Especial: “O Reino dos Antigos” de Robin Hobb

Há artigo especial dedicado à rainha da fantasia épica? Há sim. Sentem-se nas cadeiras, amarrem os cintos e encomendem as pipocas, porque vamos ter muito do que falar. Publicada em Portugal pela Edições Saída de Emergência, a série Realm of the Enderlings tem encantado leitores em todo o mundo, e o NDZ está disposto a escrutinar o mundo que levou Robin Hobb a ser considerada essa coca-cola toda. FitzCavalaria Visionário, um dos protagonistas, carrega aos ombros uma coleção literária a que nenhum fã de literatura fantástica consegue ficar indiferente.

O Reino dos Antigos divide-se em 5 trilogias, sendo que em Portugal só conhecemos a 1.ª, a 3.ª e a 5.ª (a ser publicada atualmente). Nomeadamente, as séries protagonizadas por FitzCavalaria. A Saída de Emergência tem publicado cada uma das trilogias em 5 livros, mantendo o primeiro volume de cada igual ao original e dividindo os restantes dois volumes. Vamos saber mais sobre este reino e sobre aquilo que o diferencia dos demais.

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Fonte: http://www.telegraph.co.uk/culture/books/bookreviews/11048552/Fools-Assassin-by-Robin-Hobb-review-high-art.html

Quem é Robin Hobb?

Nascida Margaret Astrid Lindholm Ogden, na cidade de Berkeley, na Califórnia, Hobb começou por escrever para publicações infantis, mas foi com o pseudónimo Megan Lindholm que publicou vários romances de fantasia contemporânea, de 1983 a 1992. A notoriedade, porém, chegou com o pseudónimo Robin Hobb e a sua incursão na fantasia épica. Atualmente, vive em Tacoma, no Washington, e é uma das mais famosas autoras de literatura fantástica mundial.

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Fonte: http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Creator/RobinHobb?from=Creator.MeganLindholm
O Reino dos Antigos

Muitas vezes criticada pela lentidão narrativa dos seus livros, Robin Hobb acumula fãs em todo o mundo tanto pela beleza da sua prosa, como pela profundidade com que caracteriza os seus personagens, oferecendo-lhes toda a sorte de dilemas, incertezas e dramas que uma pessoa pode sentir na pele.

É esse factor emocional o que mais agarra os leitores aos seus livros, muito mais do que cenas de batalha ou assassínios que, esporadicamente, acontecem. Vamos então analisar cada uma das sagas publicadas. Ocultarei algumas mortes e acontecimentos importantes para não prejudicar a experiência de leitura a quem não leu, mas se considerarmos que o plot de cada livro já entrega algumas revelações, então sim, podes contar com vários spoilers.

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Fonte: https://chazillah.deviantart.com/art/fitzchivalry-farseer-687746838

Saga do Assassino

É aqui que tudo começa. Os Seis Ducados vivem a chamada Guerra dos Navios Vermelhos contra os piratas das Ilhas Externas que sondam as suas costas. Quebal Pancru é o líder desse movimento estratégico que planeia dominar os Seis Ducados através da arte da Forja, uma espécie de magia que rouba o discernimento às vítimas e os deixa escravos dos seus apetites mais primários.

A sede dos Seis Ducados é Torre do Cervo, em cujo castelo vive a família real, composta pelo Rei Sagaz Visionário e os seus filhos. São eles Cavalaria, Veracidade e Majestoso, este último fruto da relação do rei com a segunda mulher, Desejo. A ação começa quando se descobre que Cavalaria, esposo de Paciência, teve um filho bastardo com uma plebeia do Reino da Montanha. Como ele é o Rei Expectante, ou seja, o primeiro na linha de sucessão ao trono, tal mancha na sua honra obriga-o a renunciar, e essa renúncia resulta no seu exílio e morte.

“Através da magia da Manha, Robin Hobb elabora uma crítica social contra o preconceito, que atravessa grande parte da sua obra.”

O filho bastardo, Fitz, é levado então para Torre do Cervo e colocado sob a proteção de Castro, mestre cavalariço que, para além de sentir uma ligação de lealdade genuína para com Cavalaria, viveu em tempos um romance com Paciência, a esposa deste. Castro acolhe Fitz com todo o carinho e dedica-se inteiramente à sua educação. Aquilo que os separa chama-se Manha.

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Fonte: https://www.tumblr.com/search/elderling%20fan%20art

A Manha é uma magia congénita que fundamentalmente passa pela ligação fraternal entre pessoa e animal, levando ambas as partes a unir-se de uma forma que conseguem partilhar pensamentos e sentirem-se como um só. Acontece que os portadores da Manha são vistos como aberrações, e quando Castro suspeita do dom do pequeno bastardo, decide cortar o mal pela raiz. Através da magia da Manha, Robin Hobb elabora uma crítica social contra o preconceito, que atravessa grande parte da sua obra.

A dureza de Castro molda a personalidade do jovem Fitz, que acaba por ser aceite no castelo e conhecer os meandros da corte, das fragilidades e subtilezas do velho rei à mesquinhez do príncipe Majestoso. Fitz é treinado na arte do Talento, uma magia hereditária entre os Visionário que recende aos Antigos, uma civilização primordial que fora versada na magia. O Talento permite a quem o dominar o contacto mental com outras pessoas, curar ferimentos físicos ou até influenciar sonhos.

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Fonte: https://www.pinterest.com/fallingleaves24/fitz-and-the-fool/

Todavia, o Mestre de Talento, Galeno, tudo faz para que Fitz seja um desastre, acabando por feri-lo gravemente. É Veracidade, que se torna Rei Expectante, quem acaba por passar algumas das noções teóricas do Talento para o jovem bastardo, usando-o como fonte de força, enquanto o velho Breu, meio-irmão do rei e chefe da equipa de espionagem e assassinos do Trono Visionário, visita Fitz durante a noite e o treina… nas artes do assassínio.

Entre todas as intrigas palacianas e maquinações de Majestoso, que planeia tomar o trono, Fitz acaba por afeiçoar-se ao Bobo do Rei Sagaz, um rapaz muito pálido e de formas esquálidas, por Olhos-de-Noite, um lobo com quem se vincula na Manha, e ainda por Kettricken, a princesa do Reino da Montanha. Por dever político, Kettricken acaba por casar-se com Veracidade, e a pouco e pouco começa a amá-lo.

Acusado de Manha, esconjurado e dado como morto, FitzCavalaria só pode contar com o amor dos que o viram crescer e com as suas capacidades inatas para ajudar Veracidade a libertar os Seis Ducados, seja contra os piratas dos Navios Vermelhos, seja contra o seu próprio irmão. Descobre ainda que o Bobo é, na verdade, um Profeta Branco, destinado a prenunciar os acontecimentos do mundo, e que ele, Fitz, é o seu Catalisador, aquele que está destinado a alterá-los.

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Fonte: http://www.john-howe.com/portfolio/gallery/details.php?image_id=770

Os Mercadores de Navivivos

Um Navivivo é feito de Madeira de Feiticeiro, uma substância antiga com propriedades mágicas. Quando três gerações de proprietários de um navio morrem a bordo, um navio desperta e torna-se um ser sensível, agarrado às lembranças dos seus antepassados. A avó do capitão Vestrit ordenou dar vida a Vivácia, e a família Vestrit ainda está em dívida para com os comerciantes de Ermos Chuvosos, a quem compraram a madeira.

Pai de Althea, o capitão Ephron Vestrit encontra-se gravemente doente. A filha está preocupada com a saúde do pai, mas também com a ideia de que, após sua morte, Vivácia irá despertar e ela tornar-se-á a capitã do navio, posição que deve disputar com o calcediano Kyle Porto, esposo da sua irmã mais velha, Keffria.

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Com a morte de Ephron, a família Vestrit desmorona, atolada em dívidas. Malta, filha de Keffria, segue as pisadas do pai, pisando quem quer que se coloque no seu caminho. Desesperada e incapaz de se afirmar digna de Vivácia, Althea afasta-se, procurando uma forma de provar que é uma marinheira competente. Entretanto, Kyle descobre que é incapaz de controlar Vivácia sem alguém de sangue Vestrit a bordo.

Sem Althea, a sua única alternativa é forçar o seu filho Wintrow, que quer ser sacerdote, a juntar-se-lhes a bordo do navio. Wintrow tem dificuldade em adaptar-se à vida no navio, mas apesar de se sentir amargurado por ser arrancado ao mosteiro, nele cresce um vínculo fortíssimo com Vivácia.

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Fonte: https://doctorpiper.deviantart.com/art/Althea-Vestrit-599832010

Em simultâneo, o ambicioso pirata Kennit deseja tornar-se mais do que um pirata: deseja ser rei entre eles. Ele persegue os navios escravos para libertá-los. Os escravos libertos tripulam então os navios capturados como uma frota de piratas sob o comando de Kennit. Dirige-se a Vivácia, que se tornou um navio de escravos sob o controlo de Kyle, consegue capturá-lo e tornar-se seu capitão.

Enquanto Kennit estabelece uma relação com Vivácia e com Wintrow, que realmente acreditam que Kennit tem motivos válidos e boas intenções em tornar-se Rei dos Piratas, Althea tenta recuperar o navio da sua família, navegando contra o pirata a bordo de um Navio Louco. Uma sequência de revelações desvendam uma horrível crueldade nos Ermos Chuvosos, onde fora abortada pelas mãos dos homens aquilo que poderia ser uma nova linhagem de dragões, através de um sistema de evolução das serpentes marinhas.

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Saga O Regresso do Assassino

Quinze anos passaram-se desde o final da Saga do Assassino. O mundo pensa que FitzCavalaria morreu, e este está escondido do mundo, com o seu lobo, Olhos-de-Noite, e o filho adoptivo, Zar, com quem vive humildemente. De quando em quando, Fitz é alvo da visita da menestrel Esporana, sua amante. Mas quando o velho Breu o visita e lhe pede para regressar a Torre do Cervo, este recusa determinantemente. Um dos plot-twists mais deliciosos de toda a série é que a rapariga que ama, Moli, caiu nos braços do homem que o criou, e com ele teve os seus filhos.

Na forma de um lobo, Fitz contacta em sonhos com a filha que tiveram juntos, Urtiga, mas esta não sabe que ele é seu pai e olha para Castro como se o fosse. Se soubessem que Fitz estava vivo, Moli e Castro nunca se perdoariam. No entanto, o entusiasmo de Zar para com a cidade, onde deseja aprender um ofício, e a visita do seu velho amigo Bobo, agora um excêntrico homem dourado que se diz proveniente da Jamaília, fazem-no mudar de ideias.

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Fitz ruma a Torre do Cervo como Tomé Texugo, criado de Dom Dourado, a nova identidade do Bobo. Ali, Fitz torna-se mais uma vez peça da rede de espionagem de Breu, mas também constata como tudo mudou na sua ausência. Com a morte de Sagaz, Veracidade e Majestoso, a cidade evoluiu. Kettricken é agora a Rainha por direito, ao lado do seu filho com Veracidade, o príncipe Respeitador.

“Muito mais fluído e surpreendente que a primeira série, a Saga Regresso do Assassino marca uma fuga aos clichés e a questão do preconceito volta a assumir um lugar de destaque”

Respeitador está prometido em noivado à narcheska Eliânia das Ilhas Externas, um negócio muito importante para manter a paz que se conseguiu com aquele povo após o final da Guerra dos Navios Vermelhos. No entanto, o príncipe desapareceu. Segundo todas as pistas de Breu, Respeitador pode ter a magia da Manha, e ter seguido uma gatinha que lhe fora oferecida até às mãos dos Pigarços, um perigoso grupo de manhosos que se envergonha dos que renegam sê-lo e atentam a várias personalidades famosas denunciando serem portadores do mesmo dom.

Após uma tortuosa perseguição, Fitz e o Bobo conseguem recuperar o príncipe e desbaratar as forças pigarças, pagando um preço alto por isso, com a morte de um ente-querido. Pouco a pouco, os problemas de Fitz centram-se nos desaires amorosos do filho adoptivo Zar com a oportunista Esvânia, e com a falta de motivação de Respeitador para com a narcheska Eliânia. Quando uma comitiva de Vilamonte alerta Kettricken dos problemas em Ermos Chuvosos e para a existência do dragão Tintaglia, os problemas adensam-se.

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Ao ofender a narcheska, o príncipe é desafiado por ela e esta só aceita casar-se consigo se este cortar a cabeça a um dragão, Fogojelo, alegadamente enterrado na ilha de Aslevjal. Respeitador ruma às Ilhas Externas à frente de uma imensa comitiva, onde se destaca o Círculo de Talento do príncipe, que inclui Fitz, Breu e Obtuso, um simplório criado de Breu que forja uma relação de amor-ódio para com Fitz.  Em Aslevjal, Fitz encontra pessoas do seu passado, e também a temível Mulher Pálida, uma das principais responsáveis pela Guerra dos Navios Vermelhos.

Muito mais fluído e surpreendente que a primeira série, a Saga Regresso do Assassino marca uma fuga aos clichés e a questão do preconceito volta a assumir um lugar de destaque, tanto na apreensão dos comuns para com a Manha, como para com a sexualidade do Bobo, cuja nuvem de dúvida que se produz à sua volta cria uma cisão entre este e o protagonista.

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As Crónicas dos Ermos Chuvosos

O ano chegou ao fim e o último dragão conhecido, Tintaglia, supervisiona mais uma tentativa de trazer os dragões ao mundo através das velhas serpentes. O Conselho dos Ermos Chuvosos concorda em ajudá-la, com a contrapartida que ela os auxilie na guerra contra Calcede. Sisarqua, uma rainha-serpente, luta para terminar o seu processo de evolução.

O capitão do barco Tarman, Leftrin, encontra o embrião de um dragão que foi levado pelo rio. No início, ele pensa em vendê-lo para obter lucro, mas depois decide levá-lo para o navio tendo em vista a sua própria proteção futura.

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Thymara, uma menina de 11 anos, acompanha o pai para assistir à incubação dos dragões, mas fica chocada ao descobrir que as novas crias são fracas e deformadas. Entra em contacto com uma quando o seu pai é quase comido vivo. Sisarqua transformou-se num dragão, agora chamado de Sintara, e mostra-se preocupada em perceber que as suas proporções estão erradas e que não é o que deveria ser. Infelizmente, é muito provável que nunca voe.

Alise Kincarrion, por sua vez, é uma jovem solteirona que ocupa a maior parte do seu tempo a estudar dragões e a história dos Antigos. Sente-se alvo de um comerciante local bem parecido, de seu nome Hest Finbok, mas quando o aborda acerca das suas intenções, ele garante-lhe que, embora não esteja apaixonado, deseja casar-se com ela por conveniência. Finbok deseja um herdeiro, em troca oferece-lhe o financiamento para os seus estudos.

A jovem fica inicialmente entusiasmada com a ideia, mas depressa percebe que ela veio da cabeça da sua amiga de infância, Sedric. Quando a relação revela-se de um total e terrível embaraço, Finbok acusa-a de infertilidade, mas depressa Alise descobre que o marido e a sua amiga Sedric são amantes. Quando ameaça espalhar boatos sobre a sua virilidade, ele decide enviá-la em viagem, e uma vez que Sedric toma o partido da amiga, decide mandá-la com ela.

