As Origens de Zallar #10: Histórias Vermelhas

A história é émula do tempo, repositório dos factos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro. Miguel de Cervantes

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

É numa época extremamente sensível no que diz respeito a religiões e a ecos da História que encerro a primeira série de artigos sobre As Origens de Zallar. É tempo de refletir sobre a nossa própria História, e sobre o quanto dela usei para construir este mundo fantástico.

Síria, Jordânia, Palestina, E. U. A., Inglaterra, França… Os ataques terroristas sucedem-se, em nome de grupos extremistas com a mesma base religiosa. Não é uma questão pacífica e nem todos concebemos o mesmo olhar sobre o assunto. Ao ler estas linhas, podem presumir uma comparação entre os extremistas muçulmanos e os hediondos mahlan, raça que um dia predominou em Terra Parda, a partir da qual sofreu alterações genéticas decorrentes do seu afastamento para os desertos, onde de alguma forma voltaram a evoluir. A verdade é que não pretendo estigmatizar uma civilização tão rica quanto é a muçulmana, nem de uma forma alegórica. Não porque o politicamente correto me embargue, mas porque a minha crítica dirige-se a toda a barbárie, e não a uma religião ou nacionalidade em particular.

Exige-se uma leitura aprofundada à nossa História, à filosofia cristã e à islâmica, para chegar-se a um efetivo esclarecimento sobre qual das visões foi a mais bárbara, em tempos vagamente retratados na saga. Mais do que um olhar filosófico e histórico, a própria perspetiva teológica das ideologias por mim montadas nesta série literária são extremamente divergentes em relação às crenças cristãs e muçulmanas, uma vez que elas se aproximam mais das teologias cosmológicas da Antiguidade. As ilações precisas ficam, então, reduzidas aos fatores históricos e estratégicos de ambas as civilizações.

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Comum a todas as religiões, mono ou politeístas, está o sentido de sagrado, entre os fiéis de diversos credos, ateus ou agnósticos. É uma questão vinculada à própria noção de alma humana, à sua mentalidade individual ou coletiva. A diferença de experimentos, de pensamentos ou até mesmo de sentimentos – todos eles uma cadência ligada à perceção humana – é combustível para separatismos e guerras em todo o mundo, desde a aurora dos tempos.

Em Histórias Vermelhas de Zallar, a questão religiosa parece sempre subliminar aos interesses do Homem. O Homem parece agir por interesse próprio, movido por vingança ou por ganância, e pouco demonstra o lado fervoroso do sentimento religioso. Isso verifica-se, efetivamente, numa perspetiva intimista e pessoal, mas o mundo religioso está presente, as suas diferenças são patentes e sabe-se de antemão que muitos dos conflitos iniciaram-se por querer fazer valer a sua ideologia. Isso é religião. Foi para espalhar a sua mensagem que Ameril Ozilliar colonizou todas as Terras Quentes, da mesma forma que Maomé avassalou Meca e Medina. Com diferenças ao nível da perspetiva, do comportamento e do modo de agir, Maomé, Buda e Jesus Cristo foram mensageiros da sua própria doutrina, colocando-a em prática e tornando-se heróis por terem sido pioneiros e, mais do que isso, por terem sido bem-sucedidos. Como diz o ditado, dos fracos não reza a história.

Passou muito tempo até que Hamsha se habituasse à temperatura de Welçantiah, às paredes frias do Palácio Real, aos monumentos imponentes dedicados a reis deuses ímpios e pagãos. Nunca fora uma verdadeira fiel, mas habituara-se a homenagear a Estrela Flamejante, a prostrar-se aos reis solares, e por isso os deuses dos terrapardianos pareciam-lhe distantes e cruéis. Mas todo esse tempo depois, os novos deuses que conhecera já não lhe pareciam tão pétreos nem implacáveis, quando ali chegara as figuras nos painéis policromos e nas inexpugnáveis estátuárias de mármore pareciam mais graves e severas, censurando-a nas suas ações e prometendo condená-la ao frio eterno. Espada que Sangra

Os leitores de Espada que Sangra perceberam que o livro foca-se muito mais nas questões históricas do que nas religiosas, apesar de um rol de ritos, costumes e preconceitos entre culturas transparecer para quem o lê. O tempo religioso – cíclico – é manifestado sobretudo através dos dias da semana, mas não existe uma evidência efetiva de dias festivos como o Natal ou o Ramadão, que incitem os fiéis a uma verdadeira metamorfose no estilo de vida diário. Daí que classifique a leitura do Espada que Sangra como uma leitura mais histórica do que religiosa.

A nossa ideia do que é uma religião descende de duas crenças – a judaica e a cristã –  que implementaram um sistema de organização ética, ao contrário da religião muçulmana, cujas ideologias se tornaram intimamente contíguas às leis políticas e normas sociais. No mundo literário, em Terra Parda e nas suas principais cidades-estado – as espadas -, preocupei-me em focar-me no lado mais materialista e objetivo do estado social, nas preocupações estratégicas e políticas. No entanto, umas pinceladas de noética – o estudo científico sobre a produção dos fenómenos do pensamento, oriundas da filosofia ateniense – e um sentido empírico das questões sobrenaturais são e serão encontradas em tempo oportuno.

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Para perceber como funcionam as religiões e o porquê de elas terem colorido de vermelho as Histórias, é necessário recorrer ao Antigo Testamento, um retrato complexo e bastante credível no que diz respeito à vontade dos homens e às suas consequências num contexto real. Importa perceber que na Antiguidade, todos os malefícios do mundo, fossem doenças, frustrações pessoais, posições solares ou desgraças climáticas, eram atribuídas a erros de um todo, um mundo cósmico. Por conseguinte, esses erros seriam corrigidos através de dádivas ou sacrifícios, o que constituía uma crueldade animalesca, inerente à natureza humana. Rituais de sangue que desde cedo pincelaram de vermelho o solo pisado pela Humanidade. Segundo as escrituras, depois do pacto de sangue entre Abraão e Deus, ao qual é atribuído o início do judaismo, a humanidade abriu-se para uma nova realidade, separando a ideia de um todo universal para o simbolizar através de uma única divindade.

Se partirmos deste pressuposto, as Histórias Vermelhas de Zallar são um retrato fantasioso daquilo que o Antigo Testamento quis mostrar. A génese de uma série de culturas, um compêndio de histórias sobre civilizações confusas, que podem ser o fim ou o início de algo, cisões entre culturas distintas e os seus atritos internos, o cruzar e entrecruzar de personagens, capitais para contar a história a que me propus. Um mundo de pessoas que morrem e pessoas que sobrevivem, pessoas que fogem e pessoas que enfrentam, pessoas que são aceites ou ostracizadas. O pano de fundo é uma panóplia de culturas extremamente enraizadas, com uma noção mais prática ou teórica do mundo, diversas formas de abordar os problemas e contorná-los. Reinos quebrados e impérios em formação são o velo em que é tingido este Espada que Sangra e as Histórias Vermelhas que se vivem em Zallar.

Não é apenas a cultura islâmica que divide o mundo em “o meu mundo” (o mundo de paz), o mundo em que “as normas têm de ser efetivamente cumpridas ou sangue será derramado”, e o mundo dos “outros”, o mundo da guerra, dos infiéis, dos pagãos, dos quais se forma a ideia de intolerância. Infelizmente, ainda hoje muitos ocidentais encaram a vida desta forma, vislumbrando no derramamento de sangue a solução efetiva, prática e única para a resolução de um problema. É tempo de refletir se, na era da informação em que vivemos, somos um povo assim tão civilizado como pensamos, ou se continuamos tão primitivos como nos tempos em que se matava crianças para satisfazer os apetites de um deus mudo.

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Pesquisei também na net a citação de Miguel de Cervantes sobre história e um pouco sobre a cultura judaica.

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As Origens de Zallar #9: A Religião Terrapardiana

Deus não tem religião. Mahatma Gandhi

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Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Um dos aspetos que me dá mais gozo enquanto autor destas Histórias Vermelhas de Zallar é a construção dos sistemas de crenças. Entre as várias religiões presentes na obra, a terrapardiana é a que aufere maior destaque neste primeiro volume. Se, num dos artigos mais recentes, foquei-me na Sociedade Sem Voz, uma confraria secreta de especial importância para o curso narrativo, este serve para apresentar a religião como um todo, uma vez que a referida organização baseia-se nas suas crenças, mas inclui também todo o tipo de figuras pagãs e divindades, atribuindo uma faceta humana aos deuses. A Sociedade Sem Voz acreditava que Anoris, o primeiro Rei de Terra Parda, era a encarnação do próprio Aan, deus-pai dos terrapardianos, o que difere grandemente da visão geral do terrapardiano, que vê o deus como algo intangível, inumano. É através da personagem Hamsha que somos apresentados a todo esse rico panteão.

À luz de uma vela de sebo, Hamsha fitou uma imagem colorida no centro da lauda. Nela, encontrava-se desenhada uma grande roda coberta de símbolos, e pequenas reproduções de animais e indivíduos se podiam ver à sua volta.
― Os trabalhos agrícolas iniciam-se ao primeiro dia da semana. O shalíngo é consagrado ao deus da fertilidade, o Lavrador, e neste dia as comunidades unem-se para a lavoura dos terrenos.
Hamsha acompanhou o indicador enrugado do homem para uma das representações na grande roda, onde mostrava uma formiga gigante de cor nívea, cujos olhos expressivos mostravam a forma de duas folhas brancas nas pupilas. Assim as considerou, porque o seu mentor acabara de lhe explicar que o Lavrador era o deus da fertilidade, da agricultura e da natureza, mas essa ideia fora-lhe recusada de imediato.
― Não, minha querida. Isto que vês nas pupilas não são folhas, mas penas brancas. Todos os deuses se transmutaram quando foram acolhidos no limbo pelo Povo das Nuvens. E ao mesclarem-se com as nuvens, ganharam também as suas características. As aves brancas que vês no céu, vêm das Terras do Povo das Nuvens, são os mensageiros que fazem a ponte entre o nosso mundo e o deles.

