Fados Solidários e Danças de Salão 2017

Mais uma vez fujo ao tema do blogue para vos falar de um evento apresentado por mim. Foi ontem, no Pavilhão Municipal de Vila Nova da Barquinha, que se realizou um espetáculo de Fado e Danças de Salão com a finalidade de angariar fundos para o desenvolvimento da Associação de Paralisia Cerebral de Vila Nova da Barquinha.

O evento foi organizado pelo Clube União de Recreios de Moita do Norte com o apoio da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha. Mais de 300 pessoas estiveram presentes para apoiar a causa, mas não foram os únicos. Para além daqueles que pagaram bilhete e não puderam comparecer, houve ainda muitos que contribuíram com donativos para a organização do evento e outros que colaboraram com o seu próprio trabalho.

Sem título

A noite começou com uma bela guitarrada. Bruno Chaveiro é uma das maiores revelações portuguesas na guitarra portuguesa, tendo acompanhado nos últimos tempos alguns dos maiores nomes do fado em Portugal e além-fronteiras. À viola de fado, foi acompanhado por João Domingos, e no baixo esteve Zé Ganchinho, uma vez que Miguel Silva, que estava no programa, não pôde estar presente.

Silvina Pereira foi a primeira fadista a subir ao palco. Natural da Marinha Grande, começou no teatro, e foi na revista à portuguesa que descobriu o seu talento para o fado, área por onde enveredou. Ao terceiro fado que cantou, vários dançarinos subiram aos respetivos palcos para abrilhantarem ainda mais a sua atuação.

Sem título

De origens alentejanas, “Buba” Espinho foi um dos que muito contribuiu para elevar o cante alentejano a Património Imaterial da UNESCO. Depois, dedicou-se ao fado, onde tem colaborado com alguns dos grandes nomes da arte. Seguiu-se Beatriz Felício. A fadista, natural da Damaia, é grande fã de Amália Rodrigues e notabilizou-se ao concorrer aos concursos Uma Canção Para Ti e The Voice. Este ano, participou do Festival da Canção.

O alentejano José Geadas venceu a Grande Noite do Fado RTP aos 9 anos, ao que se seguiu um segundo lugar no programa Uma Canção Para Ti. Agora, aos 20, é já um nome de referência no fado. A primeira parte terminou com a brilhante atuação de Silvana Peres. A fadista começou nas danças de salão, chegando a campeã nacional, mas foi no fado que construiu uma carreira sólida, tornando-se um dos grandes nomes da nova geração.

Sem título

A segunda parte iniciou-se com o espetáculo de danças de salão. Um par com Trissomia 21, o Paulo e a Beatriz, iniciaram a sessão com Merengue. A acompanhá-los, os restantes dançarinos da Escola de Dança Desportiva do Clube União de Recreios de Moita do Norte coloriram a noite. Samba, ChaChaCha, Rumba, Paso Doble e Jive foram as modalidades apresentadas.

Os fados regressaram logo em seguida com os mesmos fadistas, antecedidos por mais um sol de guitarra de arrepiar. Os dançarinos acompanharam Silvina Pereira no seu último fado e na última atuação, quando todos os fadistas partilharam uma desgarrada de quadras soltas. Fica o profundo agradecimento a todos os presentes tanto pela comparência como pelo silêncio que revelou grande respeito pela arte em execução.

 

Estou no Wattpad #29

É verdade, depois de vos ter apresentado o capítulo 28 na quarta-feira, eis que vos trago um bónus; só porque estou de férias. Estarei uma semana completamente arredado do blogue, daí que tenha decidido presentear-vos com mais um emocionante capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, agora que faltam pouquinhos capítulos para o grande final. O baile trouxe grandes revelações para o anti-herói, mas as surpresas estão longe de acabar. Espero que gostem.

CAPÍTULO VINTE E NOVE: CÃES

A aldeia-riscada não tinha mais nada para me oferecer. Aceitei acompanhar uma caravana de mercadores até à cidade de Venille, a troco do sempre bem condimentado guisado rezoli. Na verdade, precisava de uma desculpa para regressar a Constania, engolir o meu orgulho e pedir a Dooda que me perdoasse, ainda que ele já o tivesse feito. Não me sentia arrependido pela traição aos Doze Vermelhos e, se voltasse atrás no tempo, teria feito tudo outra vez, mas o que eu fizera ao meu melhor amigo tornara-se incomportável de suportar. O perdão dele só me fazia sentir mais culpado, principalmente porque nunca lho fora solicitado. Venille revelou-se um destino pouco agradável. O odor do couro acabado de curtir impregnava o ar e o guinchar dos abutres fazia-me perguntar o que raio acontecera às gaivotas que em tempos dominavam aqueles céus. Consolei-me entre as coxas de uma prostituta de olhos amendoados que me fazia lembrar Lucilla, mas a mulher não era aquilo que eu esperava. Possuía uma dignidade improvável para a profissão e uma autoconfiança que se lhe aderia ao corpo como uma segunda pele. Gritou um último gemido de prazer e, quando caiu para o lado, disse-me que seria traído por aqueles que eu traíra. Nunca ouvira falar de oráculos que viam o futuro através da cópula, pelo que zombei da mulher e disse-lhe que lhe pagara para foder e não para tecer profecias. A verdade é que eu estava inebriado pela zurrapa da noite e limitei-me a virá-la de costas para me voltar a servir do seu corpo. Ainda assim, nunca esqueci as suas palavras, e os nomes de Dooda, Dzanela, Bortoli, Marovarola, Brovios e Agravelli ficaram-me gravados na mente. Na manhã seguinte, regressei a Constania.”

O general Pantaleoni foi alvo de um ataque de espirros, as senhoras da corte mexericavam e os flautistas chegavam ao píncaro das suas melodias. Talvez por isso tenham demorado tanto tempo a ouvir os gritos.

Língua de Ferro lamentou não ter Apalasi consigo, mas lançou-se na direção das portas do salão. Ceil seguiu-lhe os passos, mas o amplo salteador parou-lhe a progressão com uma mão no peito.

― Não. Tu ficas aqui. Avisa o teu pai do que se está a passar.

O olhar estóico da rapariga adquiriu contornos febris.

― O que se está a passar? Mas o que mijo de ratazana sei eu do que se está a passar?

― O Capitólio ― disse ele ― está a ser alvo de um ataque.

Língua de Ferro deixou a jovem, quando assomou à porta um jovem criado, com um coto a sangrar onde devia ter uma mão. O rosto perdera parte da cor e tinha os olhos cheios de terror.

― Eles. Eles vêm aí ― balbuciou, com a língua a entaramelar-se, antes de cair desmaiado para a sua direita.

Língua de Ferro ouviu os gritos aterrorizados das senhoras da corte presentes no salão, mas não esperou que a massa de gente envolvesse o rapaz caído como corvos em busca de um banquete. Tranpôs a portada dupla e, quando subiu a escadaria, viu um rasto de sangue tanto nos degraus como na balaustrada. Dedadas vermelhas corriam o mármore do corrimão.

Ouviu um grito do corredor à esquerda, e um grito do corredor à direita. Avançou em passos largos até à cozinha, onde se deparou com os cadáveres mastigados das copeiras e ajudantes de cozinha, envolvidas por massas de entranhas, dejetos e sangue, e com expressões do mais puro horror nos rostos.

O odor nauseabundo de carne acabada de abater não guardava segredos para Língua de Ferro. Nele, pôde reconhecer um outro odor familiar.

O cheiro a cão.

Sem título
“Cão” (Fonte: simania.co.il)

Atrás de um aparador, o animal de olhos vazios que lhe guardara a porta na noite anterior debruçava-se sobre o corpo de Mia, arrancando-lhe um pesado seio do peito à dentada, enquanto a cozinheira soltava o estertor final. Uma boca de sangue e músculos postos a nu abriu-se-lhe no peito e Língua de Ferro viu-se visado do último e desesperado olhar da mulher. Que porra de merda é esta?, pensou para si mesmo enquanto o cão engolia o pedaço de carne. Esperou que o animal se virasse para si e o reconhecesse, mas quando ele o fez, sentiu-se intimidado.

O cão era enorme, tinha os olhos completamente vazios e as mandíbulas ameaçadoramente abertas estavam vermelhas do sangue das suas vítimas. Sangue que pingava e tamborilava no solo de mármore. O que queres com isto, essência?, perguntou em silêncio. Porque não me usas a mim, se é verdade que me controlas?

Uma voz atrás de si respondeu aos seus pensamentos:

― Cada instrumento tem a sua função ― disse Anos, com uma expressão tristonha no rosto. O cão soltou um silvar assustador e aproximou-se com o dorso a ondular. ― E, ao contrário dos animais, somos seres humanos. A essência pode definir as nossas tarefas e fazer-nos aceitá-las, mas ainda assim há algo mais profundo em nós que nos pode fazer recusá-la. O livre-arbítrio.

Língua de Ferro deslizou o olhar do rapaz para o cão. Anos avançou, pé ante pé, para o animal, passando pelo salteador com uma mão no ar.

― Porque é que estás a fazer isto? ― perguntou.

― Há algumas semanas, quando chegaste, perdi o meu dom ― disse o rapaz. ― Inicialmente, julguei que a essência te enviara para me substituir, mas agora percebi o que aconteceu. A essência não te criou oposição, porque o Fluído indicava que matarias a minha família e reclamarias o trono. Dentro de ti, ela já percebeu que essa intenção desapareceu ou, pelo menos, foi mitigada. O meu pai pode ter-se avassalado à doutrina, mas nem ele pretende reclamar a coroa, nem está destinado a isso. Ela queria um de nós dois com a coroa de acanto na cabeça, porque apenas um dos seus instrumentos lhe pode dar voz com legitimidade. Espalhar o verbo pelo Império. O meu irmão é um sério obstáculo a isso. Eles vieram, para o matar.

O silvar do cão tornou-se mais carregado com a aproximação do rapaz.

― Eles? ― perguntou Língua de Ferro.

― Sabes a quem me refiro. Durante mais de trezentos anos, o poder distribuído às famílias originais de Chrygia retrocedeu e avançou de forma periódica, até que a essência percebeu que os deuses haviam escolhido um caminho pantanoso e de interesses questionáveis. Um caminho que poderia levar-nos a todos ao abismo, baseado no poder e na arrogância. Nessa altura, os circuitos comerciais foram desviados e Chrygia passou por um período de contusão social, durante o governo de Cacetel Damasi. A cidade tinha então duas mil pessoas e chamava-se de capital do Império, a funcionar como coração das rotas comerciais. A descentralização foi essencial nos planos da essência em reformular o mundo. Ela não tinha intenção de modificar os planos sociais, mas reverter a forma como as pessoas a encaravam. Acreditava que a arrogância dos homens provinha dos deuses, e então tirou-lhes os deuses e tirou-lhes a água. Mas mesmo a caminho da extinção, os homens continuam arrogantes.

Os olhos de Língua de Ferro abriram-se de susto, não só pelas palavras do pequeno Anos, como pelo movimento súbito do canídeo. O enorme cão lançou-se para o rapaz e abocanhou-lhe a cabeça careca, fazendo chover um jato de miolos à sua volta. O jovem parecia ter-se entregue a ele voluntariamente, pelo que não exibira qualquer tremor ou lançara qualquer grito nos momentos que antecederam a sua morte. Língua de Ferro deu um passo atrás, incrédulo por ter permitido que a criança fosse assassinada. O animal mastigou-lhe os restos, sem deixar de o mirar de olhos vazios.

Sem título
“Cão” (Fonte: mundotentacular.blogspot.com)

Claro, percebeu. A essência quer ver Allen morto. Isso explica a minha vontade de o matar. Deu outro passo para trás, quando ouviu sons desagradavelmente familiares atrás de si. Dois cães, com a pelagem tão negra quanto a do primeiro, de olhos tão brancos e altura tão elevada quanto a dele, transpuseram a porta na sua direção. A essência não quer livrar-se apenas de Allen, mas também dos instrumentos que já não lhe servem.

O cão que matou Mia e Anos ergueu as patas dianteiras, fê-las cair no chão com um bambolear suave e ganhou balanço para a frente, lançando-se para cima do salteador. Língua de Ferro viu-lhe os músculos a pulsar no peito, as patas perfeitamente fletidas e a investida pareceu-lhe um borrão em retrospetiva. Não teria barreira mágica para se defender, sabia-o, mas nunca precisara dela. Os reflexos assumiram o lugar que lhe pertenciam quando abriu a bocarra do animal com as próprias mãos e puxou-lhe a cabeça com um torção. Língua de Ferro era um bárbaro, uma lenda dos desertos, um animal em corpo de gente. O peso do oponente fê-lo cair para o lado.

Mataria aquele animal com toda a propriedade. Fê-lo com selvajaria. Mas tanta bravura e ferocidade, paixão à vingança e corpulência física não lhe bastariam. Havia mais dois cães daqueles a avançar para ele, com raiva a verter-se-lhes das mandíbulas. Seria desmembrado e transformado em ração, se tiros não fossem disparados da entrada da cozinha, fazendo os animais encolherem-se e ganirem antes de caírem com manchas vermelhas nos dorsos negros como a noite.

Os cães gigantescos foram abatidos a tiro, o que lhe revelou não estarem protegidos pelo halo de proteção que os escolhidos pela essência costumavam deter. Talvez tal blindagem não granjeasse os animais, ou talvez a essência não os achasse importantes para lhas conceder. Língua de Ferro sentiu os dedos cheios de sangue que não era seu quando removeu os dedos da boca do animal que enfrentara. Sentou-se no mármore, com os reflexos embotados pela reação da essência no seu corpo. Viu vultos turvos à sua volta. Quando sentiu mãos nos seus ombros, reconheceu o jovem que o abraçava. Sob as sobrancelhas douradas, Tayscar parecia preocupado.

