Estive a Ler: A Garagem Hermética

– Conte-me mais sobre esse curioso Major Grubert.

– Bom, na qualidade de arqueiro, estou certamente muito bem informado sobre ele!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Garagem Hermética” (Formato BD)

Conhecido essencialmente pela incontornável carreira na BD, mas também pelos trabalhos de arte conceptual para cinema, como foi o caso do ilustre Alien, Jean Giraud foi um dos melhores ilustradores do século XX, tendo um papel de relevo na disseminação da Nona Arte. Mais famoso pelo pseudónimo Moebius, faleceu em 2012, deixando um incontornável legado que contribuiu para o patamar de reconhecimento que a BD europeia vive nos dias de hoje.

A Garagem Hermética, que publicou entre 1976 e 1980 para a revista Metal Hurlant, tornou-se uma das suas obras de maior notoriedade. Apesar dos inúmeros derivados e reimpressões, é a versão mais definitiva e consensual a que Moebius publicou para a revista pelas mãos da Les Humanoides Associés, editora fundada pelo próprio artista francês, incluído num grupo de outros empreendedores da arte à época. Por cá, foi publicada inicialmente pela Meribérica (1990) e pelo Jornal Correio da Manhã na Colecção Os Clássicos de Banda-Desenhada (2014).  A mais recente versão foi publicada na Colecção Novela Gráfica em julho de 2016, resgatando o preto e branco da versão original.

Sem título
Capa Levoir / Público

O Major Grubert

A história gravita à volta do Major Grubert. O denominado Major Fatal concebe um asteróide que cabe no seu bolso através de treze geradores; porém, no interior desse corpo existem três mundos… e vida, possivelmente tão real como a nossa. Mas quem será este enigmático Major Grubert? Um cientista, um deus, um explorador?

Houm Jakin é o senhor do Carn Finehac, nas zonas de Onix. Um cowboy preocupado com a decadência do seu povo e com as inusitadas bruxarias de uma espécie denominada bakalitas. É quando um sujeito estranho de óculos chamado Boaz o aborda de revólver em punho que a demanda de Jakin à cidade abandonada se transforma numa jornada pela sobrevivência.

Sem título
Prancha Levoir / Público

A Garagem Hermética… de Jerry Cornelius

Na tundra, um homem chamado Jerry Cornelius tem de lidar com a deserção do engenheiro Barnier, depois de este ver o seu veículo estorricar. Mas este Cornelius é mais do que parece e está ligado de forma visceral a Grubert e às suas secretas intenções. À escala global.

Entre Bakalites, Tar’Haï, Begnandes, Trichlo e Targrowns, os desígnios de Grubert, o “mago de ouro”, moldam as formas dos universos e dos seus atores, fazendo-os caminhar em círculos, respondendo às necessidades mais prementes de cada cultura, escapando às malevolências naturais do ser humano e à sua vontade de alcançar o que lhe está vedado.

Sem título
Prancha Levoir / Público
SINOPSE:

Moebius foi um dos maiores autores de BD de todos os tempos, conhecido também dos fãs pelo seu nome verdadeiro de Jean Giraud (com que assinou, por exemplo, a série Blueberry). Nos anos 70, foi um dos protagonistas principais de uma revolução na banda desenhada francesa, de que A Garagem Hermética foi o primeiro passo, que iria levar à sua obra maior, o Incal.

Inicialmente publicada em episódios na revista Métal Hurlant, de que Moebius foi um dos fundadores, este volume de A Garagem Hermética é a primeira edição no nosso país da versão a preto e branco no formato original. O universo de bolso que o Major Grubert criou no interior do seu asteróide contém três mundos sobrepostos, cada um com os seus povos e civilizações. Três mundos que ignoram tudo das suas origens, mas de cuja verdade alguns habitantes começam a suspeitar. Os episódios de A Garagem Hermética foram inventados à medida que eram publicados mensalmente, e o resultado é uma história surreal, um universo de ideias incríveis e delirantes, misturadas umas com as outras.

OPINIÃO:

Completamente aleatório e insano, A Garagem Hermética de Moebius é um álbum de ficção científica pura e dura, cheia de termos técnicos e futurismos alucinantes, com traços de guerra, de faroeste, de super-heróis e de misticismos. O autor foi escrevendo a história de forma fortuita, sem um enredo com pés e cabeça ou uma linha a seguir. O resultado foi uma história que achei confusa e de difícil interpretação, mas cheia de um significado secreto que me satisfez. Logo de caras, sorri ao perceber que os nomes dos personagens inaugurais da trama eram os das colunas que sustentavam as portas do Templo de Salomão.

“O autor foi escrevendo a história de forma fortuita, sem um enredo com pés e cabeça ou uma linha a seguir. O resultado foi uma história que achei confusa e de difícil interpretação, mas cheia de um significado secreto que me satisfez.”

Grubert é a chave do livro. Ele é o criador dos mundos e governa-os com menos controlo do que um empresário gere uma organização. As ideias sucedem-se e são sempre surpreendentes e cheias de potencial, acabando por não ser exploradas. Moebius fez as regras do jogo e brincou a seu bel-prazer, deixando para trás as tramas que menos lhe interessavam e criando novos focos e diretivas.

Sem título
Prancha Levoir / Público

A narrativa é erudita e cheia de significados, ainda que a falta deles também imponha um mistério vazio que não me desiludiu. Se Moebius parece um autor louco e deixa os leitores completamente “What the fuck!” com as histórias apresentadas, é acima de tudo um artista brilhante, que soube casar o desenho à história de forma igualmente desconcertante e fluída. A própria imagem de Grubert sofre várias mudanças ao longo da obra.

Por fim, um destaque para a escrita bem-humorada do autor. Moebius apresenta uma história sem pés nem cabeça, mas cheia de sumo e de coerências. Aqui e ali, as tramas cruzam-se e o insondável ganha sentido. Foi acima de tudo o humor e a irreverência do autor que me cativaram, mais do que uma história que nem tão bem compreendi e que mesmo assim recomendo.

Avaliação: 8/10

Vamos Viajar com Robin Hobb: E Participar num Sorteio

Viva!

Devem lembrar-se de, no primeiro post deste desafio, eu ter mostrado a intenção de realizar um sorteio. Pois bem, decidi levar avante essa vontade e chegar até vós com a possibilidade de receberem um exemplar do livro O Assassino do Bobo da Robin Hobb. A ideia inicial era realizar o sorteio no final do desafio, mas percebi que faz mais sentido fazer o sorteio já, permitindo ao vencedor entrar também na maré de leituras em torno de Robin Hobb.

Assim sendo, o NDZ e a Edições Saída de Emergência vêm convidar-vos a participar num sorteio que pode fazer-te ganhar este livro:

Sem título

Trata-se do mais recente livro de Robin Hobb em Portugal, o primeiro da terceira série protagonizada por FitzCavalaria Visionário.

O regresso de Robin Hobb!
.
Tomé Texugo tem levado uma vida pacífica há anos, retirado no campo na companhia da sua amada Moli, numa vasta propriedade que lhe foi agraciada por serviços leais à coroa. Mas por detrás da sua respeitável fachada de homem de meia-idade, esconde-se um passado turbulento e de violência. Na verdade, ele é FitzCavalaria Visionário, um bastardo real, utilizador de estranhas magias e assassino. Um homem que tudo arriscou pelo seu rei, com grandes perdas pessoais.
.
Até que, numa noite fatídica, um mensageiro chega com uma mensagem que irá transformar o seu mundo. O passado arranja sempre forma de se intrometer no presente, e os acontecimentos prodigiosos de que foi protagonista na companhia do seu grande amigo, o Bobo, vão voltar a enredá-lo. Se conseguirem, nada na sua vida ficará igual…
 .
Queres ganhar este livro? É muito fácil. Basta gostares da página do NDZ no facebook e preencher o formulário na página do Rafflecopter. O vencedor será anunciado dia 13 de junho e entrarei em contacto com ele nesse mesmo dia. Fiquem atentos!
.

Está aí: Saída de Emergência no Festival de BD de Beja

Olá a todos! Como não podia deixar de ser, venho todo quitado de dinamite para vos fazer explodir de alegria com a mais recente novidade da SDE. Estamos quase a chegar à mediática Feira do Livro de Lisboa, mas antes disso, a Edições Saída de Emergência vai estar representada no Festival de BD de Beja para lançar oficialmente o grande BOOM! desta primavera. Tananan!

A partir de 26 de maio, regressa o Festival de BD de Beja, este ano na 13.ª edição. Os fãs da BD nacional terão à sua disposição exposições, um Mercado do Livro com a presença de mais de 60 editoras, e programação paralela que inclui conversa à volta da BD, lançamento de livros, sessões de autógrafos e workshops. A Saída de Emergência estará presente pela primeira vez e no sábado, dia 27, às 15.15, no Pax Julia Teatro Municipal, apresenta a sua nova BD Nimona, a premiada graphic novel de Noelle Stevenson que foi finalista do Prémio Eisner e do National Book Award em 2015. O Festival decorrerá até 12 de junho no centro histórico da cidade.

