Especial: Quem Ainda Não Leu Brandon Sanderson?

É muito difícil encontrar um fã de ficção fantástica que não tenha lido, ou pelo menos ouvido falar de Brandon Sanderson. As suas obras de fantasia estão publicadas pelo mundo inteiro, o autor escreve com uma rapidez notável e uma legião de fãs segue atentamente todos os seus passos. Dono de uma relação com o público pautada pela acessibilidade e simpatia, Brandon tem tanta facilidade para explicar ao mundo as suas ideias e processos criativos, como para colocá-los em prática. O autor esteve em novembro em Portugal, a convite da Edições Saída de Emergência, editora responsável pela publicação da saga Mistborn – Nascida das Brumas.

O seu ritmo de publicação parece imparável, de tal modo que os leitores chegam a sentir dificuldades em acompanhá-lo. Através do site de Brandon, é possível seguir a progressão do seu trabalho, saber em que eventos o autor estará presente e até ler gratuitamente um livro, Warbreaker. O autor escreve tanto para adultos como para jovens, mas pode-se dizer que redefiniu toda a conceção de fantasia através das 3 Leis que canonizou como guia para todo o bom escritor de fantástico.

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Brandon Sanderson (Fonte: sltrib.com)

Quem é Brandon Sanderson?

Natural do Nebraska, Brandon Sanderson (19 de dezembro de 1975) vive atualmente em American Fork, no Utah. Concluiu o mestrado de escrita criativa em 2005 pela Universidade de Brigham, onde trabalhou numa revista de ficção especulativa, e no ano seguinte casou-se com Emily Bushman, de quem tem dois filhos. De ideologia Mórmon, Brandon foi missionário em Seul, na Coreia do Sul. Foi ao ser escolhido por Harriet McDougal, viúva do escritor Robert Jordan, para concluir a série épica do esposo, A Roda do Tempo, que Brandon Sanderson ganhou reconhecimento mundial. Daí em diante, a sua popularidade cresceu a olhos vistos, sendo difícil não encontrar um livro seu em qualquer grande superfície livreira.

Elantris foi o primeiro livro que publicou, mas foi com a trilogia Mistborn que o seu sucesso venceu muralhas. A história de uma menina que vence um déspota tirano e percebe que cometeu um erro grave ao fazê-lo conquistou adeptos em todo o mundo, mas esses seriam apenas os primeiros passos na rica trajetória de êxitos de Brandon. Mistborn transformou-se não em uma, mas em três trilogias, com a última por publicar, mas é com The Stormlight Archive que Sanderson parece ter quebrado todos os paradigmas e conquistado definitivamente o amor do público.

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Brandon Sanderson fanart (Fonte: pastemagazine.com)

As 3 Leis de Sanderson

Um dos motivos pelos quais Brandon é reconhecido é exatamente por ter parametrizado o trabalho de um escritor de fantasia, principalmente no que concerne à utilização da magia e ao quanto é dado a conhecer ao leitor da sua conceção. Separando as águas, Brandon distingue a construção mágica credível e detalhada, aquela em que o leitor compra a ideia de forma categórica e até científica (Hard Magic), da magia mais tradicional, sem qualquer detalhe ou explicação, que se encaixa no deus ex-machina habitual nas leituras YA (Soft Magic).

O autor também reforça o papel determinante que as dificuldades dos personagens têm no envolvimento com o leitor e a importância de montar um mundo credível, honesto e bem estruturado, para que personagens ou situações não caiam de pára-quedas na história. Pessoalmente, concordo em absoluto com estas leis, ainda que me pareça que Brandon não seja um inventor, mais um estudioso sobre o assunto.

As 3 Leis são:

Lei 1: “A capacidade de um autor em resolver conflitos de forma satisfatória com a magia é diretamente proporcional ao quão bem o leitor compreenda esta magia.”

Lei 2: “As fraquezas das personagens são mais interessantes que as suas habilidades. Ou seja: limitações são mais importantes que poderes.”

Lei 3: “Expanda o seu mundo antes de adicionar novos elementos.”

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Fanart de The Stormlight Archive (Fonte: pinterest.com/sparkybeanbag)

Porque o NDZ acredita que todos devem ler Brandon Sanderson?

CONSTRUIU UM MUNDO CHEIO DE POSSIBILIDADES

Brandon publicou o seu primeiro romance, Elantris, através da editora Tor Books em 2005, com críticas muito positivas. Foi em 2006, porém, que o seu trabalho mais famoso saiu para as bancas – Mistborn. Posteriormente, Brandon dedicou-se a trabalhos mais juvenis, como Alcatraz ou Coração de Aço, mas logo regressaria com novos livros da série Mistborn e The Stormlight Archive.

Segundo o autor, a série Mistborn atravessará várias fases de vida do planeta Scadrial. Se a primeira série (publicada em Portugal pela Edições Saída de Emergência) foi o mais próximo de uma clássica fantasia épica, a segunda trilogia foca-se num período perpassado por uma austera Revolução Industrial, com perfume a western. A terceira trilogia deverá ocorrer, então, num período correspondente à nossa atualidade ou futurista, uma vez que o autor garantiu vir a tratar-se de uma trilogia de ficção científica, sempre com os seus sistemas de magia intricados como pano de fundo.

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Szeth de The Stormlight Archive (Fonte: 17th Shard)

Todos os livros de high fantasy publicados por Brandon passam-se no mesmo universo, a Cosmere. Se Scadrial é o “planeta” que serve de palco à série Mistborn, Elantris e o conto Emperor’s Soul são passados no shardworld Sel, Warbreaker em Nalthis, The Stormlight Archive em Roshar e White Sand em Taldain. De alguma forma, todos estes lugares estão conectados, muito embora se tratem de “fragmentos de mundo” muito diferentes. Há, no entanto, vários indícios de que se trata do mesmo universo (para além da confirmação do autor, vá).

Um deles é a existência misteriosa de saltadores de mundo, sendo o mais conhecido Hoid, um indivíduo que aparece como informador de confiança na primeira trilogia Mistborn, um contador de histórias em Warbreaker e contrabandista em Elantris, por exemplo, ganhando um papel de maior protagonismo em The Stormlight Archive, onde adquire a identidade de Wit. Khriss, a duquesa de White Sand, também surge em Mistborn: The Bands of Mourning e Mistborn: The Secret History.

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Vin de Mistborn (Fonte: pinterest.com)
OS SISTEMAS DE MAGIA SÃO ORIGINAIS

Brandon Sanderson é, a meu ver, um dos autores que melhor constrói sistemas de magia. Da alomância e feruquimia de Mistborn, ao breath de Warbreaker, passando pelo domínio da areia em White Sand – e falo destes porque foram os livros/sagas que li – a técnica passa pela ingestão ou absorção de uma matéria, cujo processo de metabolismo resulta na aquisição de um dom considerado mágico, incrível para um humano.

Desta forma, Vin, Kelsier, Vasher e Kenton tornaram-se personagens cativantes pelas suas habilidades, embora o autor, recorrendo à lei número 2 que definiu, crie também grandes dificuldades ao seu desenvolvimento, seja na aprendizagem das magias, na grandiosidade dos adversários ou na introdução de problemas do foro pessoal. Ainda assim, muito embora a magia de Sanderson seja algo mais científico que maravilhoso, desmantela a ilusão de super-heróis pré-concebida e apresenta uma plataforma credível e bem montada que só pode encantar os novos leitores de ficção fantástica.

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Siri e Susebron de Warbreaker (Fonte: puncker–rocker.deviantart.com)
TEM AS SUAS HABILIDADES NARRATIVAS

Quem me conhece e ao NDZ há algum tempo, sabe que não morro de amores por Brandon Sanderson, sobretudo por ser possuidor de uma escrita fast-food, principalmente em Mistborn. Brandon não revela grande riqueza de vocabulário e as imensas voltas e reviravoltas no enredo sugerem muito improviso e muito pouco de esqueleto. O recurso a salvamentos de última hora são ainda um furúnculo no seu processo narrativo, para alguém que fomenta tanto a credibilidade dos mundos criados. Neste aspeto, Brandon tem ainda muito a crescer. Esta ideia marcou-me principalmente durante a leitura da primeira trilogia Mistborn, aclamada pela grande maioria do público de fantástico.

O autor, porém, veio a ganhar-me pouco a pouco. O final de Herói das Eras encantou-me, não que tenha ficado agradado com o recurso ao espiritual, quando Brandon tanto se havia esforçado por explicar “cientificamente” todos os detalhes, mas posso dizer que a trilogia foi concluída com chave de ouro. Não gostei de muitas explicações oferecidas a esmo ao longo dos três livros, mas os maravilhosos personagens, as relações humanas e os plot-twists prenderam-me, da primeira à última página. Acabei a Era 1 de Mistborn com nostalgia e com a sensação de que podia ser melhor, mas que mesmo assim foi muito bom.

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Senhor Soberano de Mistborn (Fonte: pinterest.com/Rebeksterz)

A leitura de Warbreaker, porém, foi o cheque-mate a que se deve este artigo. A escrita do autor pareceu-me mais rica e envolvente e os plot-twists ganharam-me por completo. Cada reviravolta foi uma machadada e terminei o livro completamente apaixonado por Vivenna, Siri, Susebron, Vasher e companhia. Foi, sinceramente, uma das melhores leituras deste ano até agora. A novela gráfica White Sand, com argumento original de Brandon, não teve muita qualidade ou originalidade, mas não me desagradou. Mais uma vez, foram as surpresas e os plot-twists a conquistarem-me.