Atrás dele, sobranceiro, Seji ajeitava o mosquete com o ar presunçoso de quem salvara o dia. Atrás dele, às portas da cozinha, um homem com uma sobrecasaca de veludo cheia de bolsos e botões removeu uma máscara cinzenta do rosto, cujo nariz proeminente dava-lhe uma aparência risível. Era Dagias Marovarola, a balançar os caracóis negros e a gingar as ancas.

― Dívida saldada, Valentina. Não precisas agradecer-me. ― Aproximou-se de uma mesa, removeu a tampa de uma panela, sorveu o ar à sua volta e perguntou: ― O que é que há para jantar?

Se não tivesse assistido à morte de uma mulher e de uma criança inocentes, talvez sorrisse. Língua de Ferro ergueu-se de súbito e disse:

― Jantas depois. Ainda há trabalho a fazer. Por que raio demoraram tanto tempo a chegar?

Tayscar atirou-lhe um dedo indicador, acusatório:

― O seu plano deixou muitas brechas abertas. Porque não nos contou ainda nos Poços o que pretendia?

Não podia perder tempo a explicar-lhes tudo.

― Nunca verbalizei o meu plano em voz alta. Limitei-me a matar dois camelos e a pedir a Empecilho para os enterrar. Precisava fazê-los acreditar que tinha morto as miúdas. Duvidava que, através de mim, a essência não o descobrisse, e desse modo, Vance também o soubesse, mas precisava colocá-las em segurança e temia que Sander Camilli as mandasse matar. Para provar a minha lealdade à essência e conquistar a confiança de Chrygia, achei por bem forjar a morte das raparigas e enterrar os camelos junto ao cadáver do pai delas.

― E mandou-as de volta, sozinhas ― grunhiu Seji, com censura.

― Chegaram vivas, não chegaram?

― Por pouco ― respondeu Tayscar, cheio de azedume. ― Quase que as matou.

Isso não aconteceria, pensou Língua de Ferro, sem o verbalizar. Algo dos deuses mortos que matou o pai delas ainda vive no seu íntimo, e regressará, mais cedo ou mais tarde.

― Não importa. ― Virou o rosto para Marovarola. ― Uma vez que estás aqui, significa que elas transmitiram a mensagem e estão em segurança.

Marovarola passou com uma manga pelo nariz, limpando o muco que lhe escorria para a boca.

― Sim, Valentina. A tua cavalaria chegou. Tal como planeaste, sabotamos um comboio, fizemo-nos passar por locais e seduzimos umas copeiras. Onde é que está o maldito Camilli para o matar?

Sem título
“Pirata” (Fonte: fineartamerica.com)

Língua de Ferro suspirou profundamente, enquanto passava por eles e dirigia-se ao quarto para recuperar Apalasi.

― O jogo mudou, Marovarola. E o alvo também. Não vamos matar Sander Camilli.

Marovarola seguiu-o pelo corredor em passos bambos e rápidos, com Tayscar e Seji a segui-los sem vontade.

― Como assim? ― perguntou Marovarola. ― Quem é que vamos matar então?

Língua de Ferro pegou num candeeiro sobre uma cómoda e voltou a pousá-la.

― Vance Cego. O nosso velho amigo está aqui para matar Allen e eu vou impedi-lo. Estes cachorrinhos foram uma manobra de diversão para espalhar o terror no Capitólio e tirar-me do Salão de Baile.

Dagias Marovarola parou, com os olhos muito abertos.

― Mas, por que carga de água queres tu salvar Allen? O maldito é um cabrão presunçoso.

Língua de Ferro virou-se rapidamente e encostou o homem a uma parede, pelo pescoço. Viu os olhos de Marovarola a abrirem-se muito e apertou ainda mais os polegares na sua garganta. Sentiu vontade de o estrangular, ou talvez fosse a vontade da essência.

― Também tu és um cabrão presunçoso. Eu sei tudo, Marovarola. Eu sei que foram vocês que mataram o Regan.

Soltou-lhe o colarinho e deixou-o cair sentado no solo. Seji e Tayscar trocaram um olhar confuso. Quando Língua de Ferro lhes virou as costas, Marovarola começou a gargarejar.

― Ora, Val, Dzanela era um cretino. Demasiado certinho, demasiado seguidor das suas próprias regras. Lembras-te do que ele lhes chamava? Ética de salteador. Sim, foram mesmo essas as palavras que ele disse quando trocei dele. Antes de lhe dar um tiro. Não tive gosto em fazê-lo, mas Eduarda pagou-me uma pipa de ouro pela vida dele…

As palavras morreram-lhe na boca, ao perceber que se denunciara. Língua de Ferro lançou-lhe um olhar mortífero. Se tivesse uma arma nas mãos, possivelmente matá-lo-ia ali. Fá-lo-ia de mãos nuas. Sentiu-se impelido a fazê-lo, mas queria saber mais sobre aquilo.

― Marovarola, eu convivi convosco. Eu vi o horror nos olhos de Eduarda. Eu senti a verdade das vossas palavras. E agora, descubro que é tudo mais uma mentira que me atiraram aos olhos?

Dagias Marovarola fechou os olhos.

― Luce e Eduarda inventaram muitas mentiras. O medo pelas filhas deles era verdadeiro. E o medo que sentiam por Sander Camilli também…

Língua de Ferro fechou a boca numa expressão que sugeria fortemente que lhe iria cuspir em cima. Não o fez.

― Sander Camilli nunca lhes fez realmente oposição. O filho dele, sim.

― Sander Camilli teve um filho muito parecido com o profeta que os levou ao poder ― revelou Marovarola. ― Eles temiam que a força que enviara Vance para eles, que os alertara para o final do mundo como o conheciam e os exortou a reservar a água em poços, lhes roubasse agora o que tinham conquistado a favor de Camilli. Ora, Val, se o que Tayscar e Seji me contaram é verdade, tu estiveste lá dentro. Viste o que as miúdas tinham dentro delas. Eduarda e Luce estavam apavorados com isso. E, mesmo assim, também temiam que ele as matasse.

― A essência usou Sander Camilli para atrasar o regresso dos deuses ― disse Língua de Ferro. ― Mas nunca o quis no poder. Nem a ele, nem a Allen, nem a Luce ou a Eduarda. A essência quis-me no poder. A mim. Pelo menos, provisoriamente. Por alguma razão, vejo-me a cair envenenado aos pés de um criado qualquer, e vejo Vance a tutorar o pequeno Anos até que este atingisse a maioridade. A essência não contava que ambos nos virássemos contra ela. Agora, só lhe parece restar Vance, e Vance nunca me pareceu talhado para o poder. Muito provavelmente, os ditames do Fluído levam agora Semboula numa outra direção. Ou Vance tem um segredo qualquer com ele, ou não restará muito mais à raça humana quando a água dos Poços acabar. Quando isso acontecer, a raça humana será extinta.

Marovarola arqueou as sobrancelhas, e começou a rir como um louco.
Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis | Capítulo Vinte e Sete | Capítulo Vinte e Oito | Capítulo Vinte e Nove

Estou no Wattpad #28

Perdoem-me o atraso. Sei que vos tinha prometido novo capítulo no domingo, mas com a ida ao Sci-Fi Lx, o aniversário de um primo e o meu, estes primeiros dias de férias não me deixaram qualquer espaço para deixar o capítulo pronto a publicar. Depois de uma lição de etiqueta, Língua de Ferro descobriu que o esclavagista que havia estado em conluio com Lucilla, Varro, está de regresso a Chrygia, mas não é o único a chegar para o grande baile. Anos, o pequeno filho de Sander Camilli, oferece ao salteador pequenas revelações que podem mudar o rumo da história.

CAPÍTULO VINTE E OITO: O BAILE

Se tivesse tomado a liberdade de fintar o destino, havia recolhido a fortuna das minhas apostas, preparado Hije para mais uma viagem e seguido para leste, estabelecendo-me numa das antigas cidades fronteiriças como mecenas ou senhor local. Todavia, essa não era a minha essência, e posso dizer que, por esses dias, como em todos os outros, os ditames do Fluído já haviam sido definidos para mim. De Constania a Careepi havia viajado num camelo surripiado, e depois de encher os bolsos e reencontrar o meu diabo, escondi-me numa aldeia-riscada, que era o que chamavam àqueles fragmentos de cidades semi-destruídas pela Seca que agora não eram suportados por legislação ou magistérios, o que os tornava esconderijos perfeitos para todo o tipo de contrabandistas, caloteiros, ladrões e assassinos. Esperei que os rumores sobre a minha fuga se espalhassem, até procurar um velho ourives, vendedor de pedras contrafeitas que chegara de Veza dois dias antes. Foi através dele que cheguei a Bortoli, que engordara a carteira a olhos vistos e se havia tornado um famigerado mecenas, a quem se lhe conhecia fortuna em todas as sete cidades do deserto oriental. Vi-o quando passou por aquela aldeia, cercado de uma segurança apertada, seguido por uma caravana de camelos, rolos de seda e paletes de especiarias. Não deixei que ele me visse; caso me identificasse naquele momento, tenho a certeza que ordenaria a minha morte, mesmo num povoado clandestino como aquele. Observei-o de longe, escondido nas sombras dos becos e das vielas, enquanto ele fazia os seus negócios obscuros. Por aqueles dias, já não era segredo para mim que Mario Bortoli almejava fazer sombra ao novo Imperador, e que havia selado importantes alianças com tribos rezolis para lhe fazer oposição. Sub-repticiamente, através do ourives, deixei-lhe mensagens, oferecendo a minha espada aos seus serviços. Chamem-me ingénuo, mas eu acreditava que aquele mundo tornara-se demasiado pequeno para mim. Daria um olho da cara para ver a expressão de Bortoli no dia em que finalmente assinei uma das missivas que trocámos.”

― Dooda Vvertagla não era a pessoa que você julga que era ― disse-lhe Sander Camilli enquanto desciam a escadaria. ― Se ele fosse esse sujeito honrado de que fala, teria ele comandado um lendário grupo de salteadores? Liderado o assalto ao Império?

Língua de Ferro acompanhava-lhe o passo com as mãos nos bolsos e a mente enegrecida pelos pensamentos. Não se sentia confortável por ter deixado Apalasi no quarto, mas seria profundamente desrespeitoso apresentar-se armado num baile. As palavras de Camilli pareciam unhas a esgravatar uma borbulha cheia de pus na sua mente.

― Ele tinha um sentido de justiça, senador. Quem de nós tem moral para censurá-lo? Trabalhamos para o mesmo, ainda que ele tenha declinado a oportunidade de ser coroado quando ela se lhe apresentou.

Sander Camilli soltou uma risadinha nervosa.

― Pergunto-me quanto você conheceu do homem, Valentina.

Língua de Ferro não partilhou da sua falsa alegria. As palavras de Sander Camilli estavam impregnadas de azedume. A crer nas palavras da Intendente, o senador fora apaixonado por Dooda, e era notório que o seu desprezo por ele devia-se essencialmente à rejeição.

― Muito mais do que você, asseguro-lhe.

― Lamento, Valentina, mas depois da sua traição, julga mesmo que ele o perdoou? Ele era obcecado por Lucilla. Recorde-se que ambos estiveram por detrás da sua captura. Atiraram-no para a Prisão.

Língua de Ferro suspirou.

― Ele suicidou-se para me salvar.

Foram interpelados por uma gargalhada. Na base da escadaria, com um paramento militar coberto de estrelas douradas e dragonas aos ombros, a Intendente testemunhava a discussão. Tinha uma máscara de lacre escuro na forma de uma coruja sobre o rosto, mas Língua de Ferro não sentiu dificuldade alguma em identificá-la.

― Está a falar de Dooda Vvertagla, Língua de Ferro? Prometemos-lhe que saberia a verdade neste baile, concedo-lhe isso. Dooda estava condenado à morte. ― Sander chegou à base da escadaria e enlaçou o braço no da Intendente. ― Tinha uma doença grave, peneias azuis. Partes do corpo que enegreciam. Não há para isso uma cura milagrosa e Dooda não ia esperar pelos dias terríveis que esperam os condenados. Usou a vida para conseguir fazer valer as suas intenções e atirar Allen para as vossas mãos. Lucilla e Eduarda percebiam que Allen começava a fugir ao seu jugo, a ter ideias próprias, a manifestar vontade em exercer o título que lhe atribuíram em público. Convenhamos, era inexperiente na política, mas com Sander a aconselhá-lo, daria um bom líder.

― Talvez ainda julguem que sim ― disse Língua de Ferro, certo de que o pretendiam coroar.

Chegou à base da escadaria e prosseguiram o caminho, lado a lado, em direção ao Salão de Baile.

― Nunca excluímos essa hipótese, se bem que o rapaz está bastante fragilizado de saúde ― disse Sander Camilli com um suspiro, e caso Língua de Ferro não ouvisse o seu testemunho no Senado, julgá-lo-ia sincero.

