retorno ao mundo dos super-heróis por parte do autor, que já havia trabalhado em Fantastic Four, Superman, Wolverine: Old Man Logan e Civil War, entre outros.

Desta feita, surge ao lado de Frank Quitely (Batman & Robin, All Star Superman e Flex Mentallo), um artista já veterano dentro do género. O Legado de Júpiter tem sido, ao longo dos últimos anos, reconhecido pela crítica como um dos trabalhos mais importantes dos dois autores, muito embora apenas dois volumes tenham sido lançados nos states. O primeiro volume, em Portugal, intitula-se Luta de Poderes.

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Fonte: https://hiveminer.com/Tags/frank,quitely

Muito embora super-heróis mais tradicionais não sejam a minha praia, fui aliciado pelas críticas positivas que li ao livro, e acabei constatando que o álbum tem mesmo uma aura adulta, violenta e muito pouco dócil. Ainda que não me tenha arrebatado – e tenha achado sinceramente que foi num sentido decrescente em termos de ligação narrativa – gostei bastante da forma como a questão dos poderes foi abordada e o contexto em que todas as temáticas foram trabalhadas.

“A capa e a capacidade de voar é apenas um ingrediente secundário neste trabalho bem conseguido da dupla Millar e Quitely.

Neste primeiro volume, abraçamos um mundo de super-heróis atípico, com uma forte componente de crítica social e política. A história começa em 1932, quando uma expedição liderada por Sheldon Sampson, a sua família e amigos, encontra uma misteriosa ilha no Oceano Atlântico com que Sheldon havia sonhado. Ele é uma figura a quem todos parecem seguir sem reservas, e que nutre o profundo desejo de participar ativamente na resolução de vários problemas reais decorrentes da Grande Depressão nos E.U.A.

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Fonte: G Floy

A ilha oferece a todos os que ali chegam vários poderes e então somos desde logo alavancados para o presente, onde Sheldon é um super-herói envelhecido, casado com a sua esposa Grace, quase uma versão Mulher-Maravilha de O Legado de Júpiter. O casal tem dois filhos, Chloe e Brandon, e é neles que a história se foca. Ao contrário dos pais, usam os seus poderes para serem vistos como celebridades, explorando as respectivas imagens e ganhando milhões à sua custa.

“É realista e sério, sem deixar de ser uma fantasia urbana com ocasionais momentos de combate mais inverosímeis.

Chloe é budista e vegetariana, não se cansando de se autopromover para alimentar a fundação de solidariedade social que criou, enquanto Brandon procura afirmar-se, mas não passa de um sedutor problemático que acaba por ser sucessivamente envergonhado pelo pai. Sheldon tem ainda um outro problema grave em mãos. Enquanto ele procura não interferir nos assuntos governamentais, o seu irmão Walter, também ele um velho super-herói, busca avidamente por resoluções e desafia-o permanentemente com o seu comportamento e atividade social.

O álbum possui uma narrativa abrangente, que consegue mesclar temas e géneros com inventividade, falando de assuntos sérios como o capitalismo, a ecologia, a volatilidade do Homem e o plasticismo da sociedade, ao mesmo tempo que joga com a ideia que temos de um super-herói. A capa e a capacidade de voar é apenas um ingrediente secundário neste trabalho bem conseguido da dupla Millar e Quitely.

Fonte: G Floy

Parece-me por isso que não é uma série que agrade apenas aos fãs mais tradicionais de Superman, Batman ou X-Men, porque aqui o objetivo não é combater monstros ou vilões tenebrosos. Luta de Poderes explora a noção de família, conflitos ideológicos e o que pode resultar, na visão das gerações seguintes, de um evento de extrema notoriedade como é o acesso a super-poderes. É realista e sério, sem deixar de ser uma fantasia urbana com ocasionais momentos de combate mais inverosímeis.

O que me agradou mais no álbum foi, no entanto, a arte de Quitely, que mostra que o artista escocês, habitual companheiro de Grant Morrison, sabia ao que vinha e trabalhou as personagens na perfeição. O Legado de Júpiter parece-me um excelente início para uma série que lamento não estar a ser publicada com grande assiduidade lá fora. É, ainda assim, mais uma excelente publicação da Image e mais uma boa aposta da G Floy em Portugal.

Avaliação: 7/10

O Legado de Júpiter (G Floy Studio Portugal):

#1 Luta de Poderes

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A Divulgar: “Potter’s Field: O Cemitério dos Esquecidos” pela G Floy Studio

Bom dia de S. Valentim a todos os seguidores do NDZ. Já está a chegar às livrarias a mais recente novidade da G Floy Studio, um belíssimo romance gráfico a meio caminho entre o thriller noir e a história de vigilantes e vingança… quase no limite da história de super-heróis! Com argumento de Mark Waid e arte de Paul Azaceta, é a história de um indivíduo misterioso, decidido a devolver o nome e a dignidade aos mortos anónimos enterrados em Potter’s Field, um cemitério para todos os que a lei e a justiça esqueceram perto de Nova Iorque.

Mark Waid é um dos mais aclamados escritores de comics da actualidade, com uma extensa obra para as duas grandes editoras de super-heróis, DC e a Marvel. Depois de se tornar escritor a tempo inteiro, escreveria para a Marvel uma extensa série de números da revista do Capitão América (com arte de Ron Garney), que ainda hoje é considerada como uma das fases definitivas da personagem. O seu romance gráfico Kingdom Come, para a DC, que mostra um futuro possível distópico da Liga da Justiça, é considerado uma das grandes histórias de sempre dos super-heróis da DC.

Assinou muitas outras séries para ambas as editoras, incluindo histórias importantes para a Liga da Justiça (Heaven’s Ladder, JLA: Year One), Fantastic Four, Superman: Birthright, e muitos mais. Mais recentemente, a sua fase na revista do Demolidor tornou-se uma das mais populares de sempre, e granjeou-lhe uma mão-cheia de prémios Eisners, para além de escrever também este Potter’s Field, bem como o romance gráfico Strange Fruit, também para a editora Boom!