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Fonte: https://thereseofthenorth.deviantart.com/art/Sintara-and-Alise-324608770

Por sua vez, o capitão Leftrin quer dar um contrato vitalício a todos os seus trabalhadores para proteger o segredo do uso ilegal da Madeira de Feiticeiro, então proibida. O único homem com reservas para assinar é Swarge, que admite estar noivo e não querer separar-se da sua futura esposa. Leftrin admite então a esposa de Swarge a bordo do navio, de modo a que, dessa forma, eles possam estar juntos e Swarge assine o contrato.

Entretanto, os dragões estão fracos e incapazes de se alimentar, dependendo de caçadores para fornecer-lhes alimentos. À medida que os dragões mais fracos morrem, os mais fortes comem-nos para obter as suas memórias. Tintaglia encontra-se em parte incerta, havendo rumores de que finalmente encontrou um parceiro, e ninguém acredita que regresse. Os dragões começam a trabalhar para encontrar o caminho secreto para a cidade perdida de Kelsingra, que pertencera aos Antigos. Mercor elabora um plano para convencer o Conselho dos Ermos Chuvosos de que é sua a ideia de transportar os dragões para a cidade perdida, usando as suas memórias ancestrais como guia.

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Fonte: https://9gag.com/gag/adjpyAj/fitzchivalry-farseer-from-the-realm-of-the-elderlings-series-by-robin-hobb-any-fans

Saga Assassino e o Bobo

A série Assassino e o Bobo é o coroar da obra de Robin Hobb. Após o desaparecimento de Castro, Fitz reconquistou o seu lugar ao lado de Moli e da filha Urtiga. É para as terras que esta herdou de Paciência, Floresta Mirrada, que o casal vai viver, com os filhos que Moli gerara com Castro. Muitos anos passaram-se, e Fitz nunca mais voltou a ver o Bobo, depois de um incidente com um Portal de Talento que os levou a desencontrarem-se no dia em que se iriam despedir para sempre.

“Refrescante, emocionante, coeso e incrivelmente bem escrito, o primeiro volume, O Assassino do Bobo, foi a minha melhor leitura de 2017.”

Entretanto, uma mensageira chega a Floresta Mirrada no Festival de Primavera para falar urgentemente com Fitz. Só que não passa pela cabeça dele deixar Moli à sua espera para dançar. A visita que espere um pouco, na biblioteca. Quando, ao final da noite, vai ao encontro da mensageira, tudo o que encontra é um rasto de sangue. Os seus esforços por resolverem o incidente, porém, morrem sem resultados. E os anos continuam a passar, e eles a envelhecer. E nada de Bobo.

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Fonte: http://www.laespadaenlatinta.com/2016/11/assassins-fate-robin-hobb-vatidico.html

Devido à cura de Talento, Fitz parece mais jovem que Moli, e acaba por achar que a sua mulher está a ficar senil, quando esta lhe diz que está grávida, porque há muito passou a idade que o permitiria. Com a ajuda do mordomo Pândego, da sua filha Urtiga e do seu amigo Enigma, Fitz tenta manter a ordem em Floresta Mirrada, mas nada daquilo é fácil para ele. Urtiga tornou-se Mestra do Talento em Torre do Cervo, e parece nunca ter conseguido totalmente aceitá-lo como pai.

Um Filho Inesperado, várias mensagens que dificilmente chegam ao destino, e mortes, chocantes e imprevisíveis, culminam com o retorno tão aguardado do Bobo, no local onde menos seria expectável encontrá-lo. Dois filhos bastardos, FitzVigilante e Esquiva, são enviados por Breu para que Fitz lhes encontre utilidade, mas tornam-se mais obstáculos do que prestáveis, e as suas origens permanecem misteriosas.

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Fonte: https://www.pinterest.co.uk/torilou81/realm-of-the-elderlings/

É uma menina, Abelha de seu nome, quem carrega as responsabilidades aos ombros e quem tem de ajudar Fitz a ser o homem que precisa ser. Mas quando um grupo de Profetas Brancos chamados Servos lhe põem as mãos em cima, o que poderá fazer Fitz para a salvar?

Dar-lhes caça, juntando velhos amigos e conhecendo novos, requerendo a ajuda dos dragões de Ermos Chuvosos e dos Vestrit de Vilamonte, unindo os personagens das histórias anteriores de Robin Hobb e completando assim o intrincado puzzle que é este Reino dos Antigos. Refrescante, emocionante, coeso e incrivelmente bem escrito, o primeiro volume, O Assassino do Bobo, foi a minha melhor leitura de 2017.

Enquanto que no Brasil foi publicada a 1.ª trilogia e já saiu o primeiro volume da 2.ª, O Navio Arcano, em Portugal serão lançados, no primeiro semestre de 2018, o segundo e terceiro volume da 5.ª série. Claro está, pelas mãos da Saída de Emergência, que trará a autora a Portugal para o Festival Bang! deste ano. Ansiosos? Eu estou.

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Especial: Os Grandes Mistérios de Patrick Rothfuss

Tenham ou não lido algum dos seus livros, o nome Patrick Rothfuss é bem familiar para qualquer fã de fantasia. Aquele sujeito misterioso que parece fazer um cosplay do Hagrid de Harry Potter em cada aparição, é tão somente um dos mais talentosos autores da literatura fantástica mundial. Um dos mais amados e odiados. Amado por uns, odiado por outros, e muitas vezes, amado e odiado pelos mesmos. O motivo? Pat Rothfuss é dono de uma escrita capaz de envergonhar alguns poetas célebres, o seu personagem central é um dos mais carismáticos do multiverso fantástico e a sua história está carregada de mistérios e charadas. O problema? Só publicou 3 livros, um deles sendo um mero spin-off sem relevância aparente, e parece ter deixado todas as respostas para o último e eternamente adiado volume final da sua série.

A trilogia que se predispôs a escrever é conhecida em Portugal como Crónica do Regicida, cuja ideia passa por apresentar um anti-herói no outono da vida, a gerir uma estalagem vulgar numa povoação remota. A personagem esconde a sua verdadeira identidade do mundo que o julga morto, pois as suas façanhas despertaram inimigos tenebrosos da mesma forma que inspiraram canções e lendas. Quando salva a vida a um cronista que por ali passava, porém, resolve a contar a sua verdadeira história para que fique registada, e cada um dos três volumes corresponde a cada um dos três dias que ele leva a narrar os acontecimentos que constituirão a sua inusitada biografia.

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Fonte: http://commons.wikipedia.org/

Desse modo, Patrick Rothfuss desenvolve uma narrativa bem oleada, escrita na primeira pessoa com exceção dos capítulos de Interlúdio em que o autor passa para uma narração na terceira pessoa, revelando o protagonista Kvothe na realidade atual. Se O Nome do Vento, o romance de estreia, catapultou o autor para as bocas do mundo (lê a minha opinião aqui), o segundo livro trouxe mais perguntas do que respostas, e um rol de mistérios que se adensam a cada página. As teorias, porém, são mais do que muitas. No nosso país, a Crónica do Regicida foi publicada pela chancela 1001 Mundos, com o segundo livro original, O Medo do Homem Sábio, dividido em dois (volume 1 e volume 2).

Quem é Pat Rothfuss?

Mas afinal quem é este famoso autor? Norte-americano, natural do Wisconsin (como outro dos meus autores preferidos, Scott Lynch), relegou o seu amor pela Engenharia Química em prol da Psicologia Clínica, duas áreas que usou e abusou na conceção dos livros. Acabou por se dedicar a qualquer área que lhe interessasse, tornou-se mestre na Universidade Estadual de Washington e retornaria ao Wisconsin, à universidade onde tirara o bacharelato, como professor. Patrick James Rothfuss é um dos mais respeitados autores de literatura fantástica em solo americano, sendo muitas vezes comparado a outros nomes maiores do género como Robert Jordan ou George R. R. Martin.

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Fonte: http://gentaroendo.deviantart.com

Que Mistérios São Estes?

Enumerar os incontáveis mistérios que os seus poucos livros encerram demoraria uma infinidade de artigos. Mas se julgam que uma prosa incrivelmente elegante e poética, o facto do autor ser idolatrado pelo próprio George R. R. Martin e o seu nome ter sido registado em cada lançamento no top do ranking do New York Times não são motivos mais do que suficientes para ler Patrick Rothfuss, deixo-vos com uma pequena seleção dos mistérios mais intrincados que fomentam milhares de teorias na cabeça dos fãs. Quem não gosta de SPOILERS tem aqui uma ótima oportunidade para saltar fora. Eu avisei!

O CHANDRIAN

A escrita de Rothfuss é bonita sim, mas bla bla bla Whiskas Saquetas o que realmente me amarrou a Patrick Rothfuss foi o mito do Chandrian. O que fazer quando o vilão da história é, aos olhos do “povo”, uma lenda? Pat podia seguir um caminho tradicional, colori-lo como o monstro papão que persegue o herói da história e que ninguém acredita realmente na sua existência até o ver, mas não. O Chandrian é, antes de mais, um nome de código que, segundo a própria etimologia criada pelo autor, significa um grupo de sete pessoas. Pensem nos contos tradicionais portugueses e substituam os trasgos ou as mouras encantadas por uma trupe de assassinos que produzem chamas azuis. Eles não passam de rumores de histórias passadas de pais para filhos nas comunidades rurais, até que o protagonista da história, era ainda um menino, dá com eles a matar-lhe a família. Arrepiante, não?

Pois é, e mais impressionante do que isso – para muitos dos fãs, frustrante até – é que ele nunca mais os vê, e mesmo a sua fome de vingança parece minguar à medida que cresce e vê o pagamento de dívidas como um problema bem mais real. A verdade é que os boatos sobre os Chandrian parecem flutuar durante anos à sua volta, sem que se consigam materializar em algo. Mas as pequenas descobertas de Kvothe concluem o mesmo: o líder dos Chandrian, um sujeito sinistro que ouvira chamar de Haliax, pode muito bem ser um personagem histórico de irrevogável importância. Se termos o vilão da história como parte da mitologia já era bom, considerá-lo como peça determinante no mundo tão fluente e subtilmente criado pelo autor é fantástico.

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Fonte: http://kingkiller.wikia.com/wiki/Haliax
OS QUATRO CANTOS DA CIVILIZAÇÃO

E por falar nele, temos mesmo de encarar os Quatro Cantos da Civilização como mais um mistério do autor. Para além das poucas referências sobre a história de algumas cidades mais importantes e a relação da Universidade para com alguns povos, da divisão original dos dias da semana (onzena) e das moedas em voga e do sistema de magia explicado ao pormenor numa toada incrivelmente científica, pouco mais sabemos sobre eles. Temerant, o mundo criado por Patrick Rothfuss onde os Quatro Cantos da Civilização se localizam é estranhamente original, ainda que seja em muito similar ao nosso mundo pré-industrial.

É, na verdade, a ausência de qualquer infodump, o mundo em aberto que Pat Rothfuss nos dá e todo o mistério que nos faz conhecê-lo pouco a pouco e sem grandes pormenores, o que faz dele, para mim, um mundo tão maravilhoso. Se a ausência de algo pode parecer preguiça do autor no desenvolvimento do worldbuilding, posso dizer que vejo a subtileza com que ele o revela mais como uma qualidade do que como um defeito. A cada nova jornada, o leitor é surpreendido com os detalhes mais leves e, aparentemente, insignificantes.

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Fonte: http://kingkiller.wikia.com/wiki/Temerant
BAST

Um dos personagens mais incríveis da série é o aprendiz e ajudante de taberneiro de Kvothe. Ele protagoniza um conto na antologia Histórias de Aventureiros e Patifes, escrito por Patrick Rothfuss, que pode dar pistas quanto à sua identidade e reais motivações, mas este fae é uma das personagens mais enigmáticas da série, não obstante a sua aparência jovial e divertida.

Bast surge nos Interlúdios, formando com Kvothe e o Cronista uma estranha trindade, em que cada um dos vértices parece esconder coisas uns dos outros. As atitudes de Bast e os motivos que o levam aos comportamentos mais inesperados são, no entanto, um dos enigmas mais ricos e propícios a especulações nesta série. Só para que conste, as suas pernas terminam em cascos.

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Fonte: https://www.pinterest.com/pin/471752129692339195/
AURI

Se Bast é a personagem mais enigmática nos Interlúdios, o núcleo da Universidade tem uma charada em forma de gente igualmente perturbadora. Mais do que uma até, mas nomear alguns dos professores e até colegas de Kvothe e o que cada um deles pode esconder exigiria um testamento. Auri é uma menina escondida do mundo nos labírinticos corredores subterrâneos da Universidade. Quem é ela? O que está ela ali a fazer? Essas são apenas algumas das perguntas que o comum leitor pode fazer.

A cada livro, a personagem torna-se mais misteriosa, embora seja difícil não sentir empatia por ela, tal a lealdade e amizade que devota a Kvothe. Auri é tão importante no mundo da Crónica do Regicida que Rothfuss escreveu um livro sobre ela, traduzido em português como A Música do Silêncio. Um título prometedor, não? Muito, ainda que seja pouquíssimo aquilo que o livro revela sobre os seus segredos.

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Fonte: https://www.pinterest.com/mcapaldi936/kingkiller-chronicles/
AS PORTAS DE PEDRA

É o título do último livro da trilogia, aquele que falta publicar ao autor e que, espera-se, consiga esclarecer todos os segredos de Pat Rothfuss para esta série. Mas quem leu os restantes livros sabe do que se trata. Vários são os personagens que citam “as portas de pedra” como quem cita um santo ou um deus. A mais evidente para o leitor é aquela que Kvothe encontra no Arquivo da Universidade, uma porta de pedra sem maçaneta ou dobradiça, com a palavra Valaritas gravada. Um mistério com muitas perguntas e nenhuma resposta.

Também na propriedade dos Lackless, segundo as palavras de Caudicus no segundo volume, existe uma porta similar. Pouco mais se sabe sobre estas portas, para além de que Mestre Elodin garante tratar-se de um segredo de grandes dimensões e a fae Felurian diz que o grande moldador que roubou a lua encontra-se encerrado para lá delas. Os mais atentos descobrirão também que a canção que a mãe de Kvothe proibira de o cantar em criança aludia aos Lackless, como também falava de uma porta sem maçaneta, o que nos conduz a um novo mistério.

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Fonte: https://black3.deviantart.com/art/The-Doors-of-Stone-635762619
A IDENTIDADE DE KVOTHE

O protagonista da história é visto na atualidade como uma figura mitológica, uma criatura capaz das maiores maravilhas, mas o leitor sabe que muito do que ele fez foi por mero acaso ou sorte, e tudo o resto, por encenação. Ainda assim, sabemos desde os primeiros parágrafos que Kvothe matou um rei, e não só não o vimos a fazê-lo, como ainda não conhecemos rei algum. Será Kvothe uma personagem tão digna de confiança assim? O que nos remete a várias perguntas.