Brandon Sanderson é, inegavelmente, um dos mestres da fantasia moderna e um dos que mais fomentam aquilo que tanto me agrada no género: a construção de mundos credíveis e originais. Prevejo ler Elantris em setembro (versão pt-br) e espero que a Saída de Emergência continue a apostar neste autor que tanto tem acarinhado, seja com a segunda série de Mistborn ou com a publicação de The Stormlight Archive, aquela que, muito provavelmente, será num futuro recente a série de fantasia com melhor repercussão em todo o mundo. Cá esperamos por mais publicações, Brandon.

Dia Mundial do Livro: 50 Livros Que Todos os Fãs de Fantasia Devem Ler

Feliz Dia Mundial do Livro. Para comemorar mais um 23 de abril, e em vésperas da festa da Liberdade (o que seria da leitura sem ela!), decidi fazer uma lista de 50 livros que todos os fãs de fantasia deviam ler. É uma lista pessoal, de acordo com as minhas preferências, e como tal não deve ser vista como o melhor conselho do mundo ou verdade absoluta em termos qualitativos, mas como uma mera opinião pessoal. Por ordem decrescente de preferência, enumerarei 50 livros que certamente perdurarão nos tempos como obras de eleição da literatura fantástica.

50. O Silmarillion, J. R. R. Tolkien – Publicações Europa-América

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49. O Hobbit, J. R. R. Tolkien – Publicações Europa-América

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48. Tigana – A Lâmina na Alma, Guy Gavriel Kay – Edições Saída de Emergência

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47. Tigana – A Voz da Vingança, Guy Gavriel Kay – Edições Saída de Emergência

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46. A Irmandade do Anel (O Senhor dos Anéis #1), J. R. R. Tolkien – Publicações Europa-América

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45. O Regresso do Rei (O Senhor dos Anéis #3), J. R. R. Tolkien – Publicações Europa-América

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44. White Sand – Brandon Sanderson, Rik Hoskin, Julius Gopez e Ross Campbell – Dynamite [NÃO TRADUZIDO]

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43. As Duas Torres (O Senhor dos Anéis #2), J. R. R. Tolkien – Publicações Europa-América

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42. Os Leões de Al-Rassan, Guy Gavriel Kay – Edições Saída de Emergência

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41. Aprendiz de Assassino (A Saga do Assassino #1), Robin Hobb – Edições Saída de Emergência

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40. O Punhal do Soberano (A Saga do Assassino #2), Robin Hobb – Edições Saída de Emergência

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39. A Vingança do Assassino (A Saga do Assassino #4), Robin Hobb – Edições Saída de Emergência

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38. A Corte dos Traidores (A Saga do Assassino #3), Robin Hobb – Edições Saída de Emergência

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37. Poder e Vingança (Império das Tormentas #1), Jon Skovron – Edições Saída de Emergência

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36. A Demanda do Visionário (A Saga do Assassino #5), Robin Hobb – Edições Saída de Emergência

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35. Príncipe dos Dragões (Elric #1), Michael Moorcock – Edições Saída de Emergência

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34. Rei dos Espinhos (Trilogia dos Espinhos #2), Mark Lawrence – TopSeller

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33. O Terceiro Desejo (The Witcher #1), Andrzej Sapkowski – Edições Saída de Emergência

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32. Príncipe dos Espinhos (Trilogia dos Espinhos #1), Mark Lawrence – TopSeller

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31. A Lâmina (A Primeira Lei #1), Joe Abercrombie – 1001 Mundos

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30. Histórias de Aventureiros e Patifes, George R. R. Martin e Gardner Dozois – Edições Saída de Emergência

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29. Histórias de Vigaristas e Canalhas, George R. R. Martin e Gardner Dozois – Edições Saída de Ermergência

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28. O Mar de Ferro (Crónicas de Gelo e Fogo #6), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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27. Os Reinos do Caos (Crónicas de Gelo e Fogo #10), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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26. O Festim dos Corvos (Crónicas de Gelo e Fogo #5), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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25. A Muralha de Gelo (Crónicas de Gelo e Fogo #2), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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24. O Despertar da Magia (Crónicas de Gelo e Fogo #4), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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23. A Fúria dos Reis (Crónicas de Gelo e Fogo #3), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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22. O Herói das Eras Parte 1 (Mistborn – Nascida nas Brumas #3), Brandon Sanderson – Edições Saída de Emergência

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21. O Poço da Ascensão (Mistborn – Nascida nas Brumas #2), Brandon Sanderson – Edições Saída de Emergência

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20. O Herói das Eras Parte 2 (Mistborn – Nascida nas Brumas #4), Brandon Sanderson – Edições Saída de Emergência

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19. O Feiticeiro e a Bola de Cristal (A Torre Negra #4), Stephen King – Bertrand Editora

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18. A Lenda do Vento (A Torre Negra #4,5), Stephen King – Bertrand Editora

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17. A Canção de Susannah (A Torre Negra #6), Stephen King – Bertrand Editora

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16. As Terras Devastadas (A Torre Negra #3), Stephen King – Bertrand Editora

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15. O Pistoleiro (A Torre Negra #1), Stephen King – Bertrand Editora

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14. A Escolha dos Três (A Torre Negra #2), Stephen King – Bertrand Editora

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13. A  Dança dos Dragões (Crónicas de Gelo e Fogo #9), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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12. O Império Final (Mistborn – Nascida nas Brumas #1), Brandon Sanderson – Edições Saída de Emergência

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11. O Demónio de Ferro (Conan #2), Robert E. Howard – Edições Saída de Emergência

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10. Lobos de Calla (A Torre Negra #5), Stephen King – Bertrand Editora

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9. Mares de Sangue (Nobres Vigaristas #2), Scott Lynch – Arqueiro [NÃO PUBLICADO EM PORTUGAL]

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8. A Tormenta de Espadas (Crónicas de Gelo e Fogo #3), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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7. O Nome do Vento (Crónica do Regicida #1), Patrick Rothfuss – 1001 Mundos

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6. A Glória dos Traidores (Crónicas de Gelo e Fogo #6), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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5. Warbreaker (Warbreaker #1), Brandon Sanderson – brandonsanderson.com [NÃO TRADUZIDO]

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4. Jardins da Lua (Saga do Império Malazano #1), Steven Erikson – Edições Saída de Emergência

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3. República de Ladrões (Nobres Vigaristas #3), Scott Lynch – Arqueiro [NÃO PUBLICADO EM PORTUGAL]

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2. A Guerra dos Tronos (Crónicas de Gelo e Fogo #1), George R. R. Martin – Edições Saída de Emergência

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1. As Mentiras de Locke Lamora (Cavalheiros Bastardos #1), Scott Lynch – Edições Saída de Emergência

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Se é verdade que será difícil superar Scott Lynch, George R. R. Martin e Steven Erikson no topo das minhas preferências, também é verdade que ainda tenho muito caminho a desbravar neste mundo da fantasia pelo qual me apaixono diariamente. Daqui por uns anos, o meu top 50 será com toda a certeza diferente. O que não significa que a verdade do título deste artigo esteja em risco. Estes 50 livros são, claramente, para todos os fãs de fantasia.

Especial Páscoa: 5 Razões Para Ler Scott Lynch

Se para muitos Scott Lynch é considerado como um dos mais problemáticos casos de sucesso da literatura fantástica recente – obstáculos patológicos como ansiedade e depressão têm sistematicamente adiado o lançamento do seu próximo livro, o que o coloca em vias de se tornar mais um “Martin & Rothfuss da vida” – para mim ele é não só um dos mais promissores autores do género como um dos melhores. Efetivamente.

Perdoe-me o fandom de Brandon Sanderson, mas dos 6 livros que já li dele, nenhum me causou tanto impacto e vertigem quanto os bem mais despretensiosos livros de Scott Lynch. E isso porque Scott não dá destaque à magia e ao wordbuilding, ainda que estes sejam alicerces para a sua obra. Os mundos criados não são o mais importante, importa sim o maravilhamento do que está lá dentro. O próprio mistério em torno do seu passado coletivo só alimenta a imaginação dos leitores. E se o que estiver lá dentro forem personagens incríveis e credíveis, com uns pozinhos de magia como cereja no topo do bolo, então estamos no caminho certo. 

A ideia deste artigo é fazer um pequeno passeio pelos seus trabalhos e apontar razões válidas para que mais pessoas o possam ler. Convém, por isso, começar pelo início.

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Scott Lynch e Elizabeth Bear (Fantasy-Faction)

Quem é Scott Lynch?

Se és fã de fantasia e não sabes quem é Scott Lynch… espero que pelo menos já tenhas ouvido falar de As Mentiras de Locke Lamora, o seu único romance publicado em Portugal. Primeiro de três irmãos, Scott nasceu a 2 de abril de 1978, em St. Paul, Minnesota. Depois de passar por uma série de empregos, de barman a bombeiro, Scott viria a tornar-se um sucesso de vendas com o seu primeiro romance. Vive em Massachusetts e é casado com a também escritora Elizabeth Bear.

Completamente apaixonado por jogos de computador e RPG’s, Scott revelou-se desde cedo um ótimo contador de histórias. Tanto a escrita como a imaginação revelam uma tremenda irreverência, própria de um espírito vivo e enérgico que tenta, a todo o momento, sacudir o mundo em que vive. Essa inquietação e sede de mudança reflete-se nos seus personagens, ricos em carisma e em dissonâncias. Locke Lamora é o exemplo perfeito.

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Locke Lamora (scottlynch78.tumblr)

 

O NDZ dá-te 5 razões para leres Scott Lynch

UMA ESCRITA RICA E FLUÍDA

Scott Lynch começou a sua carreira literária em 2006, um início tão auspicioso que por si só fala muito sobre as suas capacidades. O romance de estreia, As Mentiras de Locke Lamora, foi finalista do Prémio World Fantasy Award em 2007. Também em 2007, e por dois anos seguidos, foi nomeado para o Prémio John W. Campbell para Melhor Novo Escritor. Em 2008, venceu o Prémio Sydney J. Bound para Melhor Recém-Chegado pela academia British Fantasy Society.