Um par de guardas abriu as portas do salão para eles, quando a Intendente sussurrou:

― Lucilla tencionava matá-lo. Regan virou-se contra ela e tentou defender o irmão. Se, até ali, não viam Allen como um verdadeiro perigo, posso dizer que o irmão dele, por tudo o que haviam partilhado, era bem mais arrojado e podia, realmente, arruinar-lhe os planos a favor do irmão. Com Dooda a trabalhar como espião, tornou-se imperial que Eduarda deixasse Ccantia por sua conta e risco e se fixasse em Chrygia como um dos membros do Triunvirato. Foi por isso, essencialmente, que montaram a emboscada a Regan. Durante uma campanha nos desertos, a sua diligência foi atacada. Ele escapou com graves ferimentos, mas não foi muito longe.

Língua de Ferro fechou os olhos, enquanto transpunha as pesadas portas do salão. Tentava acreditar que aquilo era mentira, que Lucilla e Eduarda não eram os autores morais da morte de Regan. Algo dentro dele, a sua vontade, insistia consigo que era mentira, mas tudo lhe parecia fazer demasiado sentido para sê-lo. O Salão estava repleto de pessoas, homens vestidos de gibão e ternos de algodão, senhoras com belos corpetes de seda, veludo e pano de prata, cheios de folhos e pedrarias. Muitos traziam máscaras nos rostos, outros limitavam-se a usar perucas e disfarces pontuais. Sander Camilli e Língua de Ferro eram dos poucos que não portavam qualquer disfarce.

Sem título
Baile (Fonte: youtube.com)

― E no que é que a morte de Regan está relacionada com a morte de Dooda? ― perguntou-lhes.

― Dooda estava feito com eles, é claro ― disse Sander, e parou para se virar para ele. Esperou que um casal com máscaras na forma de focinhos de aves, com belos trajes de veludo, passasse por si. ― Ele amava Lucilla, apesar de nunca retomarem a velha relação que vós conhecestes. De certo modo, até apadrinhou o romance entre Anéis da Morte e a mulher. Pelo que me contaram, todos eles mudaram muito desde que traíste os Doze Vermelhos. As relações modificaram-se, e Dooda foi aquele que mais sofreu, refugiando-se numa máscara de passividade quando todo o seu interior regurgitava de veneno. Ele estava doente há já algum tempo, e limitou-se a aceitar aquele relacionamento como parte de algo maior. Vingar-se de ti.

Língua de Ferro cerrou os dentes.

― Ela traiu-o tanto quanto eu…

― Os argumentos de uma mulher podem ser um pouquinho mais convincentes ― interferiu a Intendente, com ironia no tom de voz. ― Com Regan morto, Allen nas tuas mãos e Eduarda no poder, Sander nada podia fazer para interferir na gestão do Império. Estava em minoria. Só o mantiveram no poder porque tinha influência no senado e conhecimentos que lhes faziam falta. Digamos que o meu esposo nunca se lhes opôs com frontalidade. Era um carneirinho na sua presença.

Sentiu uma ligeira tensão entre o casal, quando trocaram um olhar cauteloso.

― Isso não é bem assim ― contrapôs Sander, mas Língua de Ferro sabia que era e que Lucilla o utilizara como bode expiatório, rotulando-o como senhor malvado de Chrygia para sacudir dos seus ombros várias responsabilidades.

Transeuntes passaram por eles, com vestes requintadas, alguns com máscaras nos rostos, todos eles mexericos e gargarejos. Esperou que um grupo de cinco pessoas passasse por eles e reverenciassem Camilli, para lançar-lhes uma última pergunta.

― Porquê Allen? O que é que ele tem de especial? E porque quereriam eles deixá-lo nas minhas mãos?

― Porque ― disse Sander Camilli ―, na melhor das hipóteses, ele encher-te-ia os ouvidos com mentiras. Na pior, matá-lo-ias. Qualquer das hipóteses seria conveniente aos seus planos.

Retomaram a marcha. Entre tantas figuras desconhecidas, Língua de Ferro reconheceu alguns rostos. Ciaran portava-se com um verdadeiro anfitrião, conduzindo os convivas às suas mesas em passos lentos e arrastados, ainda assim perfeitamente cortês. Exuberâncias de loiças e guardanapos em leque transformavam as correntezas de mesas numa excentricidade luxuosa. Havia malabaristas e trovadores, e os sons das flautas eram abafados pelas conversas intermináveis dos convidados. Língua de Ferro sentia que vários olhares eram-lhe endereçados, todos eles com cautela e hostilidade. O baile era em sua honra e ao serviço que prestara a Chrygia ao quebrar o cerco da cidade, mas o que sentia era uma profunda desconfiança. As pessoas não estavam ali para o reverenciar, mas sim para festejar, porque nenhuma figura da nobreza que se prezasse podia faltar a um evento daqueles. Concentrou o rosto marcado pelas bexigas do General Pantaleoni, com profundas olheiras e olhar grave, numa mesa com a esposa, o sogro, um senador velho e cadavérico, e o filho, Degas, que apontou na direção de Língua de Ferro mal o viu, com ousadia e indignação no olhar. Vários dos senadores que havia encontrado na Câmara do Senado também ali estavam, a fitá-lo com desagrado. Tentarão matar-me esta noite?

― E se Allen me contasse a verdade? ― perguntou.

― Não seria uma grande perda ― respondeu a Intendente. ― Mas seria pouco provável. Allen sempre teve dotes de ator, e tinham o pai dele nas suas mãos. A morte do irmão fora um aviso bem sério de que não estavam para brincadeiras. Só quando raptamos as filhas deles é que Lucilla e Eduarda começaram a perceber que tínhamos as nossas armas e não éramos tão inofensivos como pensavam. Em boa verdade, até eles estavam assustados com aquilo que as miúdas tinham dentro delas, mas eram as filhas. A partir daí, começou um braço de ferro entre nós, e com Bortoli a morder-lhes os calcanhares, decidiram envolver-te no jogo deles.

Língua de Ferro sentiu-se derrotado. Sentia-se um idiota. Lucilla estivera por detrás de todas as armadilhas. Odiava-a profundamente, e mais profundamente do que isso, amava-a. E era isso que o dilacerava por dentro. Dooda, Lucilla e Eduarda tinham-no enganado. Meneou a cabeça e tentou atirar esses pensamentos para depois.

Sander Camilli cumprimentou uma matrona exuberante, que ergueu a máscara nariguda para o reverenciar com uma mesura, e voltaram a avançar. Varro liderava uma mesa ampla, cheia de jovens mulheres, belas e de pouca roupa, que emborcavam licores uns atrás dos outros. O esclavagista trocou com Sander um breve aceno de cabeça, mas não se deteram por mais tempo. Língua de Ferro viu no olhar de Varro um veneno ácido, a borbulhar. Sorriu ao reconhecer várias figuras familiares numa mesa próxima. Boca de Sapo tinha uma máscara de urso no rosto, Ravella um exuberante vestido drapeado com madrepérolas e Empecilho um fino fato vermelho de veludo. Com um olhar brilhante e sincero, o rapaz acenou-lhe, quando o viu. A figura de costas, com uma ampla peruca grisalha cheia de cachos e um gibão de veludo verde, era Jupett Vance. Não precisava ver-lhe o rosto para sabê-lo.

Sem título
Baile (Fonte: servandorocha.com)

Mais à frente, uma larga mesa esperava-os com distinção. Língua de Ferro reconheceu que lhes pertencia e quis fechar o seu esclarecimento com uma última questão.

― Falaram no pai de Allen. Que Luce e Eduarda o tinham em seu poder. Onde está ele? Talvez possa falar-lhe depois.

A Intendente baixou a cabeça e Sander respirou pausadamente, antes de apontar para a mesa. Encontrou os filhos de Sander Camilli sentados em fila, todos virados para a frente do Salão. Estava ali o pequeno Anos, que o saudou com um sorriso mal o viu, estavam ali Ceil e Amehia, com sorrisos abertos e a mexericar, e três outras raparigas de tons pálidos que seriam suas irmãs. Viu também Allen, com um aspeto amarelo e febril.

― Valentina ― sussurrou Sander num tom cansado. ― Disse-te que descobririas a verdade neste baile. Aqui a tens. Eu sou o pai de Allen e Regan. Ainda acreditas que sou eu o assassino do teu amigo?

Língua de Ferro estreitou os olhos com a surpresa. Sentiu-se a mergulhar em água fria. Fixou o rosto doente de Allen, mas ele não lhe retribuiu o olhar. Estava pálido e não parecia sentir a melhor das vontades em estar ali presente. Era assessorado por um escravo, e cada movimento parecia doer-lhe. Recebeste um tratamento doloroso, e o teu torturador está entre nós, se ainda não o reconheceste, pensou Língua de Ferro. Por alguma razão, sentia pena de não ter sido ele a torturá-lo.

A mesa onde se encontravam era a mais comprida e exuberante do Salão, e um empregado vestido de terno apressou-se a chegar para trás o seu cadeirão. Seria o primeiro dos três a sentar-se, como direito de convidado de honra. Depois de Língua de Ferro sentaram-se Sander Camilli e a Intendente, um de cada lado. O último lugar que faltava preencher pertencia à senhorita Finn, que chegou com um passo apressado e logo os cumprimentou com distinção.

― Está tudo a postos ― disse. ― Dei instruções para começarem a servir.

Sander Camilli sorriu-lhe antes que ela se sentasse.

― Obrigado, mãe!

Língua de Ferro abriu a boca num misto de admiração e sorriso. Recordou-se do hábito comum aos dois em empurrar as lunetas contra a cana do nariz e sentiu vontade de rir. O pai e a avó de Dzanela, pensou, ao recordar-se do velho amigo. O amigo que o traíra para salvar a família das mãos de Lucilla. Beliscou uma azeitona e depois de remover o caroço da boca com os dedos, colocou-o na borda de um prato. Finn pareceu observá-lo e lançou-lhe um olhar de censura. Língua de Ferro esperou que a refeição fosse servida para aproximar a boca do ouvido de Sander Camilli.

― Sabe que a sua filha Ceil se anda a encontrar com Varro?

O senador sorriu.

― Também eu já me encontrei com ele. O que é que isso pode ter de mal?

Língua de Ferro tossicou com um sorriso trocista.

― É do conhecimento público a relação que encetam ― disse. ― Preocupam-me mais as motivações do vendedor de escravos. Ele fê-lo a mando de Lucilla, e a sua filha parece apaixonada por ele.

Sentiu um breve constrangimento atravessar os olhos de Sander Camilli, enquanto cortava um pedaço de pernil assado.

Sem título
Máscara (Fonte: pinterest.com/explore/cyrano-de-bergerac-play)

― Pelo que me constou, a minha filha Ceil também se encontrou consigo e, no entanto, não me parece apaixonada.

Língua de Ferro cerrou os dentes. O homem não queria ver o que estava à frente dos seus olhos.

― Ceil usou-me para agravar Degas Pantaleoni. Para que ele rompesse o noivado e ficasse livre para Varro.

― Permita-me a descortesia, Valentina, mas esse assunto não é da sua conta. Meta-se na sua vida.

O salteador não engoliu aquilo.

― Isto é a minha vida, Sander. Não me disse antes que tencionava coroar-me? ― O constrangimento parecia cada vez mais notório em Sander Camilli. ― Eu sei que há quem queira matar-me esta noite. E que você planeia usar-me como seu instrumento, enquanto prepara a coroa para o seu rico filho Allen. Também sei que Ceil não é filha de uma escrava qualquer e que você matou a mãe dele quando a encontrou com um amante.

Sander Camilli virou o rosto para si, completamente aturdido.

― Falem mais baixo ― exortou a Intendente ao seu lado direito.

― Eu… eu… ― Sander Camilli engoliu a afronta e fez baixar os ombros, sem hipótese de rebater. ― Gostaria de saber como tomou conhecimento de tudo isso. Matarei o maldito traidor que deu com a língua nos dentes. Certamente que foi um opositor dentro do senado.

― Poupe-se a isso ― grunhiu Língua de Ferro. ― Descobri por minha conta e risco. Talvez ainda esteja a tempo de juntar-se àqueles que pretendem reclamar a minha cabeça esta noite.

― Cale-se ― exigiu Sander Camilli, baixo o suficiente para não despertar atenções. ― A minha filha Ceil é imprevisível e caprichosa. A mãe dela era igual. Eu amava-a, mas traiu-me da pior forma que uma mulher pode trair um homem. Encontrei-a nos braços do meu melhor amigo, o senador Cavallare. Matei-os aos dois e não é algo de que me arrependa. Acontece que Cavallare era irmão de Simono Gogios, o avô de Degas, que me tem criado alguma oposição no Senado. Ele é um dos impulsionadores da ideia de que você deve ser morto, Valentina. Não fosse a importância do General Pantaleoni, já teria quebrado aquela família. Ainda assim, se puder evitar que Ceil se case com Degas de forma passiva, tanto melhor. Quanto à relação de Ceil com Varro, eu próprio lhe pedi para o manter entretido, sob rédea curta. Não me parece merecedor de grande preocupação desde que nos chegou a notícia da morte de Lucilla, mas pretendo saber se ainda detém qualquer motivação para se nos opôr.

Língua de Ferro mastigou calmamente, ao compreender que Sander estava consciente de todos os pequenos passos que eram dados no interior do Capitólio. Tinha bons olhos, e usava a filha Ceil a seu bel-prazer, embora parecesse cego para com as vontades autónomas da rapariga. Sentiu-se propenso em dizer-lhe que a filha Amehia estava apaixonada pelo rapaz Pantaleoni, quando alguém abriu o baile com um rugido. Nem dois minutos mais tarde, Ceil lançou-se para a sua frente e esticou um braço na sua direção.

― Senhor Valentina, dá-me a honra desta dança?