Sem Título

Estive a Ler: A Louca do Sacré-Coeur

Quando há oito anos puseste em prática uma das tuas geniais “teorias”… passaste a ser um “monge universitário”… deixaste de fazer amor para te vestires de violeta!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Louca do Sacré-Coeur” (Formato BD)

Alejandro Jodorowsky e Moebius, dois dinossauros da Nona Arte, uniram-se para conceber A Louca do Sacré-Coeur. Os autores dispensam apresentações. Vanguardista e conhecido pela polémica dos seus escritos, seja na banda-desenhada, no teatro ou no cinema, Jodorowsky ganhou amores e ódios com a peculiaridade e sordidez da sua obra. Já Moebius, pseudónimo do artista Jean Giroud, foi um dos mais notáveis ilustradores franceses do último século.

Dividido em três partes, uma vez que o álbum foi publicado originalmente em três volumes, entre 1992 e 1998, A Louca do Sacré-Coeur saiu por cá em 2015, incluído na Colecção Novela Gráfica da Levoir em parceria com o Jornal Público. Com tradução de José de Freitas e Pedro Cleto, trata-se de uma crítica religiosa e social mirabolante e tresloucada.

Sem título
Capa Levoir / Público

Um professor violeta

A Louca do Sacré-Coeur apresenta-nos Alain Mangel, um professor de filosofia na Sorbonne que parece um homem cheio de valores. É um daqueles professores intelectuais que atraem os alunos com tanta facilidade que quase se tornam uma super-estrela na Universidade. Aquele professor que todos os alunos gostariam de ter. Todas as certezas e seguranças deste selecto professor vestido de roxo parecem desaparecer quando é seduzido por uma jovem aluna e é enredado numa aventura alucinante.

Mangel parece sofrer uma daquelas crises de meia-idade, o que compromete definitivamente o seu casamento. Elizabeth é a aluna que lhe vai dar a volta à cabeça, arrastando-o para uma loucura de contornos místicos e sexuais. Ela leva-o para um mundo iniciático que utiliza a religião em cerimónias lascivas de pura loucura e blasfémia, com recurso a drogas.

Sem título
Prancha Levoir / Público

Uma rapariga louca

Tendo como objetivo gerar o novo Messias, a seita onde Mangel se inicia leva-o a pactuar com uma loucura desenfreada, a um baptismo sui-generis, a uma gravidez desejada, ou nem tanto, mas também aos caminhos perversos do crime. Mas o que parece uma brincadeira sórdida pode comprometer não só a sua reputação, como pôr em risco a própria vida e convicções.

A atração física por raparigas bem mais jovens desvirtua este professor catedrático de tal forma, que nem mesmo as suas ideologias religiosas escapam impunes. Drogas, sexo e brincadeiras blasfemas transformam-se numa reflexão sobre a natureza humana e numa corrida pela própria integridade numa história inquietante que mistura dramas pessoais, xamãs, guerrilheiros da América Latina e a conservadora religião estanque no Sagrado Coração de Paris.

Sem título
Prancha Levoir / Público
SINOPSE:

Moebius, pseudónimo usado por Jean Giraud, foi um dos mais inovadores artistas de banda desenhada, e encontrou no escritor chileno Alejandro Jodorowsky o parceiro perfeito para desenvolver um estilo muito variado, marcado pelo sentido do real aliado a uma componente onírica e surrealista muito fortes. Juntos, assinaram uma das mais revolucionárias obras de banda desenhada de sempre, a série do “Incal”. Nos inícios da década de 1990 voltariam a reunir-se para este livro, talvez o mais singular da obra destes dois autores.

Alain Mangel, professor de filosofia na Sorbonne, é seduzido por uma das suas alunas, Elizabeth. Possuída por verdadeiros delírios místicos, ela arrastará o professor para um furacão de acontecimentos inesperados e delirantes que irão pôr à prova a racionalidade de Mangel. Um misto de paródia mítica, farsa sagrada, caminho iniciático e exorcismo, o percurso do protagonista vai levá-lo a abrir os seus olhos para outra realidade.

OPINIÃO:

Uma sátira à espiritualidade, à religião e à natureza humana, A Louca do Sacré-Coeur de Moebius e Jodorowsky é também uma espécie de reflexão pessoal do Homem enquanto ser que erra e se deixa influenciar pelo pensamento coletivo. De certa forma autobiográfico, o que se percebe quando Moebius desenha o protagonista do álbum como o próprio Jodorowsky, este livro deixa claramente uma mensagem de que todos pagam o preço pelas próprias escolhas e todos somos falhos enquanto seres humanos. É a partir daqui que se desenvolve uma narrativa louca, que promete alguma diversão e crítica moral.

Não gostei muito deste álbum. Jodorowsky não encanta na escrita. Muito embora tenha adorado o seu trabalho em Os Bórgia, em colaboração com Milo Manara, o autor chileno já não me havia conquistado com Bouncer, e este livro não trouxe melhorias a esse respeito. O que mais me apraz neste autor é mesmo a ousadia e a forma com que escancara a podridão da mente humana. A arte de Moebius é boa, revelando nos traços fortes e cores densas a identidade inconfundível do melhor estilo franco-belga. Confesso que nunca vi mais nada deste célebre artista francês para comparar, mas a fama que o precede não me desapontou.

Sem título
Prancha Levoir / Público

Esperava mais deste A Louca do Sacré-Coeur, mesmo tratando-se de uma aventura de bom ritmo com momentos marcantes e cenas bem-humoradas. A forma disparatada com que os temas religiosos foram tratados não me chocou, mas em nenhum momento senti uma justificativa ou um “oh yes” de uma cena mais genial. As várias histórias a que somos apresentados entrelaçam-se mas acabam por não trazer nada de relevante para o plano principal.

“A forma disparatada com que os temas religiosos foram tratados não me chocou, mas em nenhum momento senti uma justificativa ou um “oh yes” de uma cena mais genial.”

Em alguns momentos frívolo, em outros pertinente, o álbum A Louca do Sacré-Coeur não foi, porém, uma leitura má. Tanto a proposta como as imagens agradaram-me, a concretização das ideias e a frugalidade dos diálogos e das histórias, porém, comprometeram as minhas expectativas.

Avaliação: 5/10

Estive a Ler: Os Senhores do Norte, Crónicas Saxónicas #3

O destino é inexorável.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Os Senhores do Norte”, terceiro volume da série Crónicas Saxónicas

Bernard Cornwell é um nome que figura na linha da frente da ficção histórica em todo o mundo. O autor londrino é o responsável por uma sucessão de best-sellers de grande êxito, da trilogia dos Senhores da Guerra às aventuras de Sharpe, passando pelas Crónicas de Nathaniel Starbuck, Stonehenge ou a série Crónicas Saxónicas, que relata a vida do personagem fictício Uthred de Bebbanburg.

Publicado pela Edições Saída de Emergência no passado mês de abril, o livro Os Senhores do Norte é o terceiro volume das Crónicas Saxónicas, com tradução de Paulo Alexandre Moreira. O livro foi adaptado pelas mãos da BBC, correspondendo a parte da segunda temporada da série televisiva The Last Kingdom.

Era o destino que me guiava. Tinha vinte e um anos e acreditava que as minhas espadas podiam ganhar o mundo para mim. Era Uthred de Bebbanburg, o homem que matara Ubba Lothbrokson junto ao mar e que derrubara Svein do Cavalo Branco da sela em Ethandun. Era o homem que devolvera a Alfredo o seu reino, e odiava-o. Por isso ia abandoná-lo. O meu caminho era o caminho da espada, e seria esse caminho que me conduziria até casa. Iria para norte.

Sem título
Arte (Fonte: pinterst.com/viking-art)

Uma vingança há muito adiada

De modo algum Uthred de Bebbanburg esqueceu a falta de gratidão de Alfredo para consigo. Depois de liderar as suas forças e fazer o rei vencer a célebre batalha de Ethandun, quando não só o destino de Alfredo como o de toda a Inglaterra podia ter sido desvirtuado em favor dos dinamarqueses, o rei ofereceu-lhe em agradecimento apenas cinco peles, que mais não era que uma pequena porção de terreno. Magoado, Uthred dirige-se a norte, decidido a recuperar o que é seu por direito: Bebbanburg, a fortaleza que o viu nascer, a inexpugnável casa que o tio Ælfric reclamou para si após a morte do seu pai, quando Uthred foi acolhido pelos dinamarqueses e criado entre eles.

O Wessex está mais forte do que nunca. O homem que liderava as forças dinamarquesas, Guthrum, foi derrotado e declarou-se cristão, sendo mesmo batizado e colaborando com Alfredo por imposição tácita. Ragnar, o irmão de criação de Uthred, e a sua amante Brida continuam reféns de Alfredo, mas nada isso impede Uthred de cumprir o seu destino. As tecedeiras fazem as suas tramas aos pés de Yggdrasil e o destino é inexorável.