Só em 2014, porém, ouvi falar deste autor e, impulsionado pela extraordinária ressonância do seu sucesso, me adentrei neste mundo fantástico. As Mentiras de Locke Lamora tornou-se um dos meus livros preferidos de sempre.

Sem grandes saídas poéticas, Scott não deixa de ser fenomenal enquanto escritor. Ele consegue levar o sorriso aos lábios do leitor mais desprevenido ao cozinhar frases aparentemente simples de uma forma irreverente e divertida. Paralelamente à grande capacidade de narração, ele parece sempre imbuído de uma adrenalina altíssima, que faz parecer estar constantemente inspirado. Ritmo e riqueza de vocabulário caminham permanentemente, lado a lado.

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Locke Lamora (kejablank em deviantart)
UM MUNDO CREDÍVEL

The Gentleman Bastards é uma sequência de sete livros, dos quais apenas três estão escritos e publicados. Somos apresentados a um mundo credível, inspirado no Mediterrâneo renascentista, um mundo selvagem e insano baseado no salve-se quem puder que propicia a disseminação de toda a espécie de vigaristas e criminosos. Locke Lamora começa a narrativa como um menino problemático entregue a um padre cego, que se revela um treinador de ladrões disciplinado e munido de várias artimanhas e recursos, ensinando aos seus sequazes o seu míster.

É aí que Locke Lamora se torna prodigioso na arte de usar as mãos e a passar despercebido, ao mesmo tempo que encontra nos seus companheiros órfãos uma família. Pouco a pouco, vai reclamando um lugar silencioso à sombra dos canais, nas ruas esquálidas de Camorr. Os planos tornam-se mais ousados, um após o outro, de forma tão perigosa para os protagonistas que se torna viciante. E é aí, ao tocar nas “pessoas certas” que eles despertam a atenção dos poderes latentes na cidade.

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Capas originais de The Gentleman Bastards

Ainda que seja um mundo fantástico, a ousadia paga-se caro. Os personagens não têm aqui capacidades extra-humanas para os livrarem com facilidade de problemas criados. Eles sofrem abusos, estupros, espancamentos, tentativas de afogamento, e por aí fora. Exemplos são muitos. Uma menina é morta e entregue ao pai dentro de um barril cheio com urina de cavalo. O protagonista é completamente humilhado por uma boa dezena de vezes.

Se Camorr é inspirada na Veneza renascentista, outras cidades costeiras fazem-nos lembrar lugares preciosos da nossa História, banhados pelo familiar Mar Mediterrâneo. Karthain, a terra que serve de sede aos terríveis magos-servidores, surge no terceiro livro da sequência e recende à Grécia do período supra-citado. Scott revela mão para criar cenários reais. Sem descurar, claro está, a estoica política desses locais maravilhosos.

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Camorr (Fredrik Dahl)
UM AMBIENTE FANTÁSTICO

Embora bastante credível, o mundo construído por Scott Lynch não dispensa a sua boa dose de fantasia. As construções mantêm o remanescente de uma arquitetura milenar produzida com vidrantigo, uma substância de origem enigmática. Tão enigmática como os seus construtores, um povo antigo conhecido como os Ancestres, que por alguma razão desconhecida desapareceu do mundo.

Para além de uma boa série de animais originais, Scott também criou um desporto de gladiadores com tubarões, abrilhantado pelas irmãs Berangias. As ciências alquímicas também fazem parte da trivialidade do mundo. Mas é com os magos-servidores, porém, que o autor norte-americano mais explora o fantástico. Eles são uma estirpe de pessoas dotadas de uma grande variedade de recursos mágicos, capazes de controlar um indivíduo se souberem o seu nome verdadeiro. Com tais capacidades, dedicaram-se a um ofício: servir aqueles que os podem remunerar, em troca dos seus serviços. Daí vem o termo que lhes dá nome.

As origens de Locke Lamora também estão envoltas em fantasia e irrealidade, mas irei poupar-me às revelações do terceiro livro para não cair em spoilers. A mitologia criada revela tanto ou tão pouco que nos deixa a salivar por mais. Num total de treze deuses, os mais interessantes são Aza Guilla, a deusa da morte e do silêncio, Perelandro, o bondoso Pai das Misericórdias e o misterioso Treze Sem Nome, o senhor dos ladrões.

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Personagens de The Gentleman Bastards (scottlynch78.tumblr)
AUDÁCIA, HUMOR E ORIGINALIDADE

A audácia e a originalidade estão interligadas em toda a obra de Scott Lynch, e são uma constante. Se em As Mentiras de Locke Lamora assistimos a um sem-número de peripécias à Ocean’s Eleven protagonizadas por um miúdo franzino com alma de Jack Sparrow, o estratagema das cadeiras que permeia todo o livro Mares de Sangue e os jogos em volta de Requin e Selendri nunca serão esquecidos. Locke Lamora é um personagem incrível em cada livro. A culpa, claro está, é de Scott.

O risco a que submete os seus personagens aumenta a cada volume. De um afogamento, espancamento, envenenamento e quase morte, Locke Lamora prova os sabores mais amargos a que um ser humano pode ser submetido – incluindo a morte de entes-queridos – sem nunca perder o sentido de humor. Se há alguém que sabe entremear uma tragédia com uma boa dose de humor, é Scott Lynch. Os seus livros são trágicos, dramáticos e cruéis. E conseguem ser permanentemente divertidos.

 

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Jean Tannen e Locke Lamora (dottedmelonart.tumblr)

Scott entrou para a minha lista de autores preferidos de chapão, e parece quase karma que ele me responda às minhas perguntas interiores a cada livro que leio. As Mentiras de Locke Lamora fizeram-me rir num outono insalubre, Mares de Sangue deram-me inspiração num momento desinspirado e República de Ladrões falou-me como curar feridas de amor quando mais precisei de o fazer.

A relação incrível entre Locke Lamora e Sabetha Belacoros veio mostrar o lado mais sentimental do personagem, que ainda assim se transforma num combate de personalidades, uma disputa apaixonada nada lamechas. Jean Tannen é o protetor que todos gostariam de ter. Para além de esperto, o melhor amigo de Locke tem a força de braços e o poderio físico que ele não possui. E Calo e Galdo, os gémeos ladrões, são o alívio cómico que permeia toda a obra. Não há margem para dúvidas, o humor é um dos pontos fortes do autor.

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The Gentleman Bastards (scottlynch78.tumblr)
LOCKE LAMORA E AMARELLE PARATHIS

Os três volumes de The Gentleman Bastards e o conto Um Ano e Um Dia na Velha Theradane (publicado em Portugal na antologia Histórias de Aventureiros e Patifes) são os trabalhos mais conhecidos de Scott. Por isso, é impossível não comparar o Espinho de Camorr à Duquesa Invisível do seu conto.

Ainda que os mundos sejam substancialmente diferentes – o conto apresenta dragões, bestas e criaturas ainda mais estranhas – os genes do autor estão lá. Personagens muito bem construídos, originais e acima de tudo irreverentes. Desde um autómato fora de forma a uma mecânica lésbica, somos presenteados com um braço-de-ferro entre um ladrão – a super mundana Amarelle Parathis – e um feiticeiro. Algo que também assistimos no mundo de Locke Lamora, em que a magia ocupa um lugar bem menos importante.

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Scott Lynch (flyer da Phoenix ComiCon)

De qualquer forma, os dois personagens parecem ser a outra metade um do outro. Amarelle Parathis é a versão feminina de Locke Lamora, em toda a sua rebeldia e ostentação. E tudo se resume a golpes ousados e logros e canecas e gargalhadas e miséria. Por todos estes motivos e mais alguns, a obra de Scott Lynch é a minha preferida no mundo da fantasia e não me canso de recomendá-la como se se tratasse de um bom chocolate. Boa Páscoa a todos.

 

Especial: 10 Motivos Para Ler as Crónicas de Gelo e Fogo

Todos sabemos que as Crónicas de Gelo e Fogo são uma das sagas de fantasia mais conhecidas em todo o mundo, laureada pelos fãs do género. Empolado pela adaptação televisiva, a série Game of Thrones, o trabalho mais conhecido do autor George R. R. Martin é tema de estudos, rico em merchandising e, para além de ter inspirado milhares de escritores, é também utilizado como chamariz para lançar livros de economia, receitas gastronómicas ou documentários históricos. Um mundo fantástico envolvente e apaixonante, credível e real, que trouxe milhões de leitores para a ficção especulativa e devolveu a popularidade às histórias medievais.

Ainda assim, há um vasto público que nunca leu os livros, ora porque julgam que a série da HBO lhes conta toda a história, ora porque se sentem constrangidos pelo estigma erróneo de que a fantasia é um género menor, destinado para crianças e adolescentes, sem qualquer tipo de riqueza literária. É este um dos principais motivos pela falta de público literário no género fantástico. A maioria dos livros de fantasia atualmente são destinados ao público adulto, e este público continua a julgar que eles são para adolescentes.

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Trono de Ferro (Marc Simonetti)

Se queres fugir a este preconceito e descobrir prosas maravilhosas e temas tão envolventes como política, filosofia e relações humanas em mundos ficcionais, tens agora uma boa oportunidade para o fazer. A Edições Saída de Emergência está com uma campanha que não vais querer perder, válida até 9 de abril: 40% de desconto em livros da Coleção Bang!, como podes ver nesta página. Neste catálogo encontram-se livros como O Império Final, O Poço da Ascensão e O Herói das Eras (cujas opiniões podes ver aqui, aqui e aqui) de Brandon Sanderson ou as séries Acácia de David Anthony Durkham e O Mago de Raymond E. Feist. O Castelo de Gormenghast de Mervyn Peake e alguns volumes da obra completa de Lovecraft também estão disponíveis.