Língua de Ferro sorriu. Várias máscaras, removidas para o jantar, foram recolocadas, e o perímetro de dança ficou cheio de gente. O salteador foi arrastado pela rapariga para o centro do salão e sentiu-se aliciado pelo seu olhar ansioso e prometedor. Uma opereta começou a tocar e Ceil segurou-lhe os ombros largos. Puxou-o para lhe dizer aos ouvidos:

― Deixe-me comandar os seus passos. Limite-se a seguir-me.

― Ora, julguei que você comanda sempre os meus passos. Esta noite, você vai descobrir que eu nasci para dançar.

A rapariga soltou uma gargalhada. Língua de Ferro sentiu a maciez daquela pele nos seus dedos endurecidos, uma frescura tentadora que lhe relembrava porque era tão bom sentir-se vivo. No rosto da rapariga, porém, viu outros traços. Mais duros e tentadores. Viu o rosto de Lucilla. Deu passos para a esquerda e para a direita, seguindo-a atentamente. A dado momento, ao padrão dos seus passos começaram a dançar em círculos. Língua de Ferro viu-se visado do olhar venenoso de Varro e do olhar ofendido de Degas Pantaleoni. Quando o corpo de Ceil tombou para trás, suportado pela mão ampla do guerreiro, este perguntou-lhe:

― Sentes alguma coisa por Varro?

A rapariga não parava de rir. Lançou-se para a frente, para retomar a posição original, e levou as mãos às ancas.

― Está com ciúmes, senhor Valentina?

Ele sorriu-lhe, e quando se preparou para responder, ouviu os primeiros gritos. A sua expressão ensombrou-se. Sentiu os ombros a ficarem tensos.

― O que foi? ― perguntou ela, assustada.

― Socorro! ― gritou uma voz distante. Em pouco tempo, os soluços arrastados e guinchos aterrorizados começaram a fazer-se ouvir por todo o salão. ― Eles vêm aí!

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis | Capítulo Vinte e Sete | Capítulo Vinte e Oito

Estive a Ler: A Jornada do Assassino, Saga O Regresso do Assassino #4

Perguntei brevemente a mim próprio se os súbitos planos para a partida teriam alguma coisa a ver com a cena noturna que presenciara, mas depois vi a libertação de uma ave que levava a notícia da nossa partida e decidi que as novas nos teriam sem dúvida sido trazidas pelas mesmas asas.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Jornada do Assassino”, quarto volume da série Saga O Regresso do Assassino

O livro Fool’s Fate é o último da trilogia The Tawny Man, da autora de fantasia Robin Hobb. Em Portugal foi dividido em dois volumes, tratando-se este livro da sua primeira metade. Lançado em 2012 pela Edições Saída de Emergência, com tradução de Jorge Candeias, A Jornada do Assassino é o quarto volume da versão em português da saga intitulada O Regresso do Assassino.

Licenciada em Comunicação pela Universidade de Denver, a autora californiana Margaret Ogden é autora de diversos livros de fantasia contemporânea sob o pseudónimo Megan Lindholm, dedicando-se à fantasia épica com o nome Robin Hobb. Após alguns anos a viver no Alasca, reside atualmente em Tacoma, Washington.

Sem título
Fogojelo (Fonte: lollo.deviantart.com)

Os preparativos para a viagem

Para bem dos Seis Ducados, o Príncipe Respeitador deve contrair matrimónio com a princesa Eliânia, a narcheska das Ilhas Externas. Um falhanço no enlace pode conduzir os povos a uma guerra tão letal quanto foi a Guerra dos Navios Vermelhos. Todavia, uma ofensa do príncipe levou a narcheska e erguer-lhe um desafio. Para se casar com ela, deve entregar-lhe a cabeça de uma figura lendária, o dragão Fogojelo, enterrado na ilha de Aslevjal. A Jornada do Assassino começa com os preparativos para a viagem.

FitzCavalaria, sob o disfarce de Tomé Texugo, prossegue a sua função como Mestre do Talento do Príncipe. Claro está, tanto ele como o seu mentor Breu ou o atrasado Obtuso irão participar na jornada do príncipe, uma vez que são o seu Círculo de Talento, peça provavelmente fundamental na tarefa de matar o dragão. Quem também irá acompanhá-los é o Círculo de Manha de Respeitador. Para além de dotado na magia da nobreza, o Talento, o Príncipe Respeitador é também Manhoso, precisando exercitar-se na magia dos animais.

Sem título
(Fonte: starvingdesigner.blogspot.com)

O que preocupa Fitz é, acima de tudo, a profecia do Bobo. O seu velho amigo, que dá agora pelo nome de Dom Dourado, parece gastar fortunas ao jogo, apenas para se ver livre de todo o seu pecúlio. Afinal, ele profetizou que iria morrer na demanda para Aslevjal, de modo a conservar o dragão vivo e proporcionar o encontro entre Fogojelo e Tintaglia, o dragão fêmea dos Ermos Chuvosos, e garantir a sua prole. Enquanto Fitz parece bastante preocupado com a ideia de ver o amigo morrer, Breu está incomodado com a ideia do Bobo em salvar o dragão, podendo com isso arruinar os planos da Rainha.

Os temores de Breu e Fitz unem-se numa concordância: o Bobo não deve partir de Torre do Cervo. Enquanto ganha coragem para resolver velhas querelas e deixar o destino do filho adoptivo, Zar, entregue a ele mesmo, Fitz tem ainda um problema a resolver. Ele descobre que Veloz, o filho de Castro, o homem que o criou, com Moli, a mulher que sempre amou, está em Torre do Cervo para servir a Rainha e treinar a Manha, não com o aval dos pais, mas por sua própria conta e risco.

Sem título
Bobo (vlac.deviantar.com)

Aterrorizado com o desassossego dos pais para com o desaparecimento de Veloz, Fitz contacta Urtiga, a sua filha, criada por Castro como dele, dando-lhe conta de que o irmão está em segurança e que em breve estará de regresso a casa. De facto, Fitz manda-o embora, quase ao mesmo tempo que descobre algo inquietante: Teio, o Mestre da Manha, vinculado a uma gaivota chamada Risca, sabe quem ele é. FitzCavalaria Visionário, o herdeiro bastardo de Cavalaria. O lendário Bastardo Manhoso.

Breu consegue impedir que o Bobo viaje com o grupo para as Ilhas Externas. Através das suas influências, o conselheiro da Rainha faz com que o Bobo seja feito prisioneiro, pelo menos o tempo suficiente até zarparem e estarem longe e em segurança. Apesar de saber que não podia deixá-lo viajar consigo, sabendo que ele iria morrer, Fitz não se sente confortável com aquilo, pesando-lhe a consciência. A viagem para as Ilhas Externas é morosa e terrível, muito por culpa de Obtuso. Fitz é destacado para o acompanhar, o que se revela uma tarefa árdua. O jovem está sempre enjoado e a vomitar, e só quer voltar para casa.

Sem título
Fitz e o Bobo (Fonte: foolsbeloved.tumblr.com)

Apenas a ajuda de Teio socorre Fitz do seu calvário. O homem parece dotado na arte de acalmar e a forma como lida com as pessoas fá-lo lembrar do modo como Castro lidava com os animais, na sua infância. Também Urtiga, através dos sonhos, consegue acalmar Obtuso e minimizar o seu sofrimento. E é nos sonhos que Fitz é surpreendido pelo dragão Tintaglia, que tenta desesperadamente saber informações sobre Fogojelo e se é mesmo verdade haver outro dragão, um dragão vivo e capaz de lhe servir como parceiro.

Fitz descobre que Veloz desobedeceu à sua instrução e não voltou para os pais, integrando a frota e o Círculo de Manha do príncipe. Através de Urtiga, informa Castro de que o seu filho está com ele e em segurança, sabendo que, ao fazê-lo, o informa também de quem é e que está vivo. As repercussões de tal revelação podem fazer colapsar a relação de Castro com Moli, mas Fitz desconfia que essa relação está há muito puída.

A instabilidade de Obtuso é uma constante e Fitz martiriza-se por obrigá-lo a continuar, mesmo sabendo que ele é o mais poderoso de entre eles na arte do Talento. Vítimas de comentários trocistas e da volatilidade dos homens, chegam às Ilhas Externas, onde o Hetgurd, um concílio de clãs, deixa claro que, qualquer que seja o resultado da caça ao dragão, poderão haver conflitos prejudiciais para todos. Peotre Águapreta, o tio de Eliânia, rouba-os ao concílio para os levar até à narcheska. Fitz percebe que ela está mais adulta do que a conheceram em Torre do Cervo, como também percebe que o desprezo entre ela e o príncipe se transformou em algo, que pode muito bem resultar em amor.

Sem título
Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Os poderes do Assassino tornaram-no uma lenda.
Mas quando ensinar o herdeiro a usá-los, ficará o reino mais seguro ou irremediavelmente perdido?
Depois do desafio lançado ao Príncipe Respeitador pela narcheska das Ilhas Externas, só lhe resta embarcar para o país de Eliânia em busca do dragão de Aslejval que tanto pode existir como não passar de uma lenda antiga.
Fitz, o mais famoso e temido assassino do reino, irá com ele. Mas a partida do herdeiro ao trono dos Seis Ducados para uma atribulada viagem marítima até uma terra de antepassados e inimigos não é algo que se faça de ânimo leve.
Que desafios irão ter de enfrentar os nossos heróis? As magias que ambos manejam imperfeitamente, serão uma ajuda ou um empecilho?
E o que acontecerá aos Seis Ducados se o herdeiro desaparecer
para sempre nessa terra misteriosa e distante?

OPINIÃO:

A leitura deste livro foi deliciosa. Atrevo-me a dizer que foi “só” o melhor que já li este ano. Robin Hobb supera-se, livro após livro, e só não dou este A Jornada do Assassino como o melhor livro que já li graças a um obstáculo chamado precedentes. Falta-lhe a excentricidade de Scott Lynch e a paixão visceral de George R. R. Martin, mas ainda assim a escrita dela é de uma candura, de uma maleabilidade, de um encanto, de me deixar com o queixo caído. Robin Hobb conseguiu, nesta segunda série dedicada a FitzCavalaria, tornar-se uma das minhas autoras favoritas.

O que dizer das relações que ela cria? Cada personagem é de um maravilhamento fantástico, estejamos a falar de Fitz, Bobo, Obtuso, Breu, Respeitador ou Eliânia. Até mesmo a personagens muito mais secundários como Enigma ou Berbigão a autora consegue dar uma humanidade palpável. Fitz é o cúmulo de toda a sua grandiosidade como contadora de histórias. Sentimos cada desilusão, cada nó no estômago, cada linha de relacionamento daquele personagem. E é impossível não adorá-lo, mesmo quando ele erra, mesmo quando ele se escuda de um orgulho desnecessário. É uma personagem admirável.

Sem título
Cenas de Fool’s Fate (Fonte: ginger-snuffkin.deviantar.com)

A história ganhou mais fôlego e mais potencial com a saída para as Ilhas Externas. Esta jornada é uma brisa de ar fresco na narrativa e fica a sensação de que tudo pode acontecer para os nossos protagonistas. Eles estão todos ali. E mesmo com os personagens que não vemos, como Moli, Castro ou Kettricken, sentimos o que está a acontecer com eles, através das informações que chegam ao narrador. Desde que li As Crónicas de Gelo e Fogo que não me sentia tão viciado numa série literária. Acabo este livro com vontade de devorar o próximo.

“Fitz é o cúmulo de toda a sua grandiosidade como contadora de histórias. Sentimos cada desilusão, cada nó no estômago, cada linha de relacionamento daquele personagem.”

Robin Hobb não se reserva a plot-twists. Não lhe basta fazer variações de rumo narrativo, coser linhas de relacionamentos genuínas e maravilhosas, e fazer evoluir as personalidades dos personagens. Ela também cria surpresas. E quantas. A autora consegue a proeza de contar uma história dedinho a dedinho, correndo o risco de incorrer numa narração lenta, e fazer-nos sempre tropeçar em surpresas quando menos esperamos. Até as imensas páginas de enjoos marítimos de Obtuso conseguiram agradar-me. Senti vontade que o livro não acabasse, o que é muito raro de acontecer.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Saga do Assassino (Saída de Emergência):

#1 Aprendiz de Assassino

#2 O Punhal do Assassino

#3 A Corte dos Traidores

#4 A Vingança do Assassino

#5 A Demanda do Visionário

Saga O Regresso do Assassino (Saída de Emergência):

#1 O Regresso do Assassino

#2 Os Dilemas do Assassino

#3 Sangue do Assassino

#4 A Jornada do Assassino

#5 Os Dragões do Assassino

Estive a Ler: As Nuvens de Hamburgo

Olho-o nos olhos, decidida a enfrentá-lo. O que vejo deixa-me sem pingo de sangue. Estaco, incapaz de poder sequer falar. Abro e fecho a boca como um peixe fora de água.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro As Nuvens de Hamburgo

Publicado pela Flybooks, As Nuvens de Hamburgo é o novo trabalho de Pedro Cipriano, um dos grandes entusiastas da Ficção Especulativa em Portugal, a que dá voz através da editora que fundou – a Editorial Divergência. Depois de trabalhar na Alemanha durante anos, como cientista ligado ao CERN, o autor teve a ideia de criar um romance que ligasse o presente ao passado da cidade de Hamburgo, cidade cuja História, pessoas e locais conheceu bem de perto.