Quem é Kvothe? Quem é o rei? Colocando aqui as minhas teorias pessoais, inicialmente pensei que fosse Ambrose, o seu eterno rival, cujo estatuto nobre o coloca, ainda que um pouco distante, na linha de sucessão ao trono. Mas depois pensei se não seria o Kvothe o próprio rei. Os leitores mais atentos já perceberam, e isto é mais que uma mera teoria, que a mãe de Kvothe era uma Lackless, que fugira com um cantor e por isso fora renegada pela própria família (o que explica a aversão de Meluan Lackless aos Edema Ruh no segundo volume).

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Fonte: https://thereforeigeek.com/tag/doors-of-stone/

Ainda assim, parece-me que se Kvothe se tornasse um rei, não o deveria aos laços aristocráticos, embora eles pudessem pesar se Rothfuss planeasse uma reviravolta importante para assegurar (e legitimar) a ligação de Kvothe a uma princesa ou rainha. Estou a viajar? Talvez, mas pôr-nos a viajar parece ser mesmo a intenção do autor. No entanto, pairaria uma última questão no ar. Se Kvothe fosse o rei, ninguém o chamaria de Regicida, certo?

Certo, mas perdoem-me uma nova viagem, e que tal se Kvothe arranjasse maneira de forjar a sua morte e fazer o povo acreditar que Ambrose era o próprio Kvothe? O seu inimigo seria morto pelo assassínio do rei e ele refaria a sua vida como um velho estalajadeiro. Pouco provável, devido à questão da cor do cabelo, mas nada nos impede de especular.

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Fonte: https://www.pinterest.com/carmarquezjd/kvothe/
O MECENAS DE DENNA

Há ainda a questão do mecenas de Denna. Denna é a amada do protagonista, que tão depressa aparece como desaparece da sua vida, sempre com o argumento que tem de seguir as diretrizes do seu mecenas, um sujeito misterioso que ninguém, para além dela, parece saber quem é. Segundo a descrição da cantora, trata-se de um sujeito violento, que embora tenha alguma idade (sabemos que tem cabelos brancos e usa bengala), é bom dançarino. Mais do que isso, é um homem que gosta de jogar. Apanhando todas as pequenas subtilezas que Denna vai contando a Kvothe, a minha aposta recai sobre Bredon, teoria que encontrei num site americano que me deixou perplexo com a evidência. Sim, estou a falar do enigmático companheiro de jogo de Kvothe durante a sua estadia na corte de Alveron. O único que não parecia interessado em mexericar sobre as suas origens. Talvez porque  as conhecesse?, pergunto eu.

Parece difícil ser outra a personagem, tão bem que as pistas se encaixam, para além de que nenhuma outra já apresentada se ajusta às características enunciadas. Há, porém, uma questão de maior importância. Quem é, na realidade, este homem? Quais os seus propósitos? O lado lógico do leitor irá certamente apontar para a possibilidade de Bredon pertencer ao Chandrian ou trabalhar para ele, com algum intuito diabólico, mas a verdade pode não ser tão “preto no branco” assim. Personagens de má índole não têm obrigatoriamente que pertencer ao lado negro da força.

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Fonte: http://kingkiller.wikia.com/wiki/Denna

Pelo menos, assim o espero. Gostaria sinceramente que este Bredon fosse, por exemplo, um Amyr. Sabem de quem eu estou a falar? Aquela irmandade aparentemente extinta que levava a justiça de terra em terra? Sim, essa mesma. Este Bredon poderia muito bem ter sido destacado para investigar Kvothe e a sua relação com o Chandrian. De facto, a possibilidade de os Amyr continuarem no ativo é levantada no último livro, e acredito que possa estar relacionada ainda com Trapis e Skarpi, dois personagens que Kvothe encontrou em Tarbean que escondem seguramente ainda muitos segredos.

São estes os enigmas que mais me intrigaram e me deixaram com um cada vez maior apreço pela mente complexa de Patrick Rothfuss. Seja nos livros já publicados, no pequeno livro A Música do Silêncio protagonizado pela personagem Auri ou no conto A Árvore Reluzente protagonizado por Bast, todas as frases parecem ter um propósito específico e o quadro geral parece um elaborado jardim, maravilhosamente podado pelo incrível autor norte-americano.  Nenhum pormenor parece ter sido deixado ali por acaso, e resta-nos esperar pelo tão adiado terceiro livro da Crónica do Regicida.

Especial: Introdução ao Império Malazano de Erikson

Montanhas voadoras, dragões, zombies, deuses a jogar o jogo dos tronos e cães horríveis cheios de raiva a verter das mandíbulas. É muito disto o que nos oferece Steven Erikson no seu livro inaugural, Jardins da Lua, publicado em Portugal pela Saída de Emergência no outono de 2016. É para dissecar os eventos do primeiro livro e para conhecer mais ao pormenor este mundo completamente louco que escrevo uma breve introdução ao Império Malazano. Em boa verdade, não nos é permitido conhecer muito mais antes de sair o segundo livro, mas esta saga começa com imensas informações que são importantes reter antes de continuar a leitura da mesma, ainda que no segundo volume, Deadhouse Gates, apenas quatro personagens transitem do livro inaugural.

O acontecimento conhecido como Cerco de Pale pode ser considerado como o momento chave do livro de Steven Erikson Jardins da Lua, não só porque é o ponto de partida dramático para a série, como é o primeiro momento onde nós – os leitores – nos conseguimos de facto situar na história e perceber o que está ali a acontecer. O cerco é descrito de forma pouco precisa mas esclarecedora que baste para o rumo da história, e os eventos narrados são de um cuidado maravilhoso e com um tom de decadência e queda que deixa claros os dotes literários do autor canadiano.

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Fonte: https://bibliosanctum.com/2016/02/15/short-sweet-review-gardens-of-the-moon-by-steven-erikson/

Mas quem é este tal de Erikson?

Nascido em 1959 em Toronto (Canadá), Steven Erikson é o pseudónimo de Steve Rune Lundin, um escritor formado em arquelogia e antropologia. Depois de casar-se, viveu no Reino Unido com a família, mas regressou ao Canadá, onde se fixou em Winnipeg. Erikson iniciou-se no mundo das letras com um ciclo de contos intitulados A Ruin of Feathers sobre um arqueólogo da América Central, a que se seguiram vários livros. Com o pseudónimo Steven Erikson, porém, viria a ganhar notoriedade quando se dedicou à fantasia, mais concretamente com a saga de grande envergadura Malazan Book of The Fallen, conhecida em Portugal como Saga do Império Malazano.

Que série é esta?

O universo Malazan foi criado por Steven Erikson e Ian C. Esslemont no início dos anos 80, para uma campanha de RPG, inspirado no jogo de mesa Dungeons & Dragons e na obra de Glen Cook, The Black Company, autor que viria a considerar Malazan uma obra-prima da imaginação e uma possível marca de água futura para o género fantástico. Erikson escreveu os dez volumes da série The Malazan Book of The Fallen, do qual Jardins da Lua é o primeiro de dez, mas para além desta sequência, existe uma série de contos e prequelas escritas pelos dois criadores, Erikson e Esslemont. Amigo pessoal de Erikson, o co-criador do universo é também ele um arqueólogo de origem canadiana que viria a publicar a sua própria série de seis volumes, Novels of the Malazan Empire.

“Ao ler Jardins da lua, as pessoas vão odiar ou amar o meu trabalho. Não há meio-termo. […] Os livros dessa série não são para leitores preguiçosos. Não é possível apenas passar por eles. Para piorar, o primeiro romance começa no meio do que parece ser uma maratona: ou você entra a correr e consegue manter-se em pé ou então fica para trás.” Steven Erikson

Erikson não perde muito tempo a narrar-nos batalhas nem momentos concretos das mesmas. Não nos conta como o personagem x chegou ali e porquê, não nos conta o que o personagem y andou a fazer antes ou qual o seu propósito específico. Ele apresenta-nos a imagem do que está a acontecer em primeiro plano, e geralmente, a sua narrativa ocorre após determinadas calamidades. O pós-guerra, o pós-morte, a depressão daí resultante, é o momento mais querido e explorado pelo autor ao longo do livro, assim como o pré-traição, o pré-colapso, na fase final.

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Steven Erikson | Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=5FljiPBUc18

Se os acontecimentos após o Cerco de Pale são os mais depressivos e tensos, é quando a luta pela resistência dos povos livres se estreita e Darujhistan se torna o centro de todas as atenções, que conhecemos alguns dos personagens mais incríveis e os momentos mais ativos e intensos da história. Uma história de literatura fantástica que todo o fã do género deve ler – e mais do que uma vez – na vida. Os parágrafos seguintes contêm SPOILERS de Jardins da Luapor isso estás por tua própria conta e risco.

As partes envolvidas

O Cerco a Pale é o momento de guerra aberta mais evidente ao longo do primeiro volume, mas o clima de tensão e disputa está presente em todo o livro. De um lado, está o Império, representado pela Imperatriz Laseen, do outro as Cidades Livres de Genabackis, que são obrigadas a recorrer às forças de exércitos de mercenários como a Guarda Escarlate e os Tiste Andii. A Cria da Lua, uma montanha voadora cheia de corvos, vigia as Cidades Livres e tanto pode disparar raios como enviar corvos e dragões para defender as terras visadas.

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Fonte: https://www.tor.com/2016/09/19/a-beginners-guide-to-malazan-characters-gardens-of-the-moon/
O IMPÉRIO

Os Manda-Chuvas do Império

Eles podem ser considerados os chefões lá do sítio. Laseen fora comandante da Garra, a principal força armada do Império, mas traiu o Imperador Kellanved e tornou-se Imperatriz. Lorn é a sua conselheira, uma mulher enigmática com várias fragilidades, que ainda assim não deixa de ser uma guerreira exímia, sem medo de sujar as mãos ou de percorrer o mundo em jornada para alcançar os seus intentos (como ressuscitar múmias, por exemplo). Usa uma espada de otaratal. Tayschreen é o Alto Mago, o homem forte da magia para a Imperatriz. Mas é uma pessoa tão mesquinha que nem os seus sequazes parecem muito dispostos a confiar nele. Dujek Umbraço é, por sua vez, o Alto Punho. Rosto do exército, é um homem a percorrer o outono da vida, que não obstante a sua lealdade ao Império, não deixa de ver a atual Imperatriz como uma traidora.

Os Queimadores de Pontes

O Nono Pelotão dos Queimadores de Pontes é um dos instrumentos da Imperatriz. Whiskeyjack é o sargento. Fora um dos homens mais poderosos do Império, mas com a queda de Kellanved perdeu estatuto e poder, embora todos se recordem de quem ele foi um dia. Ben Ligeiro é um mago poderoso, escuro e delgado, pode viajar entre Labirintos. Kalam é um ex-assassino da Garra, também de pele escura. O pelotão inclui ainda Piedade, uma assassina de aspeto inofensivo, Azarve e Violinista, escavadores, Trote, um guerreiro barghastiano e Marreta, um curandeiro.

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Fonte: https://www.tor.com/2016/09/19/a-beginners-guide-to-malazan-characters-gardens-of-the-moon/

Os Magos

Hairlock é um mago muito especial. Especialmente porque é cortado ao meio da primeira vez que aparece em cena, durante a batalha às portas de Pale. Ainda assim, continua na história, com a mente transportada para um boneco. Tattersail, por sua vez, é a feiticeira mais poderosa apresentada no livro. Meio gordinha e com alguns problemas pessoais, mas isso nada que tem a ver para o caso. Se ela quisesse, poderia ser a Alta Maga do Império sem problemas. A cena em que enfrenta um cão é das mais bem escritas do livro e graças a uma carta que lhe sai no baralho dos dragões, uma moeda vai andar boa parte da narrativa a girar.

Mesmo agora, ao aproximar-se da tenda de comando, o som fraco continuava dentro da sua cabeça, como ficaria durante algum tempo, acreditava ela. A moeda girava e girava. Oponn rodopiava duas caras para o cosmos, mas era a aposta da Senhora. Continua a girar, prata. Continua a girar.

Ganoes Paran

Pode-se considerar o Macho Alfa lá do sítio. Paran aparece, ainda em criança, no Prólogo, é visto como o homem certo para desempenhar as tarefas mais arriscadas, é capitão do exército, enviado pela Conselheira Lorn para aniquilar uma miúda possuída por um Ascendente (ao melhor estilo Exorcista), são dele os momentos Nicholas Sparks do livro, fica “amigo” do grupo mais badass do exército, é morto, enfrenta seres do além, ressuscita e ainda tem tempo de proteger os pobres e necessitados. Um aparte: é o herói da história mas está do lado dos maus. Caput?

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Fonte: http://subterraneanpress.com/gardens-of-the-moon
A RESISTÊNCIA

Anomander Rake

É o senhor de quem se fala, A Juba do Caos, Senhor da Cria da Lua e um daqueles papões de quem o Império deve temer. Sim, é dele a imagem da capa do livro e é mesmo tão badass como imaginam. Trata-se de um Tiste Andii de cabelo prateado, dois metros de altura, pele negra e uma imensa espada às costas, chamada Dragnipur. As Cidades Livres podem contar com a sua experiência e perícia em combate inigualável. Até se pode transformar em dragão, por curiosidade. As suas intenções, no entanto, são dúbias. Alegadamente, é aliado de Caladan Brood, um senhor da guerra lendário que lidera as companhias terrenas de Tiste Andii.

O Conselho de Darujhistan

A cidade é governada pelo Conselho, um grupo de nobres pouco ortodoxos, em que se incluem Lady Simtal, Turban Orr e Estrasyan D’Arle. Estes são ricos e todos cheios de não-me-toques, mas em vez de se preocuparem com a segurança da cidade e com a sua liberdade, parecem mais interessados em enrolarem-se uns com os outros, fazer festas e trocar favores. São todos eles meio frívolos, meio conspiradores, e estão diretamente relacionados com os personagens centrais da trama.

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Fonte: http://malazan.wikia.com/wiki/Gardens_of_the_Moon

A Sociedade dos Assassinos

A Sociedade dos Assassinos é liderada por Vorcan, uma mulher enigmática. Eles trocam favores e encetam acordos com o Conselho, mas medem forças com o escol conselhio pela liderança de Darujhistan. É muito comum encontrar assassinos desta sociedade a saltitarem pelos telhados da cidade, e também a matar gente por encomenda, aqui e ali.

A Cabala

O Conselho e a Sociedade de Assassinos pensam que controlam Darujhistan, mas a verdade é que existe uma cabala de magos, onde se encontra por exemplo Mammot, um historiador, e Baruk, um alquimista, que move as peças a seu bel-prazer. Baruk é frequentemente visitado por Anomander Rake e pela sua mensageira, um corvo peculiar chamado Bruxa.

O Centro de Tudo

O centro de tudo podia muito bem ser a Taberna da Fénix, até porque é onde os personagens principais da segunda metade do livro se encontram sempre. Kruppe é um homem de grande apetite e humor apurado, que interfere nas principais ações da trama… nos seus sonhos. Coll é um antigo nobre caído em desgraça. Rallick Nom, um assassino da Sociedade. Murillio, um jovem atraente que seduz mulheres de poder. E o jovem ladrão Crokus Jovemão, o sobrinho de Mammot, pode ser visto como o Frodo, o Jon Snow lá do sítio, porque a moeda que não para de girar cai-lhe nas mãos do nada e ele torna-se o special one, o escolhido, o maravilhoso Crokus. Um pormenor: vai-se apaixonar pela miúda do Exorcista.