Sem título
Vikings (Fonte: pinterest.com)

Se pudessem, Ivarr e Kjartan transformariam a Nortúmbria num bastião pagão, e Alfredo queria evitar que isso acontecesse. Como tal, Beocca devia pregar a paz e a conciliação, mas Steapa, Ragnar e eu iríamos armados de espada. Éramos os seus cães de guerra, e Alfredo sabia muito bem que Beocca seria incapaz de nos controlar.

E é o destino a colocar Uthred na Nortúmbria natal, onde cães raivosos tentam reclamá-la para si. Junto de Hild, a freira que se tornara sua amante depois de a libertar da prostituição, Uthred regressa às suas origens. Por vontade dos deuses, tropeça em Guthred, um dinamarquês convertido ao Cristianismo. Foi feito escravo, mas quando o liberta das garras dos seus inimigos, percebe também que ele é um rei. Ou, pelo menos, o rei que o Wessex necessita. Num norte fustigado por irascíveis senhores dinamarqueses, Guthred é o pregador da vontade de Deus. Acompanhado por um séquito de padres velhos e irascíveis, como o intragável Hrothweard, e pela irmã Gisela, por quem Uthred se encanta, Guthred defende Cair Ligualid, um pequeno povoado que herdara do seu pai, um afamado conde local.

Uthred torna-se amigo de Guthred com facilidade, não só pelo charme natural do jovem senhor, como pela sua genuína ingenuidade para com a guerra. Guthred deseja semear o Cristianismo no norte, mas os homens que o seguem não são os mais indicados. Por mais disparatadas que sejam, as vontades dos padres convencem sempre Guthred, desde que lhe digam que sonharam com São Cutberto e que ele lhes disse o que haveriam de fazer. A credulidade de Guthred é uma das coisas que Uthred mais odeia nele, assim como a obsessão em ser tolerante para com os outros e seguir o exemplo de Alfredo, que Uthred tanto odeia.

Sem título
Guerreiro dinamarquês (Fonte: amuse.laurakress.com)

As relíquias dos santos são levadas para todo o lado por estes homens, consideradas mais valiosas que as suas próprias vidas. Uthred serve os saxões, mas é um dinamarquês de alma e coração, e cuspir em toda aquela fantochada é uma tentação grande, apenas refreada porque não só deseja ardentemente a irmã de Guthred e gosta do autoproclamado rei, como os seus inimigos são também os dele. Ælfric, o seu tio, em Bebbanburg. Kjartan, O Cruel, em Dunholm, e Ivarr Ivarson, nas terras em redor.

Se Uthred olhava para Ælfric como o seu maior inimigo, não guardava por Kjartan melhor estima. Fora o responsável pela morte do seu pai de criação, Ragnar Lothbrokson, e o raptor da filha deste, a jovem Thyra, em desforra por este ter mutilado o olho do seu filho como castigo por ele a desnudar. Uthred havia estado lá, e tivera papel determinante em tudo aquilo. Agora, era tempo de se vingar. Ivarr não lhe suscitava tanto ódio, mas ele era filho de Ivar, irmão de Ubba, e os irmãos Lothbrokson haviam sido temíveis quando ele era apenas um garoto, o que não o impediu de matar o mais poderoso de entre eles.

Sem título
Os Ragnar são todos iguais :p (Fonte: pastemagazine.com)

Uma traição óbvia

Quando a terra de Guthred é atacada por uma esquadra de assalto formada por oito homens de Kjartan, Uthred percebe que os jovens que defendem Cair Ligualid não são tão despojados de valor quanto presumia. Assim sendo, decapita os inimigos, deixando apenas um filho bastardo de Kjartan como aprendiz e refém, Sihtric, e envia-lhes as cabeças como resposta de uma figura fantasmagórica, que antes havia assustado o primogénito do seu inimigo: Sven, o Zarolho. Mas essa ação acontece tardiamente, quando Ivarr já havia sido derrotado pelos escoceses e Guthred se dispusera a abrigá-lo em troca de uma aliança.

A identidade de Uthred é colocada a descoberto, e os planos de Guthred rapidamente saem do controlo do bravo guerreiro. Usando a irmã Gisela como vaca de paz, possível chave para uma aliança estratégica, promete-a ao filho de Ivarr, Ivar, para cimentar a sua aliança ténue. Envenenado por Ivarr e pelos padres, Guthred acaba por sacrificar Uthred, de modo a alcançar um acordo com Kjartan que fosse favorável a todos. Absorto com tal surpresa inesperada, Uthred entrega a Hild a espada Bafo de Serpente e a sua armadura e fá-la jurar que as guarda para si, enquanto é vendido por Guthred a um navio, como escravo.

Nos dois anos em que vive como escravo em alto-mar, Uthred não esquece Gisela nem a sua sede de vingança. Ali conhece Finan, um escravo irlandês com quem enceta uma amizade duradoura, mas é quando regressa ao local onde foi vendido, onde reencontra velhos amigos e inimigos, que irá despoletar uma guerra à escala global, onde Alfredo lançará Uthred e os seus melhores homens como dados para um tabuleiro onde pretende fazer com que Guthred ganhe o norte.

Sem título
Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Uma poderosa história de traição, romance e luta numa Inglaterra cheia de convulsões, sublevações e glória

Corre o ano de 878, e o Wessex está livre de vikings. Uhtred, o filho expropriado de um senhor da Nortúmbria, ajudou Alfredo a obter a vitória, mas sente-se desgostado com a falta de generosidade de Alfredo e repelido pela insistente piedade do rei. Parte do Wessex, com destino ao Norte, em busca de vingança pela morte do pai adoptivo e para salvar a irmã adoptiva, capturada num ataque. Para tal, precisa de encontrar o seu velho inimigo, Kjartan, um lorde dinamarquês renegado que se esconde na formidável fortaleza de Dunholm.
Uhtred chega ao Norte para se deparar com a rebelião, o caos e o medo. A sua única aliada é Hild, uma freira saxã ocidental em fuga à vocação, e a sua maior esperança reside na própria espada, com a qual construiu uma reputação formidável enquanto guerreiro. Para obter a tão desejada vingança, precisará do auxílio de outros guerreiros para confrontar os poderosos e cruéis senhores vikings do Norte.
OPINIÃO:

Sem grandes adjetivos que possam fazer-lhe justiça, estamos perante um livro de leitura compulsiva, e sinceramente dos melhores romances históricos que já li. Os Senhores do Norte, terceiro volume das Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell, é um livro vibrante, que só nos deixa descansados quando passamos a última página. À semelhança, aliás, dos livros anteriores.

Sem título
Guerreiro viking (Fonte: youtube/channel/UC)

Estou a falar de um livro despretensioso. Ele não tem uma história rocambolesca nem muito mais trabalho de fundo que os livros anteriores, nem sequer a escrita de Bernard procura surpreender os leitores com a sua erudição. Não precisa. O autor britânico escreve bem por naturalidade, de forma fluída e descomplexada. De tal modo que certas passagens parecem casuais, e quando estamos a deixar-nos fluir no caudal sereno da sua escrita, ele mata-nos. Não literalmente. Ele surpreende e dá-nos plot twists deliciosos sem dar qualquer indício disso, sem qualquer suspense ou chamada de atenção. E é isso que eu amo em Bernard Cornwell.

“O autor britânico escreve bem por naturalidade, de forma fluída e descomplexada. De tal modo que certas passagens parecem casuais, e quando estamos a deixar-nos fluir no caudal sereno da sua escrita, ele mata-nos. Não literalmente.”

A história em si foi muito bem montada. Parece algo avulsa, sem uma predefinição explícita. Uma ideia momentânea do autor. E, de repente, ele une pontas soltas e resolve os problemazinhos que ele tinha deixado lá no primeiro livro. E isso é delicioso. Adoro os senhores dinamarqueses com toda a sua sobranceria e poderio aparentemente inabalável… pelo menos até aparecer o Uthred nas suas vidas. É como a Guerra dos Cinco Reis das Crónicas de Gelo e Fogo, com um estilo mais corrido e igualmente realista – indubitavelmente mais real em teoria.

Sem título
Oh yeah 😀 (Fonte: growabeardnow.com)

Bernard Cornwell consegue fazer o seu protagonista chegar aos vinte e poucos anos já com um rol de mulheres bem grandinho na sua lista vida. E fá-lo sem sexualizar demasiado a mulher, oferecendo-lhes caráter e personalidades únicas. E se faltam cenas íntimas no decorrer dos livros, protagonizadas por Uthred, tal é uma opção que se adapta. Os diálogos adultos e os subentendidos suprimem facilmente essa carência.

Se houve algo que não gostei neste livro, foi a forma com que uma determinada fortaleza foi tomada e a lealdade criteriosa de certos animais para efeitos narrativos. Não tenho nada mais a apontar. É um livro pequeno, que se lê com facilidade e não deixa o leitor separar-se dele por muito tempo.