De George R. R. Martin, o autor das Crónicas de Gelo e Fogo, estão incluídos na promoção os livros Histórias dos Sete Reinos, A Ironia e Sabedoria de Tyrion Lannister, Windhaven e O Dragão de Inverno e Outras Histórias. No entanto, se queres iniciar a fantástica descoberta dos Sete Reinos, deves iniciar-te com as Crónicas de Gelo e Fogo, publicado em Portugal em 10 volumes até agora.

O NDZ dá-te 10 motivos para leres as Crónicas de Gelo e Fogo:

UM MUNDO QUASE REAL

Estávamos em 2011 quando as primeiras imagens promocionais de Game of Thrones ficaram disponíveis na imprensa e assisti a uma entrevista de George R. R. Martin, com vários separadores alusivos à série da HBO. A envolvente escura e a alusão a corvos e a batalhas aliciou-me de imediato. Um mundo fictício com Sean Bean como protagonista remeteu-me ao Senhor dos Anéis, a única fantasia que até então me havia arrebatado no grande ecrã e a única trilogia literária no género que me tinha apaixonado.

A frase chave de um artigo, que qualificava a série como “o Padrinho na Terra Média” foi o que me conduziu à série, e desde então comecei a segui-la. O caráter fanfarrão do personagem Robert Baratheon de Mark Addy e a crueldade do mundo – que fazia a série parecer ser passada na Idade Média não fossem as estações do ano durarem anos – foram as únicas coisas de que gostei realmente. Só nos últimos episódios da temporada fiquei preso. E isso coincidiu com o início da leitura dos livros.

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Mark Addy é Robert Baratheon (HBO)

É preciso perceber que estamos a falar de coisas bem diferentes. A série apresenta-nos tons cinzentos, desesperança e corrupção. Os livros dão destaque ao passado glorioso das nações, e embora possa dizer que a série é uma boa adaptação e todos esses cenários escuros estejam presentes, os livros trazem mais força, esperança e colorido, tendo nos dourados um poder que pouco se verifica nas temporadas iniciais do produto televisivo. A série literária foca-se na profundidade dos seus personagens e na memória coletiva, nos feitos terríveis e gloriosos dos antepassados, apresentando os conflitos políticos como algo decorrente do mundo extremamente bem criado e não o foco que a série apresenta, na tradição de outros filhos da produtora, como a extraordinária Rome.

Na minha opinião, se ambos são bons, os livros são superiores, porque incluem o que a série apresenta e muito mais. O mundo é extremamente plausível, mas em nenhum momento deixa de ser um mundo fantástico. Westeros e Essos vão revelando sinais claros de fantasia, quer através dos exércitos de mortos-vivos do outro lado da Muralha de Gelo, quer através das feitiçarias dos sacerdotes vermelhos, que podem executar proezas como a ressurreição, seguindo um código muito restrito que torna a magia em si algo raro neste mundo crível.

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Combate com White Walker (Fallonart em gameofthronesfanart)
PERSONAGENS MEMORÁVEIS

Se a adaptação televisiva contribuiu e muito para a popularidade do mundo, o mesmo se pode dizer dos personagens. Mesmo entre aqueles que não seguem a série, poucos são os que não sabem quem é Jon Snow, Daenerys Targaryen ou Tyrion Lannister. A popularidade destes personagens é tanta, que existe uma grande procura por figuras coleccionáveis, produzida por marcas de tradição no ramo.

A índole dos personagens é duvidosa. Se a série de tv nos apresenta pela rama alguns personagens importantes, os livros seguem o percurso de todos eles de forma categórica e profunda, fazendo-nos conhecer os seus medos e segredos, e até conhecer os feitos dos seus antepassados de uma forma apaixonante sem descurar qualquer detalhe.

Outro pormenor curioso, é que personagens apresentados na série como adultos, como Jon, Dany ou Robb, são descritos nos livros como meras crianças de 13, 14 anos, vindo a crescer lentamente no decorrer das aventuras. Daí que o ritual de matrimónio de Daenerys com Khal Drogo na série não pareça tão censurável quanto ele é descrito nas Crónicas. Cão de Caça, Davos Seaworth e Stannis Baratheon são personagens de grande profundidade nos livros, ombreando com Jorah Mormont e Melisandre na minha lista de preferidos. De destacar que vários personagens de relevo na trama foram afastados da série de tv, como Victarion Greyjoy, Arianne Martell ou Belwas, o Forte. Todos eles personagens incríveis.

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Arianne Martell e Arys Oakheart (pinterest)
UMA ESCRITA ENVOLVENTE

George R. R. Martin oferece nos seus livros sensações que a série não pode oferecer. Ímpar em descrição, Martin consegue incluir num só capítulo dezenas de nomes que nunca lemos sem que a leitura fique demasiado cansativa. Os seus capítulos ocorrem sob o ponto de vista de um personagem, fazendo-nos sentir as suas emoções, dúvidas e receios. É uma escrita elegante e apaixonante, crua e madura, dona de um vocabulário rico e de uma capacidade de envolvência rara.

Os diálogos são outro dos pontos fortes do autor. Sendo a maioria dos personagens opulentos em astúcia e arrogância, é comum o recurso ao sarcasmo e à metáfora no decorrer das conversas. Os duplos sentidos são uma constante com este autor, que usa e abusa da inversão e do imprevisível para surtir o efeito surpresa no leitor. Vários segredos encontram-se escondidos nas entrelinhas, o que contribuiu grandemente para todo o hype junto dos leitores. As teorias são muitas, e todas elas provocadas pelo senso subversivo da escrita de Martin, que já ensinou aos seus leitores que nada é colocado ali por acaso.

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Batalha do Tridente (Benden Nett em pinterest)
UMA IMAGINAÇÃO EXTRAORDINÁRIA

O dialeto dothraki, por exemplo, foi uma invenção exclusiva da série por David J. Peterson, embora George R. R. Martin tenha criado várias palavras que serviram de base a essa criação. Termos como khal, vaes dothrak, entre os dothraki, ou valar dohaeris, termo valiriano, são recorrentemente citados nos livros.

A imaginação de George R. R. Martin é de louvar. Ele criou dois continentes: Westeros, inspirado na Inglaterra medieval, e Essos, uma mistura de Ásia com a África da Antiguidade. Num lado sentimos frio com os protagonistas, nos Sete Reinos governados pelos Baratheon no início da saga, no outro calor sob grilhetas, caminhando descalços pelos desertos num regime aberto de escravatura.

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Daenerys Targaryen (team-daenerys em tumblr)

Westeros é um continente cinzento e cruel, cujo modo de vida assenta grandemente na forja de alianças entre casas. Porto Real é a capital, uma cidade portuária de grande envergadura que se estabeleceu como sede do poder nos Sete Reinos desde que os Targaryen ali se estabeleceram. A família real de George R. R. Martin recebeu grande inspiração dos melniboneanos de Michael Moorcock, embora a tradição incestuosa dos Targaryen beba também da nossa História, muito concretamente à Dinastia Ptolomaica que vigorou no Egito.

Uma traição terrível, conjurada entre os Baratheon e os Lannister, veio oferecer o trono aos Baratheon. Os Targaryen reduziram-se assim a duas crianças que foram levadas em segredo até ao outro lado do Mar Estreito, o continente de Essos. Ali, aparte as Cidades Livres, o esclavagismo vigora há muito, seguindo a tradição valiriana. É a remanescente Targaryen, Daenerys, uma adolescente cheia de sonhos e de bondade no coração, quem coleta exércitos à sua volta, alicerçada pelo mito que se criou a seu respeito aquando do milagre que a fez despertar três dragões dos seus ovos, para trazer justiça ao mundo. É, no entanto, como Martin transparece, uma rapariguinha que pouco sabe da vida, indecisa e muitas vezes questionável, ao contrário da mulher segura e badass que a série impõe de forma menos realista.

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Cena de Crónicas de Gelo e Fogo (keywordhut)
UMA CRÍTICA POLÍTICA E SOCIAL

Se há algo que Martin não deixa para outros, é colocar o dedo nas feridas da sociedade. A hipocrisia dos homens é frequentemente posta em discussão, e não são poucas as vezes em que os personagens cedem à facilidade da corrupção, através de propostas que lhe são vantajosas, abrindo as cancelas aos desígnios de outros de forma menos legal, ora através de contrapartidas sujas e alianças vis. O célebre “uma mão lava a outra” é usado por Martin por inúmeras vezes, fazendo destas Crónicas de Gelo e Fogo um grande jogo político mas principalmente um jogo azedo, pejado de injustiças e de crueldades, de interesses pessoais que ultrapassam os interesses do todo e de ações mesquinhas intermináveis.

Com uma mensagem clara no que diz respeito à crítica política e social, George R. R. Martin mostra o sofrimento do povo através dos personagens mais inóquos. Os bons não param de sofrer. Mas os perversos também provam do seu veneno. Um reflexo da realidade, as Crónicas de Gelo e Fogo mostram que ninguém escapa impune às crueldades da vida.

Para a Muralha de Gelo que separa os Sete Reinos das terras geladas, são mandados tanto os criminosos que procuram espiar os seus pecados, como os filhos bastardos, já considerados perjuros à nascença. Ali são “convidados” a representar a Patrulha da Noite, uma força militar que defende o mundo civilizado de hordas selvagens, embora o verdadeiro inimigo, que se tornou meramente lendário com o passar dos tempos, sejam os Outros, um mal muito antigo aparentemente adormecido. O ostracismo nas Crónicas representa claramente o preconceito da sociedade.