Posso afiançar que esta ideia de os deuses serem dotados de elementos aviários está relacionada com o que pensei inicialmente para este mundo de Zallar. A minha primeira ideia foi criar uma fauna semelhante à que existia no Período Cenozoico do nosso mundo, habitat de imensas espécies de aves do terror. Na fase de construção que se seguiu, abandonei ligeiramente essa ideia, mas mantive a vontade em fazer de Zallar um mundo de aves. Como tal, atribuí características aviárias a muitas das espécies animais, refletidas na própria natureza humana. Cito, como exemplo, a crença do céu e inferno que nos é tão comum. Se o inferno é chamado de Qaos pelos terrapardianos, o céu em que acreditam é apelidado de Terras do Povo das Nuvens, onde o falecido ganha características de aves. Para além de mensageiras entre os dois mundos, as aves brancas são vistas como seres veneráveis, enquanto as de penas negras são catalogadas como aziagas, como é o caso das gralhas-de-sangue.

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― O segundo dia da semana é o aaczto, dedicado à deusa da Paz, chamada de Alada. ― O homem tateou a página para mostrar a imagem de um maravilhoso cisne branco com uma gargantilha em ouro pendurada ao pescoço. ― Dedicado às orações caseiras, neste dia as mulheres ficam em casa, pedindo pelos seus entes-queridos à deusa. É representada como um cisne, mas antes da transformação terá sido uma bela mulher, uma rainha complacente e benévola.


― Ao terceiro dia do mundo, O Ente concebeu Shiin, também chamado de Rei Caçador ou O Cavalo de Aan, patrono da velha Welçantiah. Por isso, o terceiro dia da semana é a ele dedicado – o shiinaro.
Hamsha viu um belo cavalo de penas brancas, que de imediato associou ao unicórnio da cota de armas real de Welçantiah.
― Os templos de Misera agitam-se no miser. Este dia da semana é devoto à deusa Misera. ― Abaixo do cavalo, ao lado de um elaborado texto com a caracterização da deusa, via-se o retrato de uma mulher nua de pele verde vestida de penas brancas. ― Todos esperam que a deusa tenha misericórdia por eles e por aqueles que já se foram, que vivem agora no reino celeste junto ao Povo das Nuvens.
Do outro lado da página, estava uma mulher bailarina com uma pomba na mão.
― O quinto dia da semana é dedicado a Amável, a deusa bailarina. O amailon é um dos mais importantes dias da liturgia welçantiana. Os grandes bailes da corte são concedidos nesta noite. A deusa é representada como uma mulher a dançar com uma pomba na mão, e em alguns casos, mesmo como uma pomba branca. O Rei surge sempre nestes bailes com uma máscara de penas brancas sobre o rosto. ― O homem tossiu, apontou para debaixo da dançarina, e ali encontrou desenhada uma truta com penas brancas em vez de escamas. ― O sexto dia é o anoron, dedicado ao Anor, O Pescador de Homens. É o protetor das famílias, das crianças e dos marinheiros. Diz-se que habita na terra que há para lá do mar, e quando os homens se afogam e se perdem nas águas, Anor pesca as suas almas para o lado de lá. O anoron é o dia do lazer, dos jogos de família, e ao primeiro de cada mês, é atribuída a todas as famílias um abono relativo ao número de filhos que cada casal possui, auxiliando as famílias na sua subsistência. Por fim, o sétimo e último dia da semana – o aanir – é consagrado a Aan, o Supremo, o deus homem, o deus entre os deuses.
O homem explicou-lhe que era um dia dedicado às artes, às grandes aparições públicas e aos discursos do Rei. A representação de Aan, na base da roda, era um homem belo de longos cabelos negros e vestido de penas brancas, com uma serpente emplumada em cada mão. No norte acreditavam que a representação de Aan era mesmo uma serpente emplumada. De entre as pernas saía-lhe um comprido pénis com cabeça de serpente, conhecido entre os welçantianos como Lança de Aan, símbolo de virilidade muito adorado, mas também escarnecido pelas mentes promíscuas quando se tratava de ofender alguém. As prostitutas eram muitas vezes apelidadas de lanceiras de Aan, uma metáfora relativa ao seu ofício.

A crença de que um deus da fertilidade seja o mais venerado do panteão só encontra similaridades nas religiões matriarcais pagãs, que prestavam culto à Deusa-Mãe, seja Brígida, Sarasvati, Nibada, Cibele, Reia, dependendo da cultura que a observava. Também o nórdico Thor tenha talvez sido um deus da fertilidade tão adorado, mas o Aan da religião terrapardiana foi beber muito mais à mitologia inca do que ao imaginário viquingue. E, muito embora o deus Min não seja uma figura de destaque no panteão egípcio, a sua figura é a inspiração maior para o deus mais evocado pelo terrapardiano, essencialmente no que diz respeito à sua representação itifálica. A deusa Amável foi buscar inspiração às religiões clássicas, à Hera/Juno e à Vénus/Afrodite, mas para a conceção dos restantes deuses, foi a todas estas culturas acima citadas que bebi características relativas a ofício, estratificação social ou estado físico. A fisionomia dos mesmos adquire um contraste entre o greco-romano e o meso-americano, embora me tenha esforçado para torná-los originais, dentro do permitido pela minha imaginação. Tauret, Bes, Tiamat, Izanagi, Bhairavi são exemplos de inspirações. Ao contrário dos outros panteões apresentados nas Histórias, o terrapardiano tem espaço para uma cartela de deuses negros, correspondente à visão cristã dos anjos caídos.

O velho desfolheou umas quantas páginas para revelar uma outra representação. Nela apareciam dez gralhas-de-sangue, da cor do vinho tinto, a cor mais escura do sangue que lhes dera o nome: os akhamay. O senhor do Qaos era Moo’ron, e o seu séquito era composto por Mortmer, Moshin, Moltor, Dhalsi, Dhim, Magul, Moro, Meer e Shogon, dez deuses corrompidos no início dos tempos, que com as suas forças infernais conceberam o Qaos, um inferno imenso cujo caminho era feito através das dez misteriosas e ardentes Cabeças do Qaos. Alguns julgavam que as Cabeças do Qaos eram os próprios akhamay, outros garantiam que eram estradas negras fendidas no solo, e podiam até jurar conhecer as suas sombrias localizações.

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Aparte as caracterizações físicas e significância de cada uma destas figuras adoradas pelos terrapardianos, a mitologia em “Histórias Vermelhas de Zallar” tende a mostrar-se credível, dentro da esfera de vida dos crentes. Nesta saga, ela toca a realidade por diversas vezes, mas nunca de uma forma explícita. Obriga a que toda a sua complexidade seja desvendada, camada após camada. Sempre fui apaixonado por mitologia, por isso é com prazer que exploro estas questões, sempre de um ponto de vista mais estudioso que esotérico, ao longo da série literária. Os mistérios deixados pelos ancestrais e a génese das lendas é também um ponto a explorar. Acredito que esses imensos microcosmos de deuses e deusas que encontramos espalhados por civilizações do nosso mundo real, são faces das mesmas moedas, todos eles interpretações diferentes da mesmíssima coisa, facetas de um macrocosmos de deídades cujo significado está muito para além do divino.

E é essa perspetiva que pretendo espelhar na minha saga, despindo por frações todas as verdades encriptadas, muito mais ligadas à ciência do que ao etéreo, como o fizeram ao longo dos séculos sábios, irmandades secretas e confrarias. Dos mistérios da Ordem do Templo à Maçonaria, dos segredos envoltos à vida e morte de Jesus Cristo, às paixões pelos símbolos de poder evidenciadas por Adolf Hitler, são muitos os enigmas da humanidade que dão azo a mil e uma ideias que se coadunam com o meu imaginário. Para saber mais sobre este mundo de Zallar, pejado de mistérios, não há como pegar neste Espada que Sangra e iniciar a leitura.

Os símbolos sexuais, masculino e feminino, nasceram na mitologia grega. O círculo com a cruz representa o espelho de Afrodite (Vênus), símbolo da mulher… e o círculo com a flecha dirigida para cima representa o escudo e a lança de Ares (Marte), o símbolo do homem. Otávio Conti

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Pesquisei também na net as citações de Gandhi e Conti sobre religião e mitologia.

As Origens de Zallar #8: A Traição Dyekken

Até tu, Brutus, meu filho! [Júlio César]

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Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Toda a boa história está impregnada de uma certa dose de conspiração e traições. O meu Espada que Sangra não é a exceção à regra. No último artigo falei-vos de jogos de poder, e qual é o jogo de poder em que não há traições pelo meio? Voltaire já nos dizia que os desconfiados convidam à traição, conquanto haja motivo para tal. O principal visado de traição no jogo político é aquele que detém o poder, e no caso específico do Espada que Sangra esse homem é Ameril Hymadher, o rei de Welçantiah. Por inveja ou por ambição, aqueles que o atraiçoaram fizeram-no, na grande maioria das vezes, para o próprio benefício. Existe um vasto leque de motivos por detrás das maiores traições da nossa História, grande parte deles relacionados com predisposições religiosas ou partidárias. No meu livro, Hymadher é “apunhalado” por vários dos personagens que lhe são próximos, e escuso-me a dizer os nomes ou os laços de afeto que os unem. Uma das maiores traições de que foi alvo, porém, ocorreu antes do início do livro, conforme vos relato a dado capítulo.  A traição de Dyekken Jacoh à causa Ameril.

O capitão, conhecido pela sua fanfarronice, fora enviado à frente de uma delegação para negociar com uma raça considerada “superior” em conhecimentos, os el’ak, que tornar-se-ia um apoio determinante para a guerra que os welçantianos travavam nas fronteiras. As cidades-estado de Terra Parda uniram-se para defender o país de um exército de criaturas dos desertos, os mahlan, que haviam evoluído nas suas componentes técnico-táticas. Estas criaturas usavam também ooti, uma raça de répteis voadores (os quais me inspirei nos nossos velhos amigos pterodáctilos), como montaria no ataque aéreo.

Por sua vez, a defesa terrapardiana aparava os avanços com poder de fogo: o uso do tormento negro, bem semelhante à nossa pólvora, havia-se tornado um meio crucial para a sobrevivência humana. Ainda assim, tal instrumento não se revelou autossuficiente e foi de certa forma um ato de desespero aquele que levou Ameril Hymadher a pedir apoio aos el’ak, que décadas atrás haviam decidido não voltar a entrar em nenhuma guerra que não lhes dissesse diretamente respeito.  Dyekken Jacoh liderou a delegação welçantiana na abordagem aos el’ak, mas as suas intenções revelaram-se dúbias desde o primeiro instante. Perante a descrença dos visados nas suas palavras, fazendo respeitar as juras dos antigos e mostrando-se indisponíveis para servir de carne para flechas, o capitão enviou um relatório a Welçantiah, que mais não foi do que um sério pedido de reforços. Alegadamente, os el’ak haviam-nos hostilizado e a refrega tornara-se inevitável. Hymadher enviou reforços para apoiar Dyekken, mas assim que se sentiu confortável para isso, o capitão deu ordens para ocupar a fortaleza el’ak, Torre das Harpas. Após violentos confrontos armados, e graças ao poder de fogo que os el’ak não possuíam essencialmente por o considerarem produto das trevas, Dyekken Jacoh levou a melhor e ocupou a fortaleza. Não só fez o rei el’ak refém como controlou Torre das Harpas, não a favor do seu rei e senhor, Ameril Hymadher, mas para seu próprio proveito. Jacoh renunciou aos Ameril e fez de si mesmo soberano de Torre das Harpas.

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Francesco Sforza foi uma das minhas inspirações para a composição deste personagem. Nascido na Toscânia, lutou desde cedo ao lado do pai, Muzio Sforza, e tornou-se admirável pela habilidade de dobrar barras de metal com as mãos. Foi um grande comandante de campo e estratega formidável. Lutou não só para os napolitanos (em Nápoles acabaria por perder os seus feudos), como para os milaneses, com quem travara uma relação de amizade de vários “capítulos” com o duque de Milão, Filippo Visconti. O trabalho para o papado conferira-lhe estatuto entre os exércitos. Aquando da morte do duque, e à falta de um filho varão que lhe sucedesse no cargo, Sforza fora agraciado com a distinção, tornando-se duque de Milão. No poder, revelou várias habilidades de gestão, flexibilizou a política externa e garantiu a independência do estado italiano face aos predadores vizinhos. Faleceu em março de 1466, sendo substituído pelo filho, mas a sua obra perdurou através dos séculos.

É esta a visão que a História nos oferece de Francesco Sforza, e o “meu” Dyekken Jacoh não tem nem um pouco da honra que a biografia de Sforza transpira. Jacoh era um homem acossado por um complexo de inferioridade gritante, capaz dos mais rebuscados métodos para encobrir a sua cobardia genética. No entanto, alguns traços do percurso de Sforza serviram de inspiração para este personagem.

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Brutus é um dos traidores mais famosos da História. A sua memorável traição remonta a 44 a.C., quando apunhalou Júlio César nos degraus do senado. A relação de Brutus para com César era a de um filho para com um pai. Pertencente à casa dos Júnios – que se diziam ser descendentes da deusa Juno – a mãe havia sido amante de César, e mais tarde o conhecido líder romano tomou-o como seu favorito. Brutus alinhou, no entanto, na conspiração de Cássio para o matar. Acabaria por não obter grandes recompensas desse assassínio e suicidou-se dois anos mais tarde, após uma frustrante derrota na Batalha de Filipos. Jacoh não conspirou para matar Hymadher de uma maneira tão objetiva, desejando estabelecer-se como líder militar antes de golpear o inimigo. Nesse campo, personagens como Goròn agiram de um modo mais cerebral, com a desejada liquidação do opositor a funcionar como o trampolim para o poder. No entanto, cabe-me considerar que as elegias cantadas a Brutus seriam porventura tão tristes quanto as que poderiam ser cantadas à memória ensombrada de Jacoh.

Dyekken Jacoh colocou-se de imediato em pé, com as suas gorduras a baloiçarem-lhe na barriga bojuda, coberta de pelos claros que se estendiam até ao sexo definhado. Era um homem feio de nariz abolachado e bochechas caídas, e uma grande barba loura a tender para o ruivo caía-lhe ao nível do peito peludo. Os seus olhos eram castanhos como nogueira. [Espada que Sangra, Nuno Ferreira]

A “troca de camisa” de Dyekken Jacoh tivera também uma componente religiosa. Nem Welçantiah nem Torre das Harpas eram estados laicos, cada um reverenciava os seus deuses e todo o líder político detinha a responsabilidade de prestar culto aos seus. Pelo comportamento de Jacoh, o único deus em que acreditava era nele próprio. O seu endeusamento tornou-o cego de compreender o modo de vida dos el’ak, o povo que passou a governar, mas acima de tudo a não imposição de um novo credo aos novos súbditos passa muito pela sua natureza cobarde. O terror que sentia por sofrer uma rebelião dentro do domínio conquistado instalara-se em Jacoh como um veneno, que o conduziu lentamente ao desfecho que conhecemos. Faltou-lhe a coragem de um Akhenaton, que em 14 a.C. aboliu toda a religião egípcia em favor de um único deus: Aton. A incisiva empresa levada a cabo pelo faraó foi vista como uma traição terrível aos olhos dos súbditos, mas Akhenaton conseguira fazer valer as suas ideias e muitas das construções erigidas durante o seu reinado são maravilhas da arquitetura milenar egípcia ainda hoje visíveis aos nossos olhos. Mais do que coragem, faltou a Jacoh um propósito. Ele quis governar por despeito, por revolta, por saber que era menos capaz do que o seu rei. Um rei que nunca amara. Um rei que nunca soubera igualar. Um homem melhor.

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Procurei também na Wikipedia informações sobre Brutus e Sforza para não pecar em imprecisões. 

As Origens de Zallar #7: Os Jogos de Poder

A sorte não existe. Aquilo a que chamais sorte é o cuidado com os pormenores. Winston Churchill

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Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Hoje venho falar-vos sobre jogos de poder. Mais do que as movimentações entre irmãos pela conquista do poder (reparem que os Ameril governam há imenso tempo e sempre houve despiques entre irmãos pela posse do trono), quero falar-vos de movimentos que lhes estão subjacentes: as camadas inferiores da governação. O Conselho de Estado que tem sempre um voto na matéria, composto por homens que já deram tanto de si à Espada e que foram nomeados para aqueles cargos tão veneráveis. Quem são estes homens? Quais as suas verdadeiras intenções? Há todo um jogo de bastidores que coordena as engrenagens de Welçantiah? Em que me inspirei para a criação deste Conselho?

Na monarquia romana, uma das funções mais decisivas era a de escolher o rei, o que acontecia no período a que se convencionou chamar interregnum. Quando um rei morria, um membro do senado indicava um candidato para substituir o rei. Durante o primeiro intervalo de tempo que se deu após o desaparecimento de Rómulo, o senado de cem homens dividiu-se em dez decurias, cada uma delas era representada por um decurio. Esse sujeito desempenhava a função de interrex durante cinco dias, sendo substituído logo após esse período por outro senador, o que se sucedeu durante um ano. Ao final desse ano, um novo rei foi eleito, após ser aprovada a candidatura pelo senado, dar-se a eleição pelo povo e novamente pelo senado, que tinha sempre a última palavra, o que por si só mostrava o poder desta faixa política. É também de destacar a influência que esse senado tinha a nível legistativo e consultivo; as suas palavras tornaram-se sinónimo de sabedoria e o conselho do senado romano um famigerado exemplo de sucesso.

A única coisa a fazer com os bons conselhos é passá-los a outros; pois nunca têm utilidade para nós próprios. Oscar Wilde

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À sua volta gravitavam homens que colecionavam competências ímpares no jogo de estratégia e um tato apurado para todo o tipo de questões palacianas. No entanto, o que os olhos – e os ouvidos – de Hymadher lhe mostravam eram sombras expectantes, que esperavam ansiosamente pela sua oportunidade para lhe meterem as garras em cima.

Sombras que mordem.

A organização do governo de Welçantiah era complexa. O órgão máximo da cadeia era o Rei, também chamado de xer ou Príncipe Maior. Ele era o sumo responsável por todos os desígnios da sua espada e ninguém detinha mais poder do que ele. A sua ação estava mais intimamente ligada às questões marciais, pois era o principal representante do exército, mas estava também encarregue dos poderes administrativos e legislativos. Em ambos os casos, tinha alguém em quem delegar funções. As questões administrativas eram essencialmente desempenhadas pelo Rei, mas muitas questões menores eram ministradas pelo chanceler: uma figura institucional ocupada por dois ou três conselheiros da sua máxima confiança. Mesmo nas questões de maior importância, eram pedidas Assembleias em que o voto de um chanceler tinha grande peso na decisão finalEspada que Sangra

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No meu livro Espada que Sangra, o Conselho de Welçantiah desempenha um papel em muito semelhante ao do senado romano nos seus tempos monárquicos. É neste cenário que emergem figuras políticas tão ricas como controversas; estou a falar de nomes como Fel Manny, Vax Mohill, Agnim Wilfred-Hunther, personagens importantíssimos no decorrer desta saga conquanto cada um deles tenha a sua motivação secreta, o seu requinte de intriga e uma palavra a dizer no que concernia à governação daquela que foi a Espada mais poderosa em Terra Parda. Curioso?

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Procurei também na Wikipedia informações sobre o senado romano para não pecar em imprecisões. 

As Origens de Zallar #6: A Reconquista

O ontem não é nosso para recuperar, mas o amanhã é nosso para ganhar ou perder. Lyndon B. Johnson

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Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Entre aqueles que leram o Espada que Sangra, as opiniões dividem-se. Houve os que adoraram e os que detestaram a raça chamada mahlan. Conforme conta a história, o mundo de Zallar foi povoado inicialmente pelos Homens Demónio, a primeira raça de hominídeos. Eram sujeitos com pernas idênticas às de uma avestruz, tronco e braços de primata (espécie à qual nos incluímos), e rosto de lagarto, embora todo o corpo fosse revestido de penas. Com o passar dos séculos, aqueles a que chamamos humanos surgiram do oeste para reclamar o domínio da zona a que mais tarde se convencionou chamar Terra Parda. Depois de ferozes batalhas, os humanos rechaçaram os Homens Demónio e apoderaram-se da sua sofisticada cultura, obrigando os sobreviventes dessa espécie a refugiarem-se nos desertos, onde, geração após geração, foram perdendo a sofisticação. Tornaram-se tribos nómadas e deixaram de representar qualquer perigo para a civilização humana. A verdade é que, séculos depois, os descendentes dos Homens Demónio – os mahlan – começaram a melhorar os seus armamentos e voltaram a evoluir, contrariando a tendência até ali observada. Esse progresso e o despoletar de ataques mais ousados fez com que os soberanos das espadas terrapardianas erguessem muralhas nas fronteiras, muralhas essas que travaram essas ofensivas durante décadas. No entanto, o progresso dos mahlan cresceu e as muralhas podem já não conseguir suster avanço tão feroz. Estaremos à beira de uma reconquista de Terra Parda?

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Na arte de criação dos mahlan, fui buscar referências a várias fontes. Queria um inimigo comum arquetípico, como Os Outros do lado de lá da Muralha de George R. R. Martin ou os walkers de The Walking Dead. Mas a ideia de hordas de mortos-vivos não me convenceu nem convenceria quem lesse a minha obra. Queria construir algo de raiz, que também estivesse identificado com as próprias raízes de Zallar. Os tradicionais Homens Lagarto da fantasia heróica foram uma das inspirações mais fortes para a imagem física destes sujeitos, mas acrescentei-lhes mais alguns dados interessantes: física e intelectualmente. No Iraque foram encontradas antigas peças de barro sumérias com imagens de “deuses-répteis”, e desde logo imensas teorias foram tecidas em torno dessas figuras. As teorias mais polémicas defendem que os antigos deuses eram extraterrestres que vieram à Terra para decidir o futuro da raça humana. A Teoria dos Astronautas Antigos defende que não só os deuses das antigas civilizações eram extraterrestres que deixaram pistas, leis, para se regerem (ou para se salvarem), como também aparições de anjos seriam manifestações dessas criaturas: mensagens de criaturas de outros mundos. São incríveis as coincidências e os pormenores interessantes que estudiosos na matéria encontram, como por exemplo as medições e formatos de pirâmides em civilizações em tudo distintas. Com base nessa ideia de reptilianos criadores da espécie humana concebi os Homens Demónio, como uma possibilidade de raça primordial.

O dealbar do homem – não como o conhecemos hoje, não como o imaginamos quando ouvimos a palavra “homem” – ocorreu aproximadamente dez mil anos após a Criação de Zallar. Eram os nebulosos feéricos os donos e senhores do mundo quando eles se revelaram. A maioria das narrações indicam que, percebendo as potencialidades alimentares da terra, pequenos anfíbios e répteis haviam galgado as margens, abandonando o patrono dos mares, enquanto as aves teriam deixado o seu senhor dos céus, buscando subsistência na terra. Os deuses decidiram castigar esses mesmos animais por aquilo que consideravam alta traição e explícita violação dos seus dogmas, e o resultado de um presumível concílio divino abalou as próprias fundações de Zallar. Unindo os seus esforços, os deuses fizeram uma grande tempestade de cem anos se abater sobre Zallar. Oriundo da força singular do relâmpago, emergiu uma nova criatura: exibia um corpo reto, uma cabeça, um tronco, dois braços e duas pernas. Diz-se que todos os animais que abandonaram os seus patronos foram destruídos, e parte dos seus traços físicos foi agregada a esta nova e sublime espécie. Espada que Sangra

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Foto: http://www.hourofwolves.org

Afigura-se então, com a ascensão mahlan, uma luta pela reconquista do poder. E para retratar uma reconquista, não há como fugir à nossa própria História. Em momento nenhum da minha saga irei retratar um facto histórico, isso poderia ser uma inibição à minha criatividade, mas muitos pontos entre a Reconquista Mahlan e a Reconquista Cristã irão convergir ao longo da narrativa.

O objetivo da Reconquista Cristã (que se iniciou no século VIII na Península Ibérica) era a recuperação das terras que haviam sido perdidas para os árabes durante a Invasão Muçulmana. Foi um longo processo que durou oito séculos. Havia começado com a revolta de Pelágio, que à frente de um grupo de refugiados fizera frente ao domínio árabe, e abrira um precedente para as gerações vindouras. Os líderes religiosos apelaram a uma participação efusiva das Cruzadas no projeto de recuperação (a Guerra Santa, que estalara em 1096) e outras instituições religiosas e militares tiveram o seu papel, como os Templários. O nosso país havia expulsado os mouros com a conquista de Faro por D. Afonso III em 1249, mas a Reconquista apenas se considerou concluída em 1492 com a tomada de Granada. Para isso contribuiu o papel decisivo de reinos feudais como os de Leão, Navarra, Aragão e Castela e uma importante aliança entre os Reis Católicos, figuras que inspiraram a criação dos personagens Owenn e Hengeld, os Reis Cléricos da História Zallariana.

Curioso para saber mais sobre esta Reconquista Mahlan e que em que moldes ela se poderá aproximar à Cristã? Continua a ler as Histórias Vermelhas de Zallar e fica atento aos posts dedicados às Origens de Zallar.

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Procurei também na Internet dados sobre A Reconquista Cristã, assim como na Enciclopédia Larousse da Língua Portuguesa. 

As Origens de Zallar #5: A Sociedade Sem Voz

Todas as religiões são a verdade sagrada para quem tem a fé mas não passam de fantasia para os fiéis das outras religiões. Isaac Asimov

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Um dos capítulos que tem suscitado mais interesse aos meus leitores é aquele que incide na introdução da Sociedade Sem Voz na narrativa. O que é, na verdade, aquela sociedade? É uma seita, uma sociedade secreta, ou uma religião? Vivemos num mundo multicultural em que não só as culturas se cruzam como também as religiões. E dentro de cada religião, existem também os seus derivados, ramificações que empolam certas características em detrimento de outras. As comunidades católicas, protestantes e ortodoxas são as várias ramificações que a religião cristã alberga, diferentes interpretações de uma mesma Bíblia, daí que a Sociedade Sem Voz seja, mais do que uma sociedade, um ramal à própria religião terrapardiana. Qual a importância, então, desta crença nas “Histórias Vermelhas de Zallar”?

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1 – Ezzila.

É-vos revelado, no referido capítulo, que o pai de Ezzila conduzira-a à Mansão, o templo da comunidade, e nele se deitaram nus, de barriga para o teto, a orar. Tal prática era tradicional na Sociedade, uma manifestação de fé. Disse-vos também que havia muito tempo que ela não voltara lá, mas que ainda assim não abolira a Sociedade, conhecendo as suas práticas. A relação entre Ezzila e os membros é de uma velha amizade, mas também de algum remorso e tensão, o que adensa o mistério. Por várias vezes fui abordado se Caiffat, o delfim da Mansão (o alto-sacerdote da comunidade), é na verdade o pai de Ezzila, que todos julgavam exilado. Várias vezes ele a aborda por: “minha filha”. A resposta a essa pergunta deixarei que descubram no segundo volume desta saga.

2 – A mensagem.

Quando Ezzila entra na Mansão, somos apresentados a vários personagens, a maioria velhos e misteriosos. Lynkos parece ser o mais próximo da Rainha. Conhecemos também Sentyr, o velho arlequim, dois velhos guardas e um sujeito gordo e apático, que se diverte a brincar com frutas caramelizadas. No final do capítulo percebemos que esse indivíduo havia desaparecido, e que os restantes lhe haviam encomendado uma tarefa – contar o ocorrido a alguém. O resto fica em suspense, e nada mais nos é dito a respeito neste primeiro volume da série.

3 – As mortes.

Capítulos à frente, encontramos a aia da rainha, a jovem Selenya, preocupada com o estado vegetativo da soberana. Ela procura o curandeiro, e quando chega a sua casa encontra uma multidão à porta, acusando-o de charlatanice. Logo ela percebe que algo de errado se passou, porque o velho curandeiro sempre foi bem sucedido nas suas mezinhas. Ela lá arranja uma forma de entrar em casa do velho… para o encontrar enforcado na sala. Nem todas as pessoas fizeram a dedução, mas o curandeiro chamava-se Caiffat, e sim, ele era o delfim da Sociedade Sem Voz. Provavelmente já setenta por cento dos leitores se havia esquecido desta sociedade quando é revelado que Amarion, o esposo e grande inimigo da Rainha, assassinou Lynkos, um dos membros da Sociedade. Pode parecer estranho e pouco significativo para o enredo, mas no próximo volume terão respostas sobre estes eventos.

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A história da Mansão confundia-se com a própria história de Hyldegard. A congregação surgiu ao terceiro mês do ano de 149, por iniciativa de um grupo de artistas que fugia da perseguição religiosa. Por intermédio de um importante mecenas da época, Carx Aquilon, os seus fundadores conseguiram um alvará do Rei que lhes concedia autorização para as suas atividades ocultas. A sociedade inicialmente chamou-se Sociedade do Grande Anoris, mas o Rei Herbert, no ano de 163, declarou a morte da confraria, e apenas três anos mais tarde, Allan II voltou a permitir a liberdade dos associados, com uma série de condições. Foi obrigatório o pagamento de uma joia e uma taxa fixa de quarenta jallas de ouro por ano. Para além desse pagamento, a congregação tinha a obrigação de se manter nas sombras, para não chocar com a conservadora tradição religiosa que crescia na época. Espada que Sangra

Inspirei-me em sociedades ocultistas como a Maçonaria ou a Carbonária para os primeiros traços desta “Sociedade Sem Voz”. “Sem Voz” não significa que a oração necessite de silêncio, nem, como Ezzila sugere na narrativa, que os seus filiados “silenciem” os inimigos através da lâmina. “Sem Voz” significa sem expressão. Esta não é a religião em voga em Hyldegard, nem em nenhum outro estado. É uma religião marginal, um pouco até clandestina.

Imerso mais profundamente nos meandros da Sociedade Sem Voz, recrutei traços de uma crença ainda mais profunda e polémica. O catarismo. No desenvolvimento destas Histórias, a Sociedade Sem Voz irá buscar elementos ao mais famoso movimento ascético cristão.  O catarismo foi uma ameaça séria para o pensamento cristão entre os anos 1100 e 1200, defendendo a ideia de um deus bom (o do Novo Testamento) e um deus mau (Satanás). Acreditavam que todo o mundo físico havia sido criado por Satanás e que as nossas almas eram almas sem sexo de anjos, que teriam sido aprisionadas nos nossos invólucros carnais. O catarismo teve na cidade de Albi um dos seus principais centros, pelo que os cátaros foram também chamados de albigenses. O movimento teve as suas raízes em outros existentes na Arménia e na Bulgária, e caiu vítima da perseguição religiosa. Por iniciativa do Papa Inocêncio III foi instaurada a Cruzada Albigense que consistia na acérrima perseguição aos cátaros, que a Igreja Católica considerava pura heresia. Montsegur (1244) e Quéribus (1255) foram das últimas fortificações cátaras a caírem às mãos da Igreja.

Os cátaros servem de inspiração para a Sociedade Sem Voz em que moldes? No seu pensamento radical? Na forma como se disseminou? Na forma como caiu? Através de que mão atingirão eles o auge, ou a queda? Todas essas respostas apenas poderão estar disponíveis nos próximos volumes.

“Matem todos eles, Deus saberá quem são os seus” Atribuído a Arnold Amaury, líder da Ordem dos Monges Cistercienses

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Procurei também na Wikipedia informações sobre os cátaros para não pecar em imprecisões. A Enciclopédia Larousse também me esclareceu uma pequena dúvida. 

As Origens de Zallar #4: A Velha Guarda

Quem me rouba a honra priva-me daquilo que não o enriquece e faz-me verdadeiramente pobre. William Shakespeare.

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Há dois ou três dias fiz um vídeo a falar sobre dois dos personagens mais carismáticos da minha série literária e desde logo ficou a vontade de escrever mais sobre eles, sobre o seu passado, as suas origens. Falo de Monroy Aggert e Chestyr Worrena. E falo daquela variável tão discutida e questionada ao longo dos tempos a que os homens chamam de honra. Segundo Schopenhauer, a honra é a opinião dos outros sobre o nosso valor, mas numa visão mais subjetiva, é também o medo que todos nós sentimos sobre essa opinião. Rudyard Kipling sublinhou que é o dever de qualquer homem ser honrado, mais do que qualquer outra obrigação moral ou material. Já o filósofo Sócrates traçou uma visão mais objetiva sobre o tema: a melhor forma de se ser honrado é ser essencialmente o que se parece ser. Mas afinal, o que é isto de honra? É uma forma de dignidade, de boa aparência aos olhos dos outros, ou de se viver em respeitosa harmonia com o seu eu interior? Pode ser honrado um homem corrupto, ainda que tal não esteja visível aos olhos do mundo? Chega uma boa reputação para fazer de um homem, um homem de honra?

Numa opinião um pouco transversal àquelas que supracitei, digo que a honra é o reflexo de um comportamento digno de louvor, a forma como alguém se destaca por uma conduta de retidão; o que sugere um equilíbrio entre uma postura digna e um eu interior poderoso em valores. No meu livro Espada que Sangra, o personagem Monroy Aggert é um sujeito completamente afastado do mundo de princípios e valores onde se tornou homem. Um sujeito que pisou na própria honra para seguir um caminho de devassidão. Quem ler o livro vai perceber parte dos motivos que o levaram a abandonar o cargo de destaque na Guarda Ameriliana, onde a conduta irrepreensível é um dos quesitos mais importantes. Mas de onde nasceu este personagem? Em que me baseei para criar este escol de homens honrados? Vamos por partes.

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As origens da Guarda Ameriliana não são explícitas no livro, mas o próprio nome denuncia que nasceu em pleno Esplendor Ameril, ou seja, no período que se iniciou quando Ameril Gedwinn subiu ao trono do unicórnio para enterrar a sua lâmina nas goelas de Torw Orn e assim dar início à dinastia Ameril. Gedwinn foi um pastor que se tornou rei, o Rei Pastor, e terminou com a tirania das dinastias passadas ao depor Orn e os da sua casta. Esta nova guarda servia essencialmente para proteger o rei, os nobres e as casas fortes do Palácio (a guarda-imóvel); mas era muito mais do que uma guarda doméstica. Os membros eram escolhidos a dedo, sob fortes critérios de recrutamento e de seleção. Para além de um corpo de guarda privado, a Guarda Ameriliana incluía também um serviço de espionagem, e alguns dos seus elementos mais viris eram destacados para acompanhar o rei nas incursões ao exterior. Os postos mais elevados na Guarda Ameriliana eram o braço-de-ouro e o braço-de-prata do rei. Eram estes os homens da sua mais alta confiança. Para além de serem responsáveis por múltiplas valências, tinham a responsabilidade de vigiar bem de perto o rei e zelar pela sua segurança. O braço-de-ouro seria, por norma, o guerreiro em quem o rei mais confiava. Escolhido por este pelas suas habilidades bélicas, acompanhava-o em batalhas como primeiro escudeiro, deixando todo o comando da Guarda Ameriliana nas mãos do braço-de-prata na sua ausência. Por sua vez, o braço-de-prata era escolhido após um prolongado conclave em que todos os membros do Conselho tinham uma palavra a dizer, tornando-o assim uma das peças capitais do puzzle welçantiano.

A analogia à Guarda Pretoriana do Império Romano é evidente. Concebi esta guarda nuns moldes muito próprios, mas inspirei-me livremente nesse corpo de guarda inolvidável da Antiguidade Clássica. Eles eram originalmente um grupo experiente de legionários encarregues de proteger o pretório, o núcleo de um acampamento romano onde se fixavam os oficiais. Acontece que, com a ascensão de Augusto como primeiro imperador de Roma, ele transformou essa guarda armada na sua guarda pessoal, e assim permaneceu com os que lhe seguiram. Não será difícil perceber que algo de idêntico ocorreu com a Guarda Ameriliana, e o seu nascimento pode ter mesmo ocorrido com a chegada de Gedwinn ao poder.

Quem encontra prazer na solidão, ou é fera selvagem ou é Deus. Aristóteles

Monroy Aggert foi o braço-de-prata do Rei Ameril Ozilliar. Com Chestyr Worrena, o braço-de-ouro, formou uma dupla lendária que ficará marcada para a História de Zallar. Foram dois guerreiros excecionais. Espada que Sangra apresenta Aggert como um homem já idoso, ainda assim com uma força de músculos admirável e um humor sardónico que reflete as suas amarguras. Um homem que amou a bandeira com tanto fervor e por razões que as “Histórias” desvendarão a seu tempo, mas que tornou-se um rebelde à causa, um sujeito vendido aos prazeres da carne e à degradação, capaz de cuspir no rei ou pisar na bandeira sem qualquer pudor. Por sua vez, Worrena é um dos personagens mais citados ao longo da narrativa, surge em flashbacks mas sobre o seu paradeiro pouco se sabe. Tudo aponta para a sua morte, será? Se assim for, quem o matou? O próprio Aggert?

Criar estes personagens foi um processo gradual. Aggert surgiu primeiro na minha mente, um pouco como o arquétipo de guerreiro odioso que acompanha o protagonista. Inspirei-me inicialmente em personagens como Wolverine da Marvel Comics, Sandor Clegane de Crónicas de Gelo e Fogo, Ashur de Spartacus e John Hartigan de Sin City; mas depois dei-lhe conteúdo com umas ideias sobre Leónidas de Esparta, Diofanto ou Alcibíades de Atenas. Acima de tudo introduzi-lhe tudo o que um homem com a experiência e a vivência de Monroy Aggert poderia conter naquela envolvente tão violenta e decrépita. Quanto a Chestyr Worrena, o imperador Júlio César serviu-me de forte inspiração para os seus moldes, mas também o valente general Flávio Aécio, conhecido pelas suas façanhas contra Átila e Teodorico I no século V. O nazi Heinrich Himmler, comandante militar das SS e administrador do Reich foi uma das figuras históricas que mais serviram para definir o perfil sócio-político deste homem. Himmler foi o braço-direito de Adolf Hitler e um dos responsáveis pelo Holocausto, nessa perspetiva Worrena conceitualiza-se como o seu reflexo, principalmente por desempenhar um papel interventivo na sociedade que o seu senhor idealizou. De certo modo, o ideal de Ameril Ozilliar de conquistar todas as Terras Quentes e as escravizar teve o seu quê de anti-semita. Numa clara inversão de papéis, o povo que Ozilliar deixou após a morte venera-o, tal como ao seu legado, enquanto Adolf Hitler deixou apenas um rasto de terror e uma visão pouco honrosa sobre a sua personalidade e trajeto.

Afinal, quem foram estes homens de personalidade tão complexa? Monroy Aggert e Chestyr Worrena viram com os seus próprios olhos o dealbar de um novo mundo, uma mudança profunda em pensamentos e convicções. Eles próprios sentiram na pele as reviravoltas que a sociedade terrapardiana impôs aos seus. A própria Guarda Ameriliana, para a qual a honra era critério mínimo de aceitação, ressentiu-se com a perda destas importantes peças no xadrez welçantiano. Dois homens honrados que se perderam para a sociedade. Dois ícones que se mostraram falíveis, humanos com defeitos e permeáveis ao erro, como qualquer comum dos mortais. A fatura a pagar sobre expetativas transformou-os em fumos e sombras. Para saber mais sobre estes personagens, vê o vídeo e acima de tudo, lê a minha saga.

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas e citações de personalidades célebres sobre honra. 

As Origens de Zallar #3: O Calor da Mulher

A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro. John Kennedy

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada Que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Não é apenas nos dias de hoje que a mulher assume um papel de destaque no mundo. A afirmação pode ser considerada cliché, mas encerra uma das verdades mais incontornáveis da existência humana: por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher. A citação não carece de provas de facto. Célebres mulheres têm demonstrado, ao longo dos séculos, o seu determinante papel de esposa e mãe; desde a egípcia Nefertiti até à americana Michelle Obama, são milhares os testemunhos de mulheres que sofreram com as ocupações dos maridos e ainda assim desempenharam um papel fundamental no seu sucesso. Falo de conselhos, de uma voz ativa que apazigua os homens nos momentos mais turbulentos e indica-lhes o caminho quando eles se sentem mais perdidos, e falo de inspiração, porque ter uma mulher para cuidar e amar inspira o homem não só a assumir uma conduta assertiva como lhe incute a obrigatoriedade de vencer. Não só porque o fracasso o constrange para com a mulher, como a simples ideia de desistência o remete para a perda dela e, consequentemente, do próprio orgulho. A mentalidade do homem acabou por se moldar às necessidades e o orgulho masculino perdeu alguma da importância de antanho. Se por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher, por detrás de uma grande mulher está também um grande homem. Bem, nem sempre é assim.

Cada vez mais o ser masculino ocupa a função de suporte para o sucesso pessoal e profissional da mulher: o ombro amigo, a segurança e a estabilidade que lhe permitem ser mãe, esposa e ter ainda a oportunidade de ser a protagonista da própria história. Viver na sombra do homem deixou de ser uma obrigação e passou a ser uma escolha, estreitamente ligada à forma como esta se sente realizada pessoalmente. Num mundo em que o homem ainda não perdeu destaque, a gestão dos egos passou a ser uma guerra de sexos sem fim à vista, muitas vezes responsável por rupturas matrimoniais e cisões complexas. Apenas quando um respeita a liberdade e o protagonismo do outro sem se anularem a si mesmos a comunhão e a cumplicidade conseguem subsistir.

Por isso, te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado pouco ama. Novo Testamento, Lucas 7:47

Considero, porém, que não foram os tempos que impuseram novas necessidades; a mentalidade humana é que evoluiu num sentido de harmonia mais equalitário entre géneros. A mulher sempre teve o seu papel e sempre sentiu a necessidade de se afirmar. Necessidade que foi constantemente aplacada por um modelo de vida castrador. Repressão. Códigos de uma cultura em que o género masculino ocupou o papel predominante na sociedade. No mundo de Zallar não me coibi em criar personagens femininas fortes, determinadas em lutar pelo lugar de destaque na sociedade. Assim surgiu a personagem Lazard Ezzila, um irrefutável arquétipo de mulher dominadora, lutadora, não obstante as suas fragilidades e defeitos. Mas se Ezzila é um exemplo indiscutível de “mulher moderna” para a época que me proponho caricaturar, há outra mulher que criei para romper mitos e estereótipos. Hamsha.

Foi através dela que retratei a tal repressão a que durante gerações a mulher foi subordinada. A repressão sexual, a escravatura e o julgamento alheio. Porque Hamsha não é a rapariguinha bondosa que terminará a história nos braços do herói. Porque Hamsha não é a mulher tradicional que se casará com um homem bom e terá muitos filhinhos sem nunca errar, sem nunca sair “da bolha”. Hamsha foi escrava, viu a mãe morrer nas mãos de um homem cruel, foi usada para fins sexuais e domésticos, passou pelo Inferno e tornou-se consorte de um Rei. Mas não lhe deu filhos. Ele não foi um bom marido e ela não se subordinou. Ela errou, planeou, jogou um jogo perigoso pelo poder. Esta mulher mataria se isso fosse necessário. Esta mulher seria a perfeita vilã para uma história tradicional, mas preferi ser realista e fugir ao julgamento tão enraizado na cultura, que transforma as pessoas que agem em seu benefício em monstros. Hamsha é uma mulher com sentimentos, com emoções, com um passado, ações discutíveis, uma personalidade complexa, remorsos e arrependimentos. E é isso que a enriquece. É uma mulher de espírito ativo, que apenas deseja parar de sofrer. Uma mulher que cresceu no calor das Terras Quentes, um calor que lhe extravasa dos poros com uma formidável expressão de sensualidade.

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A importância da mulher está intimamente ligada à maternidade e a religião católica é uma das que mais tem contribuído ao longo dos séculos para a importância desse papel. Ainda que muitos teimem em dissociar as ideias cristãs das científicas, elas muitas vezes complementam-se e a Bíblia Sagrada, na minha visão, não é um chorrilho de mentiras como se apregoa mas sim um compêndio de metáforas, assim como muitas das mitologias criadas pelo homem desde a Antiguidade têm sido. O nome Maria, profundamente difundido pelo cristianismo como a mãe de Cristo, deriva da palavra Mar, uma palavra de intensa conotação maternal. Foi no mar que surgiram as primeiras células de vida existentes na Terra, facto comprovado cientificamente que nos remete ao nun – o oceano cósmico dos egípcios. O Mar é vida, o Mar é o útero feminino que gera vida, análogo ao ventre humano. E daí nasceu a ideia de Maria, a mãe de Cristo, o Deus na Terra. A Mãe que gera vida.

Um paralelismo interessante é a forma como surgiu na vida de Cristo uma outra mulher: Maria Madalena, ou Maria de Magdala, a mulher que os homens da Igreja têm ao longo dos séculos discriminado como a mulher prostituta cujos pecados foram perdoados por Cristo. Madalena é muito mais do que isso. Não sou defensor das teorias especulativas que tratam Madalena como a esposa de Jesus Cristo e mãe dos seus filhos. Não sou defensor nem opositor, simplesmente acho essas questões meramente especulativas e muito difíceis de provar. Mas o papel de Maria Madalena na Bíblia não é tão redutor como se disseminou. “Quem nunca errou, que atire a primeira pedra”, as palavras de Jesus para aqueles que humilhavam a prostituta, encerram muitos significados. E tornaram-se bandeira para mostrar aos juízes de bancada que ninguém está imune a errar. Sou admirador desta misteriosa figura bíblica. Maria Madalena. E usei-a um pouco como referência para esta personagem Hamsha. Uma mulher renegada. Uma mulher que é muito mais do que aparenta ser. Por outro lado, vejo também Hamsha como uma inversão da Maria Mãe de Cristo. A mulher que não fecunda. A mulher que não pode ser mãe. A mulher que peca.

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Confesso, no entanto, que a minha ideia inicial para esta Hamsha era mostrá-la como uma femme fatale venenosa e retorcida. Nos primeiros esboços da personagem inspirei-me na personagem Lucretia da série de tv Spartacus. Sou um grande admirador da atriz Lucy Lawless e essa foi a minha intenção, se bem que a minha Hamsha ganhou os seus próprios contornos e uma personalidade mais impulsiva e menos calculista. De referência para esta Hamsha – principalmente a nível físico – serviu também a personagem de Forrest J. Ackerman de nome Vampirella, assim como várias ilustrações femininas do mítico Milo Manara. A rainha Cleópatra do Egipto e as suas “milhentas” representações nas telas também me ajudaram a moldar esta personagem extremamente envolvente e sensual.

Já não seria uma mulher jovem, embora um pouco mais nova que o Rei, e a sua expressão transpirava sabedoria e maturidade – sem dúvida uma mulher de múltiplos talentos. Ajeitou o seu longo e liso cabelo negro atrás da orelha direita, e passou com a língua rosada pelo lábio superior, sempre com uma sugestão de volúpia no olhar. Uma deusa, acharia o mais comum dos mortais. Hymadher não o era, e mesmo ele um dia se sentira deslumbrado por aquele monumento humano; era afinal, a mulher que escolhera para tomar nos braços até ao fim das suas noites. Espada que Sangra, Nuno Ferreira

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Foram sobretudo mulheres míticas, mulheres marcantes da Antiguidade, que me inspiraram na criação de uma das protagonistas da minha série literária. O próprio mundo onde ela nasceu e se desenvolveu, as Terras Quentes, são uma alusão ao calor da personagem, o calor da mulher que faz fluir o sangue do homem. Terras que foram a “mãe” do nosso mundo, como a Babilónia, a América Central e a América do Sul serviram de matriz para estas Terras Quentes de onde Hamsha é natural.

A própria personagem é uma alegoria para a Torre de Babel. O Livro do Génesis fala-nos de uma torre que os homens não paravam de fortificar, aumentando-a permanentemente com o intuito de ali poderem viver em comunidade. Javé, o Deus hebraico, descontente com essa presunção, decidiu confundir as linguagens de todos os habitantes, para que eles não se compreendessem uns aos outros e, assim, não conseguissem prosseguir com a sua construção. Pressupõe-se, assim, que os homens se tenham disseminado pelo mundo, criando os múltiplos idiomas existentes. Esta ideia de Babel remete-nos para a falta de comunicação num meio empresarial. Quando uma mensagem não é corretamente transmitida, nenhuma tarefa é bem-sucedida. Tanto a falta de comunicação como uma comunicação deficiente são dois dos principais causadores da divergência entre indivíduos; os principais causadores de julgamentos, de julgamentos erróneos. Hamsha é uma mulher confusa consigo própria, e isso impede-a de chegar a bom porto, ou sequer de se definir enquanto caráter. E aqueles que não a conhecem como o leitor conhece, dificilmente irão aceitar os seus comportamentos.

Assim Jeová os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade. Livro do Génesis

Hamsha irá continuar a espalhar os seus encantos, e isso irá causar a ruína de muitos.

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

As Origens de Zallar #2: A Ascensão de uma Rainha

“Em política, os aliados de hoje são os inimigos de amanhã” Nicolau Maquiavel

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada Que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

No outro dia perguntaram-me em quem é que eu me tinha inspirado para construir uma mulher tão rica em personalidade como Lazard Ezzila. É claro que primeiro pensei antes de responder, muitas vezes crio personagens sem me inspirar em ninguém e quando me fazem estas perguntas corro um sério risco de me entaramelar e dar respostas genéricas como: “não sei bem, não me inspirei em ninguém em particular”, o que grande parte das vezes não deixa de ser verdade. Mas no caso específico de Ezzila, houve sim uma série de mulheres que me levaram a criá-la. Em primeiro lugar, e como a imagem visual é sempre aquela que mais nos marca e aquela a que vamos beber alguma inspiração no instante inicial do processo de criação, construí esta “rainha de espada” combinando o tom doce e sensual da personagem Esther de Haya Haraheet no clássico Ben-Hur de 1959, com a realeza e magnificência visual da Cersei Lannister interpretada por Lena Headey na série de tv Game of Thrones de 2011. Não me baseei diretamente em nenhuma das duas atrizes para dar forma física a esta personagem, embora tenham indubitavelmente algo delas. Mas este artigo não é sobre o físico, e sim sobre a história e intelectualidade desta Rainha, e das rainhas a que eu bebi e continuo a beber influência para escrever as suas peripécias.

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Um histórico de rainhas de personalidade forte invade desde logo o nosso imaginário, desde as rainhas mitológicas às de carne e osso. Podia enumerar um sem número delas: a Semirámis das lendas persas, que alegadamente fundou a Babilónia e reinou sobre toda a Ásia, a enigmática Rainha de Sabá que se apaixonou pelas prometedoras histórias do Rei Salomão, presente na Tora e no Antigo Testamento, a Fada Morgana das lendas arturianas, a egípcia Nefertiti que se tornou um marco indelével na História como a mulher por detrás do faraó Akhenaton, a Rainha da Sérvia Draga Obrenovic que tal como a nossa Ezzila viu toda a sociedade ir contra o seu matrimónio com o rei e um dos seus progenitores (no caso de Draga a mãe) ser exilado, ou a inglesa Filipa de Lencastre, que se casou com o nosso D. João I e gerou a Ínclita Geração, e com ela uma chuva de promessas adornadas de glória. Mas se Lazard Ezzila tem um pouquinho de todas estas mulheres, mais por coincidência do que por direta influência, existem três grandes mulheres em quem revejo a personagem principal da minha narrativa, e é o paralelismo entre elas que irei estabelecer neste artigo: Xerazade, Ranavalona III e Ana Bolena.

Comecemos por Xerazade. A antiga lenda persa fala-nos do rei Shariar, que fora traído pela esposa e então decidira matar a adúltera e o amante. Não satisfeito, obstinou-se na ideia de que todas as noites iria casar com uma nova mulher, e na manhã seguinte condená-la-ia à morte, para não dar azo a que o traíssem. Cumpriu esse ritual e prolongou-o por três anos. Assim foi até que Xerazade, a filha do primeiro-ministro, teve uma ideia que poderia fazer parar essa matança. Decidiu casar com o rei, e na noite de núpcias, ouviu a sua pequena irmã a chorar. Convenceu o rei que a irmã não conseguiria adormecer sem que ela lhe contasse as suas histórias, ao que o rei acedeu e convidou a pequena irmã de Xerazade a entrar na alcova real. Quando a nova rainha começou a contar uma história, Shariar não achou muita piada e mandou a pequena “ir pastar caracóis”, mas parece que Xerazade conseguiu ser convincente e quando a menina adormeceu, já o rei estava rendido às histórias e queria ouvir mais e mais e mais. E continuou a querer ouvir aquelas histórias até ao amanhecer. Quando ela julgou que era a hora de ser executada, Shariar mudou de ideias, porque estava maravilhado com tais narrativas e queria ouvir mais. E assim prorrogou a morte de Xerazade noite após noite, e as histórias inventadas por ela ficaram conhecidas como As Mil e Uma Noites, porque Mil e Uma Noites de histórias depois, ela confessou-lhe que não tinha mais histórias para contar. Bateram à porta e ela julgou ser os homens do rei, mas era a irmã com duas crianças ao colo. Xerazade contou-lhe que eram os seus filhos. Ele estivera tão obcecado com as histórias, que nem dera conta que tivera duas maravilhosas crianças. Ela parecia disposta a ser executada, mas o rei percebeu que não podia viver sem ela e viveram felizes para sempre.

 A sabedoria das mulheres não é raciocinar, é sentir. Immanuel Kant.

Então de que forma podemos dizer que esta Xerazade está de alguma forma relacionada com a nossa Ezzila? Para além dos progenitores de ambas fazerem parte do governo do rei vigente, tanto uma como a outra renunciaram à sua vida pessoal para se casar com o monarca; no caso de Xerazade ela abdicou de uma vida estável na tentativa de parar a matança do rei, um sacrifício extremamente simbólico (a atitude do rei Shariar em assassinar as mulheres pode ser vista como um ato machista, em contraste com a perspetiva heróica feminista de uma mulher a sacrificar-se num plano sem margem de erro por todas as outras que seriam certamente executadas) enquanto que, no caso de Lazard Ezzila deparamo-nos com um sacrifício de sangue. A jovem não abdica de uma vida estável para salvar ninguém, mas o seu pai é condenado à morte por ofender o rei e muito certamente a posição de Ezzila na corte não se tornaria nada agradável. É aqui que ela intervém e entrega-se ao rei em troco da vida do pai. E foi exatamente aqui que o leitor encontrou um paradoxo: Ezzila sacrificou-se realmente para salvar o pai, ou para se salvar a si própria? E atrás desta questão, muitas outras florescem. Se a vida do pai foi poupada, será que pai e filha voltaram a encontrar-se? Será que a relação pai/filha desmoronou-se, e como é que ambos conseguiram lidar com isso?

Ao ver o seu pai perto da morte, ela tomou uma decisão que iria mudar radicalmente a sua vida. Abdicou do futuro que gizara para si, abdicou da sua integridade física e mental, disposta a se casar com o soberano. Pediu uma audiência ao Rei, e propôs-lhe matrimónio – descaradamente – em troca da vida e da segurança do seu pai, sem meias palavras nem cabeças baixas. Essa atitude surpreendeu tudo e todos, levou os conselheiros do reino a exigirem punição, meio mundo se mostrou escandalizado e outro meio gargarejou com o seu atrevimento. Espada que Sangra, Nuno Ferreira

Não vou dizer que me inspirei em Xerazade para criar esta Ezzila. Estaria a mentir. Se há pontos das histórias em que eles se tocam, é no intenso simbolismo que o sacrifício da rainha persa lhe confere, tendo em conta a obliteração do papel da mulher no mundo árabe. O orgulho feminino que esta Xerazade exibe nas suas ações é um perfeito espelho do orgulho feminino na intricada redoma islâmica. Um reflexo, um oposto, uma inversão. Face à completa falta de liberdade da mulher árabe, surgem estas histórias, na minha análise, profundamente simbólicas, como a resposta à realidade. Na ficção, a mulher tem o seu papel, ao contrário do que os homens de carne e osso parecem esquecer. Foi dessa inversão que brotou Lazard Ezzila. Uma mulher consciente, uma mulher de garra, de Garras Gélidas, o paradoxo da protagonista frágil e desprotegida. Esta mulher sofre de bipolaridade, atravessando momentos de extrema depressão e fragilidade, para depois demonstrar ser um verdadeiro furacão. A mulher que, tal como Xerazade, encantou o coração do rei. E fê-lo bater mais depressa.

RANAVRanavalona III foi a última rainha de Madagáscar. Lutou arduamente contra o governo francês e os seus interesses coloniais, e tentou potenciar a sua pátria com alianças comerciais e políticas com o Reino Unido e com os Estados Unidos da América. O seu poderio terminou quando a França conseguiu levar a melhor em 1895, conquistando Madagáscar e a sua capital. Nesse entretanto, Ranavalona tratara um acordo com os franceses, valendo-lhes favores mercantis e abrindo-lhes novas rotas de comércio, para além de lhes facultar as Ilhas de Fort Dauphin, a Ilha de Saint Marie e as Ilhas Reunião. Aproveitando essa janela de oportunidade, os franceses avançaram para a conquista de Madagáscar, derrotando Ranavalona no seu palácio. Foi mantida na corte durante algum tempo, em que a julgaram inofensiva e uma ferramenta de conciliação para com o povo colonializado, mas densas suspeitas de intrigas palacianas levaram a uma decisão mais dramática e Ranavalona foi condenada ao exílio. Morreu em Argel, aos 55 anos, vítima de uma embolia.

Poder-se-ia jurar que esta mulher tem muito pouco de Lazard Ezzila. Poder-se-ia jurar erradamente. Pesquisei um pouco sobre esta mulher ao longo do trabalho de conceção do personagem. Tal como Ranavalona, Ezzila é uma mulher de personalidade fortíssima, uma Fortaleza Humana, como o livro bem revela. Mas mais do que isso, ambas têm em comum terem casado com um homem experimentado em governação, por conveniência. Se após a morte do rei Olegos, Lazard Ezzila se viu em “maus lençóis” em termos governativos, o que a obrigou a casar-se com o primeiro-ministro pouco depois, também Ranavalona, uma jovem sem qualquer experiência de governo, destacada entre várias para suceder à anterior rainha, viu-se obrigada a casar por conveniência com o homem forte do seu governo, o seu primeiro-ministro. Tanto Riotto Amarion, em Espada que Sangra, como Rainilaiarivony, o esposo de Ranavalona, foram os soberanos de facto dos seus estados, implementando medidas ativas que fizeram as suas sociedades prosperar. Mas se Amarion é um indivíduo de interesses vis e sombrios, não me é dado a conhecer qualquer informação sobre a índole deste Rainilaiarivony.

ANA

A outra mulher em quem fui buscar alguma força para a construção desta personagem foi a inevitável Ana Bolena, a “rainha dos mil dias”. Filha de Thomas Bolena e de Elizabeth Howard, foi dama de honra da rainha Claudia de Valois, ocupando posteriormente o mesmo papel na corte inglesa. Membro do séquito da rainha Catarina de Aragão, não foi difícil despertar o interesse de Henrique VIII, o rei, que vivia martirizado por não conseguir conceber um filho varão. Depressa Henrique se apaixonou pela dama de companhia de Catarina, e essa paixão fê-lo tomar uma atitude pioneira na monarquia inglesa, decretando o divórcio da sua esposa para se vir a casar com Ana no ano de 1533. O processo de divórcio não foi pacífico, Catarina não o considerou válido e a Igreja entrou em convulsão, gerando o cisma inglês que levou o Anglicanismo a tornar-se a doutrina oficial em Inglaterra. Ana, que fontes menos canónicas garantem ter tecido uma intrincada intriga para afastar Henrique de Catarina e tomá-lo nos seus braços, tornou-se Rainha de Inglaterra, mas nem ela conseguiu gerar um filho varão ao monarca. Como o feitiço muitas vezes vira-se contra o feiticeiro, aconteceu-lhe o mesmo que a Catarina, Henrique apaixonou-se por uma das suas damas de honra, Jane Seymour, e afastou-a do trono, obcecado pela ideia de sucessão. Ana foi acusada de heresia, incesto e adultério. Foi presa na Torre de Londres e decapitada no ano de 1536.

Muitas foram as histórias que se contaram sobre Ana Bolena, e sobre o seu indizível poder de sedução. Lazard Ezzila pode ter pouco desta rainha que caiu em desgraça, mas não posso negar que a força de tal personagem histórica teve a sua influência nesta mulher de punho de aço. Foram, acima de tudo, mulheres de coragem, com defeitos e virtudes, dotadas de uma determinação esmagadora, que me levaram a conceber Ezzila, a Rainha do Trono do Tigre, a Fortaleza Humana. A mulher que se casou com um homem horroroso para salvar a vida ao pai, a mulher que se voltou a casar com outro homem intragável, este verdadeiramente cruel, para salvar o povo. Será esta mulher capaz de renunciar ao trono, também para salvar algo mais? Quem sabe, o seu filho?

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas, assim como de livros como a Enciclopédia Larousse, a Enciclopédia da Língua Portuguesa do Círculo de Leitores, ou sites online como a Wikipedia e a Infopédia da Porto Editora. 

As Origens de Zallar #1 : A Guerra Entre Irmãos

Uma longa paz bestializa o homem, fá-lo feroz. Uma longa paz gera sempre a crueldade, a vileza, um grande e boçal egoísmo e uma suspensão intelectual. Fiódor Dostoiévski

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada Que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

É cliché iniciar uma obra que vai beber aos recessos sombrios da Antiguidade a sua quota-parte de inspiração com uma tão tradicional guerra entre irmãos pelo poder. Mas a linha que separa o cliché do verosímil é por vezes bem ténue. Nunca me propus, enquanto escrevia Espada que Sangra, a escrever algo em que as pessoas acreditassem, nunca foi o meu principal objetivo fazer o público considerar aquela história real, embora lá no fundo sempre a tentasse fundamentar; se queremos que a nossa história “pegue”, há que manter a coerência acima de tudo, e estas “Histórias Vermelhas de Zallar” são uma história coerente e fundamentada, quer em cronologia, quer em acontecimentos. Foi um trabalho árduo, que hoje muito me apraz trazer até vós.

Se as guerras entre irmãos são um tema tão corrente em histórias baseadas em regimes monárquicos, são também uma matéria produtiva, capaz de fazer qualquer autor escrever n livros sobre esse tema. Espada que Sangra é, acima de tudo, um livro que explora estas quezílias de sempre.

queda dos titãs

Queda dos Titãs, Cornelius van Haarlem, 1588. Museu Nacional da Dinamarca

As origens deste tão dramático confronto entre irmãos está presente em mil e uma histórias da Antiguidade, seja em mitologia ou realidade. Os primeiros registos sobre a tão afamada “clash of titans” que relata a guerra entre “deuses irmãos” – os Titãs da mitologia greco-romana – provêm do poeta oral Hesíodo e do seu poema épico “Teogonia”. Nele percebemos como nasceram os deuses gregos. No início, os Titãs eram os entes mais poderosos do cosmos. Urano e Gaia conceberam as primeiras criaturas que existiram no universo, os Titãs. Eram gigantes como Oceano, Temis, Mnemósine, entre outros. Cronos, o tempo, era o mais jovem de entre eles, mas avolumou o seu poder e tornou-se Rei de entre os Titãs. A pedido da sua mãe Gaia, castrou o pai Urano com uma foice – o malandro – e assim se tornou o senhor dos céus. Cronos correspondia ao romano Saturno e o seu nome foi alvo de inúmeras interpretações ao longo dos tempos.

Zeus foi o fruto da relação de Cronos com Reia, sua esposa e irmã. Nascido em Creta, fora entregue em segredo a Gaia, que se encarregara da educação do pequeno, protegendo-o da vontade inequívoca de Cronos em devorar a sua descendência. Desse jeito, determinado em comer o próprio filho, Cronos engoliu uma pedra envolvida em panos, mas a verdade é que fora enganado e Zeus continuou bem vivo. Assim, foi educado para reclamar o seu destino à frente do Olimpo. Depois de preparado para tal, percebeu que não tinha ainda poder o suficiente para enfrentar nem os titãs nem o pai, e elaborou um laborioso plano que incluiu disfarçar-se de viajante, dando ao progenitor uma poção que o fez vomitar os irmãos, que haviam também sido engolidos por ele. Numa fase posterior, Zeus viajou até ao Mundo Inferior onde libertou os tios Ciclopes e Hecatônquiro, irmãos de Cronos de quem este tinha secretos receios. Com a ajuda dos tios, e armado por eles, Zeus organiza os irmãos e os seus exércitos invadem o Monte Olimpo, dando-se uma violenta guerra que destronou os Titãs e fez de Zeus o Rei dos deuses, banindo definitivamente os Titãs para o Tártaro.

Parecia, ouvindo e vendo tão grande bulha e luz, que a terra e o céu se confundiam, pois era enorme o tumulto da terra esmagada e do céu a se precipitar sobre ela, tal o barulho da luta dos deuses. Ao mesmo tempo, os ventos, sacudindo-se, erguiam o pó, o trovão, o relâmpago, e o raio ardente, armas do grande Zeus, e levavam o brado e os clamores ao seio dos combatentes; e no incessante fragor da espantosa luta, todos mostravam a força dos seus braços. Hesíodo, Teogonia

Mas não é apenas na Antiguidade Clássica que encontramos relatos de irmãos inimigos. O próprio Antigo Testamento fala-nos sobre essa inveja e ciúme de que Goròn é vítima em Espada Que Sangra. O Livro do Génesis conta-nos que Adão e Eva tiveram dois filhos, Caim e Abel. Enquanto o mais velho se tornou um lavrador popular e agraciado, o mais novo, Abel, cuidava dos seus rebanhos humildemente. Quando chegou a hora de fazerem ofertas a Deus, Caim oferecera frutos, enquanto Abel oferecera uma ovelha, a primeira do seu rebanho. Deus aprovou a oferta de Abel, mas renegou a oferenda do seu irmão Caim. Embora a “escolha de Deus” seja alvo de um forte diálogo especulativo que aponta diretamente aos polémicos ritos de “sacrifício animal” que más interpretações religiosas têm disseminado pelo mundo ao longo dos tempos, essa repulsa fez despertar uma forte inveja e ciúme em Caim, de tal modo que planeou e organizou a morte do irmão durante uma caçada. Como todos devem saber, Caim matou Abel. Segundo o Génesis, Deus castigou-o, tornando-o uma alma errante pelo mundo desertificado, marcou-o com o signo de Deus, o símbolo que o identificava como filho de Adão, de modo a que ninguém o tentasse matar, prolongando assim a sua punição. Foi esta narração sagrada de Caim e Abel que serviu de base para a conceção dos personagens Goròn e Hymadher. É certo que se explorarem bem a história bíblica podem encontrar algumas respostas para o futuro de ambos os personagens. Mas com cuidado… as inversões são muitas.

À direita do Rei, Goròn parecia impermeável, com o seu rosto grave e enigmático fechado num sorriso dúbio – uma expressão que sugeria ardil. Hymadher era dois anos mais velho que Goròn, e conhecia-o o suficiente para saber que a sua mente matutava constantemente em sórdidos e vis esquemas, alguns dos quais gerados com o intuito de o prejudicar. Espada Que Sangra, Nuno Ferreira

Outra clara inspiração para esta relação Hymadher / Goròn foi a dualidade Osíris / Seth presente na mitologia egípcia. Segundo a cultura egípcia, no início dos tempos havia Nut e Gheb, o céu e a terra. Da sua relação nasceram quatro deuses: Osíris, Ísis, Neftis e Seth. Eram todos irmãos, mas Osíris uniu-se a Ísis e Seth a Neftis. O deus Seth era um ser invejoso e maléfico, senhor dos desertos. A significância do deserto em Zallar provém dessa carga negativa, os desertos que significam sede, fome, desespero, a morada dos hediondos mahlan e besouros-de-sombra, e também o local onde foram travadas guerras ao longo da História Zallariana. Uma alegoria para o caráter de Seth: ele é o deus da violência, da guerra e da desordem. Segundo as crenças egípcias, Seth, por ciúme, assassinou o irmão Osíris, dividindo o seu corpo em 14 fragmentos e espalhando-os por todo o Egito. Com os seus poderes divinos, Ísis transformou-se em abutre e procurou os pedaços do esposo. Localizou-os um a um e deu-lhe de novo vida, apenas o tempo suficiente para fecundar o filho de ambos. Esse filho era Hórus, que, desejoso de vingar o pai, lutou arduamente com Seth até o aniquilar. Foi a vitória do Bem contra o Mal. No entanto, esta é apenas uma versão da história. Todavia, em algumas regiões, havia os adoradores do deus Seth, que tinham a sua própria versão dos acontecimentos, um ponto de vista a reter para que não nos esqueçamos que na vida nem sempre há uma linha reta a separar o bem do mal.

Seth

Mas nem só de heranças bíblicas e mitológicas esta relação entre irmãos foi buscar as suas influências. Há relatos históricos de reis que foram assassinados por irmãos ciumentos, e acima de tudo invejosos pelo seu poder, como é o caso de Pedro I de Castela, assassinado pelo irmão Henrique após a guerra civil espanhola que o opôs aos bastardos do pai. Em Espada Que Sangra apresento-vos Ameril Hymadher como um rei respeitado pelo seu povo, um homem honrado, íntegro e seguro das suas convicções, escondendo através da frieza de comportamento as inseguranças, a constante dúvida sobre a qualidade das suas ações e acima de tudo sentindo nos ombros o grande peso do legado de Ameril Ozilliar III. O seu pai fora um rei em tudo grandioso, que conseguira o feito incrível de conquistar as maravilhosas Terras Quentes sob um único estandarte no ano de 1276 da terceira era. Ozilliar fora um pai rígido mas dedicado, que fizera tudo o que estava ao seu alcance para fazer de Hymadher, o seu primogénito, um rei tão bom quanto ele o foi. No entanto, ao apostar todas as fichas em Hymadher, Ozilliar esqueceu-se que tinha um outro filho, Goròn, vítima de uma doença rara, órfão de mãe, e negligenciou-o, desprezou-o e maltratou-o. Quando morreu, Ameril Ozilliar deixou dois filhos. Um com um legado demasiado pesado sobre os ombros, o outro completamente subjugado pela amargura, pelo desprezo doentio pelo irmão, pela extrema negligência do seu pai. Dois filhos e um único trono. Dois filhos completamente diferentes um do outro. Dois filhos a quererem ser reis. O esquema montado por Goròn para assassinar o irmão Hymadher foi incrivelmente bem planeado, mas com algumas falhas pelo meio. Será que Hymadher conseguirá manter-se vivo? Essa é uma pergunta para qual apenas eu tenho a resposta. Por enquanto.

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas, que por sua vez tinham sido retiradas de livros como a Enciclopédia Larousse, a Coleção Grandes Enigmas da Humanidade do Círculo de Leitores e a nem sempre fidedigna mas sempre muito útil Wikipedia.