As Crónicas Saxónicas são uma saga incrível pela forma simples com que nos mostra cenas históricas reais e as torna palpáveis, com uma certa dose de imaginação sempre bem-vinda. Não há grande aprofundamento de personagens, para além do protagonista, mas não é essa a intenção do autor e em boa verdade, o que Bernard Cornwell nos oferece já é bom que chegue.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

Crónicas Saxónicas (Saída de Emergência):

#1 O Último Reino

#2 O Cavaleiro da Morte

#3 Os Senhores do Norte

Estou no Wattpad #22

Bem sei que esta semana não era suposto sair nenhum capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, mas para fazer avançar a história para o seu arco final decidi que até ao início de junho irá sair um capítulo por semana. No último, vimos Empecilho a transmitir a Bortoli e Vance as notícias de Ccantia, enquanto percebia que o cerco montado à cidade de Chrygia incluía o domínio sobre os nativos e a tortura a um antigo companheiro.

CAPÍTULO VINTE E DOIS: HUMILHAÇÃO

“Havia alto no comportamento de Hije que me fez gostar dele. Os diabos eram, por natureza, hostis, mas nos dias em que se viviam, a velocidade compensava o trabalho que significava domá-los. Os cavalos eram escassos e pouco desenvoltos nos desertos; os camelos lentos e caprichosos. Domar diabos para se servir deles como transporte era algo que faria os nossos avós benzerem-se, tal a heresia que tal pensamento acarretava. Mas os tempos mudavam com as necessidades e possuir um diabo tornara-se premente para quem desejava cobrir longas distâncias em pouco tempo. Posso dizer sem hesitação que me tornei amigo de Hije desde o primeiro instante. Não sei dizer se ele se sentia constrangido, privado da sua natureza e liberdade, se vira em mim um veículo para recuperá-las, mas os seus olhos deixaram claro, desde o início, que estava em sintonia comigo. Quase não precisei orientá-lo quando tentamos fugir da fazenda de Roq’ia, procurando possíveis caminhos alternativos, nem esporeá-lo quando cheguei à conclusão que investir contra os inimigos era a única alternativa. Sentia-o resfolegar, senti o pulsar do seu coração a fremir contra mim, em uníssono com o meu. Pensámos como um só, sentimos as mesmas limitações, receios e expectativas. Sem modéstia, posso afirmar que boa parte da minha fama lendária deve-se a ele.”

Língua de Ferro estudou sem entusiasmo o acampamento militar onde Mario Bortoli se havia sediado. As estrelas coroavam a noite límpida, sem uma voluta de brisa que se sentisse. Não perdeu tempo a explicar a Empecilho como chegara ali ou o que havia acontecido consigo. Nunca gostara de perder tempo com detalhes e aquela noite seria decisiva para todos. Para além do mais, Empecilho revelara-se um mero fantoche nas mãos de Vance, o que lhe gerava um certo descontentamento, mas não surpresa.

Depois de lhe deixar uma série de recomendações, inclusive a localização de Hije e o tipo de mistura de carne com ração que devia preparar-lhe, avançou em passos largos por entre dois renques de pavilhões rústicos, forrados a pele de camelo curtida. As suas passadas eram calmas, mas o modo como caminhava, altivo e a transpirar de segurança, não sugeria qualquer tipo de discrição.

Um par de rhovianos avistou-o quando cochichavam junto a uma tenda. Um tinha uma capa em pele de cabril atirada sobre um ombro e uma bragadura de linho, enquanto o segundo, mais velho e de expressão retorcida, vestia um manto grená com pregas de lã nos antebraços e perneiras de couro. Língua de Ferro lançou-lhes um olhar sem íris ou pupilas quando nele se concentraram. O mais velho segredou algo ao ouvido do mais novo e este afastou-se, certamente com a intenção de levar a mensagem daquela aparição aos ouvidos de um intendente ou alguém de maior patente, caso não fosse ao próprio Bortoli.

Sem título
Guerreiro celta (Fonte: Alpha Coders em pinterest.com)

Língua de Ferro soltou um aviso:

― Hei, tu!

Ao contrário do que o rhoviano mais velho sugeria por gestos, o homem estacou, encarando o invasor com algum desafio, não obstante a expressão reticente. Língua de Ferro aproximou-se dos dois homens em passos largos e viu os olhares deslizarem do seu olhar vazio para a espada embainhada à sua anca.

― Seja a quem for que desejas informar da minha presença, dizei-lhe que se trata de Língua de Ferro, o Assassino de Deuses.

Falou no idioma rhoviano, porque muito embora a língua franca rezoli fosse conhecida pela grande maioria dos povos na margem oriental de Semboula, o conhecimento do seu dialeto específico transmitia um saber secreto sobre eles próprios e conhecer os seus segredos era sempre um fator de medo entre os homens. Língua de Ferro sabia disso ao entrar na sua intimidade.

Os homens entreolharam-se com algum ceticismo e apreensão, quando o mais velho puxou dos seus galões e atirou a cabeça para trás, demonstrando autoridade com o pomo da garganta em franca exposição.

― Talvez deva acompanhar-nos a ambos até lá, pretenso diocida zarolho, e afirmá-lo com os seus próprios lábios ― disse com desdém na voz, no rezoli comum.

Língua de Ferro sorriu, depois o sorriso transformou-se numa risada e por fim numa sonora gargalhada, abrindo a mão com força no peito, de tanto rir. Aquela reação não só retesou os dois rhovianos, como os preocupou, obrigando-os a levar aos mãos aos punhais que traziam presos à cintura. O salteador pareceu mais rápido que a sua própria sombra e não precisou desembainhar Apalasi. Pontapeou o punhal do rhoviano mais novo quando este o desnudou, fazendo-o voar para fora do seu alcance, e depois firmou a sua mão, nodosa, no pulso do oponente mais velho, rodando-a até soltar um sonoro grunhido e perder a força. Deixar cair o punhal na areia aos seus pés não foi o suficiente para Língua de Ferro. Continuou a pressionar-lhe o pulso.

O homem tinha a outra mão apertada no antebraço do salteador, mas isso não foi impeditivo para que ele lhe quebrasse o punho. Ao som de ossos a quebrarem-se seguiu-se um carpir pouco viril, quando Língua de Ferro o soltou e o velho caiu em soluços sobre as suas mãos. O outro rhoviano pareceu indeciso entre atacá-lo ou fugir dali para contar o ocorrido, mas tinha a mão em brasa, fruto do pontapé que lhe atingira os dedos, e enfrentá-lo não pareceu a melhor solução.

Língua de Ferro avançou para ele, com os músculos nervurados a pulsar, brilhantes sob o luar. Sem saber como se defender, o rhoviano colocou um braço à frente e outro atrás, numa posição de defesa básica, com as pernas em semelhante disposição de equilíbrio. A forma como estremeceu, porém, denunciou a precariedade dessa defesa, bem como a sua hesitação. O gigante que enfrentava simulou um murro e ele levou ambas as mãos à frente do rosto. Língua de Ferro abriu a mão no seu peito para o empurrar para trás e puxou-lhe uma perna com a sua, pela dobradiça, puxando-a como um ganho. O rhoviano estatelou-se no chão, o que lhe permitiu fazer a jogada mais desleal de um embate. Segurou num punhado de areia e arremessou-a contra o rosto do adversário, esquecendo-se, por ventura, que este era cego.

Mas Língua de Ferro não era cego, ainda que a flâmula de areia que lhe atingiu os olhos não lhe fizesse mais do que alguma comichão. Pisou um pulso ao inimigo, fazendo-o gritar e impedindo-o de se reerguer. Posto isso, desafivelou o seu cinto. Nenhum dos rhovianos caídos no chão compreendia o que ele ia fazer, mas ele sabia. Humilhá-los. Fazer engolir o orgulho a um rhoviano era mais letal que a morte, ainda que tal pudesse inspirar futuras sublevações. Ele não as temia. Deixou cair as calças aos seus pés, provocando uma nuvem de pó de areia, como a ondulação provocada por uma moeda atirada a um lago. Pegou no seu pénis curvo e urinou sobre o homem prostrado no chão. A urina quente ensopou o rhoviano, que levou a mão livre ao rosto para aplacar tal humilhação. Em vão. Urina cobriu-o como uma película, do torso coriáceo ao cabelo poeirento, passando-lhe pelos lábios franzidos e enojados e pelos olhos semicerrados. Língua de Ferro sacudiu o pénis e quando as últimas gotas de urina desapareceram, voltou a erguer as calças.

Sem título
Guerreiro (Fonte: es.pinterest.com)

Fitou o rhoviano mais velho, que se arrastava para mais longe enquanto o estudava numa mistura de náusea e horror, com uma mão sobre a outra.

― Agora sim, podem ir comunicar o ocorrido aos vossos superiores. Dizei-lhes que o inimigo de Bortoli chegou, e está à sua espera. Podem dizer-lhes também, se a vossa coragem chegar a tanto, que não temo derramar sangue inocente, se isso significar chegar até ele, para o fazer pagar pela morte de Lucilla.

Com essas palavras, Língua de Ferro afivelou o cinto e deixou-os consigo mesmos e com as suas reflexões. Sabia que os atrasara. Iriam medir as suas palavras e procurar forma de comunicar uma versão menos humilhante dos acontecimentos, quando estivessem recompostos. Enquanto isso, avançou entre as tendas, inspirando o ar pesado e asfixiante, sentindo-se pegadiço de suor e alvo fácil para os moscardos imundos que zuniam à sua volta.