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Senhora Coração de Pedra (LynxFelidae em tumblr)
ÁRVORES GENEALÓGICAS INTERMINÁVEIS

A série só revela uma pequena amostra das ramificações imensas existentes no mundo de Gelo e Fogo. Se as árvores genealógicas dos Targaryen e dos Stark são as que mais importância têm na trama, devido aos feitos perpetrados pelos antepassados, determinantes no desenvolvimento da narrativa, existem outras famílias de grande peso histórico. Um dos personagens de grande envolvimento é Jorah Mormont, um westerosi exilado em Essos após um crime denunciado por Ned Stark.

Jorah viria a ser importante na trama por funcionar como conselheiro de Daenerys, por quem é apaixonado, mas se na série de tv não é fácil nem inicial a perceção de que estamos a falar do filho do Senhor Comandante da Patrulha da Noite, nos livros essa associação é mais flagrante, não só pelo apelido compartilhado. E se a linha genealógica Targaryen é a espinha dorsal da história, uma vez que o primeiro Targaryen a reinar Westeros chegou ali pousado num dragão, vindo da Valíria, dando origem a uma nova era e a um novo calendário, também os passados de Stark e Baratheon têm importância por aquilo que os une.

Os Stark reinaram no Norte, construíram monumentos imponentes até se ajoelharem aos Targaryen, enquanto os Baratheon, como uma ramificação bastarda da família real, viriam a entrar em conflito com esta quando Robert, apaixonado pela irmã de Ned, comprou uma guerra a Rhaegar Targaryen, com quem ela vivia um romance digno de canções. Esse conflito viria a despoletar a guerra sangrenta que resultaria na deposição dos Targaryen. Nessa peleja, também é de destacar Ned Stark como um dos lealistas da causa Baratheon, denunciando Jaime Lannister ao encontrá-lo sentado no Trono de Ferro quando matou o rei Aerys, e revelando um papel crucial na invasão das Ilhas de Ferro, onde tomou Theon Greyjoy como seu protegido, uma espécie de refém que garantia controle sobre a Casa que governava as ilhas. Vários comportamentos que incutiram uma opinião negativa sobre Stark, um homem honrado que apostou no cavalo errado.

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Stannis Baratheon como Azor Ahai (Jack Kaiser em tumblr)
ACONTECIMENTOS IMPREVISÍVEIS E PLOT-TWISTS

Pode-se considerar que os livros A Tormenta de Espadas e A Glória dos Traidores (Storm of Swords no original) são os mais cheios de acontecimentos inesperados e reviravoltas. A morte de personagens capitais, personagens principais e vilões, é de grande importância para o desenvolvimento da trama. O Casamento Vermelho é descrito por muitos como o acontecimento mais trágico da saga, e embora as diferenças entre o que acontece nos livros e na série sejam gritantes, ambos constituíram momentos de cortar a respiração para os fãs fervorosos do mundo de Gelo e Fogo.

Tyrion Lannister é um dos personagens fulcrais da história. Para além da sua língua afiada, este anão mordaz com um olho de cada cor, irmão da rainha, sofre os maiores preconceitos ao longo da narrativa. De um homem estigmatizado pelo mundo, ridicularizado pela própria família por conta das deformidades físicas e pelo mundo também pela Casa de tradições cruéis que representa, Tyrion Lannister tranforma-se num herói improvável. Ele é o Monstro que se vê casado com a donzela frágil, mas como esta história não é um conto de fadas, nem eles se amam, nem estão destinados a ficar juntos. Ele é o Corcunda de NotreDamme que se vê impelido a ajudar a menina, mesmo sabendo que ela nunca o amará. Mais do que isso, Tyrion é um génio político, que tem neste volume a sua revanche, mas uma transformação a nível de percurso que o conduzirá para longe de casa, claro está, com rameiras e vinho em mente.

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Os Lannister (Giacobino)
UMA MITOLOGIA SEM FIM

Dragões, mortos-vivos de gelo, troca-peles e afins são ingredientes que colocam as Crónicas de Gelo e Fogo num patamar de excelência dentro do género fantástico. Mas o que os torna realmente incríveis é que eles são raros no mundo em que estão inseridos, um mundo consistente e cruel. Se alguns anciãos, como a Velha Ama, descortinam fragmentos dessas criaturas do passado que podem estar bem vivas e escondidas no presente, a mitologia é apresentada pelas crenças das civilizações construídas de raiz.

Em Westeros, o culto aos Sete Deuses levou à criação de septos (as igrejas dedicadas aos Sete) e de septões (os padres). A Fé dos Sete reverencia o Pai, que representa o julgamento, a Mãe, dedicada à maternidade e à piedade, o Guerreiro, que oferece força em combate, a Donzela, representante da castidade e da inocência, o Ferreiro para os mesteres, a Velha para a sabedoria e o Estranho, que representa a morte e o desconhecido. Esta é a religião em voga nos Sete Reinos, exceto nas Ilhas de Ferro, onde se pratica o culto ao Deus Afogado, e no Norte, onde ainda se reverenciam os deuses antigos.

Em Essos a religião predominante é a que presta culto a R’hllor, o Senhor da Luz, conhecido como Deus Vermelho em Westeros. O seu símbolo é um coração flamejante, e a sua adoção por algumas figuras de poder em Westeros vem dar uma cobertura de guerra santa à Guerra dos Cinco Reis pelo Trono de Ferro.

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Ramsay Bolton (Aldo Katayanagi)
INFLUÊNCIAS LITERÁRIAS DE VULTO

Muito embora as Crónicas de Gelo e Fogo sejam sobejamente elogiadas pela ousadia e originalidade, pode-se dizer que apenas a forma como é abordada é original. A maioria dos personagens e tramas foram inspiradas por outras obras de destaque no género fantástico. Se já referi Moorcock como influência para os Targaryen, principalmente no que diz respeito às características físicas e passado grandioso, também posso estabelecer um paralelismo entre Tyrion Lannister e Elric. São duas figuras de poder, cada uma a seu jeito, que revelam grandes dilemas morais ao longo da sua jornada. São também vítimas da mesquinhez daqueles que os circundam e podemos somar a tudo isso as debilidades físicas. Se Tyrion é um anão feio, Elric de Melniboné é fraco e débil, recorrendo frequentemente a drogas para se manter enérgico. Pelo menos, até encontrar a espada Tormentífera, que pode ter sido também inspiração para a lendária Luminífera das Crónicas.

Os sacrifícios em nome de um Deus Vermelho, a existência de criaturas terríveis no Norte, que supostamente já teriam sido abolidas da face do mundo e a profecia de um inverno cruel, somados a uma menina que se disfarça de rapaz na sua fuga e a uma estrela com cauda nos céus que prenuncia mudanças, são​ elementos que Martin roubou a Tad Williams e à sua obra Memory, Sorrow and Thorn. Já a relação de amizade de Jon Snow com Sam, Pyp e Grenn é muito familiar se nos lembrarmos da obra do excelso senhor Tolkien e dos seus queridos hobbits. Os amigos de Frodo, Samwyse, Pippin e Merry partilham os nomes e a amizade juvenil.

A mitologia lovecraftiana de Ctulhu está também evidente nas crenças em redor do Deus Afogado nas Ilhas de Ferro. Várias Casas são também homenagem a autores dos quais George R. R. Martin é fã. São elas a Casa Vance (Jack Vance), a Casa Rogers (Roger Zelazny), a Casa Peake (Mervyn Peake), a Casa Costayne (Thomas B. Costain) e a Casa Jordayne (Robert Jordan), por exemplo. O Castelo dos Jordayne é o Tor, em homenagem à editora que publicou os livros de Jordan, e o seu senhor é Trebor, a inversão de Robert.

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Khal Drogo (Magali Villeneuve)
INFLUÊNCIAS REAIS

São imensas as influências na nossa História para as Crónicas de Gelo e Fogo. Não me refiro somente às inspirações para dar forma aos continentes e civilizações apresentados. A própria Guerra dos Cinco Reis foi inspirada pela Guerra das Rosas que dividiu o Reino Unido. Cersei Lannister é comummente comparada a Marguerite D’Anjou e a Elizabeth Woodville. Ambas tiveram papéis de destaque na Guerra das Rosas, ao colocarem mãos à obra para chegarem ao poder.

As características marcantes da sua fisionomia e o passado inglório fazem com que Daenerys Targaryen seja comparada a Elizabeth I, embora eu tenha mais tendência em compará-la a Cleópatra VII Philopator. A rainha do Egito era uma força da natureza que governou uma nação com garra, algo difícil de ver numa mulher na Antiguidade, o que estabelece um paralelismo com a heróina de Martin. Stannis Baratheon também é comparado a Constantino, que trouxe uma nova fé para a Europa, e a Antiga Valíria a Roma, um império caído. O triarca Horonno em Volantis é uma clara referência ao célebre romano Júlio César.

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Os Stark (Mathia Arkoniel)

Esta saga, porém, não possui apenas qualidades. O facto de serem muitos livros e de a série ainda não estar terminada – e possivelmente nem vir a ser – pode roubar-lhe público, mas ainda assim parece-me uma leitura obrigatória para os fãs do género. Com este artigo espero ter convencido os indecisos e até levar os que já leram a voltar a revisitar este mundo fantástico e empolgante.

Especial: 7 Pais Que o Mundo da Fantasia Não Esquecerá

Dia 19 de março é o 78.º dia do calendário gregoriano. O dia em que a dinastia Sung terminou na China, a Suécia assinou a paz com Münster e os irmãos Lumiére filmaram o seu primeiro filme. É também o dia dedicado pela Igreja Católica a São José de Nazaré, esposo de Maria e pai de criação de Jesus Cristo. Por essa razão, foi estipulado como o dia internacional do pai.

Em homenagem a todos os pais, venho fazer um artigo dedicado àqueles que, embora ficcionais, deixaram um sentimento de afeição e calor paternal a todos os que os conheceram, através dos mais diversos livros de fantasia. São 7 pais que o mundo da fantasia não esquecerá. Personagens memoráveis que permanecerão na memória coletiva dos fãs do género. Se ainda não conheceste algum deles, do que estás à espera?