Assim nasceu As Nuvens de Hamburgo, um romance intemporal sobre culturas, pessoas e viagens no tempo, lançado no passado dia 18 de junho na Biblioteca Municipal de Vagos. No último domingo, 16 de julho, decorreu a apresentação do livro no Auditório 1 do Instituto Superior Técnico de Lisboa, apontamento inserido na convenção de ficção científica Sci-Fi Lx.

Sem título
Apresentação do livro no Sci-Fi Lx

Uma rapariga normal…

Marta é uma rapariga normal. Ou deveria sê-lo. Os conflitos com os pais não parecem ser de agora, mas se não tiveram influência na decisão de ir estudar para o estrangeiro, seguramente tal empreendimento veio agudizar o relacionamento conflituoso entre eles. A estudar Erasmus em Hamburgo, Marta tem aquilo a que se pode chamar de uma vida normal. Até um dia.

Recém-chegada à cidade, o seu círculo de amigos não é muito grande, como seria de esperar, focando-se essencialmente em Eleni, uma beldade grega, e em Miguel e Jose, dois estudantes espanhóis. Enquanto é visada pelas atenções de Miguel, Eleni parece mais virada para Jose, que lhe é um pouco mais indiferente. Marta sente-se profundamente grata em estar fora desse triângulo amoroso, divertindo-se com a situação. Para Marta, as relações amorosas não estão, definitivamente, nos seus planos. É um espírito livre, sem paciência para amarras ou cobranças. Sem dúvida que um namorado lhe iria roubar tempo para os jogos de computador.

Sem título
Vista de Hamburgo (Fonte: wykop.pl)

… ou talvez não

É neste contexto que Marta é surpreendida, uma e outra vez, por visões estranhíssimas. Ao aproximar-se de monumentos que marcaram a História da Alemanha nazi, a rapariga avista suásticas, marcas da Segunda Grande Guerra e até militares fardados à época. O que inicialmente lhe parece uma confusão ou até uma encenação qualquer, rapidamente se transforma numa verdade inquietante. Marta é transportada para o passado, para os anos dolorosos da Segunda Guerra Mundial, e não consegue descobrir como ou porquê.

Os “transportes” têm, por norma, uma duração curta e surgem espaçadamente, sem um padrão inteligível. Ainda assim, começa a achar que está a ficar louca e é obrigada a contar a verdade à sua amiga Eleni. De cada vez que é transportada para o passado, Marta vê o mesmo rosto, o rosto de um oficial alemão que devia estar há muito morto. As coisas começam realmente a complicar-se para Marta quando, na visita a um monumento icónico de Hamburgo, um caça britânico desce dos céus e aponta-lhe a mira.

Sem título
Capa Flybooks
SINOPSE:

Marta é uma jovem que consegue ver o passado.
Assim que chega a Hamburgo, como estudante de Erasmus, vê-se transportada para a época Nazi, onde testemunha as brutalidades do Holocausto.
Nas suas viagens, Marta é atraída para um jovem soldado, encontrando-o nos recantos mais sombrios da história da cidade. A frequência dos encontros leva-a a procurar no presente a sua identidade.
O que é que os une? Apercebendo-se que consegue interagir com o passado, Marta procura descobrir qual o propósito deste dom. Mas será ela um mero peão num jogo que não consegue controlar ou será capaz de alterar o passado?


Um romance apaixonante, passado sob o manto da Segunda Guerra Mundial, que não irá deixar ninguém indiferente.

OPINIÃO:

Fui para o Sci-Fi Lx já com a ideia de comprar o livro do Pedro e com mais vontade fiquei de o ler após a apresentação do mesmo. O Pedro Cipriano não precisa de grandes argumentos para “vender o peixe” dele, basta olhar para a forma carinhosa com que ele trata a ficção e o trabalho que nela deposita. Também foi notório, pelo menos para mim, os sentimentos que tem em relação à cidade onde viveu e o quão bem a conhece. O anúncio de um equilíbrio entre História e Ficção Especulativa não me deixou grande hipóteses de fugir ao repto. Li As Nuvens de Hamburgo na viagem de regresso a casa.

Em relação à escrita, pouco há a dizer. Fluída e dinâmica, a escrita do Pedro não revela grande riqueza de vocabulário, mas pouco se dá por ela e isso é agradável. Se tenho algo a apontar, talvez o excesso de frases muito curtas, especialmente na ponta inicial do livro. Somos atirados para As Nuvens de Hamburgo já a “viagem” começou. O ritmo é altíssimo e assim se mantém ao longo das 97 páginas do livro. Se, ao início, isso pode gerar alguma confusão ou estranheza, posso dizer que agradou-me. O autor foi direito ao búsilis da questão e não desiludiu.

Sem título
Capa, contracapa e orelhas (Fonte: pedrocipriano.wordpress.com)

Confesso, na fase inicial do livro tive dificuldade em olhar para a Marta como a Marta. A narração é em primeira pessoa, e não conseguia desligar o personagem principal do autor, sobretudo sabendo que ele viveu ali. Pouco a pouco, no entanto, sobretudo pelas nuances e história pessoal da protagonista, fui dando traços e feições à rapariga. Se o início do livro já me tinha agarrado, o remanescente foi sempre a melhorar.

Pode-se até dizer que este livro é demasiado pequeno, mas parece-me que tem o tamanho certo para aquilo que o Pedro se propôs a contar, o tamanho certo para o tipo de escrita dele e o tamanho certo para passarmos uma hora e meia de bom entretenimento. Se o livro As Primeiras Quinze Vidas de Harry August reduzisse algumas das suas muito bem escritas viagens no tempo, talvez o tivesse colocado nos píncaros da FC. Não que o volume de páginas retire qualidade ao livro, mas neste tema em específico parece-me que o bater demasiado na mesma tecla e o repetir de situações cansa o leitor.

“Somos atirados para As Nuvens de Hamburgo já a “viagem” começou. O ritmo é altíssimo e assim se mantém ao longo das 97 páginas do livro.”

A história pode não parecer muito original, mas acaba por conseguir fugir a uma série de clichés expectáveis, pelo menos na minha ótica. Não precisamos de explicações, científicas ou de outro género, sobre o que aconteceu à Marta, não precisamos de respostas mais elucidativas. Tanto o autor como a crítica, por norma, sentem necessidade de ver respostas concretas para avalizar a competência na execução do plot, para perceber se não escreveu aquilo às três pancadas e só porque sim, mas na prática é o mistério que deixa o leitor apaixonado. E este As Nuvens de Hamburgo, pequenino e ainda com pouca visibilidade, é testemunha de que os autores nacionais têm muito para dar ao mundo das letras, independentemente do género.

Avaliação: 7/10

Sci-Fi Lx 2017

Boas! E que tal começar as férias com uma ida ao Sci-Fi Lx? Foi o que eu fiz. A Editorial Divergência havia-me convidado para estar a representar Os Monstros que nos Habitam na sessão de autógrafos de dia 15, mas por motivos profissionais e falta de preparativos, acabei por não conseguir comparecer. Ainda assim, não podia faltar ao evento e fiz a minha appearence hoje, no Pavilhão Central do Instituto Superior Técnico de Lisboa.

Entre vários eventos dedicados à Ficção Científica, o destaque vai para a palestra “Por Favor, Senhor Escritor, Não Faça Isto!” levada a cabo pelo distinto Luís Filipe Silva, no Auditório 1. Num debate cheio de boas dicas e caminhos a “não seguir”, fiquei com a sensação de que a preleção merecia um maior número de público. Estimados autores nacionais, não sabem aquilo que perderam. A conversa foi pertinente e bem construtiva.

Logo de seguida, assisti à apresentação do livro As Nuvens de Hamburgo do sempre inventivo Pedro Cipriano. A apresentação foi muito agradável e, quanto ao livro publicado pela Flybooks, irei escrever sobre ele muito, muito em breve. Para além de privar com o Pedro e com o Luís Filipe Silva, que só conheci no dia em que lhe “saquei” um autógrafo no Fórum Fantástico de 2014, ainda tive a oportunidade de adquirir o mais recente livro da Editorial Divergência, o Anjos do Carlos Silva, outro grande entusiasta da Ficção Especulativa que é sempre agradável encontrar. Claro está, tive direito a dedicatórias. Fiquem com as fotos:

Sem Título
Flyer do evento
Sem título
Apresentação “As Nuvens de Hamburgo”
Sem título
“Por favor, Senhor Escritor, Não Faça Isto!” com Luís Filipe Silva

 

Está aí: Sci-Fi Lx 2017

É verdade, o Sci-Fi Lx é já este fim-de-semana. Dias 15 e 16 de julho, no Instituto Superior Técnico de Lisboa (Alameda), podes assistir ao maior evento nacional dedicado à Ficção Científica, com o intuito de envolver o público numa espiral de criação, desenvolvimento e promoção do género no nosso país, onde ainda é um nicho bastante reduzido. No evento, podes encontrar palestras, sessões de autógrafos, lançamentos de livros, jogos, workshops, debates e muitas, muitas surpresas. Fica com o programa completo e não faltes ao evento. As entradas são livres.

Sem Título

SÁBADO

10:00 às 18:00 – Pinturas Faciais | Bazar Intergaláctico

10:00 – Jedi Trial 1 | Astrolounge

11:00 – Demonstrações de X-Wing | Game Zone

11:00 – Sessão Espírita Vitoriana – Descobre o Assassino! | Auditório 3

11:00 – Treino Silver Blade | Astrolounge

12:00 – Demonstrações de X-Wing | Game Zone

12:00 – The Bullshit Art of Game Design | Salão Nobre

12:00 – Jedi Trial 2 | Workshops 1

12:45 – Sustainable Virtuality | Salão Nobre

13:30 – Second Person Narrative | Salão Nobre | Workshop

14:00 – Redes Sociais para Cosplayers | Workshops 2

14:00 – A Tua Mãe É Capaz De Ser Um Ciborgue | Auditório 2 | Palestra

14:00 – Torneio Hearthstone Sci-Fi Tavern | Game Zone

14:00 – Torneio Overwatch Sci-Fi Duels | Game Zone

14:00 – Histórias de (Mis)Antropoceno/Parábolas de (In)sustentabilidade num Futuro Próximo: Sem Tempo, Her e Outras Imagens do Futuro Como Epílogo | Salão Nobre | Palestra

14:30 – Oportunidades de publicar em Portugal | Auditório 1 | Palestra

15:00 – Escrever para o Estrangeiro | Auditório 1 | Palestra

15:00 – Star Wars: Do “Chaos” e Do Cosmos | Auditório 2 | Palestra

15:00 – Bring your Own Book | Bazar Intergaláctico

15:00 – Um Universo Steampunk Sustentável | Auditório 3 | Palestra

15:00 – Treino Silver Blade | Astrolounge

15:00 – Demonstrações de X-Wing | Game Zone

15:00 – Torneio Nacional de Pandemic Survival | Game Zone

15:00 – Concurso e Desfile de Cosplay | Salão Nobre

15:00 – Introdução ao Crochet | Workshops 1

15:00 – Introdução à Pintura de Miniatura | Workshops 2

15:30 – Enredos Inacreditáveis | Auditório 1 | Palestra

15:30 – Sessão de Autógrafos “Proxy” | Mesa do Autor

16:00 – Awakening: Um Olhar por Detrás da Exposição | Auditório 2 | Palestra

16:00 – Explicações em Grupo – Level 7 [Invasion] | Game Zone

16:00 – Debate Star Wars vs. Star Trek | Salão Nobre

16:30 – Lançamento “Anjos” | Auditório 1 | Palestra

17:00 – Ciência e Sci-Fi | Auditório 2 | Palestra

17:00 – Duelos de Chás | Auditório 3

17:00 – Torneio de Space Walk | Game Zone

17:00 – Sustentaibilidade e Sci-Fi: a abordagem dos meios culturais | Salão Nobre

17:00 – Impressão 3D: Manufactura Aditiva e Sustentabilidade | Workshops 1

17:30 – Alimentopia | Auditório 1 | Palestra

17:30 – Sessão de Autógrafos “Anjos” | Mesa do Autor

18:00 – Saúde Mental e Necessidades Psicológicas dos Astronautas | Auditório 2 | Palestra

18:00 – Sessão Espírita Vitoriana – Descobre o Assassino! | Auditório 3

18:00 – Cerimónia de Condecoração Jedi | Salão Nobre

19:00 – Oficina Mundicriação | Auditório 1 | Palestra

19:00 – Pandemia Gigante | Exterior do Pavilhão Central

19:00 – A BD e a Importância da Formação | Salão Nobre

20:00 – DJ Set Voodoo Attacks | Astrolounge

21:00 – Cinema VHS Nights – Millennium | Salão Nobre

DOMINGO

10:00 às 17:00 – Star Wars Clube Portugal

10:00 às 18:00 – Pinturas Faciais | Bazar Intergaláctico

10:30 – Torneio Android Netrunner | Game Zone

11:00 – Sessão Espírita Vitoriana – Descobre o Assassino! | Auditório 3

11:00 – Treino Silver Blade | Astrolounge

11:00 – Workshop Infantil de Máscaras | Workshops 1

12:00 – Stormtroopers Bootcamp | Astrolounge

12:00 – Desfile Infantil do Workshop de Máscaras | Salão Nobre

14:00 – Steampunks Dungeons & Clockwork Dragons | Auditório 3

14:00 – O Idílio Interrompido: Uma Leitura Comparada dos Filmes Princesa Mononoke e Avatar | Auditório 2 | Palestra

14:30 – Apresentação Antologia Fantasia Rural | Auditório 1

15:00 – Em BD a União Faz a Força | Auditório 1

15:00 – Um Primeiro Saque Sobre o Labirinto de Westworld | Auditório 2 | Palestra