Passou por um espeto escamado de fuligem e gordura, sob o qual jaziam os restos carbonizados de uma fogueira, junto à qual repousava uma malga de ferro vazia e um almofariz de cerâmica com restos do que parecia pimenta moída. Franziu o nariz com o odor e afastou-se o mais rápido possível dali, mudando o seu curso para ocidente, onde o corredor proporcionado pelas tendas o conduzia para o largo perímetro onde eram escavadas valas comuns para encher de cadáveres. Língua de Ferro suspeitava que os corpos dos indígenas não seriam os únicos a alimentar aquelas bocas de areia.

Parou e sorriu, momentos antes de vislumbrar uma figura familiar, que se esgueirava da aba de uma tenda. Usava um porta-seios e um saiote de samito, e o rosto pálido pareceu-lhe mais surpreso e desconfortável do que alguma vez o contemplara, quando finalmente o encontrou com o olhar.

― Olá Ravella! Como estás?

A mulher passou com o polegar por cima da orelha para afastar o cabelo e olhou para um lado e para o outro, confirmando que ninguém os perscrutava. Archotes estavam acesos em volta das tendas, mas a maioria dos homens já dormiam ou reuniam-se nas tendas mais sumptuosas, de onde se ouviam os batuques nativos, a sudeste, muito possivelmente locais onde os homens de maior patente obrigavam os sobreviventes do acampamento original a dançar, fazer música com os seus tambores de osso e pele plissada, cozinhar e ceder aos seus prazeres lascivamente mundanos. Língua de Ferro agradecia tais distrações. Podiam favorecê-lo nos seus planos.

― O que faz aqui? ― perguntou.

Língua de Ferro aproximou-se e sentiu no ar a doce fragrância a alfazema e a incensos que brotava do interior da tenda. Sondou na sua direção e o perfume agradou-lhe. O próprio corpo de Ravella, definido em músculos e curvas estonteantes, jorrava de odores almiscarados, e brilhava com a película de óleos e essências com que se banhara.

Sem título
Jovem (Fonte: wall.alphacoders.com)

― Esperava que Vance te tivesse contado. Vocês agora não são íntimos? ― perguntou, num misto de diversão e ciúme. ― Não era à sua procura que ias agora mesmo, para o trazer para a tua cama?

A uraniana meneou a cabeça, como se isso não importasse.

― O que é que Jupett tem a ver com isto? ― Abriu a aba da sua tenda, e convidou-o a entrar com a cabeça. ― Venha, não vai querer que o vejam.

― É, talvez, um pouco tarde para isso ― disse, ao baixar a cabeça para entrar no pavilhão.

Foi recebido por um mundo de sombras opacas. Um braseiro estava aceso ao centro da tenda, borbulhando de óleos. As suas flamas pareciam dedos de danados em busca de uma fuga ao tormento do Inferno. Quando o seu olhar se adaptou à luminosidade, reconheceu a amplitude e os detalhes daquele lugar. Colgaduras em pele de tigre e rolos de seda enriqueciam a divisão, enquanto uma tela de acácia servia de suporte a uma bonita aguarela que mostrava o porto de Constania nos seus dias áureos, antes da Seca. Um compartimento fechado a biombos não ocultava os tapetes vistosos nem os colchões felpudos e almofadas que compunham o leito noturno de Ravella. À passagem para o seu íntimo, montava guarda um par de panteras em calcário. Língua de Ferro aprovou a riqueza do seu pavilhão.

― Quem és tu, afinal, para mereceres tamanho luxo? ― perguntou com sinceridade.

― Sou a esposa do comandante, o seu amuleto de fortuna. É tudo o que precisais saber ― disse ela enquanto fechava a aba da tenda com um atilho de cânhamo. Virou-se para ele com austeridade. ― Quando ele me disse que era agora também um instrumento, não imaginei que ficasse também… assim.

Ela estava a referir-se ao vazio no seu olhar, e falava-o com algum constrangimento e pena, o que revelava a sua inocência naquele assunto. Podia estar a referir-se a qualquer outra coisa.

― Conhecias Vance antes do nosso primeiro encontro? Antes de Rivia?

Língua de Ferro não se coibiu a esclarecer uma das suas maiores dúvidas. Tanto Ravella como Vance eram originários da vasta província setentrional do Urão, onde as pessoas nasciam pálidas, fruto da volatilidade do sol sob as montanhas, mas seria apenas isso a unir aqueles dois? No seu íntimo, sentiu o desconforto de Ravella em abordar aquele tema. Moveu-se, graciosa como uma pantera, de um lado para o outro, abrindo uma garrafa de um vinho aguado que verteu por duas canecas, regressando com ambas. O salteador segurou a que ela lhe ofereceu e interpretou a sua inquietude como uma ameaça à confiança estabelecida entre ela e Jupett Vance.

Pareceu refletir na questão enquanto beberricou da sua caneca, debicando como um passarinho. Língua de Ferro esperou pela resposta, envolvendo o receptáculo de barro com as duas mãos.

― Só conheci Jupett em Rhove, mas foi como se nos conhecêssemos desde sempre. Para além de partilharmos a mesma origem, ele impediu que alguns bárbaros me estuprassem. Por alguma razão, ele viu algo em mim. Nas mãos de Mario Bortoli, nenhuma mulher vale mais que um objeto, que se usa e dispensa a seu bel-prazer. Jupett tratou-me como uma princesa.

Língua de Ferro assentiu com a cabeça, mas sentia que ela lhe escondia algo.

― Talvez porque ambos partilharam segredos, parece-me. Há algo que escondeste de mim, durante todo o tempo que estivemos juntos.

Ravella cuspiu para os seus pés.

― O tempo em que estive consigo? Depois que me levou de Rivia como uma escrava? Uma escrava que eu era, porque todos me viam assim? Levou-me em troca dos meus conhecimentos sobre Regan…

Língua de Ferro sentiu o azedume na sua voz, mas não se sentiu ofendido.

― É tarde demais para recriminações. A nossa relação não foi apenas um negócio, e ambos sabemos disso. Como também sabemos o que significamos um para o outro. Ambos amámos aquele homem, cada um à sua maneira.

Sem título
Guerreiro (Fonte: wallpapercave.com)

Aquilo quase fê-la engasgar-se. Engoliu o vinho e tossicou, antes de limpar os lábios com o antebraço e avançar um passo com o indicador em riste.

― Não, Língua de Ferro. Se admirou um homem, esse homem era Dzanela. Um salteador, um criminoso. Eu amei Regan, o homem.

― Um moribundo ― corrigiu.

― Um homem vivo ― sublinhou Ravella. ― Antes de Jupett Vance, foi o único homem que me tratou como uma mulher.

Língua de Ferro sorriu diante do insulto.

― Que seja. Antes de morrer, Regan contou-te um segredo. Foi esse segredo que contaste a Vance e foi isso que te fez cair nas suas boas graças. Quero saber que segredo foi esse.

Ela pareceu hesitar.

― Sander Camilli usou Allen para chantagear Regan, até lançar-lhe uma perseguição que acabou às portas de Selaba. Só isso. Jupett não me tratou melhor por saber disso, calculo.

Língua de Ferro assentiu.

― Mentes. És uma mentirosa, Ravella.

O olhar dela revelou incompreensão. E se ela não estiver a mentir?, pensou.

― Tudo o que sei é que amava aquele homem, e amo-o como nunca amarei outro.

― Nem mesmo Vance?

― Nem mesmo Vance. Mas estarei com ele até ao fim, para levar justiça ao seu carrasco.

Língua de Ferro suspirou profundamente.

― Pretendes matar Sander Camilli, então.

― Não foi Sander Camilli quem matou Regan, Leidviges Valentina ― disse uma voz da aba da tenda.

Jupett Vance.

Antes sequer de pensar na discrição do homem em abrir a aba que Ravella tão afincadamente se esforçara por amarrar, Língua de Ferro viu-o a erguê-la, para revelar as luzes de tochas em punho que passavam atrás de si. Vozes que não passavam de sussurros aos seus ouvidos apurados revelavam-se agora demasiado próximas para que as ignorasse. Um linguajar de homens hostis. Clarões dourados recortaram sombras na calva de Vance Cego quando ele baixou a aba e disse, com aparente serenidade:

― Há uma saída secreta do outro lado da tenda. Bortoli já sabe que estás aqui. Não te esqueças daquilo que és, um instrumento da essência. Ainda não o compreendeste na totalidade, mas não te admoesto por isso. Fui treinado desde criança para o que fiz e virei a fazer, e em alguns momentos até eu reservo para mim certas dúvidas. Mas terás de ultrapassar a tua ignorância em relação a certos assuntos. A compreensão está vedada a alguns instrumentos. Basta que deixes a aceitação serenar-te o espírito. Somos ajuramentados, tu e eu. Sabes o que tens a fazer, e isso deve chegar-te.