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Denethor (Tiziano Baracchi)
DENETHOR

O pai de Boromir e Faramir, em O Senhor dos Anéis, famigerada trilogia de J. R. R. Tolkien, não é o melhor exemplo de um pai extremoso. Filho de Ecthelion II, foi Mordomo de Gondor, a posição de regência da nação humana nos tempos em que aguardaram pelo Rei prometido. Denethor II casou com Finduilas, a filha de Adrahil de Dol Amroth, e do seu matrimónio nasceram Boromir e Faramir.

A predileção de Denethor pelo primogénito, Boromir, era evidente. Por sua vez, desdenhava do filho mais novo, que era muito próximo de Gandalf. A morte do filho mais velho tornou-o ainda mais céptico em relação a Faramir, que ainda assim viria a substituí-lo como regente de Gondor. Durante algum tempo, Denethor usou a bola Palantír, o que tornou mais frágil e o levou à loucura. Já debilitado mentalmente pela morte de Boromir, e ao julgar que também Faramir estava condenado, este pai viria a falecer ao queimar-se com a Palantír nas mãos durante o Cerco de Gondor.

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Príncipe Cavalaria (Myblack em deviantart)
PRÍNCIPE CAVALARIA

Apesar de a narrativa se iniciar com este personagem morto, a Saga do Assassino de Robin Hobb não seria a mesma se ele não tivesse existido. O Príncipe Cavalaria era o substituto natural do Rei Sagaz no trono dos Seis Ducados, uma vez que era o filho mais velho. Tendo como irmãos os príncipes Veracidade e Majestoso, Cavalaria era respeitado por todos e visto como um homem de valores e princípios. Daí que tenham sido surpreendentes os boatos e a confirmação de uma traição e da existência de um bastardo. Trata-se de Fitz, o protagonista da história.

Cavalaria assumiu a traição e colocou à disposição o seu lugar hereditário, pelo constrangimento que isso conferia ao reinado e à esposa. O príncipe era casado com a Dama Paciência, que nunca lhe havia conseguido dar filhos. Por conseguinte, após o seu desaparecimento, Paciência criou Fitz como o protocolo exigia, ainda que tenha vindo a ser Castro, um bom trabalhador e lealista ao príncipe, a vestir a pele de progenitor.

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Steven Deschain (Towerwikia)
STEVEN DESCHAIN

O pai de Roland, o protagonista da saga A Torre Negra de Stephen King, foi um pistoleiro bastante poderoso na terra de Gilead. Era um descendente de Arthur Eld, o ancestral que fundara aqueles domínios e uma clara alusão ao célebre Rei Artur do Ciclo Bretão. Filho de Deirdre e Alaric Deschain, Steven era um líder entre os pistoleiros.

Casou-se com Gabrielle, de quem viria a ter um filho, Roland. Apesar de tentar formar o filho nas leis dos pistoleiros, Roland revelou-se uma desilusão, acabando por derruir todas as suas expectativas. Na verdade, Roland descobrira que a mãe e um dos seus homens de confiança, Marten Broadcloak, eram amantes. Tentou alertar o pai para a traição, mas este nunca lhe deu ouvidos, o que resultou na sua morte. Roland, porém, regeu-se durante toda a vida pelos seus conselhos, e uma das suas máximas é: não te esqueças do rosto do teu pai.

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James Potter (Michelle Winer)
JAMES POTTER

Criado por J. K. Rowling, James é o pai de Harry Potter na famosa série de fantasia com o mesmo nome. Estudou em Hogwarts com aquela que viria a ser a sua esposa, Lilian, e os seus melhores amigos eram Sirius Black, Remus Lupin e Peter Pettigrew. Sempre fora apaixonado por Lilian, embora ela mostrasse especial predileção pelo seu amigo Severus Snape.

James e Lilian casaram após saírem de Hogwarts, vindo a juntar-se à Ordem da Fénix onde revelaram um papel fundamental no apoio a Dumbledore. Posteriormente, teriam o seu único filho, Harry, que viria a tornar-se uma peça capital para a salvação da Ordem e da própria escola de magia. Tal como a esposa, James viria a ser morto pelo terrível Lorde Voldemort.

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Ned Stark (io9)
NED STARK

Quem gosta de fantasia não esquece Ned Stark, o pai que todos gostariam de ter se vivessem em Westeros. Um dos protagonistas do volume inaugural das Crónicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin, Eddard “Ned” Stark foi sempre um homem íntegro e valoroso, de educação firme e mão de ferro. Apesar disso, ou também por isso, nunca deixou de amar os filhos e tratá-los com afeto e preocupação.

O patriarca dos Stark casou com Catelyn por amor, e ainda que todos julgassem que traíra a esposa e que dessa traição nascera Jon Snow – que viria a criar à sombra dos restantes filhos – Ned escondera um segredo terrível envolvendo a sua irmã Lyanna. Muito provavelmente, Ned manchou a sua honra para proteger a irmã. Ainda assim, a suposta traição foi perdoada por Catelyn, mesmo que esta nunca aceitasse o bastardo. Ned Stark foi vítima de uma armadilha cruel e morreu precocemente, mas todos nos recordamos da sua presença terna e da extrema afeição para com os filhos Robb, Jon, Sansa, Arya, Bran e Rickon.

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Arliden e Laurian (Corade Laurian em deviantart)
ARLIDEN

Arliden, o Bardo, é um personagem importante das Crónicas do Regicida de Patrick Rothfuss. Pai do protagonista, Kvothe, tem destaque no primeiro terço do livro O Nome do Vento, revelando-se um Edema Ruh de renome, famoso pelas suas cantigas de maldizer e por liderar uma trupe que se passeia de terra em terra para entreter os locais.

Esposo de Laurian, a filha de um nobre, é descrito pelo próprio filho como o melhor cantor e ator que este já viu. Dono de um humor mordaz e de feições afáveis, Arliden educou Kvothe com o máximo de subtileza e profundidade, vindo a preocupar-se com o dom inusitado do filho em aprender rapidamente. Em busca de uma nova música, Arliden colige vários relatos sobre o mito do Chandrian, o que vem a despertar atenções e resulta na sua morte, bem de como a da esposa.

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Jaime Lannister (Amok)
JAIME LANNISTER

Sei que já falei nas Crónicas de Gelo e Fogo, mas o Regicida é outro pai de quem nos lembramos facilmente. Ele teve três filhos com a sua irmã Cersei Lannister, ainda que estes tivessem sido criados por outro: o ébrio e fanfarrão rei Robert Baratheon.

Desde muito cedo que Jaime e Cersei estabeleceram uma relação de afinidade a roçar o erótico. Os irmãos sempre foram obcecados um pelo outro, da mesma forma que foram por si mesmos. Viram-se como o espelho um do outro – o espelho da perfeição. Apesar de nunca se preocupar em educar Joffrey, Tommen e Myrcela, Jaime sempre soube que eram seus filhos e, quando a vida levou um revés e o tornou mais humano, o que coincidiu com a perda de uma mão e a morte do filho mais velho, Jaime revelou-se mais preocupado com os outros filhos e com o real significado da palavra pai.

E vocês, têm algum “pai de estimação” no mundo da fantasia?

Especial: Como Erikson, Sanderson e Companhia Esmagaram os Orcs

Se na primeira metade do século XX um senhor de cachimbo na boca criou aquele que viria a ser o mais badalado worldbuilding de fantasia da era moderna, os seus iguais e seguidores criaram um sem número de mundos tão ou mais ricos que o apresentado em O Hobbit ou na trilogia O Senhor dos Anéis. Estou a falar de J. R. R. Tolkien. Não foi o percursor do género fantástico nem talvez o escritor mais dotado, mas deixou uma marca indelével na História da ficção fantástica. Muitos foram os autores que lhe seguiram os passos, replicando história, características humanas e terrestres. Mas as tendências mudam, e os elfos, orcs e anões foram vítimas de uma extinção em massa, desaparecendo quase por completo. Correndo o risco de parecer um daqueles senhores despenteados do Canal História, vou tentar explicar o porquê.

O mundo é cíclico. Já Robert Jordan propõe uma teoria bastante interessante em A Roda do Tempo, saga de fantasia que – shame on me – ainda não tive a oportunidade de ler. E tudo o que hoje é adorado, amanhã torna-se chato e enfadonho. Foi o que aconteceu aos discípulos de Tolkien. Mas, quem sabe, volte a haver um grande hype em torno de elfos e orcs daqui por muitos anos? Tudo bem, ainda hoje há escritores a repetir a fórmula e muitos fãs dos mundos tradicionais por aí, da mesma forma como eu confesso ser um grande admirador das antigas histórias de espada e feitiçaria de Robert E. Howard, mas parece inevitável admitir que Terry Brooks, Christopher Paolini e companhia já não conseguem surtir o efeito que teriam conseguido páginas da vida atrás, porque, na minha humilde opinião, falta-lhes o essencial em qualquer ofício praticado pelo Homem: a inovação.

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Gimli e Legolas de O Senhor dos Anéis (ghostofdener em deviantart)

O sucesso depende de muitos factores, mas oferecer qualidade não chega. Há que oferecer algo de novo. É isso que define o sucesso, foi isso que fez J. R. R. Tolkien ficar imortalizado nas areias do tempo, e não só ele. Muitos como eu não tiveram o privilégio de ler Fritz Leiber, Jack Vance, Stephen Donaldson ou Glen Cook, entre outros, mas estes nomes – abafados pela hegemonia de outros géneros – influenciaram alguns dos melhores autores da actualidade. Não vou pronunciar-me sobre literatura virada para público juvenil, porque corro o risco de criticar J. K. Rowling, Rick Riordan, T. A. Barron e outros que tais só porque não gosto.

É, em grande parte, a originalidade dos mundos que me fascina. Se Neil Gaiman me encanta pela escrita e pela forma doce e negra com que remexe nos sentimentos humanos, o seu imaginário nunca me conseguiu prender, talvez por seguir uma linha mais subversiva das mitologias urbanas. Seguindo um registo distinto mas numa toada semelhante, Stephen King apresenta em A Torre Negra um diálogo mais aberto e intimista, conseguindo os seus picos de humor de forma mais genuína. O horror presente em King também se coaduna mais com o meu ADN de leitor, mais visceral e preto-no-branco.

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O ka-tet de A Torre Negra (Browsing Tradicional Art em deviantart)

Terror e ficção-científica são dois géneros da ficção especulativa que me cativam, menos que a fantasia, mas que se fundem a ela em grandes obras de referência. No entanto, é a História a verdadeira base do meu culto à fantasia, e são as Histórias criadas de raiz que mais me fascinam. Se foi o Senhor dos Anéis a implementar-me hábitos de leitura, fazendo-me entrar nas espadas e feitiçarias de Robert E. Howard (um dos meus autores preferidos de sempre) e nos livros role-playing Fighting Fantasy de Ian Livingston e semelhantes, a vida literária levara-me para os romances de mistério e espionagem, históricos, policiais e simbologias. Há poucos anos, o advento de uma série de televisão fez-me perceber que um autor conseguira englobar tudo o que havia nos meus géneros preferidos… e quando li os livros, viciei-me nas Crónicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin.

A Tormenta de Espadas/A Glória dos Traidores (interpretemos os dois livros como um só, como o é na versão original) tornou-se de imediato o meu livro preferido de sempre, suplantando A Chave de Rebecca e Ivanhoe, que até ali eram incontestáveis. No entanto, penso que as Crónicas de Gelo e Fogo, inacabadas até hoje, valem pelo todo. O mundo de George R. R. Martin é riquíssimo e vasto, com tantos ingredientes e uma complexidade que o fazem tornar-se real. Um mundo inspirado na nossa Antiguidade, com guerras credíveis e protagonistas que morrem. A magia existe, mas até a forma como é apresentada num mundo tão seco e credível agrada-me. [Martin, leva o tempo que quiseres, mas não morras sem escrever mais qualquer coisinha.]

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Jorah Mormont de Crónicas de Gelo e Fogo (Browsing Fan Art em deviantart)

George R. R. Martin venceu pela ousadia, pela originalidade (que não é assim tanta, mas os autores a quem foi buscar ideias nunca conseguiram algo tão grande e épico), mas sobretudo pela capacidade de aguentar um mundo destes na “carapaça” como a tartaruga que sustenta o nosso, em tantas crenças – e nos livros do Terry Pratchett.  Mas quando parecia impossível superar George R. R. Martin no empreendedorismo fantástico, os últimos anos vieram mostrar que, independentemente do contexto, Nelson Mandela tinha razão:

Só é impossível até acontecer.

Não vou falar de autores que desconheço, como Brian McClellan e o seu mundo que mistura uma espécie de Revolução Francesa com magia, Sam Sykes e os homens-dragões e outras bizarrices, ou Brent Weeks, já publicado no Brasil com aparente boa aceitação. Existem imensos autores emergentes que conseguem reinventar a fantasia a cada dia que passa, com magias originais e mundos complexos. Nenhum destes consegue ainda igualar George R. R. Martin na imponência e complexidade, mas há três autores que lhe fazem sombra.

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A trupe de ladrões de As Mentiras de Locke Lamora (SPN, deviantart)

Scott Lynch é o meu mais-que-tudo (salvo seja). A braços com graves problemas de depressão e ansiedade, poucos livros publicados e nenhum mundo de quebra-cabeças, Scott conseguiu surpreender os fãs do género com o seu livro de estreia. Inspirado na Itália renascentista, o seu mundo sem nome parece ter sido criado por uma espécie alienígena que depois o abandonou. Mas não há nenhuma guerra épica a ser travada. A saga de Scott Lynch fala de ladrões e de tramóias, de redes de espiões, de política e de sobrevivência. Fala de um ladrão sem vergonha de encher os bolsos, e é ele que faz as delícias do leitor.

Scott conquista pela simplicidade e pela astúcia, tanto do seu protagonista lingrinhas, como dele próprio como autor, pelos diálogos hilariantes, pelos plot-twists, pela leveza e brilhantismo literário. Com uma simplicidade inigualável, As Mentiras de Locke Lamora tornou-se o meu livro preferido de todos os tempos. Ele tem toques de steampunk, uma aura do período renascentista, truques sem fim e até combates de tubarões. Os restantes livros já publicados da série The Gentleman Bastards agradaram-me quase tanto como o primeiro e até o conto Um Ano e Um Dia na Velha Theradane encantou-me pela irreverência. [Recupera rápido e escreve mais, Scott.] Não será o melhor autor de fantasia da atualidade, mas é o meu preferido.

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Vin de Mistborn (Evan Montero em writeups)

E depois há Sanderson. Pois é. Brandon Sanderson, este sim considerado por muitos como o melhor autor de fantasia da atualidade. O homem escreve pelo menos um livro por ano, criou um universo – a Cosmere – e várias das suas sagas (sim, sagas!) passam-se em planetas desse mesmo universo. Ao ler a Era 1 de Mistborn (uma trilogia, publicada em 4 livros em Portugal ), não me fascinei. Reconheço-lhe enorme qualidade e é uma das obras mais aclamadas do autor, mas nem a sua escrita me encantou, nem as explicações dadas para a complexidade da sua criação me pareceram sólidas. Fala de um grupo de escravos que se rebela para destronar um deus-rei malvado, e ao fazê-lo, os personagens percebem que meteram o pé na poça. Ainda assim, os personagens são bem profundos e incríveis. Apesar de não ser idêntico a nível narrativo, costumo qualificar em jeito de brincadeira Mistborn como um Crónicas de Riddick feito pela Disney. O final deixou-me com a boca mais aberta do que no Casamento Vermelho de George R. R. Martin.

Foi com Warbreaker, no entanto, que Sanderson me agarrou. Um livro simplesmente brutal onde os papéis dos personagens se distorcem completamente ao longo do livro e as capacidades exploradas são fantásticas. Exércitos de zombies comandados por palavras e uma espada falante, só como exemplo. Homens que regressam à vida e se tornam deuses. Duas princesas a darem-se bem no sítio errado. Cada sistema de magia de Sanderson parece mais original do que o anterior e, como diz um dos chavões de Mistborn: sempre há outro segredo. Plot-twists geniais não lhe faltam. Não fosse o excesso de deus ex-machina e cenas forçadas, Sanderson estaria já no topo dos meus autores preferidos. Para já, quero muito ler Stormlight Archive, a série-chave deste caso sério de sucesso.

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Anomander Rake de Jardins da Lua (malazan wiki)

Bem, Sanderson é o autor do momento, mas sim… é possível haver um autor de fantasia vivo melhor que Sanderson ou até mesmo que Martin. E não estou a falar de Lynch, que apesar de ser o meu preferido ainda é bem subestimado. Estou a falar de Steven Erikson. Com Ian C. Esslemont, criou o universo Malazan, mas nem conheço a escrita de Esslemont nem ouço tantos elogios às suas obras como às de Erikson.

Não posso ainda afiançar que a Saga do Império Malazano é mais complexa (ou melhor) que o mundo de George R. R. Martin, uma vez que só li o primeiro livro, Jardins da Lua, mas seguramente está lá perto. Uma guerra épica, uma imperatriz de pele azul que quer conquistar o mundo, uma montanha voadora, deuses que interferem nos acontecimentos, raças inovadoras, cães tenebrosos, dragões e corvos, conspirações e segredos… mas acima de tudo personagens, muitos e apaixonantes. O que realmente me agarrou neste autor foi a escrita e os diálogos vívidos, especialmente entre os militares. Do mundo, ao que parece imenso, não vi ainda quase nada. E sei que o que me espera no segundo volume será ainda mais empolgante e dramático. Erikson entrou direitinho para a lista dos meus autores prediletos, logo com o primeiro livro.

Para mim, estes são “os tais” da atualidade dentro do género, ainda que mantenha bem presentes as referências mais antigas e tenha ainda um manancial de obras por descobrir. Li muito pouco de Rothfuss (não me convenceu), um único livro de Abercrombie (ipsis verbis) e ainda não me convenci a ler Peter V. Brett nem Robert Jordan (não é o facto de ter sido Sanderson a terminar A Roda do Tempo a fazê-lo, por enquanto). Também Mark Lawrence não me agradou por aí além, com um sem número de recursos forçados na narrativa, e se acho insípida a ficção de Guy Gavriel Kay (Tigana e Leões de Al-Rassan foram bons mas não me “encheram a boca”), a Saga do Assassino de Robin Hobb revelou-se cansativa e repetitiva. Sei, porém, que qualquer um destes tem potencial para vir a surpreender-me.

No fundo, esta avalanche de novos autores com o seu brainstorm imparável foi o meteorito que causou a quase extinção dos elfos, orcs e anões, e de toda essa panóplia de “mais do mesmo” oriunda dos lugares-comuns do nosso passado. Nunca os esqueceremos, mas a estagnação é amiga da morte e nós queremos mais. Mais e melhor, se possível.

Especial Teorias: O Final das Crónicas de Gelo e Fogo

Muitos se perguntam sobre qual será o final das Crónicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin, e eu não sou exceção. Este artigo serve unicamente para deixar uma opinião pessoal e a teoria que julgo mais aceitável.

Pois é, não passa de uma teoria mas é aquilo que julgo que irá acontecer nesta fantástica saga literária. George R.R. Martin, o autor, é perito em enganar-nos facilmente com as suas mudanças de direção, mortes inesperadas e um modo subtil de nos deixar rendidos ao seu mundo de ironias e contrários. O próprio nome original da série, A Song of Ice and Fire, A Canção de Gelo e Fogo em português, pode dizer-nos muito sobre o final desta saga.

Ora, não é novidade que os livros estão repletos de inversões; eles são o Gelo e o Fogo, o Norte e o Sul, a Vida e a Morte, o Bem e o Mal, o Masculino e o Feminino, o Senhor da Luz e o Senhor da Escuridão, já para não falar nas inúmeras inversões históricas que Martin nos oferece. A Guerra dos Cinco Reis não é mais que uma adaptação da Guerra das Rosas que “incendiou” a Inglaterra do século XV, Cersei Lannister é uma remodelação da célebre Margerite D’Anjou, e a própria Roma Antiga está representada em Game of Thrones.

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Os Outros (business insider)

Stannis Baratheon é o Constantino romano que pega numa nova fé e a espalha por todo o império (Cristinanismo e a crença no deus vermelho Rh’llor, Senhor da Luz que vence a Escuridão), a Antiga Valíria de onde vieram os Targaryen não é mais que uma reprodução da Roma expansionista no seu apogeu, e o triarca Horonno cuja estátua Tyrion e Jorah encontram sem cabeça em Selhorys no livro A Dança dos Dragões é o Júlio César dos volantenos, um triarca que foi renomeado vezes em cima de vezes até se declarar a ele próprio triarca vitalício. Os seus pares não gostaram e trataram de o matar.

Estes são apenas alguns indícios do mundo de contrários que George R. R. Martin nos oferece nas suas crónicas. Por outro lado, o tempo parece ser um ciclo. As estações do ano demoram a passar, mas vão, e vêm, e o que aconteceu séculos atrás parece voltar a repetir-se – uma premissa explorada por outros autores, como Robert Jordan. Daí que se julgue que a Longa Noite está para regressar, com o frio e com os Outros, e que está na hora exata em que as profecias serão cumpridas. Vamos agora ao que eu julgo ser o final desta saga maravilhosa.

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Daenerys Targaryen (concept art world)

A minha teoria sobre o final

Daenerys Targaryen conquista os Sete Reinos. É ela a Azor Ahai renascida, o mítico herói que desempenhou um papel de destaque na Longa Noite. Foi ele quem forjou a Luminífera, a espada de fogo. Trabalhou durante trinta dias e trinta noites na sua forja, mas quando a mergulhou na água, partiu-se. Teimoso, cinquenta dias e cinquenta noites depois, voltou a terminar a forja da espada, e temperou-a com o sangue de um leão. Ainda assim, a espada voltou a partir. Na terceira vez, a morrer por dentro com aquilo que iria fazer, pediu à esposa, Nissa Nissa, que se aproximasse e espetou-lhe a espada no peito. O sangue da sua amada combinou na perfeição com aquela lâmina, e assim nasceu a Luminífera, a espada do herói que afastou os Outros durante milénios para o Norte gelado.

Porque eu acho que Dany é o Azor Ahai? Bem, apesar de os Baratheon terem algum sangue Targaryen, parece-me por demais evidente que Stannis não é este herói. Melisandre já falhou várias vezes na sua interpretação das chamas e essa é uma das suas falhas, embora me pareça que Stannis seja um importante instrumento e um personagem chave para a conclusão desta saga. Porém, uma bruxa do bosque profetizou que o Azor Ahai renascido seria um Targaryen.

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Melisandre de Asshai e Stannis Baratheon (pinterest)

 

Agora eu pergunto: quantos Targaryen temos na saga? Não, não temos apenas Dany, e não é por aí que eu formulo a minha teoria. Há imensas especulações de que Jon Snow seja um Targaryen. Esta teoria não é novidade. Ned Stark tinha uma irmã, Lyanna de seu nome, que era apaixonada pelo príncipe Rhaegar Targaryen. Foi principalmente movido pelos ciúmes que Robert, que também a amava, despoletou a sua Rebelião que o conduziu ao Trono de Ferro, e exilou os Targaryen remanescentes para o outro lado do Mar Estreito.

Ned Stark era um homem honrado, e poucos acreditam que ele tenha tido a desonra de trair Catelyn com uma outra mulher. As últimas palavras de Lyanna (promete-me, Ned), vêm deixar quase evidente que este Jon Snow não é um bastardo de Ned Stark mas sim o filho de Lyanna Stark com Rhaegar Targaryen, embora, aparentemente, ninguém o saiba, após a morte de Ned. Existem ainda outras teorias que apontam Tyrion Lannister como um possível Targaryen. O Rei Louco Aerys era apaixonado por Joanna, a esposa de Tywin, e há indícios de que chegaram a envolver-se, como tal era possível que tivessem gerado um filho. Tywin sempre desprezou o seu filho anão: seria por ele ser apenas anão? Ora, recordemos que Tyrion tem um olho de cada cor, o cabelo loiro (mais nos livros que na série) e uma paixão doentia por dragões desde a infância. Será possível que Tyrion seja um Targaryen? A mim parece-me que sim.

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O Trono de Ferro (Marc Simonetti)

Ora, se se confirmar que Jon Snow e Tyrion Lannister sejam, de facto, do sangue do dragão, por que motivo haveria eu de afirmar que Daenerys Targaryen é ela o Azor Ahai renascido? Vamos então à Casa dos Imortais, em Qarth. “O dragão tem três cabeças” anuncia o príncipe Rhaegar na visão de Dany. “Terá de haver mais um”. Uma dessas cabeças de dragão seria o pequeno Aegon (não acredito que o jovem Aegon de A Dança dos Dragões seja o verdadeiro), o segundo seria Rhaegar? e faltaria ainda uma terceira cabeça. Para mim, a primeira cabeça é Dany, a segunda Jon, a terceira Tyrion. O brasão dos Targaryen (o dragão com três cabeças) é uma ironia do autor e uma pista para o desfecho da saga, assim como a existência de três dragões chocados por Dany, a Mãe de Dragões.

Motivos para ser Dany o Azor Ahoi? Ora, é Dany quem está a formar um exército, a instruir-se para governar, é Dany quem tem os dragões, é Dany quem tem a visão de Rhaegar, e quem é aconselhada pela enigmática figura de máscara chamada Quaithe. Sem mais delongas, vou revelar a minha teoria: Daenerys tornar-se-á Rainha dos Sete Reinos, e terá Tyrion Lannister como sua Mão. De regresso a Westeros, Dany terá um importante papel na Muralha. Irá mostrar a Stannis, a Ramsay Bolton, a quem a quiser enfrentar, quem é a verdadeira rainha westorosi por direito, e começará por conquistar o Norte. Acredito que existirá alguma empatia entre Jon e Dany, talvez se apaixonem. Afinal, os Targaryen tinham um especial dom de se apaixonarem por membros da mesma família.

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Jon Snow e Fantasma (wallup)

Agora, como explico eu que Dany seja esse príncipe prometido, e não Jon, por exemplo? Porque Martin é o mestre das inversões e das ironias. Quando os Outros avançarem para a Muralha, o Azor Ahai precisará da sua espada mágica, a Luminífera. E como a irá forjar? Aqui está a ironia. Lembram-se de Gelo, a espada valiriana de Ned Stark? Sim, era uma espada escura e esfumaçada, e quando Ned morreu, os Lannister forjaram duas espadas a partir do seu aço. A primeira, Lamento de Viúva, foi oferecida a Joffrey como presente de casamento pelo avô, e a segunda, Cumpridora de Promessas, oferecida por Jaime a Brienne para encontrar Sansa Stark. Voltamos ao nome da saga e a resposta parece-me evidente: A Canção de Gelo e Fogo.

Será possível transformar Gelo (a espada) em Fogo? Sim. Apesar de Gelo ser agora duas espadas distintas, ainda será possível transformar ambas, ou uma delas em fogo. Aquando da forja das duas espadas, é de notar que a lâmina enegrecia e o armeiro de Tywin Lannister realçou que não se tratou de um processo nada fácil, parecia que a lâmina tinha vida própria. Lembram-se do lema da casa Targaryen? Fogo e Sangue. Lembram-se de como Azor Ahai forjou a Luminífera? Com o sangue da sua esposa. Ora, a única forma de transformar Gelo em Fogo será com sangue. O sangue da esposa, o sangue de Targaryen – Fogo e Sangue.

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Azor Ahai (jordi gonzalez)

E porque não acho eu que Jon é o Príncipe Prometido, que é ele Azor Ahai? Que será ele a pegar na espada que um dia foi do seu pai, a desferi-la no peito de Dany, derramando o sangue Targaryen, fazendo assim com que Gelo se transforme em Luminífera? Porque George R. R. Martin gosta de ironias e de inversões. O que um dia foi o homem a matar a mulher, hoje pode muito bem ser a mulher a matar o homem. Assim, o sangue Targaryen de Jon Snow combinaria com a espada Gelo e Daenerys Targaryen teria o seu merecido lugar no Trono de Ferro. Antes disso, porém, o Azor Ahai tentaria temperá-la com o sangue de um leão. Será uma analogia aos Lannister, cujo brasão é representado por um leão? Irá Dany matar Tyrion (ou Cersei) antes do ato desesperado de assassinar Jon? Quem sabe.

Nestes moldes, como se desenrolaria a batalha final? Com a morte de Jon, ficaria um dragão sem dono? Poderiam morrer dragões? Como Dany encararia Cersei? Como é que Tyrion reconquistaria Porto Real para a sua Rainha dos Dragões? Será mesmo que os Outros marcharão contra os Sete Reinos? A mim parece-me que sim, mas as respostas a todas estas perguntas só George R. R. Martin poderá dar. Aqui fica apenas o meu palpite sobre a Reconquista Targaryen e o Azor Ahai renascido.