Paul Azaceta é um desenhador já conhecido dos fãs da G Floy, que edita dele a série Outcast (com argumento de Robert Kirkman). Azaceta é bem conhecido pelo seu estilo em simultâneo contido e dinâmico, e depois de uma série de trabalhos em que a sua sensibilidade noir apareceu em toda a força na indústria, em títulos como Daredevil, Spider-Man, Punisher Noir, e B.P.R.D. 1946, assina esta belíssima história de vingança em nome dos que a lei e a justiça esqueceram.

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SINOPSE:

Mark Waid (Kingdom Come) e Paul Azaceta (Outcast) assinam este romance gráfico bem negro, a meio caminho entre o policial noir e o thriller, e a história de vigilantismo no limite do super-herói:  a história de um indivíduo misterioso, decidido a devolver o nome e a dignidade aos mortos anónimos enterrados em Potter’s Field, um cemitério para os esquecidos perto de Nova Iorque.

John Doe. Um homem que não tem identidade. Que não tem história. Que não deixa impressões digitais. Fazendo apelo a uma rede de agentes que agem fora dos circuitos tradicionais e que não se conhecem uns aos outros, deu a si próprio a missão de descobrir o passado e o nome de todos aqueles que foram assassinados injustamente e enterrados neste cemitério.

Mas que passado é que John Doe está a tentar esconder? E como é que ele conseguirá encontrar as chaves desse passado neste cemitério dos esquecidos? Investigações, ruas e vielas escuras, perigos, conspirações… POTTER’S FIELD é um thriller negro raramente visto nos comics.

“Mark Waid coloca toda a história em movimento com uma premissa bem sólida e um mistério intrigante, mas é Azaceta quem dirige a história, pintando-nos um mundo negro para esse mistério habitar.” – Ain’t It Cool News

POTTER’S FIELD: O Cemitério dos Esquecidos

Formato comic (17 x 26), capa dura, 104 pgs. a cores.

PVP: 12€

ISBN:  978-84-16510-52-8

PREVIEWS:

Nota: Todas as imagens foram gentilmente cedidas pela editora.

 

Estive a Ler: A Revelação do Bobo, Saga Assassino e o Bobo #2

Pus-me à deriva pela multidão, como um tufo de algas apanhado numa mudança de maré. Decidi que Breu tinha razão. Havia naquela noite uma subcorrente de excitação, um tempero de curiosidade no ar.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A REVELAÇÃO DO BOBO”, SEGUNDO VOLUME DA SÉRIE SAGA ASSASSINO E O BOBO

2018 trará a Portugal Robin Hobb e não será novidade para vós que, nos últimos tempos, falar do Reino dos Antigos aqui no NDZ traz elogios pela certa. A autora californiana passou de um quase “ódio de estimação” para uma das minhas autoras preferidas em questão de meses, graças à minha Perseverança. Perceberam o trocadilho? Não? [Perseverança é o nome de uma personagem desta nova série.]

Deixemo-nos de humor, que como já viram não tenho Talento [ups] para ele, e falemos deste A Revelação do Bobo. Trata-se do segundo volume da série Fitz and The Fool, publicada em Portugal pela Saída de Emergência como Saga Assassino e o Bobo, a terceira protagonizada pelo personagem FitzCavalaria Visionário. Este livro corresponde à primeira metade do segundo original, Fool’s Quest, traduzido por Jorge Candeias e com um total de 368 páginas.

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Fonte: https://mimi-evelyn.deviantart.com/art/FOOL-S-ASSASSIN-SPOILERS-The-Unexpected-Son-478254675

Não é segredo que o primeiro volume, O Assassino do Bobo, foi a minha melhor leitura de 2017 e aquele final deixou-me em pulgas para ler a continuação. Ainda assim, fui obrigado a moderar as expectativas com o conhecimento de que este segundo volume seria apenas metade do livro original, que por si só, como segundo da série, seria obviamente um livro de transição. As expectativas não foram defraudadas, apesar de haver uns ques por aí.

“Pouquíssimo foi o avanço geográfico das personagens principais deste livro.”

Ler Robin Hobb é sempre uma experiência abençoada para quem gosta de uma escrita intimista, elegante e rica em expressividade e em vocabulário, sem deixar de ser fluída. Não será tão maravilhosa para quem prefira histórias com um ritmo galopante e desenvolvimentos corridos, em detrimento de uma narrativa viva, credível e bem contada, como Hobb faz de um jeito sublime. Neste aspeto, não me canso de elogiar o excelente trabalho de Jorge Candeias na tradução dos livros.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/a-revelacao-do-bobo/

Este A Revelação do Bobo não foi tão bom como o primeiro, mas como poderia ser, se corresponde apenas à primeira metade do segundo livro? Os ques de que falei em cima estão mesmo relacionados com isto. A Abelhinha quase não deu cor de si neste volume, e a nível de desenvolvimento narrativo, podemos dizer que estamos praticamente na mesma posição em que estávamos no final do livro anterior. Pouquíssimo foi o avanço geográfico das personagens principais deste livro.

Mas podemos dizer que não aconteceu nada em A Revelação do Bobo? Oh sim, se aconteceu. Aconteceu muito e bom. Se a narrativa do primeiro volume foi focada em Floresta Mirrada, aqui podemos dizer que é passada quase toda no Castelo de Torre do Cervo, onde temos a possibilidade de explorar mais amiúde velhos conhecidos como Respeitador, Eliânia, Kettricken, Obtuso, Enigma e principalmente Breu, o velho mentor de Fitz que se revela uma das maiores surpresas do livro. É também aqui que várias revelações se sucedem.

O mistério do Filho Inesperado é finalmente posto a descoberto, assim como as intenções dos malévolos Servos. Outras revelações, bem mais triviais mas não menos impressionantes, são-nos oferecidas, pondo mais uma vez em evidência o brilhantismo tático da autora californiana.

“O livro foi uma catadupa de revelações”

O título do livro bem que poderia ser As Revelações e não só do Bobo. Testemunhamos momentos icónicos que aguardávamos há n livros atrás, protagonizados por Fitz, quer pública ou mais intimamente, relacionados com os Visionário e também com a filha Urtiga, momentos de desgosto, de glória auto-contida, de pânico, de amizade genuína, de descrédito, de inveja e de perdão.

Assistimos ao envelhecer de uma personagem que conhecemos desde criança, e que parece debater-se sempre, em todos os momentos da sua vida, com os mais diversos dilemas morais. Neste livro, ele volta a ser obrigado a esgrimi-los e a aceitar o gosto amargo das consequências.

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Fonte: https://www.pinterest.fr/pin/654359020828618233/

Em A Revelação do Bobo também conhecemos novas personagens. São elas Cinza, o novo e bem-sucedido aprendiz de Breu nas artes da espionagem, Diligente, a mãe de Perseverança, Valente e Astuto, dois muito diferentes membros de um afamado corpo militar conhecido como os Remexidos, e Matizada, um corvo estigmatizado por possuir algumas penas brancas, que estabelece uma relação bem peculiar com Fitz e o Bobo.

“Sabem o que vos digo? Que venham mais livros como este.”

Conhecemos também um pouco melhor os Servos. Vindeliar é o rapaz-nevoeiro, um homem com rosto de rapaz que consegue usar magia para “enevoar” mentes, fazendo-as entrar em negação e trabalhar para esquecer certos eventos. Dwalia é uma mulher rechonchuda, cujos modos afáveis inspiram confiança e uma vontade inequívoca de lhe agradar. E há ainda militares calcedinos a colaborar com estes profetas para levar o Filho Inesperado a Clerres, com interesses bem maliciosos em mente.

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Fonte: https://thereseofthenorth.deviantart.com/art/Bee-489050739

A ação principal pode não ter evoluído praticamente nada, e sim, terminei o livro um pouco irritado por isso, mas gostei imenso da forma como Hobb esmiuçou emoções e eventos, ao mesmo tempo que pôs a nu subtilezas, fragilidades e podres que não desconfiávamos (pelo menos eu), de algumas personagens que nos são há muito conhecidas. O livro foi uma catadupa de revelações, mas mesmo assim houve momentos para cenas de ação, corridas a cavalo, traições e engodos.

A magia da Manha voltou a ser um tema explorado e que, tudo me leva a crer, deverá sofrer mais incidências nos livros consequentes, no que diz respeito a Fitz, a Abelha e a Teio, pelo que me parece. Não é uma revelação sobre o enredo, mas uma mera suposição da minha parte.

A Revelação do Bobo foi mais um livro lindíssimo da autora, magistralmente bem escrito, que deixou claro o quanto ela consegue ser cruel, tanto para as personagens como para os leitores, ao enredar a narrativa numa série de eventos paralelos, prorrogando um momento dramático para uma das protagonistas. Sabem o que vos digo? Que venham mais livros como este.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

O Reino dos Antigos:

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Saga Assassino e o Bobo (Saída de Emergência):

#1 O Assassino do Bobo

#2 A Revelação do Bobo

Estive a Ler: O Sangue, Monstress #2

Oh! É que… ouvi pessoas a falarem por baixo da janela esta manhã. Disseram… que um monstro tinha chacinado ovelhas nas docas.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “O SANGUE”, SEGUNDO VOLUME DA SÉRIE MONSTRESS (FORMATO BD)

Publicado pela Edições Saída de Emergência, Monstress faz parte do segmento da editora dedicado às bandas desenhadas. O segundo álbum conta com a tradução de Renato Carreira e edição de Safaa Dib e reúne os números 7 a 12 da publicação original. Monstress é publicado nos E.U.A. pela Image Comics e venceu os prémios Hugo e British Fantasy Award em 2017 na categoria de Melhor Banda Desenhada.

A autora americana Marjorie Liu é conhecida pela participação em BD’s da Marvel Comics como X-23 ou Viúva Negra, mas foi com Monstress que acabou indicada ao Eisner, em 2016. A arte é responsabilidade da premiada artista japonesa Sana Takeda, também ela muito ligada à Marvel, em títulos como X-23 ou Miss Marvel, e à Sega, onde trabalhou como designer.

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Num mundo de inspiração oriental, uma rapariga arcânica vê-se no cerne de uma disputa de anos entre humanos e arcânicos. Muito embora pareça inofensiva, Maika Meiolobo tem dentro de si um poder imensurável, o resquício de um mal muito antigo que tem permanecido adormecido. Brilhante na arte e com um argumento maravilhoso, Monstress atira-nos para um mundo que levamos tempo a compreender, no qual a liderança matriarcal e a linguagem crua e direta nos absorvem de forma natural desde o primeiro momento.

O que salta à vista em Monstress é, desde logo, o grafismo denso de beleza art deco. O conjunto de cores, aliado ao traço vigoroso de Takeda e ao aspecto monumental do desenho é um diferencial em relação a muita da BD que é publicada por aí. As personagens adquirem traços que lembram o mangá, conseguindo imprimir nas pranchas emoções e subtilezas como poucos o fazem. Crianças de aspeto amigável lidam com interesses humanos e assombrações, sempre com uma aura pesada sobre os seus ombros. O que por si só é incrível.

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Essa aura é passada para o leitor através da arte de Sana Takeda, memorável, forte e poderosa, mas também pelo argumento de Marjorie Liu. A escrita é tensa, frívola, descomprometida, mas rica, forte em vocabulário e em significados. Madura a todos os níveis. Não se enganem: Monstress é uma história para adultos, que embora apresente gatinhos e crianças fofinhas, traz também palavrões, olhos arrancados e dedos cortados, entre muitas outras coisas.

“Pela primeira vez, conseguimos olhar para o deus dentro de Maika como um ser com vontades e temores”

O Sangue continua a narrar a antiga batalha entre arcânicos e humanos. Os arcânicos são o cruzamento dos anciãos (animais falantes) com humanos, de cujos ossos é extraído o lilium, uma substância que é a base de poder das Cumaea, as bruxas humanas. Maika é uma arcânica que se tornou também hospedeira de um deus antigo, um deus de muitos olhos, que a usa como refúgio e também como instrumento para se alimentar.

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Fonte: http://www.saidadeemergencia.com/produto/monstress-o-sangue/

Ao mesmo tempo que tenta lidar com os poderes que vivem dentro dela, os quais não consegue controlar, Maika tenta descobrir mais sobre a sua mãe e o que a liga à tão afamada Imperatriz-Xamã que liderou os arcânicos. Tem ainda de fugir àqueles que a perseguem, sejam eles os que desconfiam do enorme poder que alberga, sejam os que sabem de quem é filha. As respostas que ela vai obtendo, porém, não são exatamente o que esperava.

Criada no seio da guerra, Maika desenvolveu uma personalidade dura, o que talvez a tenha preparado para as abordagens de que vai sendo alvo, ao mesmo tempo que a envolve num sentimento de solidão e de isolamento a que parece querer habituar-se. O gato Mestre Ren e a menina-raposa Kippa seguem-na para todo o lado, movidos pela amizade e lealdade que lhe sentem mas, muito com medo do mal que lhes trará, Maika tenta permanentemente deixá-los para trás.

Fonte: Saída de Emergência

Neste volume, muito mais centrado na busca de Maika pelas suas raízes e pela forma como reage às suas pequenas descobertas, a meio-lobo reencontra figuras do seu passado na cidade costeira de Thyria, que revisitamos nos seus flashbacks, e atravessa um mar onde arcânicos e humanos convivem, unidos em objetivos e em lealdades, para alcançar uma ilha terrível assombrada por fantasmas, onde se encontra encarcerada uma figura icónica que lhe pode dar muitas respostas sobre as suas origens.

“Interesses sub-reptícios começam a dar a cara, mas muito ainda está por mostrar.

Ao mesmo tempo que encontramos raposas, tigres e tubarões antropomórficos, macacos malévolos e cadáveres ambulantes, vamos também conhecendo mais sobre os gatos, os verdadeiros narradores da história, que possuem um papel único na narrativa, funcionando tanto como alívio cómico mas também como enciclopédia para percebermos melhor os meandros desta sociedade.

Fonte: Saída de Emergência

Muito embora se tenha focado menos nas bruxas e incidido bastante na viagem de Maika pelo oceano, achei que O Sangue não fica atrás de Despertar. Subversivo, melancólico, seco, mostrando que o nosso mundo é uma piada de mau gosto comparado com a imensa variedade de tons que este – pós-apocalíptico – consegue apresentar. Interesses sub-reptícios começam a dar a cara, mas muito ainda está por mostrar.

Pela primeira vez, conseguimos olhar para o deus dentro de Maika como um ser com vontades e temores, muito mais do que um mero monstro devorador, ainda que não seja, propriamente, digno de confiança. Vemos também que o seu passado está interligado ao de Maika, e o que pode advir daí só traz mais vontade de devorar o próximo volume. Este segundo álbum confirma, sem margem para erros, o novo fulgor literário que Monstress traz à Coleção BANG!.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Monstress (Saída de Emergência):

#1 Despertar

#2 O Sangue

A Divulgar: “O Legado de Júpiter Vol. 1: Luta de Poderes” pela G Floy Studio

Viva! Já chegou às bancas O Legado de Júpiter Vol. 1: Luta de Poderes, um dos maiores sucessos críticos e comerciais de Mark Millar, uma saga notável com arte do grande Frank Quitely. Mark Millar opera neste livro uma desconstrução fenomenal das histórias de super-heróis, com uma simples pergunta: o que acontece num mundo em que existem super-poderes, quando a primeira geração de super-heróis, os idealistas, os que lutaram pela democracia, pela sua nação, os que acreditaram que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, cede o lugar aos descendentes, os cínicos, mimados e privilegiados, que se habituaram a ter tudo?

Mark Millar é o escritor de séries de comics aclamadas como Kick-Ass, Kingsman: Serviço Secreto, O Legado de Júpiter e O Círculo de Júpiter, Nemesis, etc…. Muitos destes livros já foram adaptados ao grande ecrã, e muitos outros estão em adaptação para o cinema, após a recente aquisição da Millarworld pela Netflix, para a televisão. O seu trabalho para a DC inclui o aclamado Superman: Red Son (em português Super-Homem: Herança Vermelha), e para a Marvel Comics criou The Ultimates (Os Supremos), Wolverine: Old Man Logan (Velho Logan) e Civil War (Guerra Civil) – a série de super-heróis mais vendida em quase duas décadas.

Frank Quitely é um artista de comics escocês, conhecido pelas suas frequentes colaborações com Grant Morrison em títulos como Novos X-Men, WE3, All-Star Superman e Batman and Robin, bem como pelo seu trabalho com Mark Millar em The Authority e O Legado de Júpiter. A sua carreira internacional começou na DC Comics, com séries para a Vertigo, incluindo Flex Mentallo, bem como séries regulares para o universo DC e para a Wildstorm, incluindo Batman, JLA e The Authority. Depois de ter ilustrado Os Novos X-Men durante dois anos para a Marvel, voltou para a Vertigo e produziu uma curta para uma antologia de Sandman, bem como uma série de que foi co-criador, WE3. Seguiram-se títulos para a DC como All-Star Superman, Batman and Robin, etc… Já completou o segundo volume de O Legado de Júpiter e está a trabalhar no terceiro, com uma série de projetos pessoais a caminho.

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SINOPSE:

Chloe e Brandon são filhos dos maiores heróis e vilões deste mundo. Mas será que estão à altura do seu legado?

Em 1932, a busca por uma misteriosa fonte de energia e poder leva Sheldon Sampson, bem como o seu irmão Walter e um pequeno grupo de companheiros, numa viagem arriscada a uma estranha ilha perdida. Décadas mais tarde, Sheldon e Walter tornaram-se em super-heróis celebrados por todo o mundo. Mas uma nova geração de super-humanos tem de seguir os seus passos, e a missão anuncia-se difícil… sobretudo quando dois lados da família iniciam uma luta terrível pelo poder. Quanto tempo poderá o mundo sobreviver a uma guerra entre seres super-poderosos?

O LEGADO DE JÚPITER  vol. 1: LUTA DE PODERES

Reúne os números #1-5 de Jupiter’s Legacy (primeira série).

Formato deluxe, capa dura, 136 pgs. a cores.

PVP: 14€

ISBN:  978-84-16510-54-2

PREVIEWS:

Nota: Todas as imagens foram gentilmente cedidas pela editora.

A Divulgar: “Antes de Sermos Vossos” pela Saída de Emergência

Viva, amigos e seguidores do NDZ. Hoje trago-vos uma novidade Saída de Emergência. A SdE publicou um livro que se mantém no TOP dos mais vendidos no New York Times há várias semanas. Antes de Sermos Vossos de Lisa Wingate  é baseado num dos mais conhecidos escândalos da América, em que uma instituição de adoção vendeu crianças a famílias ricas.

Lisa Wingate é uma antiga jornalista, oradora inspirada e autora de mais de vinte romances campeões de vendas. As suas obras ganharam ou foram nomeadas para numerosos prémios, incluindo o Pat Conroy Southern Book Prize, o Oklahoma Book Award, o Carol Award, o Christy Award e o RT Reviewers’ Choice Award. Wingate vive nas Montanhas Ouichita do sudoeste do Arkansas.

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Chancela: Chá das Cinco
Data 1ª Edição: 02/02/2018
ISBN: 9789897103056
Nº de Páginas: 368
Dimensões: [160×230]mm
Encadernação: Capa Mole
SINOPSE:

Inspirado em factos verídicos, esta é a história de duas famílias e da terrível injustiça que as mudou para sempre.

Nascida num mundo de riqueza e privilégio, Avery Stafford tem tudo. Filha adorada de um senador americano, com a sua própria carreira como advogada e um noivo maravilhoso à espera em Baltimore, ela vive uma vida encantada.

Mas quando regressa a casa para ajudar o pai com um problema de saúde, um encontro casual com May Crandall, uma idosa desconhecida, deixa Avery profundamente abalada. Ao decidir descobrir mais sobre a vida de May irá embarcar numa viagem pela história oculta de crianças roubadas e adoções ilegais. E cedo irá desvendar um segredo que pode levar à devastação… ou à redenção.

Baseado num dos mais conhecidos escândalos da América — em que uma instituição de adoção vendeu crianças a famílias ricas —, este romance comovente e fascinante recorda-nos como, apesar de os caminhos que tomamos levarem a muitos lugares, o coração nunca esquece onde pertencemos.

Estive a Ler: A Encantadora de Serpentes, Harrow County #3

Olha lá, Clinton… as amoras não se apanham sozinhas.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A ENCANTADORA DE SERPENTES”, TERCEIRO VOLUME DA SÉRIE HARROW COUNTY (FORMATO BD)

A Encantadora de Serpentes é o mais recente volume de Harrow County. E é também o menos bom dos três volumes já publicados em português. Talvez por contar três histórias diferentes, a sensação de encorajamento e desfrute embalado da narrativa pareceu-me ter-se perdido algures, mas de facto foi o álbum que achei menos apelativo. O álbum compreende os números 9 a 12 da edição original publicada nos EUA pela Dark Horse Comics, que planeia um total de seis volumes. 

Nenhuma das histórias me apaixonou (embora tenha achado interessante a intriga das serpentes), mas continuo a achar a narrativa de Cullen Bunn o melhor da série. Como romancista, Bunn já foi nomeado para o Bram Stoker Award (que distingue a melhor ficção de terror), e como escritor de comics para dois Eisners, um dos quais por Harrow County.

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Fonte: http://www.comicsbeat.com/cullen-bunn-exits-aquaman-announces-more-news-on-ama/

Publicado em Portugal pela G Floy Studio, Harrow County é uma bem-sucedida série de horror sobrenatural passada na povoação com o mesmo nome. Desde o primeiro número que é escrita por Cullen Bunn (Uncanny X-Men, Deadpool, The Damned), enquanto a arte é entregue a Tyler Crook (Petrograd, Hellboy), vencedor de um Russ Manning Award, prémio atribuído durante os Eisners, que premeia o trabalho de um estreante no mundo da BD. Este terceiro volume conta ainda com histórias ilustradas por Carla Speed McNeil e Hannah Christenson.

“Posso afirmar sem reservas que a arte das ilustradoras convidadas foi o que menos gostei neste volume.”

Nas três histórias a que somos apresentados, Cullen Bunn apresenta uma panóplia de elementos sobrenaturais com que facilmente nos familiarizamos. Na primeira história vemos que o Rapaz sem Pele continua sem compreender os mistérios do passado. Na peugada da verdade, é difícil não simpatizar com aquela figura, ao mesmo tempo bizarra e empática, da criança que foi esfolada, mas cuja alma continua tão arraigada ao corpo como à pele.

Emmy continua, porém, a ser a protagonista da série. Num das histórias apresentadas, investiga uma casa assombrada, enquanto que na outra, tem de lidar com as serpentes malévolas que semeiam loucura e maldade na mente da população. O espetro da “irmã gémea”, porém, continua a marcar os seus passos.

Sem Título
Fonte: G Floy

Foi interessante ver como os habitantes de Harrow County continuam a trabalhar em prol de Emmy e em como eles a vêm, depois de tudo o que aconteceu. Não obstante a falta de vigor narrativo que registei durante a leitura, achei que as pontas acabaram por se interligar, e não posso deixar de considerar a história coesa e bem delineada, muito embora me agradasse ver uma base mais sólida e credível no meio de todos aqueles elementos mirabolantes.

“Os leitores vão ser expostos a um bizarro desfile de esqueletos fantasmagóricos em chamas, árvores grávidas e crianças sem pele, uma verdadeira bandeja de iguarias do folclore macabro à moda do Sul.”

Paste Magazine

Fonte: G Floy

Posso afirmar sem reservas que a arte das ilustradoras convidadas foi o que menos gostei neste volume. Achei o argumento inferior ao dos volumes interiores, mas ainda assim considero-o bom. Senti-me permanentemente à espera que esta história me apaixonasse, o que não aconteceu, embora tenha gostado bem mais quando ela se focou na amiga de Emmy, Bernice, que coincidiu também com um dos melhores trechos na arte de Tyler Crook.

Infelizmente, o trabalho de Hannah Christenson na casa assombrada deixou muito a desejar, parecendo não jogar bem com a narrativa de Bunn. Em suma, foi um livro que me deixou com um sabor meio agridoce na boca, mas que terminou com o sentimento quase agradável de “quero mais”.

Avaliação: 6/10

Harrow County (G Floy Studio Portugal):

#1 Assombrações Sem Fim

#2 Duas Vezes Contado

#3 A Encantadora de Serpentes

Estive a Ler: A Lança do Deserto, Ciclo dos Demónios #2

O príncipe nuclita silvou ao ouvir o escolhido rejeitar a questão. A lógica ditava que os matasse aos dois, mas não era urgente. O número de guardas em volta do seu abrigo sugeria que não partiriam tão cedo. Podia observá-los por mais alguns ciclos.

O TEXTO SEGUINTE ABORDA O LIVRO “A LANÇA DO DESERTO”, SEGUNDO VOLUME DA SÉRIE CICLO DOS DEMÓNIOS

Publicado originalmente em março de 2010 pela Harper Collins, A Lança do Deserto é o segundo livro do autor americano Peter V. Brett, cimentando o início auspicioso que este revelara em O Homem Pintado, volume inaugural da série Ciclo dos Demónios. A história segue o trajeto épico de Arlen Fardos, Leesha Papel e Rojer Meia-Mão, três heróis improváveis num mundo definhado pelos medos que a noite desperta.

Autor de várias histórias curtas e publicações passadas no mesmo mundo, Peter V. Brett vive em Manhattan com a esposa Lauren e as duas filhas, Cassandra e Sirena. A edição portuguesa da Coleção 1001 Mundos da Gailivro foi lançada em julho de 2010, poucos meses após o lançamento oficial, num total de 744 páginas e tradução de Renato Carreira.

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Fonte: https://www.goodreads.com/book/show/6736971-the-desert-spear

Se O Homem Pintado já me havia conquistado (muito embora tivesse torcido o nariz à reta final), A Lança do Deserto veio consolidar a minha opinião em relação ao autor. Peter V. Brett é dono de uma escrita fluída e madura, ao mesmo tempo que consegue construir histórias verosímeis e consistentes, não descurando pormenores e sabendo jogar com as emoções dos leitores, assim como o faz com as suas personagens.

“Leesha conseguiu fazer do Outeiro um dos primeiros povoados com “garras” para fazer frente aos demónios.”

Embora ambos sejam livros com qualidade, senti que o primeiro veio a decrescer com o desenvolvimento das personagens, enquanto neste segundo volume senti precisamente o oposto. Após um início muito bem escrito e interessante, mas completamente deslocado da ação principal e até em alguns momentos aborrecido, a partir do momento em que nos focamos no fio narrativo do anterior volume, o livro veio a crescer em inventividade e desenvolvimento.

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Fonte: https://www.wook.pt/livro/a-lanca-do-deserto-peter-v-brett/8646628

A secção inicial é focada em Ahmann Jardir, o Shar’Dama Ka de Krasia, a cidade conhecida como a Lança do Deserto. Para os mais esquecidos, Jardir é aquele senhor krasiano que traiu Arlen durante a sua estadia no forte, ficando com a lança mística cravejada de guardas (as protecções contra os demónios) que este encontrara numas ruínas antigas em pleno deserto. Guardas que Arlen copiou antes de Jardir o expulsar e condenar à morte na noite desértica de Krasia. Foram mesmo esses conhecimentos que fizeram Arlen tornar-se o Homem Pintado, cujos feitos bélicos contra os demónios fizeram muitos chamá-lo de Libertador, à sua passagem.

Por quase dois quartos do livro conhecemos ao pormenor Jardir, desde a sua infância, à amizade com o mercador Abban e como este se tornou khaffit, um homem menor de acordo com os padrões krasianos, mas também revisitamos a estadia do Par’Chin (Arlen) em Krasia e como Jardir começou a ver-se como o novo Libertador, seguindo os passos de Kaji. Achei bem interessantes todas as passagens que envolveram Jardir, mas confesso que os flashbacks que mostraram a sua infância e desenvolvimento pessoal tornaram o livro algo maçudo, especialmente porque foi apresentado numa fase inicial do mesmo.

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Fonte: https://www.pinterest.co.uk/pin/354025220686352316/

As intrigas palacianas, a sua ascensão e o desafio ao Andrah foram excelentes, acima de tudo pelo emergir de uma das personagens mais incríveis da série até agora: a Dama’ting Inevera, uma das esposas de Jardir. Mais do que uma esposa, é ela quem controla o harém e decide com quem Jardir deve casar. Para além disso, tem capacidades místicas, pois vê o futuro no lançamento de dados e porta um crânio de demónio da chama. Inevera é também responsável por decisões políticas, graças à sua influência em muitos círculos.

“Pessoalmente, prefiro Jardir a Arlen, enquanto personagem.”

Assim que regressamos ao Outeiro do Lenhador, agora chamado de Outeiro do Libertador após a grande batalha em que culminou o primeiro volume, vemos Leesha e Rojer a assumir papéis de liderança, ensinando aos populares as suas técnicas e guarnecendo como podem a povoação. Enquanto Arlen vai e vem, recusando-se a permanecer num sítio só quando há tantas povoações para instruir e convencer a lutar, Leesha conseguiu fazer do Outeiro um dos primeiros povoados com “garras” para fazer frente aos demónios.

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Fonte: https://www.goodreads.com/book/show/6736971-the-desert-spear

O mesmo não pode dizer Rojer. Para além de renegado pela mulher que ama, os seus ensinamentos na arte de enfeitiçar demónios com música não parecem obter êxito. O dom parece estar restrito à sua pessoa, e os fantasmas do passado teimam em bater-lhe à porta. Com Wonda e Gared Lenhador como guarda-costas, Leesha vê o ataque dos krasianos a Forte Rizon como um forte motivo para tentar unir Angiers e Miln na defesa das Cidades Livres, uma vez que o Outeiro não tem capacidade para receber muitos mais refugiados.

É então que uma comitiva parte do povoado, comandada por Arlen, para tentar unir os duques arqui-inimigos, Rhineback e Euchor, contra o inimigo comum. Durante a jornada, Arlen revisita lugares e reencontra pessoas do seu passado, para deixá-lo cada vez com mais dúvidas sobre o seu papel no mundo, mas cada vez mais certo que o seu lugar é na frente de combate contra os demónios.

Aqui reside uma das principais diferenças entre Arlen e Jardir. Enquanto o segundo acredita ser o Libertador reencarnado, que virá trazer a união ao mundo e escorraçar os demónios, Arlen crê que o seu papel é apenas o de levar ao mundo o conhecimento das guardas de combate, mostrar às pessoas que podem viver sem medo, e que não basta esconderem-se atrás de guardas quando a noite chega, é imperial enfrentar os demónios e lutar contra eles.

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Fonte: https://lina0809.deviantart.com/favourites/62366653/Demon-Cycle

Sem dúvida, gostei mais do Arlen deste segundo livro do que aquele que conheci no primeiro. Ainda assim, a personagem de Jardir não lhe fica atrás. Extremamente bem construído, enraizado em ideais profusos da cultura krasiana, Jardir acabou por mostrar uma variância de traços que faz o leitor, por momentos, torcer pelo seu sucesso. Pessoalmente, prefiro Jardir a Arlen, enquanto personagem.

Mas a adição de outros pontos de vista ao livro foi também benéfico ao mesmo. Falo de Jardir e Abban, mas também do pai de Arlen, Jeph Fardos, que foi muito positivo voltar a encontrar, mas sobretudo de Renna Curtidor. O ambiente sufocante de uma pessoa que é vítima do próprio pai foi descrito de forma exímia por Peter V. Brett, e ver focados assuntos dramáticos e bem reais em livros de fantasia é sempre meio caminho andado para me conquistar.

E, como bónus, temos novos demónios. Os demónios da mente e os seus miméticos ainda irão dar muito que falar. A Lança do Deserto é mais um livro a recomendar, porque o Ciclo dos Demónios consegue apresentar um mundo fantástico não muito original, cheio de paralelismos ao nosso e de inversões interessantes, apresentando idiossincrasias, hipocrisias e preconceitos que fazem desta uma história credível, que consegue fugir ao padrão e ganhar uma identidade própria bem agradável.

Avaliação: 7/10

Ciclo dos Demónios (Gailivro / 1001 Mundos):

#1 O Homem Pintado

#2 A Lança do Deserto

A Divulgar: “Thor: Os Últimos Dias de Midgard” e “Harrow County Vol. 3: A Encantadora de Serpentes” pela G Floy Studio

Chega esta quarta-feira dia 31 às bancas o volume Thor: Os Últimos Dias de Midgard, o mais recente álbum da colecção Marvel Deluxe da G Floy, por dois dos autores preferidos da editora: o artista bósnio Esad Ribic, de que já haviam lançado Loki, e o escritor Jason Aaron, de quem editaram Má Raça e três volumes da série Southern Bastards, cujo quarto volume está programado para o verão. Os Últimos Dias de Midgard é uma história auto-conclusiva que encerra uma parte importante da saga do Deus do Trovão, antes do relançamento em She-Thor.

Entretanto, chegará às livrarias também nos próximos dias o terceiro volume da nossa série Harrow County: A Encantadora de Serpentes, a série de horror “southern gothic” de Cullen Bunn e de Tyler Crook, que desta vez se afasta dos caminhos batidos da série e explora algumas das personagens e locais secundários. Uma história central ilustrada por Tyler Crook e duas histórias soltas com artistas convidadas, Carla Speed McNeil e Hannah Christenson.

Sem Título

SINOPSE:

THOR: OS ÚLTIMOS DIAS DE MIDGARD  (Col. MARVEL DELUXE)

Argumento de JASON AARON e arte de ESAD RIBIC

Por esta altura já todos os fãs sabem que Jason Aaron e Esad Ribic são dois dos nossos autores preferidos, e podem por fim ser encontrados em português juntos no mesmo álbum, desta feita numa saga do Deus do Trovão!

Thor luta para salvar o planeta, mas lutar contra quem, se o planeta está a morrer? Mas a agente Roz Solomon, da SHIELD, sabe quem é o inimigo: a nefasta megacorporação Roxxon e o seu implacável e malévolo novo CEO, “o Minotauro”! Terá Thor encontrado o seu igual sob a forma de uma supercorporação multinacional? Entretanto, milhares de anos no futuro, o Rei Thor de Asgard e as suas netas, as Guerreiras do Trovão, travam uma batalha muito diferente para salvar o que resta da Terra – mas de Galactus!

“A série Thor: Deus do Trovão  continua a ser digna de um deus.”

ComicVine.com

Thor: Os Últimos Dias de Midgard é uma saga auto-conclusiva do Deus do Trovão, que encerra uma das fases mais aclamadas das suas histórias, e que serve de prelúdio ao relançamento que Aaron fez na saga She-Thor!

THOR: Os Últimos Dias de Midgard

Reúne os títulos Thor: God of Thunder #19-25.

Formato deluxe, capa dura, 168 pgs. a cores.

PVP: 15€

ISBN: 978-84-16510-56-6

PREVIEWS:

A segunda novidade é o terceiro volume de Harrow County. Cullen Bunn é um autor de comics americano, bem conhecido pelas histórias que escreveu para a Marvel, em particular as suas mini-séries de Deadpool, que a G Floy irá editar já a partir desta Primavera. Como romancista, Cullen Bunn já foi nomeado para o Bram Stoker Award (que distingue a melhor ficção de terror), e como escritor de comics para dois Eisners, um dos quais por Harrow County.

Tyler Crook trabalhou durante anos na indústria de videojogos, até ao lançamento, em 2011, de Petrograd, uma novela gráfica escrita por Phillip Gelatt, que marcou a sua estreia na BD. Crook venceu também um Russ Manning Award, um prémio atribuído durante os Eisners, e que premeia o trabalho de um estreante no mundo da BD.

A Encantadora de Serpentes reúne os #9 a 12 de Harrow County. Originalmente prevista para seis volumes, o sucesso da série levou a que fosse prolongada para um total de nove.

Sem Título

SINOPSE:

HARROW COUNTY volume 3: A Encantadora de Serpentes

 Argumento de Cullen Bunn e arte de Tyler Crook, Carla Speed McNeil e Hannah Christenson

O Rapaz sem Pele tenta compreender os mistérios do seu passado, Emmy investiga uma casa assombrada, e umas serpentes maléficas infectaram as mentes dos habitantes do Holler. E só Bernice poderá opor-se a este novo mal – mas será que pedir ajuda à sombria e temível Lovey Belfont a vai colocar num perigo ainda maior?

Este volume reúne os números #9-12 de Harrow County, uma história de terror ao estilo southern gothic, criada pelo escritor Cullen Bunn e assombrosamente desenhada e pintada pelo artista Tyler Crook, e desta vez inclui duas histórias desenhadas por artistas convidadas, Hannah Christenson que ilustra um conto clássico de casa assombrada, mas com uma surpresa final importante para a nossa heroína, e Carla Speed McNeil que explora a natureza e passado do Rapaz sem Pele. E se juntarmos uma história de Bernice, a melhor amiga de Emmy, temos um álbum que faz uma pausa na saga central e que nos revela outros aspectos e segredos dos locais e personagens secundários de Harrow County.

“Os leitores vão ser expostos a um bizarro desfile de esqueletos fantasmagóricos em chamas, árvores grávidas e crianças sem pele, uma verdadeira bandeja de iguarias do folclore macabro à moda do Sul.”

Paste Magazine

Harrow County foi considerada:

Melhor Série em Continuação 2015

Melhor Escritor 2015 – Horror News Network

Melhor Série em Continuação 2015

Melhor Escritor 2015 – Ghastly Awards

Harrow County volume 3: A Encantadora de Serpentes

Álbum, 136 pgs a cores, capa dura. PVP: 11€

ISBN: 978-84-16510-51-1

PREVIEWS:

Nota: Todas as imagens foram gentilmente cedidas pela editora.

 

Fala-se de: Into The Badlands T2

A série criada por Alfred Gough e Miles Millar regressou em 2017 para uma segunda temporada, desta feita com 10 episódios. Into The Badlands é uma série do canal AMC, cuja terceira temporada deve estar para arrancar. A história é passada num mundo futurista que lembra o Japão Medieval, especialmente no que diz respeito ao regime feudal, ainda que motorizadas, carros e explosivos façam parte do dia-a-dia dos seus habitantes.

Depois de uma primeira temporada interessante, permeada de cenas de ação e de artes marciais muito bem coreografadas, a segunda série prometia imenso, especialmente com MK (Aramis Knight) a sair das Badlands em direção ao Mosteiro onde poderia encontrar respostas efectivas para o seu misterioso dom, que o faz tornar-se um assassino incontrolável de olhos negros quando é ferido.

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Fonte: http://www.denofgeek.com/us/tv/into-the-badlands-season-2/264093/into-the-badlands-season-2-episode-6-review-leopard-stalks-in-snow

Ali, MK percebe que todos os alunos sofrem da mesma maldição, mas para além de formar uma ótima tripla com Sunny (Danie Wu) e Bajie (Nick Frost), pouco foi o que soubemos sobre o passado do rapaz ao longo da temporada. Bajie revelou-se, porém, um ótimo personagem, com todo um contexto atrás de si, para além de um manancial de truques que deixou claro tratar-se de muito mais do que o alívio cómico que sugeria ser.

Ryder (Oliver Stark) trouxe uma camada de política bem interessante à trama, mas acabou por ter um final precoce. Revelou-se uma personagem com pouca importância, assim como Jade (Sarah Bolger), que herdou dele o Baronato de Quinn (Marton Csokas). Por sua vez, Lydia (Orla Brady) teve poucos momentos de destaque, ainda que tenha vindo a assumir um papel mais efectivo após a morte do filho e o regresso de Quinn. A interpretação de Orla Brady continua, porém, a ser um dos aspectos mais positivos de toda a série.

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Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=JT37b9HhzAQ

Veil (Madeleine Mantock) teve um percurso mais apelativo, desde a tentativa de envenenamento da Viúva (Emily Beecham), que não chegou a bom termo por conta do amor de Tilda (Ally Ioanides) para com a mãe, até tornar-se a típica donzela em perigo nas mãos de Quinn. Veil não teve um desenvolvimento tão bem delineado como podia ter tido, mas penso que se redimiu com um final credível e sentenciador.

No arco da Viúva, destaque para a excelente performance de Beecham e Ioanides nas várias disputas familiares entre a Viúva e a sua filha e Regente, com a inclusão de Waldo (Stephen Lang) e Odessa (Maddison Jaizani) no núcleo. As várias cenas de artes marciais continuaram magistralmente bem coreografadas, como já vem sendo hábito na série. Pena que a relação entre MK e Tilda pareça ter arrefecido, mesmo após o reencontro.

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Fonte: http://www.amc.com/shows/into-the-badlands/cast-crew/m-k

O regresso de Sunny e MK às Badlands coincidiu com os momentos de maior ritmo da temporada. Os episódios 8 e 9 foram os meus preferidos, ainda que tenha sentido falta de maior força de presença de MK na mansão da Viúva, bem como de maior verosimilhança em algumas cenas. A busca pela cidade de Azra continuou a ser abordada muito superficialmente, quando penso que esta podia ter sido já apresentada.

O desenrolar da trama não me agradou por aí além, caindo em clichés dispensáveis e cenas expectáveis, assim como uma trama paralela envolvendo Bajie que me fez temer que a série entrasse na seara insossa de outras séries como Revolution ou Under The Dome, embora a fase final da temporada tenha dado um sentido ao todo e atado as pontas de forma coerente. De modo geral gostei da temporada, embora me pareça ter perdido em comparação com a primeira.

Avaliação: 6/10