O tom impositivo com que falou não deixou margem para discussões. Língua de Ferro fitou o seu rosto sereno e olhar branco, tão enigmático como sempre o fora. Depois, volveu para Ravella, tão bela quanto confusa e envergonhada, e sentiu algum despeito por aquilo que lhe era vedado. Sentiu-se afastado de algo que lhe devia pertencer. Ravella avançou à sua frente para lhe indicar a saída secreta do pavilhão e ele seguiu-a, estudando os contornos ágeis do seu corpo e desejando-o para si. Não lhe dirigiu qualquer palavra ou olhar quando ela abriu uma orla de tecido descosido nos fundos da tenda e tocou-lhe na omoplata para o ajudar a sair. O toque teve o sabor de uma bênção.

Saiu para o exterior e não a voltou a ver. Homens armados de lanças e alabardas corriam para um lado e para o outro, vasculhando o acampamento à sua procura. Vance tinha razão. Não era hora para revolver o passado em busca de respostas. Havia trabalho a fazer. Havia um cerco a quebrar. No entanto, aquela frase pairava-lhe na mente. Não foi Sander Camilli quem matou Regan.
Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois

Vamos Viajar Com Robin Hobb: Ponto de Situação

Sem título

Do que se trata?

Vamos Viajar com Robin Hobb é um passatempo organizado pelo NDZ, que desafia bloggers e leitores de literatura fantástica a ler um ou mais livros de Robin Hobb de 8 de maio a 8 de julho. Os participantes devem escrever um comentário ao livro em questão, comentários esses que serão publicados aqui no NDZ quando terminar o desafio.

Ainda posso participar?

Não requisito nenhuma formalidade para a inscrição no passatempo, para além de me comunicar. Podes concorrer a qualquer momento, desde que leias um livro da autora californiana até ao término do concurso.

Como estamos de afluência?

Embora apenas tenha duas pessoas efetivamente a participar, existem mais três que já me deixaram clara a intenção de “apanhar boleia” deste desafio, pelo que considero já serem cinco.

Sem título-003

Vamos Viajar com Robin Hobb?

Não me parece que a autora esteja interessada a vir connosco, mas decidi que o tal encontro que vos havia falado, na Feira do Livro de Lisboa, seja estendido a todos os amigos do NDZ que tenham vontade em encontrar-se comigo. Estarei no Parque Eduardo VII no dia 3 de junho e espero encontrar mais amigos. Equaciono voltar à Feira posteriormente, mas ainda não tenho uma data certa para a minha segunda visita.

E que dia é hoje, mesmo?

19 de maio. A partir de hoje, podes encontrar nas bancas o livro O Assassino do Bobo pela Edições Saída de Emergência, o primeiro livro da série O Assassino e o Bobo que corresponde à terceira trilogia da autora Robin Hobb com FitzCavalaria Visionário como protagonista. Por isso, se já lestes tudo o que foi publicado pela autora no nosso país, toca a adquirir este livro e alista-te no nosso desafio. Eu, como estou um pouco atrasado, já cumpri a minha parte do desafio e li Os Dilemas do Assassino, mas pretendo ler pelo menos mais um livro da autora até 8 de julho.

Sem título

O regresso de Robin Hobb!

Tomé Texugo tem levado uma vida pacífica há anos, retirado no campo na companhia da sua amada Moli, numa vasta propriedade que lhe foi agraciada por serviços leais à coroa. Mas por detrás da sua respeitável fachada de homem de meia-idade, esconde-se um passado turbulento e de violência. Na verdade, ele é FitzCavalaria Visionário, um bastardo real, utilizador de estranhas magias e assassino. Um homem que tudo arriscou pelo seu rei, com grandes perdas pessoais.
Até que, numa noite fatídica, um mensageiro chega com uma mensagem que irá transformar o seu mundo. O passado arranja sempre forma de se intrometer no presente, e os acontecimentos prodigiosos de que foi protagonista na companhia do seu grande amigo, o Bobo, vão voltar a enredá-lo. Se conseguirem, nada na sua vida ficará igual…

Fala-se de: The Walking Dead T7

A temporada terminou há quase dois meses, mas só agora tive disponibilidade para ver os episódios que me faltavam. Como sabem, sou fã de The Walking Dead desde o início, e achei as temporadas 2, 5 e 6 as melhores de toda a série. Para aqueles que, como eu, vibram com as aventuras de Rick, Carl, Michonne, Daryl e Maggie, a adaptação da famosa banda-desenhada de Robert Kirkman atingiu o seu zénite com a aparição do terrível vilão Negan. Ainda assim, ao acompanhar a banda-desenhada, não pude deixar de sentir algum desapontamento com esta temporada.

Talvez temendo que ocorresse uma situação similar à que a série Game of Thrones vivencia, em que a adaptação ultrapassou a publicação do material canónico, os acontecimentos que deviam pautar a primeira metade da temporada (a chamada mid-season que corresponde aos primeiros oito episódios), prolongaram-se por todo o ano. Tal medida levou à inclusão de mais comunidades inexistentes na banda-desenhada – a de Oceanside e o grupo do ferro-velho – mas também a um debate ostensivo de questiúnculas e episódios sem conteúdo ou ritmo que na minha opinião fez decrescer, em muito, a qualidade da série da AMC.

Sem título
Promocional (Fonte: AMC)

Se os ocasionais momentos de ternura e pesar entre os personagens de Andrew Lincoln e Danai Gurira, para além da interpretação magnífica de Jeffrey Dean Morgan como o sádico portador do bastão de basebol farpado Lucille trouxeram alguns dos momentos de maior qualidade cénica, as constantes hesitações dos personagens Carol, Morgan e Ezekiel, o “vai-não-vai” de Rosita e as deambulações de Tara enfraqueceram o espírito que se exigia a esta temporada.

Não vi aquilo que Melissa McBride mostrou em temporadas anteriores, não vi a tão aclamada união que o grupo de Rick sentiu em momentos passados, tão dramáticos como este, e posso dizer que em alguns momentos me senti tentado a torcer pelo grupo dos Salvadores. Se alguém se destacou pela positiva, destaco Dean Morgan e Lincoln, com os seus face-to-face lendários, Lauren Cohan com uma Maggie derruída a tentar fazer algo com a tragédia que lhe bateu à porta, e Chandler Riggs e Tom Payne a ganharem o merecido destaque numa temporada atípica.

Sem título
Ezekiel e Shiva (Fonte: theindependent.co.uk)

Se a falta de protagonismo e irregularidade dos personagens não está diretamente ligada ao profissionalismo e qualidade dos intérpretes, a verdade é que a sétima temporada deu poucas oportunidades a atores como Seth Gilliam, Katelyn Nacon ou Christine Evangelista. Não que Gabriel, Enid ou Sherry tenham sido afastados do foco ou perdido importância, sendo deles algumas das cenas que mais me marcaram ao longo da temporada, mas para além desses momentos, foram quase esquecidos.

“Se a falta de protagonismo e irregularidade dos personagens não está diretamente ligada ao profissionalismo e qualidade dos intérpretes, a verdade é que a sétima temporada deu poucas oportunidades a atores como Seth Gilliam, Katelyn Nacon ou Christine Evangelista.”

Seria impossível dar o mesmo espaço de antena a todos, mas a quase desconhecida Holly conseguiu mais impacto na banda-desenhada, do que a Sasha de Sonequa Martin-Green na adaptação da mesma cena para a season finale. Daryl Dixon continua a ser um personagem “querido” que pouco mais faz do que chorar em cada episódio. Preciosismos de um leitor de banda-desenhada que gostava de ver cada cena retratada fielmente ao ecrã? Talvez.

Sem título
Promocional (Fonte: AMC)
A PARTIR DAQUI PODES TROPEÇAR EM ALGUMAS REVELAÇÕES

Começamos a temporada com um episódio de altíssima tensão, com a morte de Glenn e Abraham e a tortura psicológica de Negan a Rick. Se gostei do episódio? Não, mas achei-o importante para o desenvolvimento da série. Os episódios seguintes não me desiludiram, mas achei a passividade de Rick para com a liderança de Negan levada ao limite, de certa forma exagerada. Foi só no fechar do pano que Rick se decidiu insurgir, quando Olivia e Spencer foram eliminados numa cena icónica que não ficou nada a dever ao material original… mas que pecou por tardia. Não é uma cena de mid-season finale, mas sim para ter sido apresentada no quarto ou quinto episódio.

“Os episódios seguintes não me desiludiram, mas achei a passividade de Rick para com a liderança de Negan levada ao limite, de certa forma exagerada.”

Logo se adivinhava que, ou a Guerra Total aconteceria muito rapidamente, ou a temporada chegaria ao fim sem haver uma guerra sequer. E foram as hesitações de Ezekiel, Carol e Morgan, as intrigas disparatadas de Richard e a adição da comunidade do ferro-velho, para além do regresso a Oceanside que, ainda na primeira metade servira para mostrar que Tara e Heath estavam vivos, quando poucos se lembravam já deles, o que deu barriga a esta segunda metade da temporada, que valeu essencialmente pelo núcleo de Hilltop e pela traição de Dwight. A série terminou com o início da guerra em si, mas nem mesmo o final me agradou. Foram muitos tiros, um tigre pouco convincente e uma Michonne demasiado débil. No fim, tudo ficou na mesma.