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Fonte: http://malazan.wikia.com/wiki/Gardens_of_the_Moon/Dramatis_Personae
QUANDO OS MUNDOS CHOCAM

Tudo explode. Bem, nem tudo. A verdade é que os Queimadores de Pontes e Paran se encaixam na perfeição à narrativa de Darujhistan, revêm um pouco os seus valores, há personagens que morrem, outros transformam-se, outros cruzam-se e ficam amiguinhos, há combates nos telhados da cidade em que estamos a seguir a escrita do autor e não sabemos quem é quem, há combates através de Labirintos – o sistema de magia – e uma ressurreição a fazer lembrar muito o Imhotep e algumas passagens do filme A Múmia, mas tudo bem, e armadilhas e planos por baixo de planos e pessoas a mudar de lado e um baile a acontecer quando o mundo está para acabar. Mas o mundo de Malazan está longe do fim, ainda que nem todos os lugares ou personagens possam dizer o mesmo.

WORLDBUILDING

Só nos é dado a conhecer um bocadinho do Império Malazano, principalmente o território entre Pale e Darujhistan no continente de Genabackis. Sabemos que o Império foi fundado no ano de 1058 do Sono da Cresta na pequena ilha de Malaz. Posteriormente, Kellanved nomeou como capital do Império Unta, uma das Sete Cidades, sendo que Sete Cidades é o nome pelo qual é conhecido o maior continente de todos. Neste mundo, para além das raças supracitadas, há espécies que já foram extintas e só existem ainda como zombies, cheias de nomes estranhos, jaghut, t’lan imass e afins, há os exércitos de moranthianos que têm como transporte voador uma espécie de abelhas gigantes, os Qorl; há os barghastianos, os vários graus de Tiste, e outros que ainda haveremos de ouvir falar.

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Fonte: https://www.reddit.com/r/Malazan/comments/5226fh/gardens_of_the_moon/
OS ASCENDENTES

Esta espécie de seres divinos são muito importantes na trama, porque eles podem aparecer quando bem lhes apetece e interferir na história. Em nenhum momento senti o “deus na máquina”, porque eles são muito mais importantes do que isso. Eles têm objetivos específicos, tiveram vida e têm uma história e um passado, como podem mexer-se a favor do Império ou das Cidades Livres, dependendo dos seus interesses. Sim, porque se há coisa que Oponn, Cotillion, Trono Sombrio e afins são é interesseiros.

A MAGIA

A magia é um dos aspetos mais interessantes de Jardins da Lua. Os Labirintos são dimensões a que magos e Ascendentes podem recorrer e retirar deles o seu poder, assim como usá-los para percorrer grandes distâncias em pouquíssimo tempo, se possuírem tal habilidade. Os Labirintos são lugares em que se pode entrar e sair, todos eles com uma geografia e história própria. Existem Labirintos próprios de magos humanos, como o Thyr, usado por Tattersail, ou os Labirintos Ancestrais, como o Kurald Galain usado por Anomander Rake e o poderoso Omtose Phellack, o Labirinto Jaghut usado pela “múmia”, o Tirano Jaghut. E o Ligeirinho tem a capacidade de aceder a vários Labirintos em simultâneo, o que o transforma num personagem para lá de maravilhoso.

PS: A única coisa capaz de anular o poder de um Labirinto é o minério conhecido como otaratal, e já vos disse quem é que tem uma espada feita de otaratal, não já?

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Fonte: http://www.fantasybookreview.co.uk/blog/top-10-fantasy-series/
CONCLUSÃO

Entrar em Jardins da Lua pode não parecer fácil. Eu, por exemplo, adorei a escrita de Erikson, principalmente na primeira metade do livro, muito embora seja ótima em todo, mas a grande maioria do fandom odiou o prólogo, por isso quem ainda não leu não desanime às primeiras. Em muitos, mas muitos momentos mesmo, vi-me obrigado a andar páginas para trás para compreender o que estava ali a acontecer, se tinha sido eu que não tinha lido bem, se estava meio a dormir ou distraído, mas a narrativa é mesmo complexa e obriga a alguma atenção para não deixar passar pormenores ao lado. Apesar disso, a história é muito boa e não é exagero meu considerar esta uma das melhores estreias literárias no género nos últimos anos. Malazan não deve muito à consistência temporal, como já foi dito pelo próprio autor, mas é uma saga que entra facilmente no top de favoritas de qualquer apaixonado pelo género.

Especial: Efeitos Especiais em TV e Porque “Game of Thrones” Continua a Surpreender

Orçamento é tudo, podem bem dizê-lo, mas a série Game of Thrones continua a provar, semana após semana, que colocar dinheiro nas mãos certas pode gerar produções de qualidade acima do vulgar. David Benioff e Dan Weiss, os produtores da série, conseguiram transformar a obra de culto de George R. R. Martin, mais atrasada que o produto televisivo, numa fanfic muito satisfatória. Os argumentistas mantiveram a consistência da trama e trouxeram o melhor que os livros ainda não tinham dado à série, informações do passado coletivo e relações interpessoais, por exemplo, enquanto satisfazem as massas com aquilo-que-todos-desejam-não-pára-de-acontecer.

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Fonte: http://www.theverge.com
SE AINDA NÃO VISTE A SÉTIMA TEMPORADA, ESTE ARTIGO PODE CONTER SPOILERS

O sucesso passa muito por jogar com a demora no lançamento dos livros. Se não parece provável que a narrativa de George R. R. Martin, a sair do forno, venha a trazer Daenerys para Westeros e a concretizar uma série de felicidades como as que temos verificado na série tão rapidamente (porque o velhinho é mesmo um sacana sádico), os produtores optaram, ao não ter mais material canónico para seguir, por ser bem mais amigáveis e satisfazer o público mais sentimental. De outra forma, os fios narrativos iriam distanciar-se tanto que o espectador poderia perder o interesse na trama.

A par desta sucessão de fortes emoções narrativas, como o reencontro dos Stark, a relação de Daenerys com Jon Snow e a guerra com Porto Real, são os efeitos especiais outro dos segredos do sucesso. Mortos que caminham, dragões a incinerar exércitos, batalhas navais de grande aparato e edificações monumentais são alguns dos ex-libris desta série televisiva que está aí para provar aos leigos que é muito mais que “tetas e dragões”, como muitas vezes é apelidada.

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Fonte: http://www.sbnation.com

O quarto episódio, “The Spoils of War”, foi um dos que materializou da melhor forma essa receita, enquanto manteve a consistência narrativa, como a apresentação de Daenerys aos White Walkers por Snow, através de pinturas rupestres. Foi bom voltar a ouvir falar de Filhos da Floresta e de Primeiros Homens, ver Sansa, Arya e Bran juntos, perceber que o Mindinho tem ainda cartas na manga e que Tyrion ainda teme pelo irmão, e os próximos episódios prometem ainda mais ação. Ok, algumas gaffes têm sido cometidas, como confundir Volantis com a Valíria, dizendo que os que padecem de escamagris eram levados para lá, quando Valíria trata-se de uma civilização já extinta, mas nada que comprometa a sequência.

“Mortos que caminham, dragões a incinerar exércitos, batalhas navais de grande aparato e edificações monumentais são alguns dos ex-libris desta série televisiva que está aí para provar aos leigos que é muito mais do que “tetas e dragões”, como muitas vezes é apelidada.”

Segundo o jornal The Independent, os últimos vinte minutos do quarto episódio foram um verdadeiro trabalho de Hércules, com grande foco no personagem Jaime Lannister e na expectativa do que é ser atacado por um dragão.  A criação do campo de batalha exigiu o trabalho de centenas de pessoas, 27 vagões, enormes quantidades de tinta preta, cinzas falsas e corpos carbonizados. Tanto o dealbar dos incêndios como a filmagem em tempo real foram quebra-cabeças para a direção, com recurso a várias câmaras para oferecer ao espectador a sensação de velocidade.

O Escorpião de Qyburn e o personagem Bronn foram outros dos destaques de uma sequência a que não faltou o relinchar dos cavalos, os gritinhos dothraki e o som metálico dos escudos de guerra. À semelhança da “Batalha dos Bastardos” da temporada passada, este golpe militar levado à tela fez-me sentir a adrenalina de uma batalha de verdade. Resta-nos esperar que o trabalho da produção continue árduo e que a HBO nos reserve mais momentos tão bem feitos como este.

Especial: Quem Ainda Não Leu Brandon Sanderson?

É muito difícil encontrar um fã de ficção fantástica que não tenha lido, ou pelo menos ouvido falar de Brandon Sanderson. As suas obras de fantasia estão publicadas pelo mundo inteiro, o autor escreve com uma rapidez notável e uma legião de fãs segue atentamente todos os seus passos. Dono de uma relação com o público pautada pela acessibilidade e simpatia, Brandon tem tanta facilidade para explicar ao mundo as suas ideias e processos criativos, como para colocá-los em prática. O autor esteve em novembro em Portugal, a convite da Edições Saída de Emergência, editora responsável pela publicação da saga Mistborn – Nascida das Brumas.

O seu ritmo de publicação parece imparável, de tal modo que os leitores chegam a sentir dificuldades em acompanhá-lo. Através do site de Brandon, é possível seguir a progressão do seu trabalho, saber em que eventos o autor estará presente e até ler gratuitamente um livro, Warbreaker. O autor escreve tanto para adultos como para jovens, mas pode-se dizer que redefiniu toda a conceção de fantasia através das 3 Leis que canonizou como guia para todo o bom escritor de fantástico.

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Brandon Sanderson (Fonte: sltrib.com)

Quem é Brandon Sanderson?

Natural do Nebraska, Brandon Sanderson (19 de dezembro de 1975) vive atualmente em American Fork, no Utah. Concluiu o mestrado de escrita criativa em 2005 pela Universidade de Brigham, onde trabalhou numa revista de ficção especulativa, e no ano seguinte casou-se com Emily Bushman, de quem tem dois filhos. De ideologia Mórmon, Brandon foi missionário em Seul, na Coreia do Sul. Foi ao ser escolhido por Harriet McDougal, viúva do escritor Robert Jordan, para concluir a série épica do esposo, A Roda do Tempo, que Brandon Sanderson ganhou reconhecimento mundial. Daí em diante, a sua popularidade cresceu a olhos vistos, sendo difícil não encontrar um livro seu em qualquer grande superfície livreira.

Elantris foi o primeiro livro que publicou, mas foi com a trilogia Mistborn que o seu sucesso venceu muralhas. A história de uma menina que vence um déspota tirano e percebe que cometeu um erro grave ao fazê-lo conquistou adeptos em todo o mundo, mas esses seriam apenas os primeiros passos na rica trajetória de êxitos de Brandon. Mistborn transformou-se não em uma, mas em três trilogias, com a última por publicar, mas é com The Stormlight Archive que Sanderson parece ter quebrado todos os paradigmas e conquistado definitivamente o amor do público.

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Brandon Sanderson fanart (Fonte: pastemagazine.com)

As 3 Leis de Sanderson

Um dos motivos pelos quais Brandon é reconhecido é exatamente por ter parametrizado o trabalho de um escritor de fantasia, principalmente no que concerne à utilização da magia e ao quanto é dado a conhecer ao leitor da sua conceção. Separando as águas, Brandon distingue a construção mágica credível e detalhada, aquela em que o leitor compra a ideia de forma categórica e até científica (Hard Magic), da magia mais tradicional, sem qualquer detalhe ou explicação, que se encaixa no deus ex-machina habitual nas leituras YA (Soft Magic).

O autor também reforça o papel determinante que as dificuldades dos personagens têm no envolvimento com o leitor e a importância de montar um mundo credível, honesto e bem estruturado, para que personagens ou situações não caiam de pára-quedas na história. Pessoalmente, concordo em absoluto com estas leis, ainda que me pareça que Brandon não seja um inventor, mais um estudioso sobre o assunto.

As 3 Leis são:

Lei 1: “A capacidade de um autor em resolver conflitos de forma satisfatória com a magia é diretamente proporcional ao quão bem o leitor compreenda esta magia.”

Lei 2: “As fraquezas das personagens são mais interessantes que as suas habilidades. Ou seja: limitações são mais importantes que poderes.”

Lei 3: “Expanda o seu mundo antes de adicionar novos elementos.”

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Fanart de The Stormlight Archive (Fonte: pinterest.com/sparkybeanbag)

Porque o NDZ acredita que todos devem ler Brandon Sanderson?

CONSTRUIU UM MUNDO CHEIO DE POSSIBILIDADES

Brandon publicou o seu primeiro romance, Elantris, através da editora Tor Books em 2005, com críticas muito positivas. Foi em 2006, porém, que o seu trabalho mais famoso saiu para as bancas – Mistborn. Posteriormente, Brandon dedicou-se a trabalhos mais juvenis, como Alcatraz ou Coração de Aço, mas logo regressaria com novos livros da série Mistborn e The Stormlight Archive.

Segundo o autor, a série Mistborn atravessará várias fases de vida do planeta Scadrial. Se a primeira série (publicada em Portugal pela Edições Saída de Emergência) foi o mais próximo de uma clássica fantasia épica, a segunda trilogia foca-se num período perpassado por uma austera Revolução Industrial, com perfume a western. A terceira trilogia deverá ocorrer, então, num período correspondente à nossa atualidade ou futurista, uma vez que o autor garantiu vir a tratar-se de uma trilogia de ficção científica, sempre com os seus sistemas de magia intricados como pano de fundo.

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Szeth de The Stormlight Archive (Fonte: 17th Shard)

Todos os livros de high fantasy publicados por Brandon passam-se no mesmo universo, a Cosmere. Se Scadrial é o “planeta” que serve de palco à série Mistborn, Elantris e o conto Emperor’s Soul são passados no shardworld Sel, Warbreaker em Nalthis, The Stormlight Archive em Roshar e White Sand em Taldain. De alguma forma, todos estes lugares estão conectados, muito embora se tratem de “fragmentos de mundo” muito diferentes. Há, no entanto, vários indícios de que se trata do mesmo universo (para além da confirmação do autor, vá).

Um deles é a existência misteriosa de saltadores de mundo, sendo o mais conhecido Hoid, um indivíduo que aparece como informador de confiança na primeira trilogia Mistborn, um contador de histórias em Warbreaker e contrabandista em Elantris, por exemplo, ganhando um papel de maior protagonismo em The Stormlight Archive, onde adquire a identidade de Wit. Khriss, a duquesa de White Sand, também surge em Mistborn: The Bands of Mourning e Mistborn: The Secret History.

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Vin de Mistborn (Fonte: pinterest.com)
OS SISTEMAS DE MAGIA SÃO ORIGINAIS

Brandon Sanderson é, a meu ver, um dos autores que melhor constrói sistemas de magia. Da alomância e feruquimia de Mistborn, ao breath de Warbreaker, passando pelo domínio da areia em White Sand – e falo destes porque foram os livros/sagas que li – a técnica passa pela ingestão ou absorção de uma matéria, cujo processo de metabolismo resulta na aquisição de um dom considerado mágico, incrível para um humano.

Desta forma, Vin, Kelsier, Vasher e Kenton tornaram-se personagens cativantes pelas suas habilidades, embora o autor, recorrendo à lei número 2 que definiu, crie também grandes dificuldades ao seu desenvolvimento, seja na aprendizagem das magias, na grandiosidade dos adversários ou na introdução de problemas do foro pessoal. Ainda assim, muito embora a magia de Sanderson seja algo mais científico que maravilhoso, desmantela a ilusão de super-heróis pré-concebida e apresenta uma plataforma credível e bem montada que só pode encantar os novos leitores de ficção fantástica.

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Siri e Susebron de Warbreaker (Fonte: puncker–rocker.deviantart.com)
TEM AS SUAS HABILIDADES NARRATIVAS

Quem me conhece e ao NDZ há algum tempo, sabe que não morro de amores por Brandon Sanderson, sobretudo por ser possuidor de uma escrita fast-food, principalmente em Mistborn. Brandon não revela grande riqueza de vocabulário e as imensas voltas e reviravoltas no enredo sugerem muito improviso e muito pouco de esqueleto. O recurso a salvamentos de última hora são ainda um furúnculo no seu processo narrativo, para alguém que fomenta tanto a credibilidade dos mundos criados. Neste aspeto, Brandon tem ainda muito a crescer. Esta ideia marcou-me principalmente durante a leitura da primeira trilogia Mistborn, aclamada pela grande maioria do público de fantástico.

O autor, porém, veio a ganhar-me pouco a pouco. O final de Herói das Eras encantou-me, não que tenha ficado agradado com o recurso ao espiritual, quando Brandon tanto se havia esforçado por explicar “cientificamente” todos os detalhes, mas posso dizer que a trilogia foi concluída com chave de ouro. Não gostei de muitas explicações oferecidas a esmo ao longo dos três livros, mas os maravilhosos personagens, as relações humanas e os plot-twists prenderam-me, da primeira à última página. Acabei a Era 1 de Mistborn com nostalgia e com a sensação de que podia ser melhor, mas que mesmo assim foi muito bom.

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Senhor Soberano de Mistborn (Fonte: pinterest.com/Rebeksterz)

A leitura de Warbreaker, porém, foi o cheque-mate a que se deve este artigo. A escrita do autor pareceu-me mais rica e envolvente e os plot-twists ganharam-me por completo. Cada reviravolta foi uma machadada e terminei o livro completamente apaixonado por Vivenna, Siri, Susebron, Vasher e companhia. Foi, sinceramente, uma das melhores leituras deste ano até agora. A novela gráfica White Sand, com argumento original de Brandon, não teve muita qualidade ou originalidade, mas não me desagradou. Mais uma vez, foram as surpresas e os plot-twists a conquistarem-me.

Brandon Sanderson é, inegavelmente, um dos mestres da fantasia moderna e um dos que mais fomentam aquilo que tanto me agrada no género: a construção de mundos credíveis e originais. Prevejo ler Elantris em setembro (versão pt-br) e espero que a Saída de Emergência continue a apostar neste autor que tanto tem acarinhado, seja com a segunda série de Mistborn ou com a publicação de The Stormlight Archive, aquela que, muito provavelmente, será num futuro recente a série de fantasia com melhor repercussão em todo o mundo. Cá esperamos por mais publicações, Brandon.

Dia Mundial do Livro: 50 Livros Que Todos os Fãs de Fantasia Devem Ler

Feliz Dia Mundial do Livro. Para comemorar mais um 23 de abril, e em vésperas da festa da Liberdade (o que seria da leitura sem ela!), decidi fazer uma lista de 50 livros que todos os fãs de fantasia deviam ler. É uma lista pessoal, de acordo com as minhas preferências, e como tal não deve ser vista como o melhor conselho do mundo ou verdade absoluta em termos qualitativos, mas como uma mera opinião pessoal. Por ordem decrescente de preferência, enumerarei 50 livros que certamente perdurarão nos tempos como obras de eleição da literatura fantástica.

50. O Silmarillion, J. R. R. Tolkien – Publicações Europa-América

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49. O Hobbit, J. R. R. Tolkien – Publicações Europa-América

hobbit

48. Tigana – A Lâmina na Alma, Guy Gavriel Kay – Edições Saída de Emergência

Tigana

47. Tigana – A Voz da Vingança, Guy Gavriel Kay – Edições Saída de Emergência

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46. A Irmandade do Anel (O Senhor dos Anéis #1), J. R. R. Tolkien – Publicações Europa-América

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45. O Regresso do Rei (O Senhor dos Anéis #3), J. R. R. Tolkien – Publicações Europa-América

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44. White Sand – Brandon Sanderson, Rik Hoskin, Julius Gopez e Ross Campbell – Dynamite [NÃO TRADUZIDO]

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43. As Duas Torres (O Senhor dos Anéis #2), J. R. R. Tolkien – Publicações Europa-América

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42. Os Leões de Al-Rassan, Guy Gavriel Kay – Edições Saída de Emergência

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41. Aprendiz de Assassino (A Saga do Assassino #1), Robin Hobb – Edições Saída de Emergência

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40. O Punhal do Soberano (A Saga do Assassino #2), Robin Hobb – Edições Saída de Emergência

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39. A Vingança do Assassino (A Saga do Assassino #4), Robin Hobb – Edições Saída de Emergência

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38. A Corte dos Traidores (A Saga do Assassino #3), Robin Hobb – Edições Saída de Emergência

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37. Poder e Vingança (Império das Tormentas #1), Jon Skovron – Edições Saída de Emergência

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36. A Demanda do Visionário (A Saga do Assassino #5), Robin Hobb – Edições Saída de Emergência

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35. Príncipe dos Dragões (Elric #1), Michael Moorcock – Edições Saída de Emergência

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34. Rei dos Espinhos (Trilogia dos Espinhos #2), Mark Lawrence – TopSeller

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33. O Terceiro Desejo (The Witcher #1), Andrzej Sapkowski – Edições Saída de Emergência

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32. Príncipe dos Espinhos (Trilogia dos Espinhos #1), Mark Lawrence – TopSeller

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31. A Lâmina (A Primeira Lei #1), Joe Abercrombie – 1001 Mundos

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30. Histórias de Aventureiros e Patifes, George R. R. Martin e Gardner Dozois – Edições Saída de Emergência

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29. Histórias de Vigaristas e Canalhas, George R. R. Martin e Gardner Dozois – Edições Saída de Ermergência

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28. O Mar de Ferro (Crónicas de Gelo e Fogo #6), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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27. Os Reinos do Caos (Crónicas de Gelo e Fogo #10), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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26. O Festim dos Corvos (Crónicas de Gelo e Fogo #5), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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25. A Muralha de Gelo (Crónicas de Gelo e Fogo #2), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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24. O Despertar da Magia (Crónicas de Gelo e Fogo #4), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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23. A Fúria dos Reis (Crónicas de Gelo e Fogo #3), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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22. O Herói das Eras Parte 1 (Mistborn – Nascida nas Brumas #3), Brandon Sanderson – Edições Saída de Emergência

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21. O Poço da Ascensão (Mistborn – Nascida nas Brumas #2), Brandon Sanderson – Edições Saída de Emergência

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20. O Herói das Eras Parte 2 (Mistborn – Nascida nas Brumas #4), Brandon Sanderson – Edições Saída de Emergência

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19. O Feiticeiro e a Bola de Cristal (A Torre Negra #4), Stephen King – Bertrand Editora

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18. A Lenda do Vento (A Torre Negra #4,5), Stephen King – Bertrand Editora

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17. A Canção de Susannah (A Torre Negra #6), Stephen King – Bertrand Editora

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16. As Terras Devastadas (A Torre Negra #3), Stephen King – Bertrand Editora

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15. O Pistoleiro (A Torre Negra #1), Stephen King – Bertrand Editora

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14. A Escolha dos Três (A Torre Negra #2), Stephen King – Bertrand Editora

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13. A  Dança dos Dragões (Crónicas de Gelo e Fogo #9), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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12. O Império Final (Mistborn – Nascida nas Brumas #1), Brandon Sanderson – Edições Saída de Emergência

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11. O Demónio de Ferro (Conan #2), Robert E. Howard – Edições Saída de Emergência

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10. Lobos de Calla (A Torre Negra #5), Stephen King – Bertrand Editora

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9. Mares de Sangue (Nobres Vigaristas #2), Scott Lynch – Arqueiro [NÃO PUBLICADO EM PORTUGAL]

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8. A Tormenta de Espadas (Crónicas de Gelo e Fogo #3), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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7. O Nome do Vento (Crónica do Regicida #1), Patrick Rothfuss – 1001 Mundos

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6. A Glória dos Traidores (Crónicas de Gelo e Fogo #6), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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5. Warbreaker (Warbreaker #1), Brandon Sanderson – brandonsanderson.com [NÃO TRADUZIDO]

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4. Jardins da Lua (Saga do Império Malazano #1), Steven Erikson – Edições Saída de Emergência

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3. República de Ladrões (Nobres Vigaristas #3), Scott Lynch – Arqueiro [NÃO PUBLICADO EM PORTUGAL]

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2. A Guerra dos Tronos (Crónicas de Gelo e Fogo #1), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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1. As Mentiras de Locke Lamora (Cavalheiros Bastardos #1), Scott Lynch – Edições Saída de Emergência

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Se é verdade que será difícil superar Scott Lynch, George R. R. Martin e Steven Erikson no topo das minhas preferências, também é verdade que ainda tenho muito caminho a desbravar neste mundo da fantasia pelo qual me apaixono diariamente. Daqui por uns anos, o meu top 50 será com toda a certeza diferente. O que não significa que a verdade do título deste artigo esteja em risco. Estes 50 livros são, claramente, para todos os fãs de fantasia.

Especial Páscoa: 5 Razões Para Ler Scott Lynch

Se para muitos Scott Lynch é considerado como um dos mais problemáticos casos de sucesso da literatura fantástica recente – obstáculos patológicos como ansiedade e depressão têm sistematicamente adiado o lançamento do seu próximo livro, o que o coloca em vias de se tornar mais um “Martin & Rothfuss da vida” – para mim ele é não só um dos mais promissores autores do género como um dos melhores. Efetivamente.

Perdoe-me o fandom de Brandon Sanderson, mas dos 6 livros que já li dele, nenhum me causou tanto impacto e vertigem quanto os bem mais despretensiosos livros de Scott Lynch. E isso porque Scott não dá destaque à magia e ao wordbuilding, ainda que estes sejam alicerces para a sua obra. Os mundos criados não são o mais importante, importa sim o maravilhamento do que está lá dentro. O próprio mistério em torno do seu passado coletivo só alimenta a imaginação dos leitores. E se o que estiver lá dentro forem personagens incríveis e credíveis, com uns pozinhos de magia como cereja no topo do bolo, então estamos no caminho certo. 

A ideia deste artigo é fazer um pequeno passeio pelos seus trabalhos e apontar razões válidas para que mais pessoas o possam ler. Convém, por isso, começar pelo início.

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Scott Lynch e Elizabeth Bear (Fantasy-Faction)

Quem é Scott Lynch?

Se és fã de fantasia e não sabes quem é Scott Lynch… espero que pelo menos já tenhas ouvido falar de As Mentiras de Locke Lamora, o seu único romance publicado em Portugal. Primeiro de três irmãos, Scott nasceu a 2 de abril de 1978, em St. Paul, Minnesota. Depois de passar por uma série de empregos, de barman a bombeiro, Scott viria a tornar-se um sucesso de vendas com o seu primeiro romance. Vive em Massachusetts e é casado com a também escritora Elizabeth Bear.

Completamente apaixonado por jogos de computador e RPG’s, Scott revelou-se desde cedo um ótimo contador de histórias. Tanto a escrita como a imaginação revelam uma tremenda irreverência, própria de um espírito vivo e enérgico que tenta, a todo o momento, sacudir o mundo em que vive. Essa inquietação e sede de mudança reflete-se nos seus personagens, ricos em carisma e em dissonâncias. Locke Lamora é o exemplo perfeito.

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Locke Lamora (scottlynch78.tumblr)

 

O NDZ dá-te 5 razões para leres Scott Lynch

UMA ESCRITA RICA E FLUÍDA

Scott Lynch começou a sua carreira literária em 2006, um início tão auspicioso que por si só fala muito sobre as suas capacidades. O romance de estreia, As Mentiras de Locke Lamora, foi finalista do Prémio World Fantasy Award em 2007. Também em 2007, e por dois anos seguidos, foi nomeado para o Prémio John W. Campbell para Melhor Novo Escritor. Em 2008, venceu o Prémio Sydney J. Bound para Melhor Recém-Chegado pela academia British Fantasy Society.

Só em 2014, porém, ouvi falar deste autor e, impulsionado pela extraordinária ressonância do seu sucesso, me adentrei neste mundo fantástico. As Mentiras de Locke Lamora tornou-se um dos meus livros preferidos de sempre.

Sem grandes saídas poéticas, Scott não deixa de ser fenomenal enquanto escritor. Ele consegue levar o sorriso aos lábios do leitor mais desprevenido ao cozinhar frases aparentemente simples de uma forma irreverente e divertida. Paralelamente à grande capacidade de narração, ele parece sempre imbuído de uma adrenalina altíssima, que faz parecer estar constantemente inspirado. Ritmo e riqueza de vocabulário caminham permanentemente, lado a lado.

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Locke Lamora (kejablank em deviantart)
UM MUNDO CREDÍVEL

The Gentleman Bastards é uma sequência de sete livros, dos quais apenas três estão escritos e publicados. Somos apresentados a um mundo credível, inspirado no Mediterrâneo renascentista, um mundo selvagem e insano baseado no salve-se quem puder que propicia a disseminação de toda a espécie de vigaristas e criminosos. Locke Lamora começa a narrativa como um menino problemático entregue a um padre cego, que se revela um treinador de ladrões disciplinado e munido de várias artimanhas e recursos, ensinando aos seus sequazes o seu míster.

É aí que Locke Lamora se torna prodigioso na arte de usar as mãos e a passar despercebido, ao mesmo tempo que encontra nos seus companheiros órfãos uma família. Pouco a pouco, vai reclamando um lugar silencioso à sombra dos canais, nas ruas esquálidas de Camorr. Os planos tornam-se mais ousados, um após o outro, de forma tão perigosa para os protagonistas que se torna viciante. E é aí, ao tocar nas “pessoas certas” que eles despertam a atenção dos poderes latentes na cidade.

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Capas originais de The Gentleman Bastards

Ainda que seja um mundo fantástico, a ousadia paga-se caro. Os personagens não têm aqui capacidades extra-humanas para os livrarem com facilidade de problemas criados. Eles sofrem abusos, estupros, espancamentos, tentativas de afogamento, e por aí fora. Exemplos são muitos. Uma menina é morta e entregue ao pai dentro de um barril cheio com urina de cavalo. O protagonista é completamente humilhado por uma boa dezena de vezes.

Se Camorr é inspirada na Veneza renascentista, outras cidades costeiras fazem-nos lembrar lugares preciosos da nossa História, banhados pelo familiar Mar Mediterrâneo. Karthain, a terra que serve de sede aos terríveis magos-servidores, surge no terceiro livro da sequência e recende à Grécia do período supra-citado. Scott revela mão para criar cenários reais. Sem descurar, claro está, a estoica política desses locais maravilhosos.

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Camorr (Fredrik Dahl)
UM AMBIENTE FANTÁSTICO

Embora bastante credível, o mundo construído por Scott Lynch não dispensa a sua boa dose de fantasia. As construções mantêm o remanescente de uma arquitetura milenar produzida com vidrantigo, uma substância de origem enigmática. Tão enigmática como os seus construtores, um povo antigo conhecido como os Ancestres, que por alguma razão desconhecida desapareceu do mundo.

Para além de uma boa série de animais originais, Scott também criou um desporto de gladiadores com tubarões, abrilhantado pelas irmãs Berangias. As ciências alquímicas também fazem parte da trivialidade do mundo. Mas é com os magos-servidores, porém, que o autor norte-americano mais explora o fantástico. Eles são uma estirpe de pessoas dotadas de uma grande variedade de recursos mágicos, capazes de controlar um indivíduo se souberem o seu nome verdadeiro. Com tais capacidades, dedicaram-se a um ofício: servir aqueles que os podem remunerar, em troca dos seus serviços. Daí vem o termo que lhes dá nome.

As origens de Locke Lamora também estão envoltas em fantasia e irrealidade, mas irei poupar-me às revelações do terceiro livro para não cair em spoilers. A mitologia criada revela tanto ou tão pouco que nos deixa a salivar por mais. Num total de treze deuses, os mais interessantes são Aza Guilla, a deusa da morte e do silêncio, Perelandro, o bondoso Pai das Misericórdias e o misterioso Treze Sem Nome, o senhor dos ladrões.

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Personagens de The Gentleman Bastards (scottlynch78.tumblr)
AUDÁCIA, HUMOR E ORIGINALIDADE

A audácia e a originalidade estão interligadas em toda a obra de Scott Lynch, e são uma constante. Se em As Mentiras de Locke Lamora assistimos a um sem-número de peripécias à Ocean’s Eleven protagonizadas por um miúdo franzino com alma de Jack Sparrow, o estratagema das cadeiras que permeia todo o livro Mares de Sangue e os jogos em volta de Requin e Selendri nunca serão esquecidos. Locke Lamora é um personagem incrível em cada livro. A culpa, claro está, é de Scott.

O risco a que submete os seus personagens aumenta a cada volume. De um afogamento, espancamento, envenenamento e quase morte, Locke Lamora prova os sabores mais amargos a que um ser humano pode ser submetido – incluindo a morte de entes-queridos – sem nunca perder o sentido de humor. Se há alguém que sabe entremear uma tragédia com uma boa dose de humor, é Scott Lynch. Os seus livros são trágicos, dramáticos e cruéis. E conseguem ser permanentemente divertidos.

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Jean Tannen e Locke Lamora (dottedmelonart.tumblr)

Scott entrou para a minha lista de autores preferidos de chapão, e parece quase karma que ele me responda às minhas perguntas interiores a cada livro que leio. As Mentiras de Locke Lamora fizeram-me rir num outono insalubre, Mares de Sangue deram-me inspiração num momento desinspirado e República de Ladrões falou-me como curar feridas de amor quando mais precisei de o fazer.

A relação incrível entre Locke Lamora e Sabetha Belacoros veio mostrar o lado mais sentimental do personagem, que ainda assim se transforma num combate de personalidades, uma disputa apaixonada nada lamechas. Jean Tannen é o protetor que todos gostariam de ter. Para além de esperto, o melhor amigo de Locke tem a força de braços e o poderio físico que ele não possui. E Calo e Galdo, os gémeos ladrões, são o alívio cómico que permeia toda a obra. Não há margem para dúvidas, o humor é um dos pontos fortes do autor.

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The Gentleman Bastards (scottlynch78.tumblr)
LOCKE LAMORA E AMARELLE PARATHIS

Os três volumes de The Gentleman Bastards e o conto Um Ano e Um Dia na Velha Theradane (publicado em Portugal na antologia Histórias de Aventureiros e Patifes) são os trabalhos mais conhecidos de Scott. Por isso, é impossível não comparar o Espinho de Camorr à Duquesa Invisível do seu conto.

Ainda que os mundos sejam substancialmente diferentes – o conto apresenta dragões, bestas e criaturas ainda mais estranhas – os genes do autor estão lá. Personagens muito bem construídos, originais e acima de tudo irreverentes. Desde um autómato fora de forma a uma mecânica lésbica, somos presenteados com um braço-de-ferro entre um ladrão – a super mundana Amarelle Parathis – e um feiticeiro. Algo que também assistimos no mundo de Locke Lamora, em que a magia ocupa um lugar bem menos importante.

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Scott Lynch (flyer da Phoenix ComiCon)

De qualquer forma, os dois personagens parecem ser a outra metade um do outro. Amarelle Parathis é a versão feminina de Locke Lamora, em toda a sua rebeldia e ostentação. E tudo se resume a golpes ousados e logros e canecas e gargalhadas e miséria. Por todos estes motivos e mais alguns, a obra de Scott Lynch é a minha preferida no mundo da fantasia e não me canso de recomendá-la como se se tratasse de um bom chocolate. Boa Páscoa a todos.

 

Especial: 10 Motivos Para Ler as Crónicas de Gelo e Fogo

Todos sabemos que as Crónicas de Gelo e Fogo são uma das sagas de fantasia mais conhecidas em todo o mundo, laureada pelos fãs do género. Empolado pela adaptação televisiva, a série Game of Thrones, o trabalho mais conhecido do autor George R. R. Martin é tema de estudos, rico em merchandising e, para além de ter inspirado milhares de escritores, é também utilizado como chamariz para lançar livros de economia, receitas gastronómicas ou documentários históricos. Um mundo fantástico envolvente e apaixonante, credível e real, que trouxe milhões de leitores para a ficção especulativa e devolveu a popularidade às histórias medievais.

Ainda assim, há um vasto público que nunca leu os livros, ora porque julgam que a série da HBO lhes conta toda a história, ora porque se sentem constrangidos pelo estigma erróneo de que a fantasia é um género menor, destinado para crianças e adolescentes, sem qualquer tipo de riqueza literária. É este um dos principais motivos pela falta de público literário no género fantástico. A maioria dos livros de fantasia atualmente são destinados ao público adulto, e este público continua a julgar que eles são para adolescentes.

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Trono de Ferro (Marc Simonetti)

Se queres fugir a este preconceito e descobrir prosas maravilhosas e temas tão envolventes como política, filosofia e relações humanas em mundos ficcionais, tens agora uma boa oportunidade para o fazer. A Edições Saída de Emergência está com uma campanha que não vais querer perder, válida até 9 de abril: 40% de desconto em livros da Coleção Bang!, como podes ver nesta página. Neste catálogo encontram-se livros como O Império Final, O Poço da Ascensão e O Herói das Eras (cujas opiniões podes ver aqui, aqui e aqui) de Brandon Sanderson ou as séries Acácia de David Anthony Durkham e O Mago de Raymond E. Feist. O Castelo de Gormenghast de Mervyn Peake e alguns volumes da obra completa de Lovecraft também estão disponíveis.

De George R. R. Martin, o autor das Crónicas de Gelo e Fogo, estão incluídos na promoção os livros Histórias dos Sete Reinos, A Ironia e Sabedoria de Tyrion Lannister, Windhaven e O Dragão de Inverno e Outras Histórias. No entanto, se queres iniciar a fantástica descoberta dos Sete Reinos, deves iniciar-te com as Crónicas de Gelo e Fogo, publicado em Portugal em 10 volumes até agora.

O NDZ dá-te 10 motivos para leres as Crónicas de Gelo e Fogo:

UM MUNDO QUASE REAL

Estávamos em 2011 quando as primeiras imagens promocionais de Game of Thrones ficaram disponíveis na imprensa e assisti a uma entrevista de George R. R. Martin, com vários separadores alusivos à série da HBO. A envolvente escura e a alusão a corvos e a batalhas aliciou-me de imediato. Um mundo fictício com Sean Bean como protagonista remeteu-me ao Senhor dos Anéis, a única fantasia que até então me havia arrebatado no grande ecrã e a única trilogia literária no género que me tinha apaixonado.

A frase chave de um artigo, que qualificava a série como “o Padrinho na Terra Média” foi o que me conduziu à série, e desde então comecei a segui-la. O caráter fanfarrão do personagem Robert Baratheon de Mark Addy e a crueldade do mundo – que fazia a série parecer ser passada na Idade Média não fossem as estações do ano durarem anos – foram as únicas coisas de que gostei realmente. Só nos últimos episódios da temporada fiquei preso. E isso coincidiu com o início da leitura dos livros.

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Mark Addy é Robert Baratheon (HBO)

É preciso perceber que estamos a falar de coisas bem diferentes. A série apresenta-nos tons cinzentos, desesperança e corrupção. Os livros dão destaque ao passado glorioso das nações, e embora possa dizer que a série é uma boa adaptação e todos esses cenários escuros estejam presentes, os livros trazem mais força, esperança e colorido, tendo nos dourados um poder que pouco se verifica nas temporadas iniciais do produto televisivo. A série literária foca-se na profundidade dos seus personagens e na memória coletiva, nos feitos terríveis e gloriosos dos antepassados, apresentando os conflitos políticos como algo decorrente do mundo extremamente bem criado e não o foco que a série apresenta, na tradição de outros filhos da produtora, como a extraordinária Rome.

Na minha opinião, se ambos são bons, os livros são superiores, porque incluem o que a série apresenta e muito mais. O mundo é extremamente plausível, mas em nenhum momento deixa de ser um mundo fantástico. Westeros e Essos vão revelando sinais claros de fantasia, quer através dos exércitos de mortos-vivos do outro lado da Muralha de Gelo, quer através das feitiçarias dos sacerdotes vermelhos, que podem executar proezas como a ressurreição, seguindo um código muito restrito que torna a magia em si algo raro neste mundo crível.

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Combate com White Walker (Fallonart em gameofthronesfanart)
PERSONAGENS MEMORÁVEIS

Se a adaptação televisiva contribuiu e muito para a popularidade do mundo, o mesmo se pode dizer dos personagens. Mesmo entre aqueles que não seguem a série, poucos são os que não sabem quem é Jon Snow, Daenerys Targaryen ou Tyrion Lannister. A popularidade destes personagens é tanta, que existe uma grande procura por figuras coleccionáveis, produzida por marcas de tradição no ramo.

A índole dos personagens é duvidosa. Se a série de tv nos apresenta pela rama alguns personagens importantes, os livros seguem o percurso de todos eles de forma categórica e profunda, fazendo-nos conhecer os seus medos e segredos, e até conhecer os feitos dos seus antepassados de uma forma apaixonante sem descurar qualquer detalhe.

Outro pormenor curioso, é que personagens apresentados na série como adultos, como Jon, Dany ou Robb, são descritos nos livros como meras crianças de 13, 14 anos, vindo a crescer lentamente no decorrer das aventuras. Daí que o ritual de matrimónio de Daenerys com Khal Drogo na série não pareça tão censurável quanto ele é descrito nas Crónicas. Cão de Caça, Davos Seaworth e Stannis Baratheon são personagens de grande profundidade nos livros, ombreando com Jorah Mormont e Melisandre na minha lista de preferidos. De destacar que vários personagens de relevo na trama foram afastados da série de tv, como Victarion Greyjoy, Arianne Martell ou Belwas, o Forte. Todos eles personagens incríveis.

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Arianne Martell e Arys Oakheart (pinterest)
UMA ESCRITA ENVOLVENTE

George R. R. Martin oferece nos seus livros sensações que a série não pode oferecer. Ímpar em descrição, Martin consegue incluir num só capítulo dezenas de nomes que nunca lemos sem que a leitura fique demasiado cansativa. Os seus capítulos ocorrem sob o ponto de vista de um personagem, fazendo-nos sentir as suas emoções, dúvidas e receios. É uma escrita elegante e apaixonante, crua e madura, dona de um vocabulário rico e de uma capacidade de envolvência rara.

Os diálogos são outro dos pontos fortes do autor. Sendo a maioria dos personagens opulentos em astúcia e arrogância, é comum o recurso ao sarcasmo e à metáfora no decorrer das conversas. Os duplos sentidos são uma constante com este autor, que usa e abusa da inversão e do imprevisível para surtir o efeito surpresa no leitor. Vários segredos encontram-se escondidos nas entrelinhas, o que contribuiu grandemente para todo o hype junto dos leitores. As teorias são muitas, e todas elas provocadas pelo senso subversivo da escrita de Martin, que já ensinou aos seus leitores que nada é colocado ali por acaso.

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Batalha do Tridente (Benden Nett em pinterest)
UMA IMAGINAÇÃO EXTRAORDINÁRIA

O dialeto dothraki, por exemplo, foi uma invenção exclusiva da série por David J. Peterson, embora George R. R. Martin tenha criado várias palavras que serviram de base a essa criação. Termos como khal, vaes dothrak, entre os dothraki, ou valar dohaeris, termo valiriano, são recorrentemente citados nos livros.

A imaginação de George R. R. Martin é de louvar. Ele criou dois continentes: Westeros, inspirado na Inglaterra medieval, e Essos, uma mistura de Ásia com a África da Antiguidade. Num lado sentimos frio com os protagonistas, nos Sete Reinos governados pelos Baratheon no início da saga, no outro calor sob grilhetas, caminhando descalços pelos desertos num regime aberto de escravatura.

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Daenerys Targaryen (team-daenerys em tumblr)

Westeros é um continente cinzento e cruel, cujo modo de vida assenta grandemente na forja de alianças entre casas. Porto Real é a capital, uma cidade portuária de grande envergadura que se estabeleceu como sede do poder nos Sete Reinos desde que os Targaryen ali se estabeleceram. A família real de George R. R. Martin recebeu grande inspiração dos melniboneanos de Michael Moorcock, embora a tradição incestuosa dos Targaryen beba também da nossa História, muito concretamente à Dinastia Ptolomaica que vigorou no Egito.

Uma traição terrível, conjurada entre os Baratheon e os Lannister, veio oferecer o trono aos Baratheon. Os Targaryen reduziram-se assim a duas crianças que foram levadas em segredo até ao outro lado do Mar Estreito, o continente de Essos. Ali, aparte as Cidades Livres, o esclavagismo vigora há muito, seguindo a tradição valiriana. É a remanescente Targaryen, Daenerys, uma adolescente cheia de sonhos e de bondade no coração, quem coleta exércitos à sua volta, alicerçada pelo mito que se criou a seu respeito aquando do milagre que a fez despertar três dragões dos seus ovos, para trazer justiça ao mundo. É, no entanto, como Martin transparece, uma rapariguinha que pouco sabe da vida, indecisa e muitas vezes questionável, ao contrário da mulher segura e badass que a série impõe de forma menos realista.