15:00 – Bring Your Own Book | Bazar Intergaláctico

15:00 – Treino Silver Blade | Astrolounge

15:00 – Torneio de Panic Lab | Game Zone

15:00 – Apresentação Inner Ghosts | Salão Nobre

15:00 – Sessão de Introdução a Técnicas de Amigurum | Workshops 1

15:00 – Introdução à Pintura de Miniaturas | Workshops 2

16:00 – Por Favor, Senhor/a Escritor/a, Nâo Faça Isto! | Auditório 1

16:00 – Produção Cinematográfica Low-Budget | Auditório 2 | Palestra

16:00 – Sessão de Autógrafos Apocryphus | Bazar Intergaláctico

16:00 – Explicações em Grupo – Eve: Conquests | Game Zone

16:00 – What is Procedural Generation? | Salão Nobre | Palestra

17:00 – Lançamento Nuvens de Hamburgo | Auditório 1

17:00 – Duelos de Chás | Auditório 3

17:00 – Podem os Robots Amar? | Salão Nobre | Palestra

17:00 – Workshop de Introdução a Gunpla | Workshops 1

18:00 – Artistas no Fim do Mundo | Auditório 2 | Palestra

18:00 – Sessão Espírita Vitoriana – Descobre o Assassino! | Auditório 3

18:00 – Sessão de Autógrafos Nuvens de Hamburgo | Bazar Intergaláctico

18:00 – Painel Lançamentos de Videojogos | Salão Nobre

19:00 – Cerimónia de Encerramento | Salão Nobre

ACTIVIDADES PERMANENTES (Sábado & Domingo)

Galeria Central

Exposição Awakening, Kahina Spirit

Expo SCI-FI LX/H-ALT, H-Alt

Exposição Posters Caseiros – Black Mirror Edition, Edgar Ascensão

Game Zone

Jogos de Tabuleiro, Grupo de Boardgames de Lisboa

Jogos Narrativos, Grupo de Roleplayers de Lisboa

Jogos de Miniaturas

Videojogos

Explicações a pedido

Ludoteca

Planetarium

Coordenação Núcleo de Física do IST

Planetário

Experiências Científicas

Auditório 3

Banca de venda de acessórios steampunk e victorianos | Liga Steampunk de Lisboa

Exposição de peças criadas e recolhidas pela Liga | Liga Steampunk de Lisboa

Jogos de Tabuleiro Temáticos  | Liga Steampunk de Lisboa

Estive a Ler: Conquista da Liberdade, Rebeldes Europeus #1

— Claro que sei! Posso não ter muita experiência, mas tenho carta de condução! Tu sabias disso!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Conquista da Liberdade”, primeiro volume da série Rebeldes Europeus

Nascida em Vila Franca de Xira no ano de 1994, Jay Luís foi criada entre as verdejantes encostas de Alenquer e o profundo azul marítimo de Sines, entre a camaradagem de bombeiros e o seio de uma família numerosa. Percorreu um ensino técnico ligado aos animais e à alimentação e começou a trabalhar como bombeira, nunca desistindo da escrita e do sonho de publicar os seus livros.

Publicado pela Edições Pastel de Nata, uma chancela do Grupo Capital Books, Conquista da Liberdade é o primeiro volume da série Rebeldes Europeus, um livro de ficção distópica passado num futuro não muito distante. A obra foi lançada no Centro de Artes de Sines no passado dia 8 de julho.

Sem título
Capa Pastel de Nata Edições

O controlo da Terra

O mundo que conhecemos sofreu um terrível revés quando o terrível déspota de origens islâmicas Yabdul Hassin aproveitou uma grave crise mundial para se afirmar no poder. A sua ideologia passava por enfraquecer o ser humano e dobrá-lo à sua vontade através dos mais diversos mecanismos. Com legiões de mercenários, redes de espiões e um controlo efetivo do submundo da droga, Hassin arrebanhou armas e homens, desafiou as grande potências e conquistou-lhes importantes bases militares.

A audácia de Hassin chegou à destruição de cidades importantes, como Nova Iorque ou Washington, mas também as maiores capitais da Europa dobraram-se à sua hegemonia. Com o poder em mãos, Hassin exigiu a cada uma das famílias dos territórios dominados que lhe cedessem duas crianças, de preferência um casal, para que a rapariga servisse como escrava de casa enquanto o rapaz alimentaria as fileiras dos seus exércitos.

Sem título
Promocional Pastel de Nata Edições

A Terra atravessou assim tempos difíceis, não fosse a ação dos Protetores do Espaço, então conhecidos como Rebeldes. Era um grupo concertado de cientistas e militares, que haviam sobrevivido à mão cruel de Hassin e desenvolvido um programa competente de resgate e salvamento. Nesse grupo destacaram-se duas irmãs de forte temperamento e desenvoltura militar: Mira e Lora Addams.

Nos últimos anos anteriores à nova contagem da passagem dos anos, fizeram-se as primeiras descobertas para a permanência de vida no espaço, através de naves, de modificadores de atmosferas e geradores de gravidade. Porém, no ano zero dessa nova contagem, Yabdul Hassin aproveitou a crise mundial instalada, para subir ao poder e mergulhar a Terra inteira em trevas, escravidão e pobreza. Foi, logo no início, que a oposição a este líder tirano se formou.

Com o passar dos tempos, os Rebeldes conseguiram estabelecer bases secretas e aceder a tecnologia de ponta, assim como edificar colónias espaciais, para onde enviavam todas as famílias que conseguiam salvar das garras de Hassin, que controlava todo o Planeta Terra. As equipas no terreno eram normalmente compostas por um Engenheiro Aeroespacial e um Guardião, militar de relevo encarregado da sua proteção.

Sem título
Cena do filme “Seven Sisters” (Fonte: indiewire.com)

Duas irmãs de garra

Mira Addams ocupa a dupla função de engenheira aeroespacial e organizadora de gado e mantimentos para as Colónias, enquanto a sua irmã Lora, a quem era muito ligada desde a morte dos pais, ocupou o lugar de sua Guardiã. Os pais estavam separados há anos quando se deu a destruição de Lisboa, mas encontravam-se na conservatória para tratar de pormenores relativos ao seu divórcio quando a tragédia se deu.

Mira e Lora tinham irmãos mais jovens, frutos das novas relações dos progenitores. As crianças haviam sido levadas como cativos para as ilhas, onde estavam sediados os colégios privados onde o regime de Hassin guardava as crianças e as preparava para o novo mundo. Excelente piloto de aviões, Mira tinha em mente resgatar as irmãs Lyana e Iara, mas também os primos Carina, Jorge e Filipe, aprisionados na Ilha de S. Miguel nos Açores.

Para tal, estava disposta a engolir um veneno no caso de ser apanhada, para não poder desvendar segredos dos Rebeldes sob tortura, mas a irmã Lora não a abandonou em nenhum momento. Juntas, as irmãs Addams atravessaram meio mundo, de Espanha até à Rússia e da Rússia até à Holanda, na tentativa de travar as intenções malignas do regime de Yabdul Hassin.

Sem título
Cena do filme “Into the Forest” (Fonte: screenfish.net)
SINOPSE:

Mira e Lora são duas irmãs, envolvidas na luta contra um regime tirânico, elas lutam pela liberdade do Mundo inteiro e para encontrar toda a sua família, no seio dos Rebeldes elas mostram ideais antigos que estão mortos e arriscam a vida para os manter, inspirando outros a serem como elas. Os Rebeldes detêm a única forma de escapar, o conhecimento sobre como ir para o Espaço e Mira faz parte da equipa ligada a essa área que foi permitida a permanecer na Terra, com condições, para evitar que o seu conhecimento caia em mãos inimigas, uma dessas condições é que esteja sempre acompanhada por um Guardião e Lora tomou essa posição. Podendo estar em paz, longe da Guerra, estas irmãs decidiram ficar e lutar, mas será que chegarão ao fim da luta?

OPINIÃO:

Conheci a Jay Luís no facebook quando ela procurava uma opinião ao seu livro de estreia e foi com agrado que aceitei o repto. Conquista da Liberdade é o primeiro livro da série Rebeldes Europeus, uma distopia com alguns toques de ficção científica. Quem me conhece sabe que não sou grande apreciador de distopias e tenho alguma aversão a livros do género Jogos da Fome, pelo que entrei nesta aventura com um pé atrás em relação ao que iria encontrar.

Ainda assim, quando o livro me chegou às mãos e percebi não só o tamanho reduzido do livro, como o grafismo atrativo do mesmo, concluí que não demoraria muito em devorá-lo. Achei alguma piada à forma como a autora nos introduziu no mundo criado, através de uma aula de História, e comprei a ideia do livro. Ao ler, tive sempre em conta que a autora é iniciante, pagou para publicar o seu trabalho e não tem qualquer experiência literária, como tantos jovens autores que por aí se lançam no mercado através de vanities.

Como disse, sem grande originalidade, a ideia é agradável. Gostei que a autora tenha partido do nosso mundo real e explorado um futuro distópico que abarcasse o nosso país. A ação do livro foi consistente, repleta de boas passagens e o ritmo foi sempre elevado sem parecer apressado. As cenas sucederam-se de forma natural e fluída e esse é, de facto, um dos maiores elogios a apontar. O sentido de humor da autora também foi uma constante, tenha sido ou não pertinente ou bem sucedido em alguns momentos.

Sem título
Jay Luís (Fonte: facebook.com/jayluisescritora)

Conquista da Liberdade é, porém, um livro por maturar. Aparte ser destinado a um público mais juvenil, patente na forma tipicamente “Barbie + Ken” com que os personagens são definidos na sua maioria, havia muitas arestas para serem limadas antes de o livro ser proposto a publicação. Em primeiro lugar, falta maturidade literária à autora. Tem talento, mas é visivelmente uma pedra em bruto e um autor deve ter vários anos de escrita contínua para que o seu trabalho tenha qualidade. Falta trabalho e traquejo, acima de tudo.

“A ação do livro foi consistente, repleta de boas passagens e o ritmo foi sempre elevado sem parecer apressado. As cenas sucederam-se de forma natural e fluída e esse é, de facto, um dos maiores elogios a apontar.”

Ainda assim, se ignorarmos o uso ostensivo de vírgulas, que nos faz sentir verdadeiros robôs ao ler o livro em voz alta, a descrição de personagens completamente estandardizada e a linguagem de corredor, estamos perante um livro que pode agradar a várias classes etárias. A história agradou-me, mesmo sem ser o meu género de eleição, e fico à espera de ver mais desta jovem autora que tem ainda muito caminho a desbravar no mundo das letras. Neste primeiro volume mostrou alguns conhecimentos sobre animais e sobre ciências e irei, com certeza, continuar a acompanhar os seus passos.

Avaliação: 4/10

Estou no Wattpad #27

Língua de Ferro resolveu aceder ao pedido de Ceil, a filha de Sander Camilli, e encontrar-se com ela nos banhos. Porém, percebeu que estava a ser usado como instrumento para a satisfação de mais um capricho da rapariga. Afinal, ela estava noiva e queria desesperadamente perder o amor do pretendente. O capítulo 27 continua com a integração de Língua de Ferro em Chrygia, funcionando como ponte para o grande baile que Camilli prepara em sua honra. Se estão a estranhar a data de publicação deste capítulo, esclareço-vos que faz hoje um ano que foi publicado o primeiro capítulo de Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer. Espero que gostem deste bónus especial de aniversário, porque para a semana há mais.

CAPÍTULO VINTE E SETE: VELHOS AMIGOS

“A minha primeira estadia em Constania reservou-me grandes surpresas. Quando o mensageiro de olhar míope indicou-me uma estalagem nas sombras de um beco, preparei-me para uma facada nas costas, para uma puta com segundas intenções ou para um bando de caçadores de cabeças ou ladrões. Estava certo de que me esperava um qualquer tipo de armadilha, mas o que encontrei foi uma velha cheia de peles flácidas e olhar mortiço com toda a luz do sítio na vela que segurava entre as mãos. E só quando ela se afastou com a claridade, divisei Dooda Vvertagla ao fundo do recinto quase vazio, encostado a uma lareira apagada. A mulher desapareceu por uma dependência nos fundos da sala, deixando a vela na prateleira da lareira. Antes de se retirar, recebera em troca uma moeda das mãos de Dooda. O meu amigo, aquele que eu havia traído, sorriu-me, depois avançou para mim e, quando esperei que me atacasse, abraçou-me. Juro que as lágrimas picaram-me os olhos. Havia-lhe roubado a mulher que amava, havia-lhe destruído a companhia que liderava, havia-o deixado às mãos de Cooper Ravoli como se deixa um cadáver para abutres, e ainda assim ele amava-me. Continuava a amar. Passámos a noite a conversar. Contou-me primeiro como havia sobrevivido, a deambular pelas areias do deserto, a trabalhar como assassino a soldo, a envolver-se em esquemas de sabotagem bem remunerados. Durante horas, limitou-se a falar, como quem deseja narrar a um velho amigo tudo aquilo que venceu e todas as provações por que passou. Em nenhum desses momentos, pareceu desejoso de explicações. Mas, quando as histórias começaram a escassear, instalou-se um silêncio frio entre nós. Mandou chamar a estalajadeira para acender o fogo, mas não seria o estridular das labaredas a aquecer o ambiente entre nós. Quando voltamos a ficar sozinhos, ele perguntou-me porquê e eu respondi-lhe a única resposta honesta que lhe podia dar. Disse-lhe que a amava. Dooda limitou-se a assentir com a cabeça, e como se isso não importasse mais, falou-me da nova composição de Vermelhos que forjara. Muito mais do que doze, os seus novos pupilos eram uma legião de jovens sabotadores, salteadores e mercenários. Na manhã seguinte, antes de regressar a Careepi, disse que me perdoava, e fez-me prometer que voltaria ali para o encontrar.”