Sem título
Promocional (Fonte: itechpost.com)

Ainda assim, continuo um fã da série e mesmo sabendo que a próxima temporada terá muitas “invenções” por parte da produtora, para fazer durar a guerra até ao fim, irei continuar a acompanhar, não só por gostar da temática e do produto, mas também porque as interpretações de atores como Andrew Lincoln e companhia valem muito a pena.

Avaliação: 6/10

Fala-se de: Velocidade Furiosa 8

Poucos são os que não sabem o que acontece quando se junta Vin Diesel, Michelle Rodriguez, Jason Statham, Dwayne Johnson, Tyrese Gibson e companhia. A popular franquia Velocidade Furiosa conquistou os amantes de velocidade em todo o mundo, mas também não passa indiferente a todos os que gostam de um bom filme de ação. Nem mesmo a morte de Paul Walker, o ator que desempenhava um dos papéis principais, veio retirar público ou qualidade ao produto.

Velocidade Furiosa 8 é mais um exemplo do que a equipa dirigida por F. Gary Gray e Chris Morgan é capaz de fazer, pegando em meia-dúzia de super-estrelas do cinema, um outro tanto de “veículos-à-prova-de-tudo” e uma boa trama. A Universal Studios é a companhia responsável por trazer à luz do dia uma das séries cinematográficas de maior impacto mundial, usando nada mais, nada menos, que uma vasta gama de cenários e um rol de perseguições de tirar o fôlego.

Sem título
Poster do filme (Fonte: canoticias.pt)

Mas usar caras bonitas e corpos musculados não chega para esticar o sucesso de um produto até ao oitavo filme. É necessário incluir-lhe uma trama atrativa e inovações, umas após as outras. Se Velocidade Furiosa 8 pode ser acusado de não inovar muito em termos de plot, pessoalmente surpreendeu-me em vários momentos, desde a suposta traição de Dominic Toretto aos seus companheiros, às ligações de sangue que a vilã lhe apresenta, até à simulação de uma morte e aos movimentos sub-reptícios dos personagens. Foi isso, acima de tudo, que me deixou ligado ao ecrã até ao último instante.

“Mas usar caras bonitas e corpos musculados não chega para esticar o sucesso de um produto até ao oitavo filme. É necessário incluir-lhe uma trama atrativa e inovações, umas após as outras.”

Ainda assim, boa parte da índice de sucesso desta sequência está diretamente ligada à qualidade do elenco. Vin Diesel assume o protagonismo por inteiro, desde o falecimento de Paul Walker. Ao seu lado, jorram nomes como Jason Statham, Helen Mirren, Kurt Russell, Dwayne “The Rock” Johnson, Tyrese Gibson, Luke Evans, Chris Bridges, Michelle Rodriguez, a terrível vilã de Charlize Theron e ainda Nathalie Emmanuel e Kristofer Hijvu, a Missandei e o Tormund da série Game of Thrones. Se a maioria já são presenças repescadas de filmes anteriores, cada nova adição acrescenta sempre o seu contributo sem que fique a sensação que estão a trazer “mais do mesmo”.

Sem título
Michelle Rodriguez e Vin Diesel (Fonte: mag.sapo.pt)
CUIDADO! NÃO HÁ GRANDES REVELAÇÕES MAS ALGUNS SPOILERS.

Velocidade Furiosa 8 é, assim, mais um upgrade da franquia. Somos apresentados a um Dom Toretto mais sofisticado, como sempre emocional sem deixar de ser duro como uma pedra, com a lealdade e o sentido de família a serem testados até aos limites por uma vilã que planeia controlar o mundo. A corda é esticada quando ele é obrigado a ceder, quando a relação de extremo afeto que Dom tem por Letty se vê constrangida por algo mais pessoal e sensível. Uma outra família. O fruto de algo. O dealbar de um sonho antigo, nascido de uma relação fugaz.

O conceito de família também é explorado através de Luke Hobbs, o personagem de Dwayne Johnson. O antigo agente da DSS tornou-se treinador de futebol feminino, e não parece muito entusiasmado com a ideia de ser novamente chamado para os grandes palcos de ação. É o amor pela filha que o leva a hesitar, ainda que ser levado para uma prisão de alta-segurança e voltar a enfrentar Deckard Shaw lhe mexa com as vísceras de um modo que não consegue controlar. É Luke o primeiro a compreender a traição de Dom, quando este rouba o dispositivo EMP em Berlim. Da mesma forma que tenta levar o grupo a um novo nível de união, vê-se obrigado a trabalhar com Deckard e a inimizade visível para com o personagem de Statham acaba por se aplacar com o tempo.

Sem título
Hobbs na prisão (Fonte: cinepop.com.br)

É com Letty, a personagem de Michelle Rodriguez, porém, que o público mais vive os sobressaltos deste filme. De uma lua-de-mel em Havana até a uma traição que lhe é incompreensível em Berlim, ela não duvida por um momento que Dom a ama e é a última a aceitar o volte-face. Graças ao Olho de Deus controlado por Ramsey, o grupo descobre a localização de Dom, tardiamente. Uma surpresa cronometrada por Cipher, a poderosa pirata cibernética, leva à neutralização do grupo e à revelação dos seus planos.

“De uma lua-de-mel em Havana até a uma traição que lhe é incompreensível em Berlim, ela não duvida por um momento que Dom a ama e é a última a aceitar o volte-face.”

Nova Iorque torna-se então o palco de um caótico incidente de trânsito. Cipher pretende recuperar os códigos nucleares guardados pelo ministro da defesa russo, e não se coíbe a controlar todos os veículos da cidade a seu bel-prazer para consegui-lo. Dom é usado como um peão, mas Cipher devia conhecê-lo melhor. Uma estratégia que envolve a família Shaw revela que Dom tem ainda uma palavra a dizer e uma sequência de perseguições antecipam o encontro com Letty, onde as dúvidas que ela nutriam se dissipam quando ele lhe salva a vida.

Sem título
Imagem promocional (Fonte: showbizz.liputan6.com)

Invasões de segurança, chuvas de automóveis e até fugas a mísseis e a submarinos sobre o ténue gelo de uma base russa marcam um filme repleto de cenas de ação, coroado por um final que não surpreende mas deixa bem registado o sentido de família a que o grupo de Toretto se vinculou. A homenagem ao personagem de Paul Walker foi a cereja no topo do bolo.

Avaliação: 8/10

Estive a Ler: Os Dilemas do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #2

Ele fez um pequeno gesto de indiferença com a mão. “Não duvido de que tenha sido. Mas agora falo de outra coisa. Falo de dragões verdadeiros. Dragões que respiram, que comem e crescem e se multiplicam como qualquer outra criatura. Alguma vez sonhaste com um dragão assim? Um dragão chamado Tintaglia?”

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Os Dilemas do Assassino”, segundo volume da série Saga O Regresso do Assassino

Com tradução de Jorge Candeias, Os Dilemas do Assassino corresponde à primeira metade do livro The Golden Fool, o segundo da trilogia The Tawny Men da autora californiana Margaret Ogden, mais conhecida entre os fãs de fantasia como Robin Hobb. Publicado pela Edições Saída de Emergência em 2011, este é o primeiro livro da autora que leio incluído no passatempo Vamos Viajar com Robin Hobb, que estou a organizar aqui no blogue e nas redes sociais.

Licenciada em Comunicação na Universidade de Denver, Colorado, e residente em Washington, Robin Hobb escreveu cinco trilogias pertencentes ao mundo de FitzCavalaria Visionário, uma série conhecida como The Realm of Elderlings, dos quais três trilogias têm Fitz como protagonista. São mesmo essas três trilogias que estão a ser publicadas em português, sendo que o primeiro livro da terceira série sai já esta semana, motivo pelo qual iniciei este desafio.

Sem título
Bobo e Fitz (Fonte: vlac.deviantart.com)

Um noivado turbulento

O Príncipe Respeitador é o herdeiro dos Seis Ducados. Filho de Kettricken das Montanhas e de Veracidade Visionário, então morto, tornou-se um rapaz bastante promissor. Para assegurar a paz e a subsistência mercantil do seu reino, a rainha estabeleceu um acordo com os ilhéus, prometendo a mão do seu filho à narcheska das Ilhas Externas, Eliânia. Eles são um povo selvagem, de quem não se guarda a melhor das recordações. As Runas de Deus são um grupo de ilhas hostis, com um povo bélico, aguerrido às suas tradições e com um caráter temperamental, diretamente envolvido na guerra que fustigou os Seis Ducados por anos.

As cerimónias de noivado são, por isso, uma oportunidade única para que se conheçam mutuamente e, também, um período de grande exigência protocolar, uma vez que qualquer atitude menos ponderada pode pôr em cheque não só o noivado como a própria paz entre os povos. O príncipe, porém, sofreu demasiadas mudanças recentes na sua vida, para que se preocupe em demasia com isso. Uma seita de manhosos revoltada com os maus-tratos a que os seus iguais, aqueles que possuem o dom de se conectar com animais, têm sido alvo, começou a perseguir e a chantagear os que comungam do mesmo dom e que se recusam a admiti-lo.