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Cena de Crónicas de Gelo e Fogo (keywordhut)
UMA CRÍTICA POLÍTICA E SOCIAL

Se há algo que Martin não deixa para outros, é colocar o dedo nas feridas da sociedade. A hipocrisia dos homens é frequentemente posta em discussão, e não são poucas as vezes em que os personagens cedem à facilidade da corrupção, através de propostas que lhe são vantajosas, abrindo as cancelas aos desígnios de outros de forma menos legal, ora através de contrapartidas sujas e alianças vis. O célebre “uma mão lava a outra” é usado por Martin por inúmeras vezes, fazendo destas Crónicas de Gelo e Fogo um grande jogo político mas principalmente um jogo azedo, pejado de injustiças e de crueldades, de interesses pessoais que ultrapassam os interesses do todo e de ações mesquinhas intermináveis.

Com uma mensagem clara no que diz respeito à crítica política e social, George R. R. Martin mostra o sofrimento do povo através dos personagens mais inóquos. Os bons não param de sofrer. Mas os perversos também provam do seu veneno. Um reflexo da realidade, as Crónicas de Gelo e Fogo mostram que ninguém escapa impune às crueldades da vida.

Para a Muralha de Gelo que separa os Sete Reinos das terras geladas, são mandados tanto os criminosos que procuram espiar os seus pecados, como os filhos bastardos, já considerados perjuros à nascença. Ali são “convidados” a representar a Patrulha da Noite, uma força militar que defende o mundo civilizado de hordas selvagens, embora o verdadeiro inimigo, que se tornou meramente lendário com o passar dos tempos, sejam os Outros, um mal muito antigo aparentemente adormecido. O ostracismo nas Crónicas representa claramente o preconceito da sociedade.

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Senhora Coração de Pedra (LynxFelidae em tumblr)
ÁRVORES GENEALÓGICAS INTERMINÁVEIS

A série só revela uma pequena amostra das ramificações imensas existentes no mundo de Gelo e Fogo. Se as árvores genealógicas dos Targaryen e dos Stark são as que mais importância têm na trama, devido aos feitos perpetrados pelos antepassados, determinantes no desenvolvimento da narrativa, existem outras famílias de grande peso histórico. Um dos personagens de grande envolvimento é Jorah Mormont, um westerosi exilado em Essos após um crime denunciado por Ned Stark.

Jorah viria a ser importante na trama por funcionar como conselheiro de Daenerys, por quem é apaixonado, mas se na série de tv não é fácil nem inicial a perceção de que estamos a falar do filho do Senhor Comandante da Patrulha da Noite, nos livros essa associação é mais flagrante, não só pelo apelido compartilhado. E se a linha genealógica Targaryen é a espinha dorsal da história, uma vez que o primeiro Targaryen a reinar Westeros chegou ali pousado num dragão, vindo da Valíria, dando origem a uma nova era e a um novo calendário, também os passados de Stark e Baratheon têm importância por aquilo que os une.

Os Stark reinaram no Norte, construíram monumentos imponentes até se ajoelharem aos Targaryen, enquanto os Baratheon, como uma ramificação bastarda da família real, viriam a entrar em conflito com esta quando Robert, apaixonado pela irmã de Ned, comprou uma guerra a Rhaegar Targaryen, com quem ela vivia um romance digno de canções. Esse conflito viria a despoletar a guerra sangrenta que resultaria na deposição dos Targaryen. Nessa peleja, também é de destacar Ned Stark como um dos lealistas da causa Baratheon, denunciando Jaime Lannister ao encontrá-lo sentado no Trono de Ferro quando matou o rei Aerys, e revelando um papel crucial na invasão das Ilhas de Ferro, onde tomou Theon Greyjoy como seu protegido, uma espécie de refém que garantia controle sobre a Casa que governava as ilhas. Vários comportamentos que incutiram uma opinião negativa sobre Stark, um homem honrado que apostou no cavalo errado.

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Stannis Baratheon como Azor Ahai (Jack Kaiser em tumblr)
ACONTECIMENTOS IMPREVISÍVEIS E PLOT-TWISTS

Pode-se considerar que os livros A Tormenta de Espadas e A Glória dos Traidores (Storm of Swords no original) são os mais cheios de acontecimentos inesperados e reviravoltas. A morte de personagens capitais, personagens principais e vilões, é de grande importância para o desenvolvimento da trama. O Casamento Vermelho é descrito por muitos como o acontecimento mais trágico da saga, e embora as diferenças entre o que acontece nos livros e na série sejam gritantes, ambos constituíram momentos de cortar a respiração para os fãs fervorosos do mundo de Gelo e Fogo.

Tyrion Lannister é um dos personagens fulcrais da história. Para além da sua língua afiada, este anão mordaz com um olho de cada cor, irmão da rainha, sofre os maiores preconceitos ao longo da narrativa. De um homem estigmatizado pelo mundo, ridicularizado pela própria família por conta das deformidades físicas e pelo mundo também pela Casa de tradições cruéis que representa, Tyrion Lannister tranforma-se num herói improvável. Ele é o Monstro que se vê casado com a donzela frágil, mas como esta história não é um conto de fadas, nem eles se amam, nem estão destinados a ficar juntos. Ele é o Corcunda de NotreDamme que se vê impelido a ajudar a menina, mesmo sabendo que ela nunca o amará. Mais do que isso, Tyrion é um génio político, que tem neste volume a sua revanche, mas uma transformação a nível de percurso que o conduzirá para longe de casa, claro está, com rameiras e vinho em mente.

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Os Lannister (Giacobino)
UMA MITOLOGIA SEM FIM

Dragões, mortos-vivos de gelo, troca-peles e afins são ingredientes que colocam as Crónicas de Gelo e Fogo num patamar de excelência dentro do género fantástico. Mas o que os torna realmente incríveis é que eles são raros no mundo em que estão inseridos, um mundo consistente e cruel. Se alguns anciãos, como a Velha Ama, descortinam fragmentos dessas criaturas do passado que podem estar bem vivas e escondidas no presente, a mitologia é apresentada pelas crenças das civilizações construídas de raiz.

Em Westeros, o culto aos Sete Deuses levou à criação de septos (as igrejas dedicadas aos Sete) e de septões (os padres). A Fé dos Sete reverencia o Pai, que representa o julgamento, a Mãe, dedicada à maternidade e à piedade, o Guerreiro, que oferece força em combate, a Donzela, representante da castidade e da inocência, o Ferreiro para os mesteres, a Velha para a sabedoria e o Estranho, que representa a morte e o desconhecido. Esta é a religião em voga nos Sete Reinos, exceto nas Ilhas de Ferro, onde se pratica o culto ao Deus Afogado, e no Norte, onde ainda se reverenciam os deuses antigos.

Em Essos a religião predominante é a que presta culto a R’hllor, o Senhor da Luz, conhecido como Deus Vermelho em Westeros. O seu símbolo é um coração flamejante, e a sua adoção por algumas figuras de poder em Westeros vem dar uma cobertura de guerra santa à Guerra dos Cinco Reis pelo Trono de Ferro.

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Ramsay Bolton (Aldo Katayanagi)
INFLUÊNCIAS LITERÁRIAS DE VULTO

Muito embora as Crónicas de Gelo e Fogo sejam sobejamente elogiadas pela ousadia e originalidade, pode-se dizer que apenas a forma como é abordada é original. A maioria dos personagens e tramas foram inspiradas por outras obras de destaque no género fantástico. Se já referi Moorcock como influência para os Targaryen, principalmente no que diz respeito às características físicas e passado grandioso, também posso estabelecer um paralelismo entre Tyrion Lannister e Elric. São duas figuras de poder, cada uma a seu jeito, que revelam grandes dilemas morais ao longo da sua jornada. São também vítimas da mesquinhez daqueles que os circundam e podemos somar a tudo isso as debilidades físicas. Se Tyrion é um anão feio, Elric de Melniboné é fraco e débil, recorrendo frequentemente a drogas para se manter enérgico. Pelo menos, até encontrar a espada Tormentífera, que pode ter sido também inspiração para a lendária Luminífera das Crónicas.

Os sacrifícios em nome de um Deus Vermelho, a existência de criaturas terríveis no Norte, que supostamente já teriam sido abolidas da face do mundo e a profecia de um inverno cruel, somados a uma menina que se disfarça de rapaz na sua fuga e a uma estrela com cauda nos céus que prenuncia mudanças, são​ elementos que Martin roubou a Tad Williams e à sua obra Memory, Sorrow and Thorn. Já a relação de amizade de Jon Snow com Sam, Pyp e Grenn é muito familiar se nos lembrarmos da obra do excelso senhor Tolkien e dos seus queridos hobbits. Os amigos de Frodo, Samwyse, Pippin e Merry partilham os nomes e a amizade juvenil.

A mitologia lovecraftiana de Ctulhu está também evidente nas crenças em redor do Deus Afogado nas Ilhas de Ferro. Várias Casas são também homenagem a autores dos quais George R. R. Martin é fã. São elas a Casa Vance (Jack Vance), a Casa Rogers (Roger Zelazny), a Casa Peake (Mervyn Peake), a Casa Costayne (Thomas B. Costain) e a Casa Jordayne (Robert Jordan), por exemplo. O Castelo dos Jordayne é o Tor, em homenagem à editora que publicou os livros de Jordan, e o seu senhor é Trebor, a inversão de Robert.

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Khal Drogo (Magali Villeneuve)
INFLUÊNCIAS REAIS

São imensas as influências na nossa História para as Crónicas de Gelo e Fogo. Não me refiro somente às inspirações para dar forma aos continentes e civilizações apresentados. A própria Guerra dos Cinco Reis foi inspirada pela Guerra das Rosas que dividiu o Reino Unido. Cersei Lannister é comummente comparada a Marguerite D’Anjou e a Elizabeth Woodville. Ambas tiveram papéis de destaque na Guerra das Rosas, ao colocarem mãos à obra para chegarem ao poder.

As características marcantes da sua fisionomia e o passado inglório fazem com que Daenerys Targaryen seja comparada a Elizabeth I, embora eu tenha mais tendência em compará-la a Cleópatra VII Philopator. A rainha do Egito era uma força da natureza que governou uma nação com garra, algo difícil de ver numa mulher na Antiguidade, o que estabelece um paralelismo com a heróina de Martin. Stannis Baratheon também é comparado a Constantino, que trouxe uma nova fé para a Europa, e a Antiga Valíria a Roma, um império caído. O triarca Horonno em Volantis é uma clara referência ao célebre romano Júlio César.

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Os Stark (Mathia Arkoniel)

Esta saga, porém, não possui apenas qualidades. O facto de serem muitos livros e de a série ainda não estar terminada – e possivelmente nem vir a ser – pode roubar-lhe público, mas ainda assim parece-me uma leitura obrigatória para os fãs do género. Com este artigo espero ter convencido os indecisos e até levar os que já leram a voltar a revisitar este mundo fantástico e empolgante.

Especial: 7 Pais Que o Mundo da Fantasia Não Esquecerá

Dia 19 de março é o 78.º dia do calendário gregoriano. O dia em que a dinastia Sung terminou na China, a Suécia assinou a paz com Münster e os irmãos Lumiére filmaram o seu primeiro filme. É também o dia dedicado pela Igreja Católica a São José de Nazaré, esposo de Maria e pai de criação de Jesus Cristo. Por essa razão, foi estipulado como o dia internacional do pai.

Em homenagem a todos os pais, venho fazer um artigo dedicado àqueles que, embora ficcionais, deixaram um sentimento de afeição e calor paternal a todos os que os conheceram, através dos mais diversos livros de fantasia. São 7 pais que o mundo da fantasia não esquecerá. Personagens memoráveis que permanecerão na memória coletiva dos fãs do género. Se ainda não conheceste algum deles, do que estás à espera?

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Denethor (Tiziano Baracchi)
DENETHOR

O pai de Boromir e Faramir, em O Senhor dos Anéis, famigerada trilogia de J. R. R. Tolkien, não é o melhor exemplo de um pai extremoso. Filho de Ecthelion II, foi Mordomo de Gondor, a posição de regência da nação humana nos tempos em que aguardaram pelo Rei prometido. Denethor II casou com Finduilas, a filha de Adrahil de Dol Amroth, e do seu matrimónio nasceram Boromir e Faramir.

A predileção de Denethor pelo primogénito, Boromir, era evidente. Por sua vez, desdenhava do filho mais novo, que era muito próximo de Gandalf. A morte do filho mais velho tornou-o ainda mais céptico em relação a Faramir, que ainda assim viria a substituí-lo como regente de Gondor. Durante algum tempo, Denethor usou a bola Palantír, o que tornou mais frágil e o levou à loucura. Já debilitado mentalmente pela morte de Boromir, e ao julgar que também Faramir estava condenado, este pai viria a falecer ao queimar-se com a Palantír nas mãos durante o Cerco de Gondor.

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Príncipe Cavalaria (Myblack em deviantart)
PRÍNCIPE CAVALARIA

Apesar de a narrativa se iniciar com este personagem morto, a Saga do Assassino de Robin Hobb não seria a mesma se ele não tivesse existido. O Príncipe Cavalaria era o substituto natural do Rei Sagaz no trono dos Seis Ducados, uma vez que era o filho mais velho. Tendo como irmãos os príncipes Veracidade e Majestoso, Cavalaria era respeitado por todos e visto como um homem de valores e princípios. Daí que tenham sido surpreendentes os boatos e a confirmação de uma traição e da existência de um bastardo. Trata-se de Fitz, o protagonista da história.

Cavalaria assumiu a traição e colocou à disposição o seu lugar hereditário, pelo constrangimento que isso conferia ao reinado e à esposa. O príncipe era casado com a Dama Paciência, que nunca lhe havia conseguido dar filhos. Por conseguinte, após o seu desaparecimento, Paciência criou Fitz como o protocolo exigia, ainda que tenha vindo a ser Castro, um bom trabalhador e lealista ao príncipe, a vestir a pele de progenitor.

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Steven Deschain (Towerwikia)
STEVEN DESCHAIN

O pai de Roland, o protagonista da saga A Torre Negra de Stephen King, foi um pistoleiro bastante poderoso na terra de Gilead. Era um descendente de Arthur Eld, o ancestral que fundara aqueles domínios e uma clara alusão ao célebre Rei Artur do Ciclo Bretão. Filho de Deirdre e Alaric Deschain, Steven era um líder entre os pistoleiros.

Casou-se com Gabrielle, de quem viria a ter um filho, Roland. Apesar de tentar formar o filho nas leis dos pistoleiros, Roland revelou-se uma desilusão, acabando por derruir todas as suas expectativas. Na verdade, Roland descobrira que a mãe e um dos seus homens de confiança, Marten Broadcloak, eram amantes. Tentou alertar o pai para a traição, mas este nunca lhe deu ouvidos, o que resultou na sua morte. Roland, porém, regeu-se durante toda a vida pelos seus conselhos, e uma das suas máximas é: não te esqueças do rosto do teu pai.

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James Potter (Michelle Winer)
JAMES POTTER

Criado por J. K. Rowling, James é o pai de Harry Potter na famosa série de fantasia com o mesmo nome. Estudou em Hogwarts com aquela que viria a ser a sua esposa, Lilian, e os seus melhores amigos eram Sirius Black, Remus Lupin e Peter Pettigrew. Sempre fora apaixonado por Lilian, embora ela mostrasse especial predileção pelo seu amigo Severus Snape.

James e Lilian casaram após saírem de Hogwarts, vindo a juntar-se à Ordem da Fénix onde revelaram um papel fundamental no apoio a Dumbledore. Posteriormente, teriam o seu único filho, Harry, que viria a tornar-se uma peça capital para a salvação da Ordem e da própria escola de magia. Tal como a esposa, James viria a ser morto pelo terrível Lorde Voldemort.

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Ned Stark (io9)
NED STARK

Quem gosta de fantasia não esquece Ned Stark, o pai que todos gostariam de ter se vivessem em Westeros. Um dos protagonistas do volume inaugural das Crónicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin, Eddard “Ned” Stark foi sempre um homem íntegro e valoroso, de educação firme e mão de ferro. Apesar disso, ou também por isso, nunca deixou de amar os filhos e tratá-los com afeto e preocupação.

O patriarca dos Stark casou com Catelyn por amor, e ainda que todos julgassem que traíra a esposa e que dessa traição nascera Jon Snow – que viria a criar à sombra dos restantes filhos – Ned escondera um segredo terrível envolvendo a sua irmã Lyanna. Muito provavelmente, Ned manchou a sua honra para proteger a irmã. Ainda assim, a suposta traição foi perdoada por Catelyn, mesmo que esta nunca aceitasse o bastardo. Ned Stark foi vítima de uma armadilha cruel e morreu precocemente, mas todos nos recordamos da sua presença terna e da extrema afeição para com os filhos Robb, Jon, Sansa, Arya, Bran e Rickon.

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Arliden e Laurian (Corade Laurian em deviantart)
ARLIDEN

Arliden, o Bardo, é um personagem importante das Crónicas do Regicida de Patrick Rothfuss. Pai do protagonista, Kvothe, tem destaque no primeiro terço do livro O Nome do Vento, revelando-se um Edema Ruh de renome, famoso pelas suas cantigas de maldizer e por liderar uma trupe que se passeia de terra em terra para entreter os locais.

Esposo de Laurian, a filha de um nobre, é descrito pelo próprio filho como o melhor cantor e ator que este já viu. Dono de um humor mordaz e de feições afáveis, Arliden educou Kvothe com o máximo de subtileza e profundidade, vindo a preocupar-se com o dom inusitado do filho em aprender rapidamente. Em busca de uma nova música, Arliden colige vários relatos sobre o mito do Chandrian, o que vem a despertar atenções e resulta na sua morte, bem de como a da esposa.

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Jaime Lannister (Amok)
JAIME LANNISTER

Sei que já falei nas Crónicas de Gelo e Fogo, mas o Regicida é outro pai de quem nos lembramos facilmente. Ele teve três filhos com a sua irmã Cersei Lannister, ainda que estes tivessem sido criados por outro: o ébrio e fanfarrão rei Robert Baratheon.

Desde muito cedo que Jaime e Cersei estabeleceram uma relação de afinidade a roçar o erótico. Os irmãos sempre foram obcecados um pelo outro, da mesma forma que foram por si mesmos. Viram-se como o espelho um do outro – o espelho da perfeição. Apesar de nunca se preocupar em educar Joffrey, Tommen e Myrcela, Jaime sempre soube que eram seus filhos e, quando a vida levou um revés e o tornou mais humano, o que coincidiu com a perda de uma mão e a morte do filho mais velho, Jaime revelou-se mais preocupado com os outros filhos e com o real significado da palavra pai.

E vocês, têm algum “pai de estimação” no mundo da fantasia?

Especial: Como Erikson, Sanderson e Companhia Esmagaram os Orcs

Se na primeira metade do século XX um senhor de cachimbo na boca criou aquele que viria a ser o mais badalado worldbuilding de fantasia da era moderna, os seus iguais e seguidores criaram um sem número de mundos tão ou mais ricos que o apresentado em O Hobbit ou na trilogia O Senhor dos Anéis. Estou a falar de J. R. R. Tolkien. Não foi o percursor do género fantástico nem talvez o escritor mais dotado, mas deixou uma marca indelével na História da ficção fantástica. Muitos foram os autores que lhe seguiram os passos, replicando história, características humanas e terrestres. Mas as tendências mudam, e os elfos, orcs e anões foram vítimas de uma extinção em massa, desaparecendo quase por completo. Correndo o risco de parecer um daqueles senhores despenteados do Canal História, vou tentar explicar o porquê.

O mundo é cíclico. Já Robert Jordan propõe uma teoria bastante interessante em A Roda do Tempo, saga de fantasia que – shame on me – ainda não tive a oportunidade de ler. E tudo o que hoje é adorado, amanhã torna-se chato e enfadonho. Foi o que aconteceu aos discípulos de Tolkien. Mas, quem sabe, volte a haver um grande hype em torno de elfos e orcs daqui por muitos anos? Tudo bem, ainda hoje há escritores a repetir a fórmula e muitos fãs dos mundos tradicionais por aí, da mesma forma como eu confesso ser um grande admirador das antigas histórias de espada e feitiçaria de Robert E. Howard, mas parece inevitável admitir que Terry Brooks, Christopher Paolini e companhia já não conseguem surtir o efeito que teriam conseguido páginas da vida atrás, porque, na minha humilde opinião, falta-lhes o essencial em qualquer ofício praticado pelo Homem: a inovação.

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Gimli e Legolas de O Senhor dos Anéis (ghostofdener em deviantart)

O sucesso depende de muitos factores, mas oferecer qualidade não chega. Há que oferecer algo de novo. É isso que define o sucesso, foi isso que fez J. R. R. Tolkien ficar imortalizado nas areias do tempo, e não só ele. Muitos como eu não tiveram o privilégio de ler Fritz Leiber, Jack Vance, Stephen Donaldson ou Glen Cook, entre outros, mas estes nomes – abafados pela hegemonia de outros géneros – influenciaram alguns dos melhores autores da actualidade. Não vou pronunciar-me sobre literatura virada para público juvenil, porque corro o risco de criticar J. K. Rowling, Rick Riordan, T. A. Barron e outros que tais só porque não gosto.

É, em grande parte, a originalidade dos mundos que me fascina. Se Neil Gaiman me encanta pela escrita e pela forma doce e negra com que remexe nos sentimentos humanos, o seu imaginário nunca me conseguiu prender, talvez por seguir uma linha mais subversiva das mitologias urbanas. Seguindo um registo distinto mas numa toada semelhante, Stephen King apresenta em A Torre Negra um diálogo mais aberto e intimista, conseguindo os seus picos de humor de forma mais genuína. O horror presente em King também se coaduna mais com o meu ADN de leitor, mais visceral e preto-no-branco.

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O ka-tet de A Torre Negra (Browsing Tradicional Art em deviantart)

Terror e ficção-científica são dois géneros da ficção especulativa que me cativam, menos que a fantasia, mas que se fundem a ela em grandes obras de referência. No entanto, é a História a verdadeira base do meu culto à fantasia, e são as Histórias criadas de raiz que mais me fascinam. Se foi o Senhor dos Anéis a implementar-me hábitos de leitura, fazendo-me entrar nas espadas e feitiçarias de Robert E. Howard (um dos meus autores preferidos de sempre) e nos livros role-playing Fighting Fantasy de Ian Livingston e semelhantes, a vida literária levara-me para os romances de mistério e espionagem, históricos, policiais e simbologias. Há poucos anos, o advento de uma série de televisão fez-me perceber que um autor conseguira englobar tudo o que havia nos meus géneros preferidos… e quando li os livros, viciei-me nas Crónicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin.

A Tormenta de Espadas/A Glória dos Traidores (interpretemos os dois livros como um só, como o é na versão original) tornou-se de imediato o meu livro preferido de sempre, suplantando A Chave de Rebecca e Ivanhoe, que até ali eram incontestáveis. No entanto, penso que as Crónicas de Gelo e Fogo, inacabadas até hoje, valem pelo todo. O mundo de George R. R. Martin é riquíssimo e vasto, com tantos ingredientes e uma complexidade que o fazem tornar-se real. Um mundo inspirado na nossa Antiguidade, com guerras credíveis e protagonistas que morrem. A magia existe, mas até a forma como é apresentada num mundo tão seco e credível agrada-me. [Martin, leva o tempo que quiseres, mas não morras sem escrever mais qualquer coisinha.]

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Jorah Mormont de Crónicas de Gelo e Fogo (Browsing Fan Art em deviantart)

George R. R. Martin venceu pela ousadia, pela originalidade (que não é assim tanta, mas os autores a quem foi buscar ideias nunca conseguiram algo tão grande e épico), mas sobretudo pela capacidade de aguentar um mundo destes na “carapaça” como a tartaruga que sustenta o nosso, em tantas crenças – e nos livros do Terry Pratchett.  Mas quando parecia impossível superar George R. R. Martin no empreendedorismo fantástico, os últimos anos vieram mostrar que, independentemente do contexto, Nelson Mandela tinha razão:

Só é impossível até acontecer.

Não vou falar de autores que desconheço, como Brian McClellan e o seu mundo que mistura uma espécie de Revolução Francesa com magia, Sam Sykes e os homens-dragões e outras bizarrices, ou Brent Weeks, já publicado no Brasil com aparente boa aceitação. Existem imensos autores emergentes que conseguem reinventar a fantasia a cada dia que passa, com magias originais e mundos complexos. Nenhum destes consegue ainda igualar George R. R. Martin na imponência e complexidade, mas há três autores que lhe fazem sombra.

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A trupe de ladrões de As Mentiras de Locke Lamora (SPN, deviantart)

Scott Lynch é o meu mais-que-tudo (salvo seja). A braços com graves problemas de depressão e ansiedade, poucos livros publicados e nenhum mundo de quebra-cabeças, Scott conseguiu surpreender os fãs do género com o seu livro de estreia. Inspirado na Itália renascentista, o seu mundo sem nome parece ter sido criado por uma espécie alienígena que depois o abandonou. Mas não há nenhuma guerra épica a ser travada. A saga de Scott Lynch fala de ladrões e de tramóias, de redes de espiões, de política e de sobrevivência. Fala de um ladrão sem vergonha de encher os bolsos, e é ele que faz as delícias do leitor.

Scott conquista pela simplicidade e pela astúcia, tanto do seu protagonista lingrinhas, como dele próprio como autor, pelos diálogos hilariantes, pelos plot-twists, pela leveza e brilhantismo literário. Com uma simplicidade inigualável, As Mentiras de Locke Lamora tornou-se o meu livro preferido de todos os tempos. Ele tem toques de steampunk, uma aura do período renascentista, truques sem fim e até combates de tubarões. Os restantes livros já publicados da série The Gentleman Bastards agradaram-me quase tanto como o primeiro e até o conto Um Ano e Um Dia na Velha Theradane encantou-me pela irreverência. [Recupera rápido e escreve mais, Scott.] Não será o melhor autor de fantasia da atualidade, mas é o meu preferido.

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Vin de Mistborn (Evan Montero em writeups)

E depois há Sanderson. Pois é. Brandon Sanderson, este sim considerado por muitos como o melhor autor de fantasia da atualidade. O homem escreve pelo menos um livro por ano, criou um universo – a Cosmere – e várias das suas sagas (sim, sagas!) passam-se em planetas desse mesmo universo. Ao ler a Era 1 de Mistborn (uma trilogia, publicada em 4 livros em Portugal ), não me fascinei. Reconheço-lhe enorme qualidade e é uma das obras mais aclamadas do autor, mas nem a sua escrita me encantou, nem as explicações dadas para a complexidade da sua criação me pareceram sólidas. Fala de um grupo de escravos que se rebela para destronar um deus-rei malvado, e ao fazê-lo, os personagens percebem que meteram o pé na poça. Ainda assim, os personagens são bem profundos e incríveis. Apesar de não ser idêntico a nível narrativo, costumo qualificar em jeito de brincadeira Mistborn como um Crónicas de Riddick feito pela Disney. O final deixou-me com a boca mais aberta do que no Casamento Vermelho de George R. R. Martin.

Foi com Warbreaker, no entanto, que Sanderson me agarrou. Um livro simplesmente brutal onde os papéis dos personagens se distorcem completamente ao longo do livro e as capacidades exploradas são fantásticas. Exércitos de zombies comandados por palavras e uma espada falante, só como exemplo. Homens que regressam à vida e se tornam deuses. Duas princesas a darem-se bem no sítio errado. Cada sistema de magia de Sanderson parece mais original do que o anterior e, como diz um dos chavões de Mistborn: sempre há outro segredo. Plot-twists geniais não lhe faltam. Não fosse o excesso de deus ex-machina e cenas forçadas, Sanderson estaria já no topo dos meus autores preferidos. Para já, quero muito ler Stormlight Archive, a série-chave deste caso sério de sucesso.

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Anomander Rake de Jardins da Lua (malazan wiki)

Bem, Sanderson é o autor do momento, mas sim… é possível haver um autor de fantasia vivo melhor que Sanderson ou até mesmo que Martin. E não estou a falar de Lynch, que apesar de ser o meu preferido ainda é bem subestimado. Estou a falar de Steven Erikson. Com Ian C. Esslemont, criou o universo Malazan, mas nem conheço a escrita de Esslemont nem ouço tantos elogios às suas obras como às de Erikson.

Não posso ainda afiançar que a Saga do Império Malazano é mais complexa (ou melhor) que o mundo de George R. R. Martin, uma vez que só li o primeiro livro, Jardins da Lua, mas seguramente está lá perto. Uma guerra épica, uma imperatriz de pele azul que quer conquistar o mundo, uma montanha voadora, deuses que interferem nos acontecimentos, raças inovadoras, cães tenebrosos, dragões e corvos, conspirações e segredos… mas acima de tudo personagens, muitos e apaixonantes. O que realmente me agarrou neste autor foi a escrita e os diálogos vívidos, especialmente entre os militares. Do mundo, ao que parece imenso, não vi ainda quase nada. E sei que o que me espera no segundo volume será ainda mais empolgante e dramático. Erikson entrou direitinho para a lista dos meus autores prediletos, logo com o primeiro livro.

Para mim, estes são “os tais” da atualidade dentro do género, ainda que mantenha bem presentes as referências mais antigas e tenha ainda um manancial de obras por descobrir. Li muito pouco de Rothfuss (não me convenceu), um único livro de Abercrombie (ipsis verbis) e ainda não me convenci a ler Peter V. Brett nem Robert Jordan (não é o facto de ter sido Sanderson a terminar A Roda do Tempo a fazê-lo, por enquanto). Também Mark Lawrence não me agradou por aí além, com um sem número de recursos forçados na narrativa, e se acho insípida a ficção de Guy Gavriel Kay (Tigana e Leões de Al-Rassan foram bons mas não me “encheram a boca”), a Saga do Assassino de Robin Hobb revelou-se cansativa e repetitiva. Sei, porém, que qualquer um destes tem potencial para vir a surpreender-me.

No fundo, esta avalanche de novos autores com o seu brainstorm imparável foi o meteorito que causou a quase extinção dos elfos, orcs e anões, e de toda essa panóplia de “mais do mesmo” oriunda dos lugares-comuns do nosso passado. Nunca os esqueceremos, mas a estagnação é amiga da morte e nós queremos mais. Mais e melhor, se possível.