Só quando o sol se espraiou pela porta de sacada, Língua de Ferro sentiu que aquele quarto era bonito. A noite não lhe aplacara a visão, mas os detalhes arquitetónicos das colunas de pedra que suportavam a cama pareciam mais vívidos do que nunca à luz solar, os tamboretes de verga junto ao oráculo pareciam mais dourados e o armário mais imponente. Não havia frigidez no pavimento de mosaicos, nem fantasmas a vaguear nas colgaduras. Caminhou até à câmara privada para urinar na latrina e proceder às abluções matinais, não sem antes avalizar se a respiração pausada do cão de olhar branco ainda se sentia do outro lado da porta. Aparentemente, se os seus sentidos apurados pela essência não o traíam, o cão havia desaparecido.

Abriu a porta quando o mordomo se preparava para bater, apanhando-o com um punho fechado bem erguido acima de um ombro. O homem piscou os olhos com a surpresa.

― Em que posso ser útil? ― perguntou Língua de Ferro, vestido com um longo gibão azul-marinho cheio de botões e Apalasi à cintura, oculta por uma prega de seda e algodão.

― Bons dias! Será de grande utilidade se me deixar acompanhá-lo até ao Salão de Baile. O meu nome é Ciaran e sou o mordomo do Capitólio.

A forma pedante com que verbalizou a ocupação fazia parecer a posição privilegiada à sua ótica. Língua de Ferro aceitou acompanhar o homem velho e mirrado, uma vez que, de antemão, sabia que Ceil o esperava para prosseguir as aulas de dança. Arrastou-se atrás dele, corredor fora. Pequeno e curvado, o sujeito tinha orelhas que pareciam abanicos e um par de olhos cansados e leitosos. Vestia uma jaqueta escura de bom algodão sobre uma camisa rendada e cheia de folhos, mas também um par de calças justas, tão negras quanto piche.

― Foi Ceil quem o mandou acompanhar-me? ― perguntou. Tencionava quebrar o silêncio incómodo que lhes acompanhava o som dos passos enquanto desciam as imponentes escadarias cercadas de frescos e esculturas do período Damasi. ― A Intendente?

― Siga-me em silêncio e não perderá tempo a obter respostas infrutíferas ― disse o homem sem sombra de humor. ― A noite reservar-nos-á grandes momentos, senhor. Mas até lá, muito há a ser feito.

A hostilidade no tom de voz dava a entender que, sendo o mordomo do Capitólio, tinha muito trabalho a fazer para os preparativos do baile, e que lhe parecia indigno perder tempo a conduzi-lo até ao salão. No entanto, Língua de Ferro sentia dificuldade em acompanhar a lentidão de passos do velho. Sentiu-se tentado a verbalizá-lo, mas mordeu a língua. Sabia que realçar as limitações físicas do homem não ajudaria à sua integração.

― Se tem tantos afazeres, Ciaran, porque o enviaram a si para me guiar?

― Chamemos-lhe uma apresentação informal, senhor ― respondeu-lhe, sem nada mais a acrescentar.

Quando chegaram a um par de portas belamente esculpidas com toda uma variância de signos e motivos bélicos, pintadas de verde-marinho, soube que haviam chegado. Ciaran empurrou uma das portas com um esforço costumeiro e fez sinal a Língua de Ferro para entrar. O solo fora polido até brilhar. As amplas janelas de sacada estavam todas abertas para trás, fazendo arejar o salão. Língua de Ferro sentiu-se uma formiga, na imensidão que era aquele Salão de Baile. Enquanto caminhavam, observou os frescos do teto, representando cenas divinas, e as longas prateleiras que cobriam as paredes, com cerâmicas e porcelanas de toda a sorte, intervaladas por ocasionais quadros em caixilhos de veludo com rostos de reis e imperadores, e expositores com armas de caça e mosquetes de guerra.

Sem título
The Queen of Sheeba (Fonte: traveltoeat.com)

Procurou Ceil com o olhar, mas o que encontrou foi uma mesa atoalhada, sobre a qual dispunham-se elegantemente cinco copos numa meia-lua, contornando a orla dos pratos que se sobrepunham uns sobre os outros. Uma senhora de idade avançada, cheia de caracóis grisalhos que lhe caíam para a sobreveste verde, exibia um par de lunetas na ponta do nariz e esperava-os com as mãos atrás das costas. Atrás dela, três criadas vigiavam um aparador repleto de talheres, pratos e panelas cobertas.

― Pela maldita garganta de Profundo. Estás cada vez mais lento, Ciaran. Estou há tempos à vossa espera.

O velho mordomo recuperou o fôlego da caminhada até ali, mas não pareceu ter ânimo para discutir. Virou-se para Língua de Ferro e encolheu os ombros.

― Esta é a senhorita Finn, a mestra de etiqueta. O senador deixou indicações para a instruir nos nossos costumes.

Língua de Ferro sentiu o mau humor a absorvê-lo.

― Onde está Ceil? Disse que me esperava aqui para me ensinar a dançar.

A mestra de etiqueta deslizou em passos ágeis na sua direção, ultrapassando Ciaran e acariciando o bárbaro no rosto. Apertou-lhe uma bochecha, como se fazia às crianças.

― A menina Ceil tem outros compromissos, rapaz. Quanto à necessidade de saber dançar, não se preocupe. Dançar é uma metáfora para aquilo que vamos fazer com pratos, copos e talheres.

Língua de Ferro não se lembrava de ter passado horas tão tediosas durante os últimos anos da sua vida. Sentou-se à mesa e comportou-se o mais cordialmente que soube, mas cada gesto ou movimento eram corrigidos prontamente pela mulher com austeridade, empurrando frequentemente as lunetas contra a cana do nariz. Ciaran não se demorou a observá-los, alegando ter muito que fazer para ficar a vê-los naquilo. As jovens trocavam de pratos e refeições sucediam-se umas às outras, sem que Língua de Ferro provasse mais do que um pouquinho de cada uma. Uma espetada de cabril foi a última iguaria da manhã. O salteador colocou a faca de lado e logo foi surpreendido pela velha mulher.

― Pretende matar alguém esta noite?

Língua de Ferro abriu muito os olhos, aturdido.

― Como?

― O gume da faca, voltado para fora, é um claro sinal de ameaça para com aqueles que estão à sua volta. ― Língua de Ferro observou a faca. ― Para além do mais, uma vez que já usou a faca, não pode nunca reposicioná-la fora do prato. Estamos entendidos?

Suportara aquilo até então por cortesia para com a hospitalidade oferecida, mas a paciência tinha os seus limites. Ergueu-se e lançou um olhar tão feroz à mestra de etiqueta, que a mulher não se tentou a voltar repreendê-lo. Língua de Ferro afastou-se, e já se aproximava da portada dupla do salão quando ouviu o eco da voz de Finn a ir de encontro aos seus ouvidos.

― De qualquer forma, duvido que fizesse progressos.

Sem título
Old woman Disney (Fonte: huffingtonpost.com)

Preparava-se para procurar as cozinhas, uma vez que não lhe fora formalizado qualquer convite para almoçar, quando encontrou Anos a balançar-se de cima de um balaústre.

― Vais cair daí ― advertiu-o.

O rapaz, careca e de olhos vazios, fitou-o com uma expressão divertida. Vestia apenas uma tanga de couro.

― Sabes que não ― disse ele. ― Ambos sabemos que não.

Língua de Ferro sentiu um arrepio perpassar-lhe a coluna. Quase se havia esquecido de quem era o rapaz. Não era dotado de dons proféticos, mas ele tinha razão. Dificilmente estatelar-se-ia no chão, lá em baixo. Era um instrumento da essência.

― Gostava de falar contigo sobre o teu pai. Sobre Chrygia.

O menino continuou a oscilar na cabeça de pedra de um camelo.

― O pai não o matou. Matou a mãe dela.

Confuso, Língua de Ferro meneou a cabeça. Embora não fizesse qualquer intenção de a desembainhar, levou a mão à bainha de Apalasi, como fazia sempre que ficava apreensivo.

― Estás a falar de quem?

― A mãe de Ceil, a verdadeira. Foi afogada numa piscina, quando a encontrou com o amante.

Língua de Ferro arqueou uma sobrancelha.

― A mãe de Ceil não era uma escrava, como a tua?

O rapaz sorriu-lhe de novo, e então saltou e começou a correr escadaria acima. Quando chegou ao topo, voltou-se para lhe oferecer um último sorriso. Parecia malévolo. Seguiu-o sem a esperança de o alcançar. Se o rapaz não lhe queria dar mais respostas, não iria forçá-lo a concedê-las. Elas chegar-lhe-iam de alguma outra forma.

Perdeu o apetite e decidiu procurar Ceil. Por mero acaso, cruzou-se com um pátio atapetado de mosaicos brancos e vermelhos, com uma arquibancada semicircular cheia de homens de togas e uniformes cinzentos. Uma coroa de luzes descia do teto ornamentado, deixando um grave odor a cera no ar. Percebeu ter encontrado a Câmara do Senado, e quando viu Sander Camilli com a mesma toga que envergaram os seus antepassados, a gesticular e a esbracejar ao centro de um círculo de mosaicos, Língua de Ferro encostou-se a um gigantesco pilar de basalto para o ouvir.

― Ele disse-me. Ele matou as crianças. As filhas de Eduarda e Lucilla.

― Se o fez ― grunhiu um senador velho e encovado ― prestou mais um bom serviço ao Império. Mas segundo os relatos que nos chegaram de Selaba, ele também foi responsável pela morte de Dom Michelle.

― E que não fosse ― disse outro. ― Os seus serviços não lhe dão o direito à coroa de acanto.

― Não precisamos coroá-lo ― acrescentou Sander Camilli, cofiando o queixo proeminente. ― Apenas convencê-lo de que o faremos. Allen está em convalescença, mas logo estará preparado para assumir a coroa. Confio tanto nele hoje, como no primeiro dia. Arriscou muito por nós.

Rugidos de assentimento deram a entender que a maioria aceitava a ideia, mas um senador ainda jovem e cheio de um furor inquieto no olhar verbalizou o que muitos já consideravam.

― Temos de matar o bárbaro. Não pode passar desta noite.

― No baile ― concordou uma outra voz.

― Sim ― juntou-se-lhes um terceiro.

Surpreendendo Língua de Ferro, Sander Camilli interrompeu-os.

― Não acho boa ideia. É verdade que ele almeja a coroa de acanto e isso é algo que não lhe podemos dar, mas ele é um enviado da essência, rege-se pelo Fluído. Ele deu-nos a vitória no cerco, livrou-nos de Bortoli, de Eduarda e devolveu-nos Allen. Devemos utilizá-lo a nosso favor, torná-lo uma arma nas nossas mãos. Manobrá-lo, sim. Fazê-lo confiar em nós, sim. Matá-lo? Não. Não tenciono agravar a essência. Que o Fluído nos guie e oriente.

Vozes de contestação começaram a explodir à sua volta, mas tantas eram as que se lhe opunham como aquelas que o defendiam. A fé religiosa de Sander Camilli salvava-lhe a vida, pelo menos por algum tempo. Trôpego de emoções, Língua de Ferro afastou-se do pilar e regressou ao corredor.

Sem título
Senado romano (Fonte: theapricity.com)

Tinha a cabeça cheia de informações a processar. Sander Camilli não matou Dzanela, e tem em Allen o seu candidato à coroa de acanto. Parecia que Allen não era o mero fantoche e folha de rosto que lhe haviam pintado. Havia algo ali a descobrir. Para além disso, os medos religiosos de Sander Camilli impedem-no de querer matar-me, mas quererá utilizar-me para os seus fins. E mentir-me. Outros, porém, tentarão acabar comigo esta noite.

Perambulava pelos corredores quando encontrou as cozinhas. Uma velha gorda andava de vassoura na mão, a correr atrás de um rato. Pernas de frango e preparados de vitela salgada crepitavam ao lume.

― Há algo que possa comer aqui?

A cozinheira não o reconheceu e saltou com o susto. Concertou o toucado à cabeça enquanto o estudava de alto a baixo.

― Ah, deve ser o convidado de honra estrangeiro. O herói cego, como lhe chamam. O meu nome é Mia, muito prazer.

Língua de Ferro sorriu. Gostou da mulher.

― Acho que me chamam de bárbaro cego, Mia. Pode chamar-me de Língua de Ferro. Julgo que pensavam satisfazer-me o apetite nas aulas da senhorita Finn.

A cozinheira abriu a boca de espanto, e enquanto três ajudantes andavam apressadamente atrás de si, trabalhando nas refeições, transformou a surpresa numa gargalhada calorosa.

― A sério que o mandaram para a Finn? Quanta tortura, meu rapaz. Pobre coitado. Espere um pouco, que já lhe arranjo um pão com courato.

A mulher virou-lhe costas, mas Língua de Ferro não esperou pela refeição de improviso. Ao lançar o olhar pela janela, encontrou um dos belos jardins interiores do Capitólio, cheio de flores invernais e tramos de pedra faustosos. Num dos bancos de jardim, viu Ceil nos braços de um homem. Tinha longos cachos de cabelos morenos desdobrados sobre os ombros largos de pele tostada, acariciava o rosto de Ceil com o polegar e beijava-lhe os lábios com ternura. Língua de Ferro reconheceu o homem e sabia que ele estava a cumprir as diretivas de Lucilla, por quem morria de amores. Pegou no braço de uma ajudante de cozinha com força e fez-lhe uma pergunta antes que ela tivesse tempo de gritar.

― Há quanto tempo chegou Varro?

A jovem lançou o olhar para lá da janela e encolheu os ombros.

― Esta manhã, julgo.

Língua de Ferro soltou-a e saiu da cozinha, pronto a esclarecer aquilo. Varro, o esclavagista, chegara como um abutre, após o cerco, para se alimentar dos despojos da guerra. Se o que Seji lhe dissera fosse verdade, ele tornara-se amante de Sander Camilli e das suas filhas, de modo a controlá-las na teia de Luce. Com a apaixonada morta, que interesse manteria Varro em Ceil, para além do prazer carnal? Por sua vez, Ceil parecia desesperadamente apaixonada pelo esclavagista, e deveria ser esse o motivo pelo qual se queria ver livre de Degas Pantaleoni, o noivo. Mais uma vez, Língua de Ferro fora usado como peão.

Não é isso que me preocupa, disse a si próprio. Preocupava-o que Varro e Ceil mostrassem o seu amor tão abertamente num jardim do Capitólio, preocupava-o que um baile em sua honra estivesse a ser preparado e que o quisessem tramar, e mais incrível do que isso, preocupava-o que o tivessem deixado à solta nos corredores do Capitólio para descobrir todas aquelas pontas de segredos. Como que respondendo às suas perguntas mentais, o pequeno Anos esperava-o à curva de um corredor, com as mãos nas ancas e um sorriso aberto no rosto.

― Não foram eles que te deixaram à solta. Tu és um animal feroz e eles aprenderam com a experiência que não se domam animais ferozes com grades. Foi a essência que te proporcionou esta liberdade. Aproveita-a bem. ― Apontou para uma janela e antes de desaparecer em cabriolas pela longa galeria, acrescentou: ― Os convidados estão a chegar.

Língua de Ferro aproximou-se da janela e esperou ver mais um pátio interno. O que os seus olhos alcançaram, porém, foi o terminal ferroviário de Chrygia, trinta metros a jusante do Capitólio. As figuras que saíam de uma carruagem eram-lhe familiares. Boca de Sapo e Empecilho vestiam jaquetas revestidas a pele de cabril e calças largas. Ravella, um corpete simples de tom magenta. Logo atrás, Vance Cego, com um colete revestido a lã sobre o torso nu. Mal desceu a carruagem, ergueu a cabeça na sua direção. Estavam muito longe para que homens normais se pudessem vislumbrar, tinham os olhos vazios e, no entanto, pareceram reconhecer-se com facilidade. Jupett Vance assentiu com uma breve reverência.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove | Capítulo Dez | Capítulo Onze | Capítulo Doze | Capítulo Treze | Capítulo Catorze | Capítulo Quinze | Capítulo Dezasseis | Capítulo Dezassete | Capítulo Dezoito | Capítulo Dezanove | Capítulo Vinte | Capítulo Vinte e Um | Capítulo Vinte e Dois | Capítulo Vinte e Três | Capítulo Vinte e Quatro | Capítulo Vinte e Cinco | Capítulo Vinte e Seis | Capítulo Vinte e Sete

Especial: Quem Ainda Não Leu Brandon Sanderson?

É muito difícil encontrar um fã de ficção fantástica que não tenha lido, ou pelo menos ouvido falar de Brandon Sanderson. As suas obras de fantasia estão publicadas pelo mundo inteiro, o autor escreve com uma rapidez notável e uma legião de fãs segue atentamente todos os seus passos. Dono de uma relação com o público pautada pela acessibilidade e simpatia, Brandon tem tanta facilidade para explicar ao mundo as suas ideias e processos criativos, como para colocá-los em prática. O autor esteve em novembro em Portugal, a convite da Edições Saída de Emergência, editora responsável pela publicação da saga Mistborn – Nascida das Brumas.

O seu ritmo de publicação parece imparável, de tal modo que os leitores chegam a sentir dificuldades em acompanhá-lo. Através do site de Brandon, é possível seguir a progressão do seu trabalho, saber em que eventos o autor estará presente e até ler gratuitamente um livro, Warbreaker. O autor escreve tanto para adultos como para jovens, mas pode-se dizer que redefiniu toda a conceção de fantasia através das 3 Leis que canonizou como guia para todo o bom escritor de fantástico.

Sem Título
Brandon Sanderson (Fonte: sltrib.com)

Quem é Brandon Sanderson?

Natural do Nebraska, Brandon Sanderson (19 de dezembro de 1975) vive atualmente em American Fork, no Utah. Concluiu o mestrado de escrita criativa em 2005 pela Universidade de Brigham, onde trabalhou numa revista de ficção especulativa, e no ano seguinte casou-se com Emily Bushman, de quem tem dois filhos. De ideologia Mórmon, Brandon foi missionário em Seul, na Coreia do Sul. Foi ao ser escolhido por Harriet McDougal, viúva do escritor Robert Jordan, para concluir a série épica do esposo, A Roda do Tempo, que Brandon Sanderson ganhou reconhecimento mundial. Daí em diante, a sua popularidade cresceu a olhos vistos, sendo difícil não encontrar um livro seu em qualquer grande superfície livreira.

Elantris foi o primeiro livro que publicou, mas foi com a trilogia Mistborn que o seu sucesso venceu muralhas. A história de uma menina que vence um déspota tirano e percebe que cometeu um erro grave ao fazê-lo conquistou adeptos em todo o mundo, mas esses seriam apenas os primeiros passos na rica trajetória de êxitos de Brandon. Mistborn transformou-se não em uma, mas em três trilogias, com a última por publicar, mas é com The Stormlight Archive que Sanderson parece ter quebrado todos os paradigmas e conquistado definitivamente o amor do público.

Sem Título
Brandon Sanderson fanart (Fonte: pastemagazine.com)

As 3 Leis de Sanderson

Um dos motivos pelos quais Brandon é reconhecido é exatamente por ter parametrizado o trabalho de um escritor de fantasia, principalmente no que concerne à utilização da magia e ao quanto é dado a conhecer ao leitor da sua conceção. Separando as águas, Brandon distingue a construção mágica credível e detalhada, aquela em que o leitor compra a ideia de forma categórica e até científica (Hard Magic), da magia mais tradicional, sem qualquer detalhe ou explicação, que se encaixa no deus ex-machina habitual nas leituras YA (Soft Magic).

O autor também reforça o papel determinante que as dificuldades dos personagens têm no envolvimento com o leitor e a importância de montar um mundo credível, honesto e bem estruturado, para que personagens ou situações não caiam de pára-quedas na história. Pessoalmente, concordo em absoluto com estas leis, ainda que me pareça que Brandon não seja um inventor, mais um estudioso sobre o assunto.

As 3 Leis são:

Lei 1: “A capacidade de um autor em resolver conflitos de forma satisfatória com a magia é diretamente proporcional ao quão bem o leitor compreenda esta magia.”

Lei 2: “As fraquezas das personagens são mais interessantes que as suas habilidades. Ou seja: limitações são mais importantes que poderes.”

Lei 3: “Expanda o seu mundo antes de adicionar novos elementos.”

Sem Título
Fanart de The Stormlight Archive (Fonte: pinterest.com/sparkybeanbag)

Porque o NDZ acredita que todos devem ler Brandon Sanderson?

CONSTRUIU UM MUNDO CHEIO DE POSSIBILIDADES

Brandon publicou o seu primeiro romance, Elantris, através da editora Tor Books em 2005, com críticas muito positivas. Foi em 2006, porém, que o seu trabalho mais famoso saiu para as bancas – Mistborn. Posteriormente, Brandon dedicou-se a trabalhos mais juvenis, como Alcatraz ou Coração de Aço, mas logo regressaria com novos livros da série Mistborn e The Stormlight Archive.

Segundo o autor, a série Mistborn atravessará várias fases de vida do planeta Scadrial. Se a primeira série (publicada em Portugal pela Edições Saída de Emergência) foi o mais próximo de uma clássica fantasia épica, a segunda trilogia foca-se num período perpassado por uma austera Revolução Industrial, com perfume a western. A terceira trilogia deverá ocorrer, então, num período correspondente à nossa atualidade ou futurista, uma vez que o autor garantiu vir a tratar-se de uma trilogia de ficção científica, sempre com os seus sistemas de magia intricados como pano de fundo.

Sem Título
Szeth de The Stormlight Archive (Fonte: 17th Shard)

Todos os livros de high fantasy publicados por Brandon passam-se no mesmo universo, a Cosmere. Se Scadrial é o “planeta” que serve de palco à série Mistborn, Elantris e o conto Emperor’s Soul são passados no shardworld Sel, Warbreaker em Nalthis, The Stormlight Archive em Roshar e White Sand em Taldain. De alguma forma, todos estes lugares estão conectados, muito embora se tratem de “fragmentos de mundo” muito diferentes. Há, no entanto, vários indícios de que se trata do mesmo universo (para além da confirmação do autor, vá).

Um deles é a existência misteriosa de saltadores de mundo, sendo o mais conhecido Hoid, um indivíduo que aparece como informador de confiança na primeira trilogia Mistborn, um contador de histórias em Warbreaker e contrabandista em Elantris, por exemplo, ganhando um papel de maior protagonismo em The Stormlight Archive, onde adquire a identidade de Wit. Khriss, a duquesa de White Sand, também surge em Mistborn: The Bands of Mourning e Mistborn: The Secret History.

Sem Título
Vin de Mistborn (Fonte: pinterest.com)
OS SISTEMAS DE MAGIA SÃO ORIGINAIS

Brandon Sanderson é, a meu ver, um dos autores que melhor constrói sistemas de magia. Da alomância e feruquimia de Mistborn, ao breath de Warbreaker, passando pelo domínio da areia em White Sand – e falo destes porque foram os livros/sagas que li – a técnica passa pela ingestão ou absorção de uma matéria, cujo processo de metabolismo resulta na aquisição de um dom considerado mágico, incrível para um humano.

Desta forma, Vin, Kelsier, Vasher e Kenton tornaram-se personagens cativantes pelas suas habilidades, embora o autor, recorrendo à lei número 2 que definiu, crie também grandes dificuldades ao seu desenvolvimento, seja na aprendizagem das magias, na grandiosidade dos adversários ou na introdução de problemas do foro pessoal. Ainda assim, muito embora a magia de Sanderson seja algo mais científico que maravilhoso, desmantela a ilusão de super-heróis pré-concebida e apresenta uma plataforma credível e bem montada que só pode encantar os novos leitores de ficção fantástica.

Sem Título
Siri e Susebron de Warbreaker (Fonte: puncker–rocker.deviantart.com)
TEM AS SUAS HABILIDADES NARRATIVAS

Quem me conhece e ao NDZ há algum tempo, sabe que não morro de amores por Brandon Sanderson, sobretudo por ser possuidor de uma escrita fast-food, principalmente em Mistborn. Brandon não revela grande riqueza de vocabulário e as imensas voltas e reviravoltas no enredo sugerem muito improviso e muito pouco de esqueleto. O recurso a salvamentos de última hora são ainda um furúnculo no seu processo narrativo, para alguém que fomenta tanto a credibilidade dos mundos criados. Neste aspeto, Brandon tem ainda muito a crescer. Esta ideia marcou-me principalmente durante a leitura da primeira trilogia Mistborn, aclamada pela grande maioria do público de fantástico.

O autor, porém, veio a ganhar-me pouco a pouco. O final de Herói das Eras encantou-me, não que tenha ficado agradado com o recurso ao espiritual, quando Brandon tanto se havia esforçado por explicar “cientificamente” todos os detalhes, mas posso dizer que a trilogia foi concluída com chave de ouro. Não gostei de muitas explicações oferecidas a esmo ao longo dos três livros, mas os maravilhosos personagens, as relações humanas e os plot-twists prenderam-me, da primeira à última página. Acabei a Era 1 de Mistborn com nostalgia e com a sensação de que podia ser melhor, mas que mesmo assim foi muito bom.

Sem Título
Senhor Soberano de Mistborn (Fonte: pinterest.com/Rebeksterz)

A leitura de Warbreaker, porém, foi o cheque-mate a que se deve este artigo. A escrita do autor pareceu-me mais rica e envolvente e os plot-twists ganharam-me por completo. Cada reviravolta foi uma machadada e terminei o livro completamente apaixonado por Vivenna, Siri, Susebron, Vasher e companhia. Foi, sinceramente, uma das melhores leituras deste ano até agora. A novela gráfica White Sand, com argumento original de Brandon, não teve muita qualidade ou originalidade, mas não me desagradou. Mais uma vez, foram as surpresas e os plot-twists a conquistarem-me.

Brandon Sanderson é, inegavelmente, um dos mestres da fantasia moderna e um dos que mais fomentam aquilo que tanto me agrada no género: a construção de mundos credíveis e originais. Prevejo ler Elantris em setembro (versão pt-br) e espero que a Saída de Emergência continue a apostar neste autor que tanto tem acarinhado, seja com a segunda série de Mistborn ou com a publicação de The Stormlight Archive, aquela que, muito provavelmente, será num futuro recente a série de fantasia com melhor repercussão em todo o mundo. Cá esperamos por mais publicações, Brandon.