Sem título
Bobo/Dom Dourado (Fonte: enife.deviantart.com)

Os pigarços, como se chamam, conjuraram um plano que resultou na captura do príncipe. Graças ao Bobo e a FitzCavalaria, agora conhecidos como Dom Dourado e o seu criado Tomé Texugo, o príncipe regressou a Torre do Cervo em segurança, a tempo da chegada da narcheska e do seu contingente. No entanto, as perdas sofridas deixaram-nos abalados e a ameaça continua eminente. Louvovinho, o líder dos pigarços, encontra-se a recuperar de ferimentos, mas os seus sequazes sabem quem Respeitador é, e sabem que ele também é manhoso, assim como o criado chamado Tomé Texugo. Fitz é alvo de uma espera e uma mensagem subliminar é-lhe deixada, assim como a Loureira, a caçadora da rainha que, ainda que não partilhe o dom, é a única da sua família que não o obteve.

Olhos-de-Noite morreu e a gata a quem Respeitador era filiado também. Fitz não consegue curar as suas feridas, mas a dor aproxima-o de Respeitador, que vê nele o único amigo a quem recorrer. Ainda que o príncipe desconheça que o criado de Dom Dourado é, na verdade, seu tio, insiste em ser treinado por este na arte do Talento, uma magia poderosa nos Seis Ducados. Fitz começa a treinar o rapaz, embora nunca tenha sido realmente versado nessa matéria. Os problemas na vida de ambos, porém, não se resumem à dor da perda e à ameaça dos pigarços.

Sem título
Eliânia (Fonte: sffbookreview.wordpress.com)

Uma chuva de problemas

Fitz acaba por não resistir ao calor que Gina representa. A bruxa ambulante que acolheu o seu filho adoptivo torna-se mais do que uma amiga e conselheira, vindo a ser também sua amante. Isso, porém, revela ser fraco consolo para as suas carências afetivas, e rapidamente percebe não estar a ser justo para consigo ou para com a mulher. Também o seu rapaz, Zar, o desilude, com comportamentos indisciplinados como aprendiz do seu ofício. O namoro com Esvânia parece ser a causa de tais problemas, mas o jovem não parece incomodar-se com a ira do tutor nem mesmo com a ameaça que o pai da rapariga pode significar.

O contingente das Ilhas Externas também é um problema a ter em conta. Nos labirintos secretos de Torre do Cervo, Fitz tem acesso ao quarto de Eliânia, onde percebe rapidamente que Peotre Aguapreta, o tio da rapariga, tem muito mais influência política e pessoal na vida dela do que o seu próprio pai, o aparente líder Arcão Espadarrubra. Também a misteriosa aia da jovem, Hênia, parece ser a voz de alguém importante, com ideias estabelecidas e algo diferentes daquelas que Eliânia ou Peotre defendem.

Sem título
Se Trump governasse Torre do Cervo, as coisas não correriam bem (Fonte: allthe2048.com)

A união entre Eliânia e Respeitador não parece ser vista com bons olhos pela jovem, e tão pouco pelo príncipe, que comete uma gaffe ao menosprezá-la durante um jogo com a Dama Vance, sobrinha de Dom Sextão de Razos, por quem o príncipe parece sinceramente mais interessado. O erro de Respeitador obriga Kettricken a agir mais rapidamente, mas a rainha, velha amiga de Fitz, não consegue fazer muito quando tudo à sua volta parece mover-se por si mesmo. Nem mesmo Breu, o seu velho conselheiro, parece tão capaz como antes para mover as peças do jogo, fruto da sua idade avançada.

Caiem em FitzCavalaria as rédeas dos acontecimentos. Cansado de lutar contra os ímpetos dos jovens, uma vez que tanto Respeitador como Zar transformaram-se nos principais causadores dos seus problemas, não se esquece da filha Urtiga, que o procura nos sonhos através do Talento. Também é obrigado a lidar com Obtuso, o criado deficiente de Breu que se revela forte no Talento, e com as dúvidas em relação a Cortês Bresinga, o manhoso de quem sempre suspeitou estar envolvido na armadilha dos pigarços a Respeitador, presente em Torre do Cervo para as comemorações do noivado.

Também Bobo se transforma numa personagem de difícil interpretação. Boatos em torno da sua verdadeira natureza percorrem Torre do Cervo, e as revelações que Fitz tem de uma faceta do seu passado levam-no a perder a confiança que sentia para com o melhor amigo. Mas é a chegada de uma comitiva de Vilamonte, protagonizada por um jovem escamoso chamado Selden Vestrit, a pedir ajuda para fazer guerra a Calcede, e a referência a um dragão chamado Tintaglia, que revoluciona não só as cerimónias de noivado como o próprio âmago de Torre do Cervo.

Sem Título
Capa Saída de Emergência (Fonte: saidadeemergencia.com)
SINOPSE:

Uma obra-prima da fantasia épica.

O seu nome é murmurado com temor e respeito. A sua figura move-se nas sombras da noite e das políticas. Acaba de salvar o herdeiro do reino. Mas será suficiente? Depois de salvar o príncipe das garras dos pigarços e de sofrer a mais devastadora perda possível ao fazê-lo, o lendário assassino regressa ao lugar a que em tempos chamou lar. Aí, esperam-no dias difíceis de adaptação, mas também o esperam oportunidades, velhos e novos amigos e até um filho adolescente. E espera-o também um príncipe, do seu sangue sem que o saiba, dotado com as magias desse sangue mas sem conhecimentos para lidar com elas, e prometido a uma princesa estrangeira. Como irá Fitz lidar com todos os desafios que o aguardam em Torre do Cervo? Que soluções encontrará para os seus dilemas?

OPINIÃO:

Um mar de conflitos e de intrigas, Os Dilemas do Assassino é mais uma prova de que Robin Hobb é muito mais do que apresentou na primeira trilogia. Elegante, fluída e cheia de ritmo, esta leitura revelou-se bem mais célere e estimulante do que eu a imaginava. A promoção de reflexões interiores e a discussão sobre temas comuns a todos nós como a juventude, a honestidade e o bem-estar emocional foram maravilhosamente decompostos pela autora californiana, que em nenhum momento deixou cair o gume da sua “pena”.

Hobb apresenta-nos a um mundo fantástico e torna-o credível e isso é, sinceramente, o que mais me apraz em ler um livro. Ela relata com beleza cada cenário, sem excluir as ervas daninhas que, irrefutavelmente, povoam cada realidade. Se os momentos de introspeção, em outros momentos, me deixaram entediado com as aventuras de Fitz, aquelas que tenho agora oportunidade de ler surgem como um intervalo após cada acontecimento, levando-me a pensar sobre o mesmo, a maturar as questões e a respirar fundo. Cada introspeção revela-se tão ou mais deliciosa que os eventos em si.

Sem título
Será? :p (Fonte:makeameme.org)

Muito embora a trama dos pigarços seja de facto irreal, este segundo volume traz mais fantasia que o primeiro livro, e isso não é mau. Embora ainda torça o nariz à adição de mais dragões a esta série, tanto a referência a Tintaglia como a navivivos me deixa a querer saber mais sobre eles. Os novos personagens revelaram-se mais promissores e cheios de potencial que aqueles que povoaram o primeiro volume, e os mistérios foram posicionados muito bem do ponto de vista estratégico. Ainda assim, aqueles que envolvem os personagens centrais da narrativa parecem ainda mais apelativos. Bobo, o que raio andaste tu a fazer?

“Os novos personagens revelaram-se mais promissores e cheios de potencial que aqueles que povoaram o primeiro volume, e os mistérios foram posicionados muito bem do ponto de vista estratégico.”

Pouco vimos de Kettricken nestes dois livros e, no entanto, ela é uma das personagens que mais me agradaram. A sua evolução revelou-se nos pequenos pormenores, dos trejeitos aos comportamentos que Robin Hobb tão bem sabe desenhar. A evolução comportamental e a maturidade são tão visíveis nessa personagem como no próprio Fitz, que ganhou o meu respeito nestes livros. Ganhou experiência e perdeu intempestividade, muito embora continue a aprender com as próprias experiências. Breu é outra das boas surpresas deste livro, com duas facetas tão enigmáticas quanto realistas. O avançar da idade é relatado com credibilidade. Também Respeitador revela-se, livro após livro, um personagem cheio de potencial, e Loureira continua de certo modo um mistério.

Sem título
Breu Tombastrela (Fonte: tumblr.com/farseer)

Não seria, confesso, um livro que eu escreveria. Não é um género de fantasia que me empolgue por aí além e é bem mais esmiuçado e menos sugestivo do que aquilo que me apaixona. O medieval também não parece trazer grandes novidades. Mas a escrita envolvente e as questões debatidas pela autora, a par da riqueza de personagens criadas, merece não só a minha pontuação como os meus maiores elogios.

Vamos Viajar com Robin Hobb é um desafio NDZ para que todos aqueles que querem embarcar comigo na aventura de ler, de 8 de maio a 8 de julho, um ou mais livros da autora. Eu vou ler mais, e vocês?

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino